Além do Bitcoin.

Bitcoin definitivamente entrou na moda nos últimos meses. Com o aumento considerável do valor da moeda virtual, muitos se interessaram pelas possibilidades de ganhos rápidos, começando uma nova corrida ao ouro, dessa vez pela internet. Mas o objetivo deste texto não é fazer uma análise econômica sobre o assunto, e sim sobre a tecnologia que torna a moeda possível. Tecnologia que talvez seja mais valiosa no longo prazo do que as próprias Bitcoins.

Vou explicar bem por cima o que é a Bitcoin e o conceito de criptomoedas em geral, porque presumo que isso a mídia tradicional já resolveu com o interesse repentino gerado pela alta do valor recente. Bitcoin é a mais famosa das criptomoedas, mas hoje em dia já existem diversas outras. Por ser a mais conhecida e adotada pelo público, a Bitcoin acaba sendo o que baliza o valor das outras e é usada como a medida de comparação com o dinheiro real. Numa explicação simples, criptomoedas geram valor baseado em confiança que outras pessoas vão aceitá-las em troca de bens reais.

E moedas baseadas em confiança não são novidade, o dinheiro real dos dias atuais não é mais lastreado por reservas de ouro e outros bens preciosos, e sim na confiança que os governos que as imprimem são capazes de pagar pelas promissórias que lançam com elas. Um dólar só vale um dólar porque a pessoa que tem essa nota na mão confia que se tudo mais der errado, o governo americano vai aceitar esse pedaço de papel em troca de bens reais. Nem tem ouro suficiente no mundo para dar conta da dinheirama que os bancos centrais de todos os países criaram para girar suas economias… então, de uma certa forma, Bitcoin tem seus riscos, mas como conceito de valor, não é tão estranha assim. A diferença essencial é que não tem um governo e suas pessoas garantindo que vão aceitá-las no futuro.

Mas, esse perigo também significa liberdade: sem um governo para garantir o valor da Bitcoin, a moeda não precisa prestar contas a ninguém. Nenhum político pode mudar o valor dela, gerar inflação ou mesmo cobrar impostos. Tanto que desde o começo da adoção dessa moeda, muitas atividades ilegais acabavam sendo pagas com Bitcoins, o maior mercado de drogas online (na DeepWeb) só aceitava ela e os outros que seguiram esse caminho fizeram o mesmo. Bitcoins são especialmente difíceis de rastrear se você nunca colocou dinheiro real para comprar uma ou mais delas.

E esse é o básico do lado político e econômico da coisa. Se quer um conselho financeiro, eu posso dar o mais óbvio de todos: se você for investir em Bitcoin, invista o que pode perder. É um investimento muito volátil, para pessoas que sabem o que estão fazendo e não se assustam fácil. Pode continuar funcionando lindamente por anos e anos, pode entrar em colapso em meses. Mas nada disso tem a ver necessariamente com a tecnologia por trás do sistema, o maior perigo atual é um governo cismar de torná-la ilegal e outros seguirem o caminho.

Mas, o objetivo deste texto é falar sobre a parte técnica (claro, sem pegar muito pesado) e como o conceito que gera as Bitcoins pode ser extrapolado e aproveitado para diversas outras coisas. Vamos começar com o básico: Bitcoin e outras moedas virtuais baseadas em criptografia nada mais são do que uma série de “contas de padaria” distribuídas pela internet. Conta de padaria no sentido que cada pessoa tem uma espécie de documento dizendo o quanto gastou e para quem foi seu dinheiro e quanto recebeu e de quem veio. Só que não é instantâneo, o sistema não confia automaticamente que cada transação anotada na mão de um dos usuários da Bitcoin é real, e por motivos óbvios.

É um sistema de confiança, todos tem que acreditar que quem quer que tenha escrito no sistema que recebeu 1 Bitcoin estava falando a verdade, e isso tem que bater com outra pessoa perdendo 1 Bitcoin, e essas pessoas tem que estar corretamente referenciadas nas transações um do outro. Eu posso ter complicado escrevendo assim, mas basicamente, o sistema tem que evitar que qualquer pessoa invente que recebeu dinheiro ou tire dinheiro de outra pessoa sem o consentimento dela. Nesse ponto, Bitcoin ganha do dinheiro real. E para fazer isso de forma consistente, vem a grande ideia do sistema: o Blockchain. Numa tradução literal: corrente de blocos.

Blockchain é o sistema que gerencia a “honestidade” do mercado ao mesmo tempo que premia quem ajuda a manter o sistema honesto. A grande jogada desse sistema de valor é que todo ele é baseado em manter as negociações confiáveis, o tal do “minerar” que tanto se fala nada mais é do que confirmar que as operações do sistema estão corretas e ser premiado por isso. Quando alguém faz uma transação em Bitcoins, elas ficam armazenadas localmente (no que se convencionou chamar de “carteira”) e depois são enviadas em grupos para a confirmação. Mas ao invés de ter uma força central confirmando as operações, tal qual um banco ou uma operadora de cartão de crédito, essa confirmação pode ser feita por qualquer pessoa na rede.

O protocolo de funcionamento da Bitcoin coloca um “segredo” em cada bloco de transações enviada para a conferência (de quem quiser fazer) que precisa ser descoberto pelos computadores das pessoas conectadas à rede. E por que precisa colocar um segredo e dificultar algo que você quer que as pessoas façam? Simples: para criar valor no sistema. Quanto mais difícil é confirmar a honestidade do sistema, maior a prova que você trabalhou para fazer isso. E é isso que garante, no final das contas, a honestidade do sistema. O Blockchain calcula a veracidade da informação pela prova de trabalho. Como qualquer pessoa pode analisar cada uma das transações da rede e “contar” para os outros se acha que elas são corretas, é necessário ranquear o esforço de cada um trabalhando nisso.

