Carreiras D’Alborgas.

Começamos a segunda semana do mês Macacos com Navalhas, e até o próximo Domingo, a pauta estará nas mãos da Lilith. Notando uma data comemorativa da nação bem no seu primeiro dia, a comemoração do aniversário de D’Alborga, ela nos coloca a seguinte dúvida para ser respondida…

Tema de hoje: no que Alborghetti se saiu melhor, carreira política ou televisiva?

SOMIR

O Grande Sábio da República Impopular não ficou só dando porretadas numa mesa e errando nomes de personagens de filmes em sua carreira, Alborghetti também teve uma carreira política. Vereador em Londrina por seis anos e deputado estadual pelo Paraná por quatro mandatos, não era do tipo que só reclamava, mas ia lá fazer. Mesmo com o parafuso solto que lhe trouxe a característica admiração que temos aqui, ainda sim acredito que com um cargo de poder público ele foi mais.

Porque há uma peculiaridade na nossa escolha do D’Alborga como ídolo nacional aqui na RID: tanto eu como a Sally discordamos da maioria das coisas que ele defendia. Pena de morte, violência policial, moralismo cristão… o bacana era a forma como ele entregava só a verdade sobre o que acreditava e não pensava meio segundo nas consequências das suas falas. Aquilo tinha que sair, e saía. Só que essa tal peculiaridade se perdia totalmente para a maioria das pessoas: não existe admiração pela verdade tão disseminada assim. As pessoas gostavam dele porque honestamente concordavam com tudo.

Tanto que o modelo do programa dele continua funcionando até hoje, com um apresentador incitando raiva na população e pintando um mundo onde apenas a brutalidade pode resolver algo. Não era essa a lição verdadeira. Na carreira televisiva, D’Alborga deixou clipes engraçados, um modelo de sucesso e as pessoas tão na merda intelectualmente como as encontrou. Não aprendemos a ser mais verdadeiros com a mensagem dele, e o mundo atual é uma prova definitiva disso, a verdade está fora de moda, e “como se fala” passou na frente do “que se fala” por larga margem.

Ele pode ter deixado uma imagem que nós aqui soubemos cultivar, mas em geral, vai acabar sendo soterrado numa história reescrita por pessoas histéricas que tem tanto medo da crítica que querem criminalizá-la. Então, me resta olhar com mais carinho para a carreira política desse homem, onde, por mais que não tenha deixado um legado nacional, com certeza fez alguma diferença nas vidas das pessoas que votaram nele. E, honestamente, não dá pra exigir muito mais de um político.

D’Alborga fazia questão de demonstrar trabalho. Líder em propostas e presença durante seus mandatos, seu slogan era “Vote em gente que trabalha”, o que dá pra acreditar muito bem: a mesma intensidade que trazia a verdade que ele percebia nua e crua para a TV fez com que ele trabalhasse feito um condenado na sua carreira política. Sobre sua carreira política, tinha o seguinte a dizer: “Sou funcionário do povo, ele paga meu salário e não sou gigolô do dinheiro público. Eu trabalho pelos esquecidos do Paraná, não sou político de época de eleição, e não devo à vagabundo nenhum nesse estado…Se você acha que ajudar o povo é demagogia seu idiota, meta a mão no bolso e faça!!!”

Extremamente pró pena capital e extremamente contra drogas, conseguiu gerar uma bela polêmica impedindo um show da banda Planet Hemp no seu estado, sob as alegações que ninguém viria fazer apologia às drogas no seu quintal. Você pode concordar ou não com a proibição (eu não concordo), mas ele se elegeu dizendo que ia lutar com tudo contra tudo relacionado ao consumo e venda de drogas… a vantagem de gente verdadeira é que dá para prever exatamente o que você recebe quando coloca elas no poder. D’Alborga agia de acordo com o que pregava.

Seus projetos incluíam a colocação de psicólogos e advogados em todas as delegacias de polícia e a criação de um hospital só para atender viciados em drogas. Ele tinha um objetivo e o perseguia. Mesmo que provavelmente nunca tenha entendido que como deputado estadual jamais poderia sequer tocar no tema da pena de morte no Brasil, continuava berrando por isso. Eu não gostaria que ele vencesse a batalha, mas, cacete, ele não sossegou um segundo do seu mandato para tentar entregar o prometido.

Não tinha essa frescura de ficar dando nome para praça ou inventando feriados, queria lidar com problemas bem práticos da população, e ao contrário do habitual, não ficava faltando no trabalho a maior parte do tempo. Tinha gente no seu gabinete que só atendia pedidos da população, zero aspones. Talvez pela “simplicidade”, agia de forma essencialmente assistencialista, distribuindo cadeiras de rodas, inaladores, kits escolares e coisas do tipo. Não estou dizendo que é a mentalidade perfeita para um político, mas era o que ele conseguia conceber. E isso ele entregava.

D’Alborga acabou sendo um dos melhores exemplos do que se fazer em política se te falta estofo intelectual para tentar mudar a sociedade no longo prazo: estar lá e trabalhar feito gente dia sim, dia também. Cidadão sabia a linha de pensamento dele e podia confiar. Se não dá pra “mexer no sistema”, então ajuda os pobres que já melhora um pouco a qualidade de vida geral. De uma certa forma, ele tinha aquela qualidade de estar sempre com os dois pés firmemente no chão, sem espaço pra ladainha ou politicagem clássica. Com a plataforma que tinha, poderia ter vendido a alma para ganhar alcance nacional e acabar em Brasília, mas do jeito que era, só podia fazer o que acreditava mesmo estando do lado do seu povo.

Simples, trabalhador, honesto. Na dúvida, esse é o político mínimo que se espera. E seu legado foi ter ajudado gente de verdade, mesmo que em pequena escala. Isso não se esvai quando muda a “moda” do que se pode dizer na TV, é muito mais estável.

E verdadeiro.

Para dizer que eu me contento com pouco, para dizer que também acha que bandido bom é bandido morto, ou mesmo para dizer que adora esse tipo de papo em pleno carnaval: somir@desfavor.com

SALLY

No que Luiz Carlos Alborghetti era melhor, na política ou na carreira televisiva? Na carreira televisiva, por motivos de: fez um dos melhores programas que este país já teve, inspirando toda uma geração.

Para quem é muito novo e não chegou a ter contato com o Grande Mestre D´alborga, era um ser de luz que apresentava um programa de jornalismo policial chamado “Cadeia”. Alborghetti era sincerão, tipo um Rafael Pilha do jornalismo e fazia a cobertura de crimes dando sua opinião, sempre engraçada e contundente.

Ele foi o criador desse gênero de programa, que hoje tem versões nutella como por exemplo o programa do Datena. Sentado em uma bancada, com um porrete na mão, ele gritava impropérios e batia com o porrete na bancada (e, ás vezes, no câmera e na produção). Sério, se você nunca viu, vá até o Youtube e veja. É de lavar a alma ver uma pessoa cometendo toda sorte de sincericídios.

No programa, ele brilhava, pois fazia o que queria, falava o que queria. Na política, coitado, era mais um, não podia fazer nada sozinho e ainda estava em um meio formal onde não podia se destacar pelo maravilhoso sincericídio. Mestre DAlborga não foi feito para atividades em grupo, ele merece solar com todos os refletores apontados para si.

Nosso querido Charles Dal instituiu a verdade (ainda que fosse a sua) como algo a ser dito, bradado, motivo de orgulho. Ele não tinha medo de nada, chamou o Comando Vermelho de “um bando de bichas”, o Marcola de “bundeiro” e “dador de bunda”. Várias vezes atacou ao vivo produtos dos patrocinadores dizendo que eram “uma merda” e apontando seus defeitos. É libertador viver na verdade, doa a quem doer. Filtra: só fica ao seu lado quem pactua com a verdade ou quem é inteiro e capaz de não se ofender com uma verdade que discorda.

Não se enganem, ninguém aqui concordava no mérito com o que ele dizia. Mas nós amamos a verdade, mesmo quando ela é feia, mesmo quando ela dói, mesmo quando discordamos dela – e sempre aplaudimos esses raros e iluminados seres humanos que tem a coragem de dizer a verdade, doa a quem doer. A verdade educa. Em uma sociedade de ofendidos que se magoa quando escuta algumas verdades, Mestre Dalborga era um raio de luz.

Ele não se rendia a ofendidos comuns nem a fazer social. Uma vez pegou um slogan da Globo (“tudo que pinta de novo, pinta na tela da Globo) e resolveu usar na sua versão: “tudo que pinta de novo, pinta no rabo do povo”. Nada era sagrado, ele brincava com o que queria, falava o que queria, basicamente um modelo do que nós consideramos uma postura saudável, sem essa babaquice de “limites do humor”. Como ele bem gostava de dizer: “Eu não só cago para a opinião pública, como também limpo a bunda para a sociedade com o dedo”.

Concordando você ou não com suas frases preconceituosas, tendenciosas e agressivas, uma coisa não se pode negar: a pessoa era verdadeira. E isso vale muito mais que qualquer verniz social. Prefiro mil vezes uma pessoa sincera, ainda que não escolha as palavras mais delicadas, do que uma pessoa que não seja verdadeira. E Alborga só conseguiu nos trazer esta alegria na forma de sinceridade politicamente incorreta graças à televisão e rádio.

