Tenho visto a palavra ou a hashtag “Gratidão” ser usada de forma muito leviana em mensagens, textos ou fotos em redes sociais. A pessoa vê um pombo e posta #Gratidão. É tanta gratidão descabida para posar de evoluídos, que eu resolvi fazer o meu comentário sobre gratidão. Grata mesmo ou sou pelas coisas abaixo.

Os piolhentos adoram expressar gratidão pelo pôr do sol. Porra, pôr do sol? Uma coisa que nem demandou esforço de ninguém, praticamente um fenômeno natural que independe de intervenção humana? Ok, dá um alívio quando aquela bola dos infernos desaparece no horizonte e para de fritar seus miolos com calor escaldante, mas porra, se for para sentir gratidão nesse sentidos, eu sou grata a Willis Carrier, esta santa criatura que inventou o ar condicionado! Esta mente brilhante se iluminou em 1902 e fez algo que realmente mudou e melhorou a minha vida. Um injustiçado, que não tem a glória e o reconhecimento que merece. Willis Carrier: #Gratidão.

Aí vem uns sarnentos pagar de amantes da natureza e de vida saudável e ficam postando fotos com frutas e gratidão. Primeiramente, você está se envenenando com uma porcaria cheia de 1) agrotóxicos ou 2) merda (caso não tenham usado agrotóxicos). Segundamente, quão pouca ambição na vida tem alguém que é grato por uma jaca? Eu sou grata mesmo é pelo chocolate, coisa linda de Deus! E grata aos macaquitos aborígenes que o inventaram (spoiler: tirando a Argentina e o Uruguai, é tudo igual para mim, até os EUA). Toda a hediondez de seu artesanato brega e antiestético eles compensaram criando este maravilhoso alimento. Eu quero que a jaca se foda, que o mamão exploda e que carambola entre em extinção. Chocolate: #Gratidão.

Tem uns ainda mais descontrolados que são gratos pelo nascer do sol. Não bastasse o argumento já exposto de ser algo que não requer esforço, o nascimento do sol ainda é escroto em dobro: acorda humanos de bem que querem dormir seu soninho da beleza, gera calor que faz o cu suar e, às vezes, de brinde um câncer de pele. Tenham santa paciência. Eu sou grata é pela cortina blackout. Não sei quem foi o gênio que olhou para uma cortina e disse “Está pouco, ainda passa um pouco dessa luz solar nefasta, vamos fazer de uma forma que bloqueie essa merda por completo”, mas eu sou muito grata a ele. Pesquisei e não encontrei este anjo, se vocês souberem, deixem nos comentários. Cortina blackout: #Gratidão.

Aí tem os gratos pelos animaizinhos. Todos eles, todos criaturinhas de Deus ou parte do planeta em comunhão com o universo, bla bla bla, Gaia, bla bla bla maconha. Meu critério é um tanto quanto diferente: simpatizo com mamíferos, desde que peludos. Todo o resto eu quero que se exploda. Gratidão eu tenho mesmo é pelo inseticida, que nos livra dessas pestilências. Deixa que os gratos alimentem os pernilongos na madrugada, com seu sangue cheio de jaca, aturando esse bicho escroto zumbindo em seu ouvido e que depois sejam gratos pela malária ou zika que pegarem. Eu sou time Baygon: na tomada, em spray, em vela. No dia que tiver desodorante inseticida eu vou usar. Usar substâncias para afastar bicho chato é tão antigo que nem se atribuí a um criador, o ser humano faz desde sempre, sinal que os animaizinhos não são tão legais, né? Inseticida: #Gratidão

E gente que é grata por rios e mares? Merece ou não merece um candiru na uretra? Nosso planeta é 70% água e as pessoas são gratas por um córrego. A demência é tanta que neguinho tira foto na praia de Copacabana, uma praia onde na água boiam toletes, camisinhas usadas e absorventes sujos e posta sua gratidão pelo mar. Meu amigo, aquilo não é mar, aquilo tem todos os elementos da tabela periódica, até Iemanjá deve ter se mudado de lá. Se é para ser grata nessa área, eu sou grata ao santo que inventou a água encanada quente, para que eu possa tomar um banho digno e sem sofrimento. Para mim é uma invenção mais importante que a penicilina, foda-se, falei. Prefiro uma vida curta com banho quente, joguem pedras. Encanamento com água quente para tomar banho: #Gratidão.