Quem consegue fazer a análise efetiva de um dos blocos de transação esperando confirmação na rede ganha Bitcoins novas (ou seja, não saem de ninguém, são criadas pelo sistema e somadas ao total geral) no processo. Mas só o primeiro ganha esse prêmio, por isso se dá bem faz essa mineração com computadores mais poderosos. Uma excelente forma de incentivar as pessoas a usarem seus computadores para fazer o sistema funcionar de forma segura, mas também uma forma de garantir que é muito difícil burlar o sistema enfiando transações falsas. Como tem muita gente fazendo ao mesmo tempo, se você começar a mandar para a rede transações fraudulentas, não serão iguais aos blocos calculados por outras pessoas. E a não ser que você tenha uma máquina inimaginavelmente rápida (além de uma conexão de internet igualmente poderosa), vai acabar sendo batido pelo resto da internet.

E como o sistema só valida uma transação quando suficientes pontos da rede chegam ao mesmo resultado, logo logo sua adulteração fica clara o suficiente para ser ignorada. No mundo do Blockchain, tudo é baseado em confiança, e confiança tem que ser merecida através do seu poder computacional. Mas, considerando que o sistema cria novas Bitcoins a cada bloco de transações, isso não significa que logo logo vão existir tantas que nem vai mais ter valor? Bom, aqui entra outra proteção: com o passar do tempo, o segredo que valida a transação fica mais e mais complicado e os ganhos cada vez menores. Pudera, o poder das máquinas vai crescendo e se ficasse tudo muito fácil de decodificar, aquela proteção contra fraudes não serviria mais.

Então, em tese não existe um limite de quantas Bitcoins podem existir, mas com a tecnologia atual, vai chegar a hora que o segredo vai ficar tão difícil de calcular que simplesmente não vai dar mais para continuar subindo. Nesse ponto, não se pode mais criar Bitcoins para evitar hiperinflação. É por isso que existe um número finito delas. A não ser que os computadores tenham algum salto de desempenho gigantesco, vai ficar difícil demais. Claro que já existem diversos planos para lidar com esse momento, muitos deles na forma de Altcoins, nome dado ao grupo de outras criptomoedas que seguem a mesma lógica da Bitcoin, mas que tem soluções diferentes para lidar com esse “teto tecnológico” e as dificuldades do dia a dia. É extremamente complicado definir quais delas vão ficar famosas, mais ou menos como era complicado prever o sucesso financeiro da principal.

Mas seja lá o que acontecer com o valor da Bitcoin e das Altcoins, uma coisa é certa: a tecnologia que as permitiram se provaram muito válidas. O sistema é seguro o suficiente para muita gente investir dinheiro pesado, não só quem compra as Bitcoins com dinheiro real, mas quem monta mega estruturas para fazer esse processo de mineração (a confirmação das transações). Unir o poder de computação da humanidade em prol de uma missão num sistema que não depende de nenhuma pessoa especificamente é uma prova de conceito tão impressionante do lado da Bitcoin que é difícil imaginar que o modelo não vá continuar se popularizando. Talvez no futuro o sistema financeiro todo funcione assim, talvez torne-se a forma mais popular de resolver problemas em conjunto (quem disse que a computação que agora vai para confirmar transações não possa ir para a medicina ou para a engenharia?). Ou mesmo um sistema de votação baseado em Blockchain… mais seguro que o atual, com certeza.

O problema tecnológico pode ser trabalhado, o de confiança é que eram elas… mesmo eu dizendo que a Bitcoin é um investimento arriscado, o risco não passa (pelo menos atualmente) por pessoas manipulando o sistema e roubando valor dos outros, e sim pela ruim e velha especulação financeira e pela cabeça dura e falta de preparo de políticos. Mas se precisávamos de confiança numa tecnologia para lidar com muitas pessoas ao mesmo tempo investindo no mesmo sentido, ela chegou. Bitcoin é muito mais do que uma moeda alternativa, é um conceito tecnológico que eu aposto que logo logo gera uma nova realidade para esse mundo ultraconectado.

Se tiver interesse eu escrevao mais um pouco sobre novas aplicações do Blockchain fora da Bitcoin, mas por enquanto, o importante é entender como funciona. O potencial é gigantesco. E já está debaixo do seu nariz.

Para dizer que eu deixei chato o tema mais empolgante sobre tecnologia dos últimos tempos, para perguntar se investe ou não e ficar sem resposta clara, ou mesmo para dizer que pagar por honestidade é mesmo a cara da humanidade: somir@desfavor.com

Se você encontrou algum erro na postagem, selecione o pedaço e digite Ctrl+Enter para nos avisar.

Etiquetas: , ,

Comentar

  • Demorei pra ler esse texto e devo dizer que achei a coisa toda – tanto o próprio conceito de “criptomoeda” quanto a tecnologia que torna isso possível – , no mínimo, bastante interessante. E só o Somir mesmo pra expor um assunto “do momento” de uma forma que ninguém mais faz! Por enquanto, tudo ainda é novidade e imagino que a maioria – eu incluído – ainda não entendem direito como funciona, mas no futuro isso pode se popularizar e quem sabe, tornar obsoleto tudo o que existe hoje.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Relatório de erros de ortografia

O texto a seguir será enviado para nossos editores: