Destruição controlada.

No mundo de hoje, a tensão entre países e/ou grupos parece muito mais diluída em atentados terroristas e ataques surpresa do que antigamente. Sally e Somir discutem as repercussões disso, os impopulares atiram pra todos os lados.

Tema de hoje: o que é melhor, uma guerra declarada que resolva logo ou décadas de atentados terroristas?

SOMIR

Guerra. Via de regra, a melhor solução é aquela que acaba logo com o problema. É a velha história de arrancar logo o band-aid para sofrer de uma vez. Guerras geram resultados muito mais rápido do que décadas de pedras jogadas por cima de muros, mesmo que pareçam muito mais aterrorizantes num primeiro momento.

Afinal, esse é o modelo com o qual a humanidade trabalha há milênios: tem problemas com outro grupo? Junte vários guerreiros e vá sentar o cacete nele. Quem pode mais chora menos, e assunto resolvido. Não estou dizendo que prefiro um mundo com guerras, estou só dizendo que entre essa tortura lenta e agonizante do terrorismo e as dores muito mais imediatas da guerra, a segunda opção me parece mais humana até.

Porque na guerra as coisas ficam mais claras: existem dois lados, no mínimo. O inimigo é claro e definido, nem que seja pelo uniforme. Evidente que estou deixando de lado todas as nuances de uma guerra, as grandes áreas cinzas que surgem quando dois soldados inimigos chegam a conclusão que ambos são humanos, até porque o terrorismo gera o mesmo tipo de confusão ideológica, mas sem gerar nenhuma resolução no curto, médio ou longo prazo.

Guerras são devastadoras, mas são excelentes para criar divisões claras entre “antes” e “depois”. Seja como acabem, definem alguma coisa para ambos os lados, seja uma vitória, uma derrota ou um empate técnico… todos dados que modulam as relações entre os lados dali pra frente. O terrorismo, por sua vez, não define nada. Ele basicamente garante que nenhum dos lados vai vencer completamente ou avançar qualquer coisa em sua mentalidade. Os terroristas tem a expectativa infantilóide de vencer pelo cansaço, o que se provou inútil até hoje. Mesmo os vietnamistas que em tese venceram os americanos assim, não venceram de verdade: os americanos saíram mais por pressão interna antiguerra do que qualquer outra coisa.

E perdoem-me a escrotidão, mas guerras tem sua função socioeconômica: elas movimentam muito dinheiro, exigem avanços consideráveis em tecnologia e geram um senso de propósito claro para os envolvidos. Muitas das coisas que temos no mundo moderno são resultado direto do dinheiro e tempo investidos em inovação e eficiência oriundos de tempos de guerra. Terrorismo basicamente só avança nossa paranoia contra outros seres humanos, não avança a tecnologia em quase nada para nenhum dos lados… guerras tem custos enormes de vidas, mas se formos comparar com décadas de terrorismo, as coisas se equilibram sem saldo positivo nenhum.

As feridas psicológicas de uma guerra se fecham com o tempo, normalmente há um período de paz e reflexão depois de uma delas. O terrorismo não permite nada do tipo: com a sequência de pequenos cortes, nada cicatriza o suficiente na mente das pessoas, ambos os grupos continuam com as dores indefinidamente. O efeito disso na psique humana é devastador: todos precisamos de um tempo para lidar com as coisas terríveis que acontecem quando a violência assume as rédeas, mas sem nem tempo para luto, as feridas infeccionam.

Repito que não é minha intenção glorificar a guerra, mas já que o conflito violento entre grupos humanos não é opcional, que pelo menos a versão mais eficiente seja prevalente. Guerras existem para acabar. Terrorismo existe para infernizar a vida do inimigo por falta de capacidade de causar o dano desejado. No final das contas, tem até isso: o terrorismo só existe quando a guerra não é uma opção. Até quem pratica sabe que o melhor é o conflito aberto e honesto, tanto que onde tem soldados e um mínimo de estrutura, o Estado Islâmico escolhe a guerra aberta. Afinal, só ela gera uma conclusão.

Mesmo que a conclusão seja o extermínio ou redução suficiente de um dos lados. Se eu quero que pessoas sejam exterminadas? Não. Mas é uma das formas de finalizar uma luta do tipo. E no longo prazo, é melhor que as pessoas morram em grupos de uma vez, gerando choque suficiente para terminar a batalha do que aos poucos, mantendo a violência viva por muitos e muitos anos. Guerras mudam fronteiras, mudam composições étnicas, mudam o mundo que se propõem a reconstruir. Pelo menos surgem fatos novos.

