Tem coisas que só acontecem aqui… talvez para conhecer melhor os vizinhos logo acima do períneo, C.U. escolheu um tema bem escroto para hoje. Normalmente um tema relevado para discussões sobre a dor que causam, os testículos e arredores são sistemas complexos que os próprios homens tendem a não conhecer tão bem assim. Então, sem mais delongas, desfavor explica: saco.

Como tudo relacionado com sexo, poderia passar parágrafos falando de gírias e apelidos para a área, mas vamos tratar como saco mesmo. E não é termo chulo: você pode chamar de saco ou bolsa escrotal numa boa porque esse é o nome mesmo. O saco nada mais é do que um mecanismo do corpo de vários tipos de mamíferos cujo objetivo é regular a temperatura dos testículos. Porque sim, saco e testículos são coisas diferentes. O saco, como o nome faz ser óbvio, é o envelope que protege esse conteúdo.

Os testículos são as gônadas masculinas, vulgo as partes do corpo de um animal sexuado que produzem as células reprodutivas. Dentro dos testículos – o par que faz volume dentro do saco – são criados os espermatozoides, aqueles pobres coitados que 99,99% das vezes que são ativados, não chegam nem perto de um óvulo. E para produzir o esperma, existe uma temperatura ideal que não bate com a temperatura média do corpo da maioria dos mamíferos. É pouca coisa de diferença, algo em torno de dois graus a menos (35 ao invés dos 37 naturais), mas essenciais para a eficiência do processo.

Se os testículos estão muito quentes ou muito frios, não conseguem produzir espermatozoides em quantidade ideal, ou nem produzir de vez. É por isso que no humano e em vários outros animais, os testículos ficam nessa bolsa escrotal, pra fora do corpo. Sim, as bolas ficam onde ficam para melhor ventilação, e a evolução tratou de garantir que os machos tivessem um avançado sistema de elevador para os testículos. Quando precisa esfriar, solta a corda e deixa ele bem afastado do calor natural do corpo. Quando precisa esquentar, o elevador traz eles para dentro.

Os testículos ficam “pendurados” do corpo, com um feixe de artérias, veias, vasos linfáticos e nervos além de um canal muscular chamado duto deferente (não é com i pra ser diferente…) que leva os espermatozoides até a próstata. Essa é a corda do elevador, presa no abdômen e ativada por questões de temperatura, excitação sexual ou mesmo medo (melhor deixar a dupla bem protegida se parece que vai rolar briga). Homens tem um certo poder sobre esse processo, conseguindo dar umas puxadinhas na corda se fizerem força, mas não o suficiente para subir ou descer as bolas de vez.

Testículos não aumentam ou diminuem consideravelmente durante suas atividades normais, respeitando mais ou menos a mesma lógica de outras partes do corpo, a diferença de tamanho vista entre diferentes momentos se deve apenas à posição deles em relação ao corpo, tem espaço para que eles entrem e fiquem bem escondidos logo abaixo do pênis. O que normalmente gera aquela pele dura e enrugada que faz o saco parecer uma noz, a pele que forma o saco precisa ser bem elástica para lidar com as bolas totalmente soltas e totalmente escondidas. E se você é mulher e acha aquela coisa enrugada feia, está cuspindo pra cima: a pele do saco é a mesma pele dos grandes lábios femininos. Se você já viu um bem de perto, sabe que tem uma linha passando bem no meio do saco, como se tivesse sido colada para fechar. Pois bem, vejam só… foi mesmo. Como o feto humano “começa” mulher, na hora de transformar em homem, os protótipos de grandes lábios se fecham, os ovários descobrem que precisam virar testículos… e assim continua o processo.

Falando em diferenciação, os testículos também produzem a testosterona. Homens e mulheres tem uma quantidade natural do hormônio, mas por causa de um órgão focado nessa produção, os homens acabam com entre 20 a 30 vezes mais concentração desse hormônio no corpo. A vantagem física do homem está literalmente no seu ponto mais vulnerável. E sim, temos que falar disso: sacos doem. Sacos doem muito se atingidos por impactos. Todo mundo sabe que na dúvida, todos os homens podem ser derrubados por uma porrada violenta na área, e não é à toa: é uma área extremamente importante para a viabilidade sexual masculina, o que faz o cérebro multiplicar muitas vezes o grau de preocupação com impulsos de dor na área, e como é cheia de nervos, é extremamente sensível de qualquer forma. Como eu disse antes, numa situação de medo de violência física, os testículos são chamados de volta para evitar estragos maiores. O que não impede que um chute bem dado vá doer imensamente, mas tende a salvar a viabilidade futura das gônadas.

E por esse viés, dá pra entender também a famosa solidariedade na dor escrotal que homens sentem. O cérebro masculino sabe tão bem que tem um ponto igualmente importante como vulnerável ali, é algo que o homem sabe instintivamente que tem que proteger. Isso faz sim com que fiquemos impressionáveis com a dor alheia. Sacos doem e começam a retrair quando se vê outros sacos serem abusados. Acho um argumento merda na maioria das vezes, mas aqui vale: tem que ter um pra entender.

O que não precisa de experiência própria pra entender é porque muitos homens reclamam de dores no saco quando ficam sexualmente excitados muito tempo sem conseguir gozar: o corpo manda um sinal de atenção para as bolas, fazendo com que a “corda” fique tensionada enquanto o homem está tendo uma ereção. E o sinal de soltar a corda só é enviado depois de acabar a excitação sexual, seja por abandono do motivo ou por uma ejaculação. Se nenhum desses casos acontece, a tensão na corda pode gerar uma câimbra, que passa depois de algum tempo, mas enquanto dura (ha!) é bem incômoda.