Momentinho ofendendo os amigos: gente que é grata pelos filhos. Nada contra seu filho, ok? Mas ele é um resultado final de uma foda, não um anjo de luz ou milagre divino. Qualquer um faz, não há magia ou divindade nisso. Se rato foder sai filhote. Se gambá foder sai filhote. Você não é uma criadora de um milagre, espermatozoide + óvulo dá bebê, aqui, em uma boate ou em um zoológico. Menos, bem menos. Na verdade, eu sou grata é pelos métodos anticoncepcionais, não fossem eles, cada foda dada no planeta poderia significar um filho. Imaginam o problema populacional que isso traria? Quando me imagino na indignidade de limpar merda e vômito, de me colocar em segundo plano e de ter atividades essenciais para o meu bem estar totalmente prejudicadas (sono, sexo, lazer…) sempre sinto um calorzinho no peito e um sentimento profundo por todos esses seres humanos maravilhosos que trabalharam com afinco para que hoje tenhamos a opção de não ter filhos. Métodos anticoncepcionais: #Gratidão.

Temos aqueles gratos pelas ervas, chás, homeopatia e outros tipos de pajelança-placebo. Gratidão por uma natureza “que dá tudo que precisamos”. Spoiler: não dá não. E o filho da puta que mete esse discurso sabe que não dá não (geralmente estão de iphone na mão). Os mesmos imbecilóides que usam chazinho cheirosinho para purificar o organismo correm para o antibiótico quando a coisa aperta. Os mesmos que defendem os direitos dos animais usam medicamentos que, se não fosse por teste em animais, nem existiriam, quando a coisa fica feia. Eu sou grata pela alopatia, quando mais química, melhor. Mas, acima de tudo, eu sou grata pelo Imosec, também conhecido como “tranca-cu”, que nos salva em caso de diarreia. Caguem-se nas calças no meio de uma viagem, no meio do trabalho, no meio de um evento, pseudo-naturebas, no meu corpo mando eu: ele terá diarreia apenas quando eu o permitir. Imosec: #Gratidão.

Tem também um grupinho que anda sendo grato pela Bíblia por aí. Um livro onde uma mulher casa virgem e grávida, e, ao que tudo indica, engravidou através de um fuckin´ pombo. Um livro onde um casais de cada bicho em uma arca não comem uns aos outros. Um livro que, se fosse novela da Globo, estava sendo detonado em redes sociais de tanta inconsistência no roteiro. A Bíblia é um corta-cola mal traduzido muito do chato, que 99% das pessoas nunca leu inteiro, só falam nela pensando no que isso implica para sua imagem. A Bíblia te ensina como sobreviver a um tiroteio? Explica o motivo pelos quais às vezes aparece um grão de milho no seu cocô? Então, desculpa aí… Desfavor: #Gratidão.

Para dizer que riu, porém com medo de ir para o inferno, para dizer que só é grato por dinheiro e o resto que se foda ou ainda para contar coisas pelas quais você é grato: sally@desfavor.com

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Comentários (21)

  • Sem insetos não tem chocolate. Apenas um esclarecimento. E inseticida faz mal pra cacete sim, use com moderação. Melhor se proteger de outras formas. Aqui nós telamos tudo, e quando preciso passamos repelente. Só usamos inseticida em ultimo caso (vulgo barata voa). Não sou riponga e trabalho com isso há bastante tempo…e moro no Rio há mais de dez anos. Ninguém da minha familia nunca teve nenhuma doença transmitida por mosquitos. Gratidão pelo seu texto (ha)!

