Primeiros Socorros – Sobrevivendo a um tiro.

Vocês pediram, a gente atende. Mais um texto da série sobre Primeiros Socorros, algo que deveria ser ensinado nas escolas e não é. Em tempos de atentados e malucos atiradores, acho que todos nós precisamos de um pouco de conhecimento sobre o assunto: Desfavor Explica: Primeiros Socorros – Sobrevivendo a um ferimento a bala.

Os ferimentos causados por balas (papo técnico: Projéteis de Armas de Fogo, PAF para os íntimos) são dos mais graves possíveis. No geral, os primeiros socorros não se destinam a tratar ou atenuar a lesão, serve apenas para tentar manter a pessoa viva até que chegue socorro. É indispensável uma equipe médica e uma internação hospitalar para tratar adequadamente o baleado. Então, o primeiro passo sempre será chamar socorro, preferencialmente uma ambulância, que já vem equipada com um mínimo de infraestrutura para atender o ferido.

O tempo é seu inimigo. Antes de mais nada, ligue para 190 ou 192 e chame o Serviço de Assistência Móvel de Urgência (SAMU), informando a correta localização da pessoa baleada. Você não precisa se identificar se não quiser. Infelizmente acontece deles negarem atendimento ou se negarem a ir ao local. Não bata boca, desligue e parta para o Plano B.

Sempre existe a possibilidade de olhar nos pertences da vítima e, se houver plano de saúde, requisitar uma ambulância particular. Normalmente ferimentos ocorridos na rua devem ser atendidos pelo SAMU, então, vale a pena dizer ao plano que a pessoa foi baleada em casa e dar o endereço de qualquer logradouro próximo, quando eles chegarem diga que você levou o baleado na rua para agilizar o atendimento. Não tem plano de saúde? Sentiu que ninguém vai ajudar? Coloca a pessoa em um carro particular e leva para o hospital. Apesar de ser arriscado, é quase certo que ela vai morrer se continuar ali sem socorro. Tempo é crucial. Baleados que chegam ao hospital em até uma hora após o ferimento tem muito mais chances de sobreviver.

Com a certeza de que o socorro está a caminho, você pode se concentrar no ferido. Não é momento para se preocupar com assepsia, dificilmente você poderá lavar as mãos ou utilizar material esterilizado. Não se preocupe com isso, eventuais infecções serão contidas no hospital, com doses massivas de antibióticos e outros medicamentos. Faça o que tem que fazer, pois provavelmente sem estes primeiros socorros, a vitima morreria de qualquer jeito. Só tome cuidado para que você não seja contaminado, pois existem dezenas de doenças que podem ser transmitidas no contato com o sangue alheio.

Primeira providência é ter uma noção geral do estado da vítima. Você pode fazer esta avaliação observando 5 critérios: 1) Verifique se as vias aéreas da pessoa estão desobstruídas, conforme ensinamos em textos anteriores ; 2) Verifique se a vítima está respirando, se não estiver, inicie imediatamente a ressuscitação cardiopulmonar, que também ensinamos em textos anteriores; 3) Verifique se a vítima tem batimentos cardíacos, caso não detecte, parta para a ressuscitação cardiopulmonar e também procure conter hemorragias, como vamos explicar mais à frente ; 4) Verifique se há Incapacidade (ou seja, se a vítima consegue se mover ou Deformidade (fraturas expostas, membros fora do lugar, etc), isso será importante na hora de ponderar uma decisão sobre mover a vítima e, por último, 5) Verifique quais são as lesões causadas pelo projétil, quantas são, onde se localizam.

Depois dessa triagem inicial, você já estará apto para decidir o que priorizar em matéria de primeiros socorros. O ideal é não mover a pessoa, pois se houve qualquer lesão na coluna, isso pode agravar a situação e até deixá-la paralisada para o resto da vida. Quando o projétil entra na região do tronco, nunca se sabe o dano que pode causar do lado de dentro, pois muitas vezes ele desvia do percurso ou até ricocheteia nos ossos, então, se há uma perfuração indicando a entrada de uma bala no tronco, procure não mover a pessoa a menos que seja indispensável.

Com a pessoa estabilizada, ou seja, com batimentos cardíacos e respirando, o foco principal para contenção dos danos é minimizar HEMORRAGIAS, que podem ser aparentes ou internas. Provavelmente este é o principal determinante entre a vida e a morte de um baleado: o quando sangue ele perde.

Caso a ferida seja nos membros (principalmente na perna), é importante tentar controlar o sangramento, pois há artérias de calibre grosso que, se dilaceradas, podem matar por hemorragia em menos de cinco minutos. Faça um torniquete, reduzindo o fluxo de sangue do resto do corpo para o membro afetado. Você pode fazer este torniquete com um cinto, um pedaço de pano, um elástico de cabelo ou qualquer tecido que possa ser amarrado, dificultando a passagem de sangue para o local.

O sangue circula no corpo por veias e artérias. Quando uma veia se rompe (algo menos grave), vemos um sangue escuro, que escorre sem pressão e em menor quantidade. Neste caso, não precisa de tanta atenção. Porém, quando uma artéria se rompe (algo muito mais grave), vemos um sangue vermelho vivo que sai em jatos fortes, às vezes até em sintonia com os batimentos cardíacos. Então, se você detectar o rompimento de uma artéria, tente imediatamente estancar o sangramento. Na dúvida, estanque todo tipo de sangramento.

Em um mundo ideal se utiliza material esterilizado apropriado, mas em um mundo ideal pessoas não são baleadas. Se estiver em situação precária, pressione (sem espremer, por gentileza) panos ou bandagens no local do ferimento. Não é para enfiar um pano no buraco do tiro, é para fazer uma suave pressão com a palma da sua mão no local da ferida. Pressione por pelo menos dez minutos. Se o pano ficar muito encharcado, não troque por outro, coloque um pano seco por cima, isso vai ajudar na coagulação. Cada vez que os panos estiverem encharcados, coloco um pano seco novo por cima, sem remover os anteriores.

Se os panos ficarem encharcados rapidamente e você sentir que a vítima está perdendo muito sangue, pode ser necessário quebrar a regra de não movimentar o ferido e trocá-lo de posição, para outra que não pressione tanto o local e reduza o sangramento, ou fazer a compressão manual das artérias que alimentam aquela área, conforme ensinaremos nas próximas páginas. Tente ambos e fique com o que funcionar melhor.

Eu sei, eu sei, mover uma pessoa ferida é arriscado. Mas deixa-la sangrando muito é quase que certeza de morte. Quando há grande perda de sangue, é comum que o ferido entre em Estado de Choque. É através do sangue que nossas células recebem o oxigênio que precisam para se manterem vivas. Se a pessoa perde muito sangue, as células começam a não receber oxigênio suficiente. Se a situação persistir, o coração acaba ficando sem oxigênio e para de funcionar, então, em caso de sangramento expressivo, tome uma providência ou a pessoa vai morrer.

No último dos últimos dos casos, quando você sentir que se continuar assim a pessoa morre, você pode tentar tapar a artéria que está sangrando com o dedo, segurando mesmo, para atenuar o sangramento, lembrando mais uma vez que fazer isso pode implicar em um risco para a sua saúde também. Sangue alheio pode estar contaminado de diversas formas.

Você pode identificar o Estado de Choque pelos seguintes sintomas: a vítima começa a sentir frio (se tiver um cobertor, cubra a pessoa), extremidades e lábios arroxeados, pulso fraco, pupilas dilatadas, sudorese, respiração rápida, agitação, náuseas e vômitos. A pessoa está de fato entrando em choque? Afrouxe suas roupas no pescoço, no peito e na cintura. Se não piorar o sangramento, eleve um pouco suas pernas em relação ao corpo. Se ela estiver sangrando pela boca ou nariz, ou vomitar, deite-a de lado, para que ela não sufoque. Para saber mais sobre o Estado de Choque e como lidar com ele, leia este texto.

Você deve monitorar os sinais vitais constantemente, pois se trata de um ferimento muito grave, a qualquer momento a pessoa pode parar de respirar, e será necessário iniciar a ressuscitação cardiopulmonar, RCP paras os íntimos, descrita neste texto e neste texto.