Falando da parte sexual ainda, os mesmos motivos que tornam o saco tão sensível para dor o tornam uma zona erógena eficiente. Desde, é claro, que tratado com o devido cuidado. Os testículos reagem muito mal a impactos, mas podem sofrer pressão sem gerar dor. Claro, esmagar dói sempre, mas bolas não são feitas de cristal (ha?). Talvez a melhor comparação sobre o quanto um saco genérico pode ser manipulado sem ficar dolorido seja a pressão necessária para apertar uma gelatina sem ela se desfazer. Sim, tem homens que acham o máximo levar pancada ou apertões nas bolas, mas é meio que nem mulher e sexo anal: o fato de algumas toparem não significa que não doa pra caralho pra maioria. Cada homem tem sua relação personalíssima com como lida com o saco na hora do sexo, mas que tem todos os elementos de zona erógena, tem. E, durante o sexo, de acordo com a posição, o saco tem o bônus de estimular a parceira. O que pode explicar o tamanho bem padronizado do macho humano. É vantagem evolutiva numa espécie que dá tanto valor ao prazer no sexo ter uma ferramenta a mais, passa pra frente.

Falemos de aparência: é comum que uma bola fique um pouco mais baixa que a outra. Um dos tubos tende a ser mais longo que o outro e a maioria dos homens não tem bolas simétricas, pelo menos não em quanto elas descem. Não existem certeza sobre o motivo disso, mas a ideia mais aceita é que essa pequena diferença de altura seja mais eficiente na hora de baixar a temperatura, expondo mais dos testículos ao ar frio do exterior. O testículo humano (adulto) tem em média 5 centímetros de altura e 3 de largura, podendo variar de acordo com o tamanho do cidadão, mas raramente fugindo muito dessa regra. Já estabelecemos aqui que muito o que se entende como saco grande ou pequeno está relacionado com a temperatura do momento e o quanto os testículos estão pra fora. Tanto que é normal dizer que homens mais velhos tendem a ter sacos grandes: na verdade, com os músculos que seguram a corda enfraquecidos e menos relevância reprodutiva, as bolas não tem mais motivação para ficarem pra cima.

Uma confusão comum é achar que o líquido do esperma fica armazenado nas bolas. Na verdade, o líquido seminal – que é a parte sem espermatozoides da ejaculação – é produzido em conjunto pelas vesículas seminais (que ficam abaixo da bexiga) e pela próstata. A próstata pega os espermatozóides enviados do testículo e mistura nesse líquido antes deles serem expelidos para o mundo. Até por isso que é possível fazer homens gozarem pela próstata, inclusive como um procedimento médico nem um pouco erótico em natureza quando necessário. Quem faz as coisas saírem é ela, e não os testículos.

Sacos coçam. Sacos coçam como qualquer outra parte do corpo, e como ficam o dia todo escondidos dentro de cuecas e calças, existe uma tendência de ficarem mais incomodados. Não justifica o homem que sai coçando na frente de todo mundo, mas mesmo assim, não é só vontade de ficar com a mão lá. Aliás, homens que se sentem ameaçados ou que querem estabelecer alguma forma de dominância tendem a colocar a mão nas bolas instintivamente. Como vimos, é ao mesmo tempo o lugar mais vulnerável do corpo masculino e o responsável por basicamente todas as características que definem o gênero. Novamente, não justifica quem fica pegando no saco na frente dos outros, mas se você passar por essa situação escrota, saiba que o cidadão está dando bandeira de insegurança de alguma forma.

E eu acho que vou terminando por aqui, estou de saco cheio.

Para dizer que essa foi uma semana iluminada (não acabou), para dizer que agora sabe várias coisas que não vai ter como usar, ou mesmo para dizer que eu já gastei todos os trocadilhos e nem tem o que comentar: somir@desfavor.com

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Comentários (11)

    • Que bom que você não achou um… é… a piada esgotou. Mas sempre bom saber que a pesquisa e as inúmeras fotos que apareciam nelas não foram sofrimento em vão.

  • Somir, por que às vezes depois de ejacularmos (isso soou estranho) e ir pra transa pouco tempo depois é comum o pênis ficar “motivado”, mas não ejacular novamente, e em outras vezes a ejaculação vem?
    O saco produziu esperma naquele curto período?

    Dizem na internet (a internet é um lugar fantástico) que a produção de esperma gasta energia e testosterona, e quando o homem fica muito tempo sem gozar entra no modo “caçador”, muito mais facilmente atiçado. Por isso tem crescido o movimento NoFap, evidenciando as possíveis benesses de não se masturbar. Gostaria que você fizesse um texto sobre o tema.

    • Espermatozoides e líquido seminal são coisas distintas que são misturadas “na hora” pela próstata. O saco não faz o líquido seminal (não a maior parte dele), então o que tem estocado é usado. Às vezes tem pra dois ou mais tiros, às vezes tem que esperar fazer mais. Espermatozoide sai em basicamente todas as vezes.

      Vou analisar melhor isso do NoFap

  • Bem, após ler o texto, lembrei da Elaine Benes do Seinfeld: “I don’t know how you guys walk around with those things!”.

  • Vcs reclamam que parto é feio, mas saco é um bagulho horrível! Feio e incômodo. Entendo mulher ser lésbica e homens virando trans. Não tem coisa mais feia que umas bolas enrugadas penduradas.

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