Cinderela Baiana Remix.

Pedido do Diego Pontes – Reescrever o final de Cinderela Baiana. Então, vamos nessa:


Carla Perez coloca a última peça da sua fantasia de odalisca e olha no espelho, contemplando cada detalhe das suas vestimentas com um sorriso maligno no rosto. Ela sabe que chegou a hora. Com passos largos e decididos, passeia pela sua nova mansão rumo à garagem. Lá, o motorista espera diante de um galante sedã branco, convidando-a com a porta traseira aberta. Ela respira fundo uma vez mais, e entra para começar sua jornada.

No caminho entre a capital e o acanhado vilarejo na qual viveu sua infância, o carro branco forma um comboio com mais duas vans todas pretas, recheadas de homens armados até os dentes. As estradas esburacadas e o calor infernal não parecem preocupá-la. A cada quilômetro do caminho, pode-se notar a expressão de Carla mudando, o sorriso boquiaberto de uma mente frequentemente ausente tornando-se mais afiado, maligno até. Uma nuvem de poeira serpenteia atrás dos carros, em estradas cada vez mais vazias e pouco mantidas. O motorista tenta puxar conversa com ela algumas vezes, mas é ignorado pelas várias horas de viagem.

Carla logo reconhece o aglomerado de crianças carentes do qual fez parte no passado. Logo diante de um dos trechos mais esburacados da estrada, vários jovens subnutridos trabalham num amontoado de poeira, pás e pés descalços, que por ora tapam, por ora criam os buracos que tanto incomodam os caminhoneiros que passam por lá. O sol escaldante do sertão baiano reflete na tinta branca de seu carro, forçando as crianças a tapar os olhos enquanto esperam a aproximação. A visão dos três carros joga os jovens num estado ainda mais agitado, com vários correndo a esmo no meio da estrada. Carla profere a primeira palavra desde a saída de sua casa. Um simples “pare”. O motorista desacelera, com as duas vans repetindo o movimento.

O carro branco – recém-comprado numa concessionária onde sequer seria permitida entrar poucos meses atrás – reluz diante das crianças. Várias se aglomeram diante dos vidros do carro, ainda fechados e escurecidos por películas. Elas falam, gritam e pedem por dinheiro. Nenhum sinal de resposta de dentro. Carla fecha os olhos e sorri. Com um gesto, faz o motorista destrancar sua porta. Num movimento brusco, abre a porta, arremessando algumas das crianças que se apoiavam ali diretamente para os buracos que fingiam consertar no dia a dia.

Ela sai do carro, triunfante. As crianças se assustam inicialmente, mas logo se aproximam dela. Até as caídas param de chorar e correm de volta. Carla olha para o vazio, nariz empinado e olhos fechados. Os pequenos formam um círculo ao redor dela, como se fossem mariposas atraídas para uma lâmpada. Por alguns segundos, forma-se quase que uma cena religiosa, Carla ao centro, com sua roupa de odalisca, e as crianças num abraço coletivo olhando esperançosas para seu rosto, enquanto buscam bolsos e objetos valiosos tateando seu corpo. Carla fica ali por algum tempo, silenciosa.

Logo pode se ouvir o som das portas das vans negras se abrindo, e de dentro delas, uma dúzia de homens vestindo ternos pretos, com armas nas mãos. Eles aproveitam a distração dos jovens e formam um círculo ao redor de Carla e das crianças. Ela finalmente abre os olhos, e vira sua atenção para um jovem que tentava arrancar um adereço de sua roupa. Sem perder o sorriso, ela estica as duas mãos ao redor do rosto do menino. Ele sorri de volta, ainda tentando roubar aquele pedaço brilhante da saia dela. Com as mãos firmemente presas às bochechas do infante magrelo, ela muda a expressão.

Com um olhar penetrante, ela levanta o garoto no ar, ainda segurando pelo rosto. As outras crianças ficam estáticas. Algumas começam a olhar para os homens armados ao redor, e ficam visivelmente assustadas. Carla aproxima o menino para próximo de seu rosto, e com uma voz muito mais grave e agressiva do que o de costume, pergunta: “Onde está aquele filho da puta do Carlinhos?”. O menino responde com um grunhido. Ela repete a pergunta, subindo o tom da voz e apertando mais ainda o rosto do garoto. Ele tenta dizer algo, mas parece estar impedido pela pressão recebida pelas mãos dela. Carla então solta-o, ele se estabaca no chão e ameaça chorar.