Nem sempre a hemorragia é visível. Muitos projéteis fazem um pequeno furinho do tamanho de uma moedinha na entrada, mas, do lado de dentro, explodem jogando estilhaços para tudo quanto é canto, causando um dano equivalente ao de uma bomba. Assim, o buraco de entrada da bala não diz muito sobre a severidade do ferimento. Pode ser que quase não esteja sangrando por fora mas por dentro exista uma hemorragia significativa. Ferimentos por PAF podem causar três tipos de lesão: penetração (a pele é perfurada pela bala), cavitação (dano causado pelo impacto no corpo) e fragmentação (dano causado por pedaços do projétil). E geralmente causam as três, mesmo que não fiquem aparentes.

Então, é provável que, mesmo que você não veja, a pessoa tenha algum grau de hemorragia interna. Normalmente os sintomas são: mucosas (principalmente olhos e boca) esbranquiçados, extremidades arroxeadas, tontura e sede. Havendo suspeita de uma hemorragia interna, se possível, deite a vítima de uma forma em que a cabeça fique mais baixa que o corpo, coloque gelo no local da hemorragia (gelo provoca vasoconstrição, reduzindo o sangramento), não permita que ela tome líquidos e fique muito atendo aos batimentos cardíacos e à respiração, é bem provável que você precise fazer ressuscitação cardiopulmonar.

Não remova o projétil de dentro da pessoa, mesmo que ele esteja visível. É possível que ele esteja pressionando alguma artéria e, com isso, contendo algum sangramento. Pode acontecer de você remover a bala e o sangramento aumentar. Deixe isso para os médicos. Vamos agora para algumas considerações sobre ferimentos de acordo com o lugar de entrada do projétil:

TRONCO – Quando o projétil entra pelo peito, é comum que o buraco feito pelo projétil acabe “sugando” ar, o que pode causar um colapso no pulmão (papo técnico: atelectasia). Você pode identificar pelo som (som de sucção), pela presença de tosse ou falta de ar na vítima ou por uma espécie de espuma (muitas vezes com sangue) saindo da perfuração. Isso pode acontecer no ferimento de entrada ou no de saída, por isso, se possível, identifique e vigie todas as perfurações. Caso você detecte que de fato a perfuração está “sugando ar”, peça para a vítima exalar (soltar) o máximo de ar que ela puder e logo depois tampe os buracos. Se conseguir fazer um curativo, feche a parte de cima e as laterais, mas deixe a parte de baixo sem vedação. Exerça algum tipo de pressão leve sobre ambos, pode ser, por exemplo, colocando um travesseiro de cada lado, para assegurar que a entrada está vedada.

BRAÇOS: Faça um torniquete acima da ferida para que não chegue tanto sangue do corpo ao local da perfuração, assim, é menos sangue que se perde. Basta posicionar o membro acima do coração, isso vai reduzir o fluxo sanguíneo. Além do torniquete, você pode fazer uma pressão nas principais artérias que alimentam o fluxo sanguíneo do membro, que, no caso do braço é a artéria branquial. Ela se localiza no lado interno do braço (aquele que toca seu corpo quando você coloca os braços para baixo), na parte central. Pressione até perceber que o sangramento está diminuindo. Quando encontrar o ponto certo, mantenha a pressão com os dedos.

PENAS: Torniquete e elevação, tal qual foi no braço. Se o ferimento foi na parte superior da perna, você deve tentar pressionar a artéria femoral, que sai da virilha e continua na parte da frente e do meio da coxa. Como ela é grande, você vai precisar aplicar toda a mão com firmeza para exercer a pressão necessária. Tente na coxa, se não reduzir a hemorragia, pressione a virilha até encontrar o ponto certo. Se a lesão estiver na parte inferior da perna (vulgo “panturrilha”), você deve pressionar a artéria poplítea, localizada na parte traseira do joelho.

CABEÇA: A melhor coisa que você faz é garantir que o socorro chegue o mais rápido possível.

Algumas considerações terríveis: se houverem órgãos para fora do corpo, saindo pela perfuração, não os empurre para dentro. Se houverem órgãos totalmente desprendidos do corpo, no chão, colete e coloque em um recipiente com gelo. Certifique-se de narrar tudo que você fez na vítima quando o socorro chegar, é fundamental que eles saibam exatamente o que aconteceu e qual o estado do baleado. Não medique o ferido. Não coloque remédios caseiros nos ferimentos. Não mova o corpo se a pessoa falecer.

Uma última consideração regional: se estiver no Rio de Janeiro, melhor coisa, por incrível que pareça, é ir para um hospital público referencia em ferimentos por armas de fogo. É que há tantos casos diariamente, que os profissionais destes hospitais são especialistas, doutores pela prática. Porém, o atendimento em hospital público pode ser desumano e demorado, então, se possível, entre em contato com o médico da pessoa, para que ele tente se certificar junto à equipe do hospital que o paciente será atendido rapidamente.

E tenha em mente que dificilmente primeiros socorros fornecidos por um leigo salvam a vida de uma pessoa baleada, devido à extensão e danos do ferimento, então, se tudo der errado, não se culpe.

Espero que nunca precisem, mas, se precisarem, espero que ajude.

Para dizer que adora textos alto astral como este, para dizer que dificilmente alguém vai colocar isso em prática e se arriscar a uma contaminação pelo sangue alheio ou ainda para dizer que eu não posso falar sobre o assunto pois nunca levei um tiro: sally@desfavor.com

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Comentários (16)

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    Alexsandra Cristina da Silva

    Fico feliz com esse POST já presenciei e participei de primeiro socorro com FAF e outras pessoas também ajudaram,vc tem estar atento ligado na vida aprender sempre. Os guardas do metrô não se manifestaram nos primeiros socorros só falavam no entre si não espere atitude alheia.

  • fui vitima de assalto, no qual reagi, levei um tiro que apenas perfurou o pulmão e ficou cravado na coluna, minha vida está tão ruim que nem deveriam ter me salvado!
    sofri de mais na Uti pois fiquei 9 dias e fiquei mais 2!
    Tive alta, mas nada foi afetado, vou procurar ver essa questão de doar orgãos pois se acontecer de novo, se tentarem levar meu carro ou algo, vou partir pra cima quero nem saber!

    • Sei que é duro, já amarguei bastante tempo de UTI e de recuperações dolorosas de procedimentos cirúrgicos, mas queria te dar um conselho: tudo isso passa. Com o tempo, vira apenas um episódio distante. Sei que é difícil ver as coisas por este ponto de vista, mas se você conseguir, acredito que te ajude: tira um aprendizado disso, não leva para a raiva ou revolta. Você levou um tiro no peito e sobreviveu. Não acha de que isso é sinal de que tem muita coisa importante te esperando?

  • eu vim ler o seu post por causa de um sonho que eu tive , da minha melhor amiga levando um tiro e eu achando ela e não sabendo o que fazer espero que nada disso nunca aconteça mais se acontecer gostaria de estar um pouco preparada e agora estou obrigada Sally

    • Por nada. Temos uma série sobre como prestar primeiros socorros em diversas situações, se te interessar, leia as outras postagens!

  • Eu fico muito nervosa lendo sobre Primeiros Socorros. As descrições de fraturas, sangue jorrando, risco de paralisação permanente, etc, me deixam tensa. Muito bom texto, Sally, no entanto. Muito necessário.

    • Camila, na hora da necessidade, baixa uma estranha calma e a gente dá conta. Pode ter certeza que estas informações vão ficar arquivadas em algum lugar do seu cérebro e, se um dia você precisar, elas voltarão.

  • Esperando ansiosamente pela edição “Primeiros Socorros – sobrevivendo a um estupro”.
    Visto a enorme quantidade de estupros no Brasil, alguns até seguidos de morte, essas dicas seriam pontuais.

    • Esse vai ser duro de escrever, mas é necessário. Algumas dicas de como lidar com o agressor podem até evitar o estupro…

      • Mas, Sally, cai gente louca aqui… você não tem medo de acabar ajudando alguém a cometer esse crime?
        Porque mostrando o que pode evitar já vai ser dica pro maluco saber o que não funciona.

        • Não sei se seriam dicas aproveitáveis. Por exemplo, geralmente o que move o estuprador é a sensação de poder, o que o excita é a vítima apavorada. Se a mulher tem a frieza de dizer que achou ele lindo e quer fazer por vontade própria, pode ser que ele broxe na hora…

  • No geral, hospitais públicos lidam melhor com traumas, grandes epidemias, e a maioria das urgências.

    Por pior que sejam, eu só confio nos hospitais públicos pra muitas coisas…

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