    • Minha casa é toda telada, pensando nas lagartixas, mas as desgraças dos mosquitos entram de qualquer jeito. Eu tenho nojinho de repelente, a pele fica melada, o cabelo cola no corpo… não tem outro jeito não? Talvez tomar complexo B…

      Qual o papel dos insetos no chocolate???

      • Aqui não entra mosquito. Mas moramos em andar alto. Tem repelente em spray que não fica melado. Usa DEET. Icaridina é golpe. Complexo B é caô homeopático. Se não tiver jeito, mangas compridas e calças (a OMS manda usar isso na AFRICA, junto com bednets, imagina que chique usar isso no Rio).
        Papel dos insetos no chocolate: polinização do cacaueiro. A polinização dos cacaueiros é feita por ceratopogonídeos (vulgo borrachudos). Na verdade sem insetos nenhum ecossistema terreste sobrevive. Nem os nossos.

  • Eu quero que a jaca se foda, que o mamão exploda e que carambola entre em extinção. Chocolate: #Gratidão. [2]

    “Gratidão”, taí uma palavrinha que me dá asco. Não pelo significado em si, mas sim porque virou uma daquelas “palavrinhas-da-moda” que o pessoal repete a exaustão (tipo “lacrar”, “empoderamento”, “embuste”, “empatia”, “diversidade”…) e meio que banaliza/perde o significado depois. Acho tosco ler na Internet aquele textão seguido de “#gratidão”. Pronto, falei! :P :P

    • Sim, pessoas utilizam um dos sentimentos mais nobres e elevados como pretexto para se vender, tirar onda de boas pessoas ou apenas aparecer.

  • Realmente não dá pra viver sem ar condicionado, cortina blackout, nem chocolate e nem café! Pena que anticoncepcional a pobretada não usa, nem camisinha. Só fica atenta que esses inseticidas que ligam na tomada, dizem que faz um mal da porra.

  • Tenho #gratidão por ler algo que me faça pensar a respeito das minhas convicções – tirando a certeza de que alguns, se descobrirem que o inferno existe, vão comprar passagem para lá (com gosto).

  • Pera aí, Sally, você só é grata pelos mamíferos peludos? E Tilikum, como fica?
    Eu não entendo essa implicância com cocô de criança. Você catou dos seus cachorros, é muito pior. Porque a criança uma hora aprende a limpar a própria bunda.
    Está muito engraçado. Desfavor #gratidão
    Já que é para ser grata a alguma coisa eu vou votar na internet. Sem ela não poderíamos ler esses textos (sem contar as músicas, livros, séries que todos já pirateamos).

    • Tillikum foi produto dos seres humanos, idiotas o bastante para aprisionar e nadar com um mamífero carnívoro do tamanho de um ônibus. Orcas são bichos dignos, em cores neutras, tem o meu respeito, mas na natureza acabam sendo irrelevantes para mim.

      A implicância não é com o cocô em si e sim com a frequência escravizante que se limpa uma criança (cocô, xixi, vômito, banho, etc), bem como a frequência escravizante com que se responde perguntas, o trabalho que dá para dar comida, educar, disciplinar, ensinar. Não sobra tem para mais nada na vida se você fizer bem feito. Meus cães cagavam uma vez por dia e só.

      Também sou grata pela internet!

  • Adorei o texto, Sally. Quando eu estava na faculdade, tinha uma turminha de ripongas e maconheiros que se reunia um lugar mais afastado do campus pra bater palminha pro pôr-do-sol. Sabe essa gente que ainda não percebeu que a era do “Flower Power” e os anos 60 já passaram faz tempo? Pois é… E pra mim, “ripongas” e “maconheiros” são praticamente sinônimos…

  • Sally, como tu não tem facebook não deve saber. Em datas comemorativas o brasileiro médio fica floodando a palavra gratidão lá porque quando postada a palavra fica linkada e cada vez que clica aparece uma explosão de florzinhas na tela hahahahaha

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