Mas o olhar fuzilante dela o impede. As outras crianças começam a se afastar, mas são mantidas ali pela mira das armas dos seguranças protegendo o perímetro. Várias começam a chorar, algumas se jogam no chão fervente em posição fetal. Carla estica a perna e coloca a ponta do salto no pescoço da criança. “Vou te perguntar só mais uma vez… cadê… o… Carlinhos?”. O menino gagueja algo sobre venda da vila, o que parece acalmá-la momentaneamente. Da mesma forma como saiu do carro, volta abruptamente. Ao fechar a porta com toda a força, acerta mais duas crianças.

Os seguranças se entreolham, e voltam correndo para as vans. Mais um aceno dentro do carro faz o motorista sair a toda velocidade, atropelando algumas das crianças, que caem dentro dos buracos que elas mesmo abriram antes. Tão rápido quanto chegaram, os carros somem dali, deixando um amontoado de crianças confusas e machucadas debaixo da poeira. Carla aponta para uma pequena estrada de terra sem marcação alguma, e logo o comboio vai seguindo por ela, rumo à pequena vila escondida por trás dos montes áridos.

Chegando lá, um pequeno amontoado de casas de pau a pique circunda um minúsculo centro comercial, formado por um bar e uma mercearia. Carla aponta para a segunda. Os carros param diante do pequeno comércio, e ela não espera um segundo para sair. Os seguranças correm para acompanhá-la. A mercearia é apertada, com poucos produtos jogados pelas prateleiras laterais e um balcão de madeira na frente de um homem de pele escura e complexão esquálida. Carla firma a visão nos olhos do homem, e com passos fortes se aproxima dele.

“Bom dia.” – diz o homem.
“Bom dia.” – ela repete.
“No que eu posso ajudar a senhora?”
“Você tem uma pá?”
“Uma pá? Senhora, eu vendo carne seca, queijo, rapadura…”
“E mesmo assim, eu quero uma pá. Você não percebe que eu tenho como pagar?”
“Sim senhora… mas pá eu só tenho uma, a minha.”

O homem aponta para a ferramenta, apoiada na parede traseira da venda.

“Não estou vendendo não.”
“Diga um preço.”
“Não estou vendendo, senhora… eu preciso dela.”
“Diga qualquer preço.”

Ele vacila por alguns segundos, e diz o preço mais absurdo que consegue imaginar: cem. Ela, sem titubear, coloca a mão por dentro do decote e puxa várias notas desse valor. Pega uma delas e coloca sobre o balcão. O homem estica a mão para pegar a nota, mas é impedido pela outra mão dela.

“A pá.”

O homem se volta e pega o instrumento. Coloca a pá deitada por sobre o balcão. Carla solta a mão da nota e completa a transação. O homem sorri feito criança com a nota em mãos. Ela pega a pá com as duas mãos, testa o peso, simula alguns movimentos.

“A senhora deseja mais alguma coisa?”
“Sim.”

Carla acerta um golpe fulminante com a pá na cabeça do homem. Ele berra de dor e cai sentado no chão.

“Não se lembra de mim, Carlinhos? Eu reconheci essa sua cara feia no minuto que te vi…”
“Quem é você?”
“Eu sou a menina que viu a mãe morrer por sua causa.”

Cenas do começo do filme aparecem, com um garoto quebrando a pá da mãe de Carla Perez, que por algum motivo continuava dançando no processo. Depois vemos cenas da mãe de Carla morrendo de tristeza.

“Eu venci na vida, Carlinhos. Mas eu ainda sonho todas as noites com o que você fez. Toda vez que eu danço, eu penso em você, e rebolo com mais força.”

Cenas de Carla Perez com a expressão ausente de sempre, dançando em momentos inapropriados.

“E agora, eu vou renascer… eu vou te deixar no passado, Carlinhos.”

Carla pula o balcão e começa a bater com a pá na cabeça dele, deformando a caixa craniana com cada golpe. O sangue jorra e macha sua roupa de odalisca. Os seguranças parecem em choque com a violência da cena, mas ninguém ousa parar a fúria dela. Com apenas uma mancha de sangue no lugar da cabeça do homem, ela para. A fúria vira calma.

Ela sai da venda, olha para a câmera e faz o sinal da fênix com as mãos, simbolizando seu renascimento.

Fim.


O que você acha?

Não sei se vai dar pra usar tudo, mas tem umas boas ideias aí sim, viu?

Para dizer que agora assistiria, para dizer que tinha que chamar o Tarantino para essa, ou mesmo para dizer que sempre desconfiou que tinha algo a mais naquela cara de monga: somir@desfavor.com

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