Já o terrorismo não muda nada, são décadas de violência e civis mortos de forma covarde para não gerar nada em troca. O mundo não avança, é apenas uma teimosia cruel. Entre um corte profundo de uma só vez ou milhares de cortes rasos por décadas, o masoquista escolheria a segunda opção. Guerras são horríveis, mas guerras acabam. Não dá para evitar um mundo horrível, mas pelo menos dá para modular a duração dos momentos de sofrimento.

Na dúvida, sofrer mais de uma vez do que ser torturado indefinidamente.

Para dizer que eu sou uma pessoa horrível, para dizer que prefere um mundo sem religião, ou mesmo para dizer que o pior é esse povo não se matar de uma vez: somir@desfavor.com

SALLY

Sobre essa onda de atentados terroristas: o que é pior para o mundo, uma guerra aberta e declarada que resolva a questão com um banho de sangue ou décadas de atentados terroristas pingados pelo mundo?

Uma guerra é pior. Certamente seria mais rápida, mas seria pior. Nunca funcionou dar um banho de sangue na humanidade, mesmo em tempos de revólver e faca, não seria agora, em tempos de armas de destruição em massa que uma guerra faria algum bem.

Eu sei que atentados são difíceis de combater, impossíveis de prever e improváveis de se eliminar. Também sei que inocentes morrem em atentados, mas guerra também não faz justiça e o numero de inocentes que morre costuma ser bem maior. Parto da premissa que não dá para eliminar a violência e morte do planeta, ao menos não por enquanto, pois ela é inerente ao ser humano. Então, que seja uma violência pontual, de pequeno alcance e sem aval estatal.

Em uma guerra dificilmente quem criou o conflito vai batalhar, ambos os lados enviam jovens inocentes para batalhar em seu nome. E quando não é uma guerra campal, inocentes sofrem do mesmo jeito, pergunte aos moradores de Hiroshima. Com o avanço tecnológico cada vez menos veremos soldados em trincheira matando soldados, a tendência é resolver as coisas apertando um botão, matando milhões de civis inocentes, destruindo suas casas, cidades ou até mesmo seu país.

E não se trata apenas destes civis afetados. Dependendo do impacto da arma de destruição em massa, o planeta também sofre com radiação e outras agressões que podem comprometer desde produção de alimentos até a genética humana. Uma bomba em um país pode reverberar até no outro continente, dependendo do seu alcance.

Além disso, bilhões são gastos e investidos na indústria armamentista, gerando a contratação de mentes brilhantes que poderiam estar pesquisando coisas boa para a humanidade para criar formas de matar melhor. Dinheiro que poderia ir para a cura do câncer vai para investigar e viabilizar armas cada vez mais letais e de longo alcance. Eu não gostaria de ver a atenção da humanidade e da ciência voltada para isso.

Então, não é apenas sobre a guerra em si, é sobre todo seu desdobramento. Grandes potências mundiais voltam sua atenção para ela e a priorizam, deixando de lado questões que acredito serem muito mais importantes. Cria-se um clima de medo no mundo, pois as consequências, se a coisa sair do controle, podem até comprometer a existência da raça humana. Tudo pode acontecer. Não há muito controle.

Atentados são ruins, na verdade, são péssimos, mas ao menos são em menor porte e são situações mais controladas. O planeta continua existindo em paralelo aos atentados. A indústria não se foca neles, não gasta bilhões em sofisticar formas de matar e a raça humana não corre risco de extinção. Morrem menos inocentes, morrem menos pessoas. Provavelmente a onda de atentados durará mais do que duraria uma guerra, por serem menos caros e grandiosos, mas eu prefiro um dano pequeno frequente a um dano gigante, imprevisível e incontrolável por um período de tempo menor.

O que você prefere: pouco sangue derramado por décadas ou um banho de sangue que pode inclusive acabar com a raça humana por alguns anos? Somos melhores do que isso, não é possível que para controlar brigas por divergências tenhamos que exterminar o outro lado. Pode ser romantismo meu, mas eu acredito que matar todo mundo não seja única opção. Se hoje não conhecemos outra, não quer dizer que ela não exista. E se resolvermos tudo no míssil, aí é que não vamos evoluir mesmo.

“Não tem outra solução”. Sempre tem outra solução, basta empenho em descobri-la. Quando se apela sempre para a solução conhecida, no caso, a guerra, fica mais difícil de pensar em soluções novas. Se hoje não temos solução, que tal uma união de esforços para buscar possíveis soluções para o problema? Precisa sair correndo e pegar em arma para matar gente no melhor estilo década de 20? Não dá para deixar a questão em aberto, por hora sem solução, e gastar tempo e energia pensando na forma menos custosa de combater o radicalismo?

Pegar em armas e matar todo mundo é igualmente radical. Somos melhores do que isso. Ao menos, podemos tentar ser melhores do que isso. Por mais que não pareça, historicamente falando, atentado terrorista em larga escala é uma questão recente, que apareceu décadas atrás. A humanidade não costuma resolver grandes problemas em poucos anos, então, me parece meio cedo para falar em guerra como única ou melhor solução. Precisamos de tempo e tentativa e erro para solucionar problemas globais.

O ser humano já passou por coisa pior do que atentados terroristas onde um sujeito meio pancadinha da cabeça atropela ou explode meia dúzia de pessoas. Assim como todo o resto, isso também passará. É um contrassenso que, para acabar com a morte de inocentes matemos ainda mais inocentes, não acham?

O mundo está mudando rapidamente, em algumas coisas para melhor, em outras para pior. Uma guerra simplesmente não tem mais cabimento neste mundo atual. Não encaixa, não é compatível. Chamem de romântica novamente, mas temos mais conhecimento e tecnologia, portanto, mais ferramentas para solucionar as coisas de outra forma. Basta usá-las. Não sabemos como? Ok, pensemos. O fato de não saber como não quer dizer que devemos declarar uma guerra.

Guerra é imbecilidade. Você mata esses, daí vem outros. Muitas vezes vem outros que se radicalizaram em revolta por você ter matado esses. É clichezão, mas violência gera mais violência. Tem que quebrar esse ciclo. Não estou dizendo que tem que ser hippie e dar uma flor para quem te enfia a porrada, apenas que nem sempre é necessário usar de força física, agressão e morte de inocentes para estabelecer limites.

Torço de coração para que essa onda de atentados não desemboque em uma guerra e, se você tem um pingo de instinto de preservação, também deveria torcer.

Para perguntar se eu fumei maconha, para dizer que quer mais é que o planeta todo se exploda ou ainda para dizer que estamos entrando em ano de Copa do Mundo e por isso quer que a guerra fique para 2019: sally@desfavor.com

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Comentários (6)

  • Sinto dizer, mas a guerra é o estado natural da humanidade. O terrorismo é apenas um efeito colateral de se tentar forçar o contrário.

  • Quem disse que uma guerra vai parar atentados terroristas? E como vai exterminar milhões de muçulmanos, sendo que estão espalhados em todo lugar, inclusive no próprio ocidente?
    Sim, os muçulmanos são os maiores problemáticos dos tempos atuais (processa eu), mas guerra no sentido clássico me parece irreal. Talvez uma guerra cibernética fosse mais viável, talvez…

    • Até dá, mas o custo seria altíssimo: extermina em massa no território deles e persegue os que estão espalhados no resto do mundo que, sem o respaldo da matriz eliminada, enfraqueceriam em poucos anos. Mas, sinceramente? O ser humano é melhor do que isso!

  • As duas situações são pra lá de terríveis, mas vou concordar com o Somir. Como ele disse, em guerras, as coisas tendem a ser mais às claras. Apesar de toda a destruição, dos massacres e do emprego da ciência na busca por novas formas “mais eficientes” de matar, há ainda pelo menos dois lados mais ou menos definidos e os confrontos fazem surgir no tempo e no espaço divisões nítidas de “antes” e de “depois”, levando cedo ou tarde a um tempo de paz – ainda que muito custosa e não duradoura – depois que as armas se calam. Uma sucessão de atentados terroristas, por ouro lado, deixa as pessoas sempre sobressaltadas, porque nunca se sabe nem quando e nem onde vão acontecer, os motivos nem sempre são claros, o clima de insegurança geral nunca acaba, não há uma luta “pra valer” entre dois grupos preparados e pré-dispostos a se enfrentar e as disputas que levam um grupo a atacar o outro nunca são plenamente resolvidas.

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