MakeApp

Vulgo o aplicativo mais perigoso de todos os tempos da última semana. Mas vamos explicar melhor porque ainda é muito recente e não caiu na internet tupiniquim: MakeApp é um aplicativo(jura?) que promete retirar a maquiagem das pessoas em fotos e vídeos. Você coloca o original no aplicativo e ele te devolve a imagem com alterações que fazem parecer que a pessoa está sem maquiagem alguma. Resultado até aqui? Muitas mulheres putas da vida.

O criador do aplicativo, o russo Ashot Gabrelyanov, já virou uma espécie de vilão sexista por causa disso, sendo referenciado em todas as matérias que eu já vi até agora, e em muitas delas, como um “homem patético que quer ferir a auto-estima das mulheres”. Acredito que pelo menos aqui no desfavor já sabemos que qualquer coisa vai ofender e irritar uma feminista, mas fora isso, tem outro elemento para considerar: esse povo que enxerga sexismo em tudo, pelo menos nos EUA, votou na Hillary e odeia o Trump.

Uma narrativa poderosa entre os eleitores de Hillary é a de que a Rússia interferiu no processo eleitoral americano para eleger Trump. Percebem como caiu como uma luva o criador do aplicativo ser russo? Ashot não provocou ninguém diretamente nem deu qualquer pista sobre sua afiliação política, mas tornou-se um fantoche de Putin para destruir os direitos humanos nos EUA, pelo menos para as mulheres que ficaram irritadas por se acharem feias numa foto.

As primeiras matérias saindo sobre o tema, principalmente em colunas de mulheres para mulheres, ou estão metendo o pau no aplicativo por não representar a verdade, ou por ser sexista e atacar mulheres por deixá-las “feias” nas fotos. Confesso que eu não sou equipado para entender a fundo o grau de incômodo que uma mulher sofre por ser vista sem maquiagem, afinal, uma das vantagens de ser homem é que feiúra não te gera muitas consequências negativas, mas estou bem mais preparado para falar sobre o aspecto tecnológico da coisa.

O que o aplicativo faz na prática é aplicar filtros de cor e desfoque em áreas específicas dos rostos que reconhece nas fotos e vídeos para tentar desfazer os efeitos da maquiagem na pessoa. Como várias vezes eu trabalho editando fotos de pessoas, acabo tendo um conhecimento específico que fica exatamente entra essas duas áreas: a maquiagem física e a digital. Já aprendi que maquiagem existe para basicamente controlar contrastes (diferenças entre luzes e sombras) na pele. Algumas formas são mais agradáveis ao olho humano, e a maquiagem tenta amplificar essa percepção. Por esse motivo, maquiagem é previsível na imensa maioria dos casos. O que o russo em questão fez foi aproveitar a tecnologia de reconhecimento facial, que já está extremamente avançada, e adicionar o conhecimento específico dos formatos já consagrados de maquiagem disponíveis por aí.

E como no final das contas maquiagem não passa de manipulação de contrastes, um computador não tem dificuldade de trabalhar em cima de uma foto e tentar anular o que foi capturado na imagem original. O pixel que está claro pode ficar escuro e vice-versa. Quando eu trabalho editando fotos de modelos, por exemplo, muitas vezes tenho que desfazer maquiagens cagadas feitas no ensaio para salvar a foto.

O que me leva a um segundo ponto: não é raro também ver uma pessoa que parece muito bonita ao vivo ficar cagada na foto, e vice-versa. Existe algo chamado fotogenia mesmo, e também está relacionado aos contrastes. Alguns rostos refletem a luz que é captada pela câmera de uma forma confusa para quem vê a mesma pessoa ao vivo. Ou seja: às vezes maquiagem física ou digital só existem para devolver o status de “bonita” a uma pessoa que foi roubado pela foto.

Com todas essas variáveis, um aplicativo como o MakeApp é capaz de entregar resultados realistas de um ponto de vista técnico? A resposta é provavelmente não, mas com alguns acertos por pura probabilidade. Os sistemas que reconhecem rostos humanos já estão muito avançados, saber o que são olhos, narizes e bocas já é algo dominado pelos sistemas especializados. Agora, sendo um computador, ele não sabe muito bem o que é aquilo que ele está identificando pelos pixels. Alguns sistemas até procuram por simetria e coisas do tipo para tentar explicar se a pessoa é bonita ou não, mas no final das contas, um sistema só vê pontos e seus vizinhos numa imagem. Todo o resto são as nossas reações ao que o programa fez.

