Até a última gota.

De acordo com a premiação prometida aos vencedores do Bolão Macacos com Navalhas 2017, hoje começamos a primeira semana de pauta decidida exclusivamente por leitores (e o Somir na última). Diego Pontes será o responsável por essa semana, e escolheu manter a tradição do “Ele Disse, Ela Disse” nesta segunda feira:

Tema de hoje: deveria ter lei seca no carnaval?

SOMIR

Não. Seria enxugar gelo e ainda pegar um resfriado no processo… eu poderia passar o texto todo dizendo como isso seria impossível na prática e como quem quer que sugerisse e passasse essa lei seria trucidado e se tornaria inelegível pra sempre (se continuasse vivo), mas isso seria pegar o caminho fácil. Vamos pensar no porquê disso não ser realmente construtivo para a sociedade brasileira.

Só pra deixar tudo mais confuso pra vocês, eu já começo dizendo que no fundo acredito que a humanidade ganha no quadro geral se as bebidas alcoólicas forem eliminadas para sempre. Se houvesse um poder grande o suficiente para aplicar e sustentar essa medida por uma década que fosse, tenho certeza que esse mundo passaria por mudanças consideráveis e impensáveis na onipresença alcoólica atual. Mas não sem um custo violento no processo. O álcool com certeza causa muito sofrimento, mas ele também lubrifica as engrenagens do status quo.

E por mais que meu eu de dez anos atrás se amarrasse na ideia de virar nossa estrutura social do avesso, a idade fez o que costuma fazer me guiando para uma visão um pouco mais conservadora dos sistemas vigentes. O que talvez nossos leitores mais jovens e definitivamente mais idealistas não conseguem ver com a mesma clareza que nós que já estamos há mais tempo nessa vida é que a sociedade humana é um barril de pólvora. E quanto mais o tempo passa, mais você sente esse cheiro de enxofre. É como se houvesse um equilíbrio muito tênue no acordo entre as pessoas para não explodir tudo o que conhecemos.

Essa vida não é justa para a maioria das pessoas. E se algum dia você ficou se perguntando porque os escravos nunca se levantaram em massa contra seus captores, porque os judeus não se rebelaram nos campos de concentração nazistas, ou mesmo o que segura todos os pobres de atacar em bandos os condomínios de luxo… você sentiu esse cheirinho de pólvora também. A humanidade parece muito estável enquanto você não para e pensa nisso com a devida calma. Existem diversas explicações sobre a psicologia de grupos oprimidos e/ou desfavorecidos, mas tem um fator aqui que podemos levar em consideração:

O barril de pólvora está molhado. Muito mais difícil de explodir assim, e de alguma forma internalizamos essa ideia com o passar dos séculos. Não é uma analogia tão direta assim pela flamabilidade do álcool, mas a ideia que temos vários elementos enfraquecendo a capacidade de explosão de uma sociedade tão injusta serve muito bem. O álcool e tantas outras drogas e distrações disponíveis no mundo tem uma função paralela de bagunçar a reação química que explodiria os sistemas vigentes, no mínimo atrasando-a por mais algum tempo. Eu sei que é uma coisa horrível de falar, mas você realmente gostaria de ver todo esse povo sacaneado diariamente e com muito menos regalias que você encarar o mundo de cara limpa? Porque isso tem um preço. Pessoas sóbrias é igual pólvora seca.

Mesmo considerando uma situação ideal onde a lei seca do carnaval não seria ignorada solenemente como acontece durante as eleições (onde o seu trabalho pra entrar no bar só aumenta com a necessidade de bater na porta antes de entrar) ou mesmo burlada por pessoas saindo de casa já bêbadas (dobrando as chances de acidentes com a ida também fatorada), ainda sim teríamos um problema social severo: pessoas fora de suas rotinas, fora de casa e sóbrias, sem ter que acordar cedo no dia seguinte. Muitas pessoas nem gostam de ficar sozinhas para não ouvir seus próprios pensamentos, imagine só um aglomerado de gente suada sem nenhuma forma de entorpecer seus sentidos?