Na política ela era uma voz perdida, suas ideias não chegavam ao grande público. Na verdade, suas ideias nem mesmo eram executadas, não em sua maioria, pois ele é um ponto fora da curva. Quando se está em um ambiente onde a maioria preza pela aparência e pela mentira, uma pessoa como ele não se destaca.

Provavelmente nunca teríamos ouvido falar nele se sua carreira fosse restrita à política, olha que desperdício! Gosto de pensar que na TV ele tocou muitos corações assim como tocou o meu, fazendo perceber que a verdade liberta, que a sinceridade filtra e só mantém ao seu lado quem também fez pacto com a verdade e transparência – por mais que a pessoa discorde do que você diz, ela admira te ver dizendo a sua verdade. Foi ali, vendo o Alborga bater com o porrete na mesa e gritar até a veia da sua testa saltar que eu tive a realização: ser sincerona tem um preço alto, mas tira de perto de mim pessoas despreparadas emocionalmente. Quero!

Foi com o Mestre Dalborga que eu percebi que, por mais que discorde de tudo que a pessoa diz, eu respeito sinceridade. A coragem de ser sincero com você mesmo e com os outros sempre vale aplaudos. Prefiro uma pessoa da qual eu discorde das ideias mas que fale e permita que seja falado. Uma pessoa que banque suas verdades e que escute as minhas, sem desmanchar. Ser sincero requer coragem, requer uma estrutura forte, requer culhões para bancar seu discurso e ouvir respostas igualmente verdadeiras. É de uma inteireza que hoje raramente se vê.

Você pode achar grotesco o sujeito todo suado, gritando e dizendo coisas radicais e ignorantes, mas ao menos ele está lá, sendo sincero, bancando sua verdade e pagando o preço por isso. É esse tipo de pessoa que eu admiro, é esse tipo de pessoa que eu quero ser e é esse tipo de pessoa que eu quero perto de mim: gente que nunca permita que eu me acomode, que eu negue a realidade, que eu me ofenda com palavras. Acho que mundo precisa de mais pessoas assim como exemplo, que tenham visibilidade, que inspirem os outros a serem assim. Agradeço à TV por ter dado esse exemplo!

Mestre Dalborga na política era uma minoria sem voz. Mestre Alborga na TV era uma inspiração para um estilo de vida que eu admiro. Não é a toa que mesmo depois de sua morte ele ainda ressoa, influencia pessoas e é lembrado com carinho. Podia falar as barbaridades que fosse, coisas erradas ou até sem nexo, mas inspirava as pessoas a confrontarem as verdades mais feias de frente, em vez de enfeitá-las, atenuá-las ou varrê-las para debaixo do tapete.

Gosto de acreditar que a forma como ele levava verdades inconvenientes na casa de cada um de nós através do seu programa de TV inspirou uma geração e sou muito grata por isso. Que sua coragem ao lidar e falar a verdade continuem ecoando!

Para dizer que tem medo de até onde eu vou em troca de sinceridade, para dizer que Mestre Dalborga também te influenciou ou ainda para dizer que eu preciso rever essa minha tara por verdade a qualquer preço: sally@desfavor.com

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Comentários (8)

  • TV.

    Minha parte preferida do programa dele era quando ele chamava o staff do programa para dar as mãos e agradecia a Deus por mais um bandido estar indo sentar no colo do capeta.

    • Na boa? Nem é pelo conteúdo, pois ele falava muita coisa que eu discordo. É pela inteireza de falar o que pensa e bancar isso.

      Poucas pessoas ficam ao seu lado quando você fala o que pensa, ouvir a sua verdade incomoda demais a quem não tem autoestima inteira e muito segurança. Poucas pessoas conseguem apenas descartar as coisas que discordam, sem se ofender. Brasileiro é um vira-lata complexado, ofendido, cheio de “não me toques”, de assuntos e coisas que não podem ser ditas, pois as Bonequixas parecem ser feitas de açúcar e desmancham se certas coisas forem faladas.

  • Lamentei quando ele morreu. Pagaria pra ve-lo descendo o porrete na galera do “lacryyy” hoje. Seria ,no minimo, como uma lavagem na alma.

    Em um mundo cheio de opiniões “limpinhas” e meticulosamente dadas pra “não ofender grupo X ou Y” essa autenticidade rasgada que ele tinha faz muita falta.

    • Imagina ele nos dias de hoje… Mestre Dalborga sem medir palavras e essas Bonequixas tudo se ofendendo, faniquitando, reclamando…

    • Alborga não se levava a sério, o Bolsonaro se leva super a sério. Eu vejo um pouco do Alborga no Trump, tipo um Alborga Laranja.

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