E com toda a tecnologia que as pessoas usam e abusam nos seus celulares, igualmente baseadas em manipular suas fotos através de reconhecimento facial, não era nenhuma surpresa que um aplicativo do tipo surgisse no horizonte. Digamos que é um efeito colateral esperado da fascinação que o ser humano tem com a própria imagem. O curioso é que muitas pessoas estão realmente irritadas com a ideia de remoção digital de maquiagem, mesmo que no fundo não seja muito mais do que uma forma avançada de pintar um bigodinho ou um dente preto numa foto.

Talvez a questão aqui seja mais estrutural sobre a forma como o ser humano se enxergar atualmente: através de uma tela. Quando a beleza é terceirizada para os pixels escritos por um programa, até uma manipulação virtual grosseira pode ser considerada um ataque pessoal. Muito mais até do que a ridícula análise “sexista” que tomou conta das primeiras reações histéricas ao MakeApp (que talvez nem pegue no Brasil, mas aposto que algum youtuber ou praga do gênero vai se aproveitar disso para gerar cliques), seria uma boa hora de olharmos para dentro e percebermos que a linha entre o que uma pessoa é e a sua representação virtual está borrada de tal forma que realmente dá para emputecer alguém passando um filtro na sua foto.

Estamos virando virtuais, e esse aplicativo é só mais uma prova disso.

Para dizer que eu enerdifico qualquer tema, para dizer que vai baixar para trollar suas conhecidas, ou mesmo para dizer que bobagem pouca é bobagem: somir@desfavor.com

Se você encontrou algum erro na postagem, selecione o pedaço e digite Ctrl+Enter para nos avisar.

Desfavores relacionados:

Etiquetas: ,

Comentários (7)

  • O surgimento desse tipo de App é um processo esperado. Hoje têm celulares que a própria câmera tem filtros que afinam o rosto e melhoram a pele. Em um futuro próximo, haverão pessoas que nunca viram sua própria foto sem o uso de algorítimos para melhorar sua imagem.

    O que é inesperado é a reação que o App está gerando. E claro, quando mais se alimenta um troll, mais ele se fortalece. Nos EUA existem grupos que ficam spammando celebridades com as fotos geradas pelo aplicativo.

  • No Twitter e em outras bolhas da internet as mulheres ficaram tão pistola com isso que algumas chegam a comparar o uso do tal aplicativo com uma espécie de estupro virtual.

  • que drama… mas devo admitir que Angelina está assustadora.
    Eu não acredito nessa história de influência da Russia na eleição americana. (não que eu entenda de eleições.)
    Demorei 4 parágrafos para perceber que era um texto do Somir. Falando de maquiagem e postando cedo foi meio estranho.

  • “As primeiras matérias saindo sobre o tema, principalmente em colunas de mulheres para mulheres, ou estão metendo o pau no aplicativo por não representar a verdade, ou por ser sexista e atacar mulheres por deixá-las “feias” nas fotos.”

    Quem tá reclamando do aplicativo com certeza são as mesmas mulheres que leem aquelas matérias do tipo “veja aqui fulana de tal sem maquiagem”. É um fato: a maioria adora (ainda que não confesse) ver essas estrelas de hollywood acabadinhas, feias, com celulite, com rugas… E não há nada de errado nisso. É na “imperfeição” dos rostos cansados que percebemos que essas celebridades são “gente como a gente” e que também envelhecem um dia.

    Mas aí entra outra contradição: Não são essas mesmas mulheres que hoje escrevem textões exaltando os próprios “defeitos”? Não é legal ter “estrias”, “celulite”, “rugas”, “gordurinhas” e outras “marcas do tempo”? A autoaceitação não tá em alta? Então por que estão reclamando?

    Enfim, mais um dia normal na terra da hipocrisia feminista.

    • Também pensei na contradição com o discurso de que “toda mulher é linda”.

      Esse modo de vida problematizador deve foder com a saúde da pessoa. Imagine, a cada notícia um sexismo diferente. É muito stress.

      É uma bobeira sim, mas valeu pela reflexão sobre a representação virtual.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Relatório de erros de ortografia

O texto a seguir será enviado para nossos editores: