Doenças Autoimunes.

Esta semana, quem escolhe a pauta do Desfavor é a nossa queridíssima Lilith, maior ganhadora de bolões da história do blog. O tema de hoje é de interesse público, uma vez que pode afetar a todos nós em algum momento da vida: Desfavor Explica, Doenças Autoimunes.

Normalmente classificamos as doenças pela parte do corpo que elas afetam: doenças cardíacas afetam o coração, doenças neurológicas afetam o sistema nervoso, e assim por diante. Isso faz com que todo o sistema de diagnóstico médico utilize como base principal o local onde a doença se manifesta. Se você tem algum problema no coração, se supõe que tenha uma doença cardíaca. Aí chegam as doenças autoimunes e bagunçam com essa lógica.

Como vocês devem saber, temos um sistema imunológico, encarregado de proteger nosso corpo contra o ataque de micro-organismos externos. É um pequeno exército, formado por anticorpos, que luta e destrói invasores nocivos, como, por exemplo, vírus, fungos, parasitas, germes, toxinas e bactérias. Sem estas células encarregadas de destruir invasores nocivos, morreríamos na primeira gripe. É nosso sistema de segurança. Segue uma explicação sobre ele, de forma grosseiramente simplificada.

Para garantir a segurança do corpo, nosso sistema imunológico mobiliza uma rede se células, tecidos e órgãos envolvidos na nossa segurança. Os soldados são as células brancas (papo técnico: leucócitos). Os soldados são produzidos e migram para quartéis, onde ficam de prontidão e fiscalizando se está tudo bem. Eles são produzidos e armazenados em vários lugares (papo técnico: órgãos ou tecidos linfoides), de modo a assegurar que estejam espalhados pelo corpo todo e podem correr para qualquer lugar em caso de um “ataque”.

Os leucócitos são espertinhos, podem se combinar de várias formas, se adaptar para atacar com mais eficiência. Existem duas divisões de soltados, os da força bruta e os da inteligência. Os da inteligência, são aqueles que traçam a estratégia, sinalizam quem são os invasores e mandam atacar (papo técnico: linfócitos) e os da força bruta são os que vão para a porrada e “engolem os inimigos” (papo técnico: fagócitos).

Ao identificar um “inimigo” (papo técnico: antígeno) o pessoal da inteligência procura nos arquivos se esse intruso já tentou invadir outras vezes e quais foram as armas que o mataram. Se não identifica, manda um ataque genérico, conforme o tipo de invasor que percebe. Se o identifica, manda produzir estas mesmas armas que derrotaram o inimigo uma vez, enviando o pessoal da porrada para acabar com eles. Por isso tomamos vacinas: jogamos invasores calculadamente enfraquecidos, para que nosso sistema imunológico possa bater neles, vencer com folga e guardar em sua memória o que os destróis, assim, quando o ataque real chegar, eles estarão preparados.

Essa equipe é resultado de muita evolução e deu muito certo, tanto que garantiu a sobrevivência do ser humano por séculos, vencendo a tudo e todos. Bom, né? A princípio, sim.

A menos que estejamos diante de uma doença autoimune. Aí não é bom, aí é uma merda. Na doença autoimune o exército que deveria nos proteger contra invasores inimigos surta e começa a atacar o próprio corpo. Os Linfócitos, o pessoal da inteligência, responsável por identificar o inimigo e ordenar o ataque, se confunde e identifica células saudáveis do nosso próprio corpo como inimigo. Ordena o ataque. Resultado: nosso organismo cobre nosso próprio organismo de porrada dia após dia. E fica cada vez melhor nisso, e mais rápido, pois tem um histórico de batalha extenso contra esse “inimigo”.

Cria-se uma situação complicada: é você fazendo mal a você mesmo, não dá para atacar e aniquilar o inimigo, pois o inimigo é você. E, como vimos, o inimigo é muito bom no que faz.

Ainda não se sabe muito bem o que desencadeia uma doença autoimune. Acredita-se que seja uma combinação de genética com algum gatilho externo, como vírus, bactérias, toxinas, infecções, hormônios, estresse, estilo de vida e até traumas, sofrimento ou alguns medicamentos. Ou tudo junto. Vários destes fatores podem se juntar e contribuir para que o nosso sistema imunológico enlouqueça. É difícil estabelecer um denominador comum, porém, ao que tudo indica, é comum que, independente da causa, o estopim inicial seja uma grande baixa no sistema imunológico.