Com a pólvora seca, basta uma fagulha. Porque o ser humano tem essa tara por comportamento de bando. Sem o conforto de ter algo pra fazer na forma de encher a cara e contrair doenças sexualmente transmissíveis sem culpa, sobra muito espaço livre pra pensar, e pensar deixa populações muito carentes e abandonadas muito, muito putas da vida. A cervejinha e a pinga entorpecem até mesmo o senso de injustiça da vida. O estado alterado gerado pelo álcool serve como desculpa internalizada para ter comportamentos de risco para si, quase que numa forma de auto punição por não apontar sua raiva para quem realmente querem apontar.

Nada disso é bonito. É horrível pensar que um mix de alienação e inadequação (quase que depressiva) seguram esse mundo extremamente injusto e desigual funcionando de forma minimamente estável, mas… horrível é um adjetivo honesto para a experiência de vida de muita gente. Se você tira o álcool delas, não vai sobrar muita coisa para preencher o buraco. Eu honestamente temo por grandes revoltas, depredações e arrastões num Brasil carnavalesco sóbrio. Porque o buraco tem que ser preenchido, e numa sociedade tão falsamente moralista como a nossa, eu aposto em violência generalizada antes de uma imensa orgia pública. O álcool faz mal para a sociedade, mas faz mal segurando uma demanda de fúria que pode ser ainda pior no curto prazo.

Num mundo ideal, onde a pólvora estivesse molhada por outros motivos, vá lá concordar com a Sally, mas do jeito que vivemos hoje? Tem toda a cara de desastre. E por mais que um desastre desses possa ser benéfico para uma sociedade pronta para uma grande virada de paradigma, não estamos num país onde isso é uma esperança realista. A explosão não daria espaço para algo novo.

Este povo é complicado bêbado, mas acho que ficaria pior sóbrio.

Para dizer que vai ficar em dúvida se alguém mentiu hoje, para dizer que sóbrio realmente não dá pra encarar essa vida, ou mesmo para dizer que agora entende porque anda mais e mais conservador também: somir@desfavor.com

SALLY

Olá meu povo. Hoje danos início à premiação do Bolão 2017, cujo prêmio é escolher os temas das postagens do Desfavor. Como tivemos quatro vencedores, cada um escolherá o tema por uma semana. Nesta primeira semana, a pauta do blog fica nas mãos do leitor Diego Pontes.

Deveria ter Lei Seca durante o carnaval? Sim. Não vou convencer absolutamente ninguém, mas vou me manter fiel à minha convicção. Deveria. Não acho legal, não acho bonito, mas acho necessário. Brasileiro já deu provas suficientes de que não sabe se portar neste período.

Em um país civilizado, eu nem cogitaria uma coisa dessas. Mas estamos no Brasil. Em um país onde todo o sistema legal e de crenças não autorizem tamanha intervenção estatal na vida do particular, eu nem cogitaria uma coisa dessas. Mas estamos no Brasil. Em um país sem qualquer histórico de proibição de bebida alcoólica eu nem cogitaria uma coisa dessas. Mas estamos no Brasil.

Estamos no Brasil, um país que não é civilizado, onde a intervenção estatal chega num ponto de dizer como os pais devem repreender seu filhos, um país que se sente no direito de proibir a venda de bebida alcoólica antes de eleição, mesmo sabendo que as pessoas vão defecar na urna de qualquer jeito. Então, não é sobre uma convicção pessoal sua, em um mundo bacana, hipotético. Não é sobre o que deveria ser, é sobre o que é. E, no Brasil, carnaval é a época do ano em que mais se coloca em risco a paz social e a segurança das pessoas em função do uso excessivo de bebida alcoólica por irresponsáveis.

Curta e grossa, que nós não os forjamos no fogo da sinceridade para ficar pisando em ovos: brasileiro é quase bicho. Brasileiro não tem discernimento, senso de responsabilidade ou bom senso para ser largado sem amarras em uma festa que prestigia bebedeira. É simples assim. Uma proibição é sempre algo escroto a se fazer, mas, não proibir também gera muitas consequências escrotas, a meu ver, piores.

Então, pondere e me diga o que acha mais grave: um pai de família que volta para casa, sofre um acidente provocado por um folião bêbado e fica em cadeira de rodas sem poder prover sustento da sua família ou a frustração do Seu Wanderley, que quer encher os cornos no carnaval? Na boa, eu prefiro sacrificar a bebedeira alheia do que a vida, a segurança de pessoas inocentes.

Obviamente eu seria trucidada se abrisse um argumento como este em uma mesa de bar. Imagina, mexer com o sagrado direito de beber de uma pessoa! Que bosta de sociedade que trata o direito a encher a cara como um direito fundamental do país, hein? E, pode ter certeza: os mesmos que vão se indignar com a possibilidade de uma Lei Seca no carnaval são aqueles que pedem algum tipo medida muito mais severa por muito menos em redes sociais: pena de morte para ladrão, linchamento para homem que assovia para mulher na rua, direito a dar porrada em quem furta o seu celular. Será mesmo que a radical sou eu?

Lei é como um remédio social: depois que surge a doença, as pessoas pesquisam, refletem e tentam prevenir que ela se repita ou que deixe sequelas. Não gosta de lei? Acha que o brasileiro está pronto para viver em anarquia? Acha mesmo isso viável? Se sim, sugiro que feche esta página e não volte nunca mais. Se acha que não, mas também acredita que a lei brasileira é uma merda, bem, tamo junto. Mas isso não quer dizer que, por ser ruim, possa ser imediatamente descartada.

Se você tem um prédio com um pilar de sustentação ruim, resolve isso simplesmente tirando as colunas? Não, né? Tudo vai desabar e o pior vai acontecer. A lei brasileira é uma bosta e provavelmente sempre será uma bosta, por culpa dos próprios brasileiros que votam em animais para elaborar essas leis. Mas sem elas, acreditem, estaríamos ainda pior, sem qualquer limite, nessa sociedade animalesca.

“Eu não acho que o caminho seja a proibição”. Eu também não, via de regra. Mas quando se chega ao ponto de ter uma data do ano onde aumenta absurdamente a morte de pessoas inocentes pela irresponsabilidade de pessoas bêbadas, acho que temos uma doença que precisa ser remediada. No Brasil é viável outro remédio? Sério mesmo que vocês acham que dá para conscientizar gente tosca como o brasileiro médio? Gente que não tem consciência nem de SE cuidar, por exemplo, usando camisinha, vai ter consciência de pensar nos outros? Não sejam românticos. Brasileiro, no geral, é bicho. E com bicho não se conversa, se proíbe, principalmente quando o que está em jogo é a vida de pessoas inocentes.

Não tem campanha, não tem multa, não tem nada que coíba esse povo. No Rio não conseguem nem fazer com que as pessoas não urinem nas ruas no carnaval. Todo ano passam de mil registros de pessoas que são abordadas, multadas. Mas, no dia em que a pessoa souber que se fizer isso passa um tempo na cadeia, aí sim ela vai repensar e procurar um banheiro. Não estou dizendo que tem que prender quem mija na rua, seria excessivo, é apenas um exemplo didático. O que quero dizer é que conscientização não resolve e punição que não cause muito temor também não resolve. O brasileiro topa pagar a multa para fazer o que quer.

Então, desculpa, as coisas são como elas são, não como gostaríamos que elas fossem. E hoje as coisas são assim: todos os anos, nesta época, um monte de gente inocente que não escolheu se colocar em risco morre por causa de babacas que se excedem na bebida. No meu ponto de vista, quer se portar como uma criança irresponsável e birrenta? Ganha a medida que a gente aplica a uma criança irresponsável e birrenta: não pode. Ponto final.
E se fizer, fica de castigo.

Todas as outras tentativas foram esgotadas, e, adivinha? Continua morrendo gente por uma babaquice, porque Zé Ruela se sente no direito de beber horrores, a ponto de perder a civilidade, a urbanidade, a humanidade. E é sempre nesse período determinado do ano. Sério que vocês acham que devem continuar colando cartaz em ponto de ônibus pedindo para beber com responsabilidade? Tenham culhões de apoiar algo extremamente impopular, amanhã a vítima pode ser um dos seus familiares.

Não adianta insistir em tratar como racional quem entra em modo irracional. Você paga de maluco, sendo racional sozinho, enquanto a outra pessoa se comporta de forma descompensada. Todo mundo aqui sabe como carnaval funciona e as consequências disso. Vão insistir na racionalidade até quando?

Para confundir censura com proibição, para dizer que para não abrir mão de um prazer seu prefere deixar morrer um monte de gente ou ainda para se livrar do problema creditando tudo a um exagero meu: sally@desfavor.com

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Comentários (17)

  • A Irlanda cancelou Arthur’s Day apesar das críticas, pelo bem estar da população, pq tinha muita gente morrendo de coma alcoólico. Não vejo mal nenhum em proibir bebidas por uns dias aqui tb. Penso q talvez deveriam começar limitando a quantidade, se é q isso é possível.

    • Pois é, alguma coisa tem que ser feita. É animalesco endossar a morte de pessoas inocentes em nome de uma suposta “liberdade” de pessoas que não sabem fazer uso dela.

  • Aêêê! É uma puta responsabilidade fazer pauta para vocês! Eu escolhi esse mais pra ver a Sally falando umas verdades, e não me arrependi.

    Espero que gostem dos outros temas também…

  • A opção de uma Lei Seca Carnavalesca seria até bem-vinda. Mas o brasileiroide tem esse costume peculiar de só seguir as leis que lhe convém. O povo bunda que aqui habita teria apenas mais uma lei para ignorar solenemente. Se o brasileiro fosse um indivíduo correto, respeitador de leis, certamente ninguém dirigiria após beber, ninguém mijaria na rua, e as festas e blocos girariam em torno da lei do silêncio.

    O Estado já é bem intervencionista nesse sentido, já determina claramente limites para as pessoas. Escrever mais uma lei dessas, creio eu, seria chover no molhado.

    • Guilherme, teria que fazer valer a lei, o que significa um novo problema no Brasil, onde cumpre a lei apenas quem concorda com ela…

  • Carnaval é feito pra dar merda; se for pra não beber e enfiar o pé na jaca, melhor cancelar de uma vez. Os avestruzes e pavões agradecem.

  • Claro que não! Como ficariam as dancinhas da porrada, igual daquele vídeo sem bebedeira? Iria acabar a putaria que políticos tanto amam!

  • Num mundo de gente supostamente inteligente não teríamos Carnaval, nem “mardi gras”, nem “spring break” ou outra data voltada ao mero exercício do prazer hedonista sem restrição alguma, regado a álcool, drogas e sexo. Entretanto, já tivemos um mundo assim: era o do tempo dos nossos avós, em que os bons costumes reinavam absolutos – e ninguém “pensava”, do mesmo jeito.

    Aliás, Somir, é bom não desejar o que não se pode controlar: a Revolução Francesa, por exemplo, teve tantas idas e vindas que foi necessário que as elites botassem um baixinho invocado (Napoleão) no controle para ele organizar a bagunça e fazer da França algo que prestasse. Nem sei se o Brasil não precisava disso.

    O que me leva a uma sugestão: srs e sras. o Brasil precisava da volta de um Poder Moderador?

    • No tempo dos nossos avós também tinha putaria e bebedeira no carnaval, viu?

      Não, não adianta Poder Moderador contra incompetência e corrupção.

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