Nas últimas décadas tivemos um aumento significativo de doenças autoimunes. Ainda não se sabe ao certo o motivo, mas acredita-se que seja culpa do estilo de vida: poluição que nos expõe a toxinas, alimentação com muita química, poucas horas de sono, estresse e outros problemas modernos dos quais quase nunca conseguimos escapar. Um organismo debilitado e sobrecarregado tende a falhar no discernimento. Hoje, estima-se que cerca de 20% da população mundial sofra com alguma doença autoimune.

Para complicar a situação, elas podem aparecer a qualquer momento em qualquer pessoa. É comum que pessoas adultas desenvolvam “do dia para a noite” uma doença autoimune. Quando não se sabe ao certo de onde vem, em quem vem e quando vem, não se sabe como prevenir.

Para complicar mais ainda, sintomas das doenças autoimunes costumam ser muito vagos, o que as tornam de difícil diagnóstico. Em uma generalização muito grosseira, já que existem mais de cem doenças autoimunes, os sintomas iniciais mais comuns tendem para fadiga, dor de cabeça, déficit de atenção, ansiedade, alergia, problemas no sono, ganho ou perda de peso, febre baixa persistente e exaustão. Quem nunca teve pelo menos metade desses sintomas em algum período? Arrisco dizer que quase todos nós nos sentimos assim em alguns momentos da vida.

Então, temos sintomas iniciais comuns, que nem sempre incomodam o suficiente para serem percebidos ou para procurar um médico. Temos uma doença que não se sabe de onde vem, que pode afetar qualquer um em qualquer idade. O resultado dessa equação cruel é que, na maior parte dos casos, pessoas com doenças autoimunes demoram anos para serem diagnosticadas da forma correta. Basicamente, você tem sorte se for diagnosticado nos cinco primeiros anos, pois geralmente, no Brasil, demora mais. E nessa demora, os danos vão se acumulando. Novos sintomas mais graves aparecem.

Outro fator que complica a vida é que, como nunca se sabe exatamente contra qual parte do corpo o próprio corpo vai atacar, é possível dizer que uma doença autoimune pode causar todos os sintomas do mundo: se os anticorpos se voltam contra o pulmão, você vai ter sintoma de doenças problemas pulmonares, mas se eles decidem se voltar contra seu sistema nervoso, você vai ter sintomas de doenças neurológicos.

Assim, doenças autoimunes podem ter todos os sintomas do mundo e atacarem qualquer parte do corpo. Não é a toa que no seriado House sempre se pensava em uma doença autoimune como Plano B, elas podem ser confundidas com qualquer outra doença.

Além disso, são muitas e cada uma tem dezenas de possibilidades de sintomas, então, também é provável que um clínico geral não perceba exatamente do que se trata. Como costumam dizer nas faculdades de medicina: se você ouvir cascos, presuma que são cavalos. Só se pensa em zebras depois que se descartam os cavalos. E descartar os cavalos pode demorar. Cá entre nós, no Brasil tem médico que nem pensa nas zebras e que muitas vezes nem conhece as zebras. Tudo são eternos cavalos (papo técnico: virose ou psicossomático).

É difícil listar todas as doenças autoimunes, são mais de cem, fora as possíveis combinações entre elas e seus sintomas. Como foi dito, doenças autoimunes podem causar basicamente qualquer sintoma. Então, quando desconfiar de uma doença autoimune? Quando o problema não se resolve. Tratou alguma coisa e não resolveu? O problema vai e volta? Ninguém tem muita certeza do que você tem? Já foi tratado para várias coisas e não ficou 100% bom? Melhora mas não passa? Está recebendo diagnósticos conflitantes? Pode ser uma doença autoimune.

O que fazer? Marque uma consulta com um bom Imunologista, daqueles que vai fazer uma longa e atenta consulta, observando não apenas os sintomas físicos, como também o histórico clínico e de vida do paciente. Se você tiver uma doença autoimune, ele é a pessoa mais indicada para te diagnosticar.

Não é coisa da sua cabeça. Não deixe que te convençam que é coisa da tua cabeça. Nosso corpo sabe muito mais do que qualquer médico e ele fala com a gente, basta que escutemos. Então, se você tem alguns sintomas ou desconfortos que não passam e ninguém consegue te dizer ao certo o que é, não aceite diagnósticos como “é psicossomático”. Não aceite antidepressivos. Não aceite nenhum diagnóstico onde a culpa seja sua, o problema seja imaginário. Não é coisa da sua cabeça, não é Síndrome de Munchausen. É médico cu mesmo. Imunologista, quantos sejam necessários, até descobrirem o que você tem.

Uma vez feito o diagnóstico, existem diversos tratamentos possíveis. Estas doenças costumam ser mais difíceis de tratar graças a sua origem: quando um agressor externo entra no nosso corpo, a gente bombardeia ele com tudo que pode até destruí-lo por completo mas… quando é o próprio corpo quem causa o estrago, é sempre mais complicado, pois não dá para ataca-lo sem dó.

As doenças autoimunes não tem “cura”, mas existem casos onde, sabe-se lá por qual motivo, ela regride sozinha. Pode acontecer delas desaparecerem da mesma forma que apareceram: do nada, sem explicação, mas não há garantias. Os tratamentos são variados, dependendo da área que o corpo resolveu atacar, porém, não podem ser muito agressivos, pois como já foi dito, não faz sentido detonar o próprio corpo para que o corpo não detone o próprio corpo.

É um delicado equilíbrio, onde deve ser avaliado quem vai fazer mais mal ao paciente: o próprio organismo ou o remédio que vai atacar o próprio organismo. É tentativa e erro, observando como o organismo reage, por isso pode demorar algum tempo até que se ache o remédio ou a dose ideal e corpo estabilize. Uma vida saudável, com boa alimentação, horas de sono suficientes, níveis de estresse controlados e prática de atividades físicas na medida do possível ajudam muito na qualidade de vida.

Quem tem uma doença autoimune tem mais propensão a desenvolver outra doença autoimune, por isso, é indispensável um acompanhamento constante para avaliar não apenas a progressão da doença diagnosticada como também ficar de olho se ela não trouxe um amiguinho para jantar. Ao menos a segunda será diagnosticada precocemente e terá mais chances de um tratamento bem sucedido.

As doenças autoimunes não são contagiosas, ou seja, não são transmitidas de uma pessoa para a outra. Pode abraçar, pode beber no mesmo copo. Porém, há indícios de que sejam hereditárias. Então, se você tem casos de doenças autoimunes na família, fique atento. Vale até uma consulta a um especialista para avaliar o que você pode modificar no seu estilo de vida para reduzir a propensão de um gatilho ambiental que desencadeia essa possível doença. É mais fácil prevenir o fogo do que apagar o incêndio.

O tratamento geralmente consiste em sossegar um pouco o sistema imunológico, uma vez que ele está atacando o próprio corpo, mas não muito, caso contrário ele não atacará os invasores reais. Um equilíbrio delicado de se conseguir, que, como já foi dito pode demandar algum período de ajuste. No geral, são usados corticoides para isso.

Já existem pesquisas promissoras na área, afinal, uma doença que afeta 20% da população é um mercado e tanto. A ideia é substituir os linfócitos que acham que as células saudáveis do corpo não são inimigos por outros novinhos, sem esta percepção. Os linfócitos confusos que atacam o próprio corpo seriam eliminados e novos linfócitos zerados, criados artificialmente a partir de células tronco, seriam colocados no lugar. O grande limitador no tratamento sempre foi deixar a pessoa sem sistema imunológico, vulnerável a invasores externos, então, a partir do momento que se consegue fabricar um novo sistema imunológico que não esteja bugado, a coisa se soluciona. Ainda estão estudando como fazer de uma forma segura, mas estima-se que em questão de anos teremos algum progresso.

As doenças autoimunes mais conhecidas são: Diabetes, Vitiligo, Doença Celíaca, Alopecia, Doença de Crohn, Hepatite Autoimune, Guillain-Barré, Esclerose Múltipla, Dermatite Atópica e Lúpus. Mas existem muitas outras, inclusive com sintomas muito parecidos entre si, basta dar uma procurada no Google que você acha uma lista completa. Meu conselho é que não fique com apenas um diagnóstico, pois doenças autoimunes são o Everest dos médicos. Escute ao menos uma segunda opinião, pois mesmo imunologistas podem confundir os sintomas e aos doenças.

Escute seu corpo. Tire dez segundos por dia para prestar atenção no funcionamento do seu corpo, no que você está sentindo. Se você sente um mal estar, sente que tem algo errado, lute por um diagnóstico, pois ninguém vai fazer isso por você. Não aceite negativa de médico se você sente que tem algo errado, você sabe melhor do que ele o que está acontecendo com o seu corpo. Procure segunda, terceira, quarta… milésima opinião. Uma hora a verdade aparece.

Para dizer que agora vai ficar sugestionado achando que tem uma doença autoimune, para dizer que achou a postagem bem alto astral para uma terça de carnaval ou ainda para dizer que quando o Stan Lee foi para o hospital este ano você teve a certeza de que a Lilith ganharia em 2018 também: sally@desfavor.com

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