Reagir à música (ou qualquer batuque ritmado) é uma das atividades mais comuns na humanidade, tendo raízes quase que instintivas. Agora, dançar com alguma qualidade já é algo mais complexo. Sally e Somir discutem a capacidade de dar mais esse passo, os impopulares seguem seu ritmo.

Tema de hoje: todo mundo pode aprender a dançar?

SOMIR

Não. Existem limitações em cada ser humano, não necessariamente por incapacidade total, mas por um conjunto de fatores único a cada pessoa que dita o que elas provavelmente vão conseguir ou não fazer em suas vidas. Evidente que em um caso extremo como ter que aprender a dançar para salvar a própria vida as coisas mudam de figura, mas isso simplesmente não acontece na realidade. Seria uma premissa para um filme bem tosco, no máximo.

Se a pergunta fosse que todo mundo pode aprender a sobreviver na selva, eu provavelmente concordaria. Afinal, em situações limite existe um incentivo imediato a colocar seu foco e energia em algo, mas com uma atividade feito a dança, não é realista esperar que alguém que não tem saco pra isso vá alcançar o que é necessário para ficar bom nisso. É mais ou menos como perguntar se todo mundo pode aprender a jogar xadrez em nível profissional: não é o fato de ter um cérebro e coordenação motora para mexer as peças que vai fazer alguém se aprofundar o necessário nisso, por mais que queira.

Muito bonito o discurso de que conseguimos fazer qualquer coisa se nos esforçarmos, mas isso tem toda a cara de ilusão: conseguimos fazer qualquer coisa que temos pré disposição para fazer. Muitas pessoas simplesmente ainda não sabem o que são suas capacidades potenciais, o discurso de incentivo serve mais para te dizer que você ainda não sabe tudo o que vai conseguir aprender, por isso vale arriscar. Mas não quer dizer que todas as avenidas estão abertas para você. Você pode se surpreender com o que é capaz de fazer, mas não vai descobrir que pode fazer qualquer coisa que outro ser humano faz. Algumas delas exigem sacrifícios que você é incapaz de fazer, ou um desenvolvimento físico e intelectual que não tem mais como alcançar na sua fase atual da vida.

Por sorte, tem tanta coisa para aprender e fazer nesse mundo que algumas limitações não são motivo de depressão: pense que por pura falta de tempo, você com certeza não conseguiria fazer tudo mesmo, mesmo que estivesse se dedicando com todas suas forças. E ainda bem: imagina só ficar explorando todos seus potenciais o tempo todo? Não teria tempo nem pra relaxar e curtir as tantas outras coisas que outras pessoas estão fazendo por aí. Então, quando eu digo que algumas pessoas não são capazes de aprender a dançar, estou só dizendo que tem uma coisa que ela não vai explorar. Podia ser confecção de bolos, alpinismo ou equações diferenciais…

Argumento pela incapacidade não porque acho que algumas pessoas não conseguem mexer o corpo da forma como a dança exige, e sim porque é natural que alguns de nós não tenham o interesse mínimo necessário para levar isso em frente, porque alguns de nós querem fazer outras coisas e concentrar seu tempo em algo que as fascine de alguma forma. Especialmente se você já é adulto, as coisas que aprendeu e ficou bom em fazer já indicam o tipo de foco que você tem. Mesmo quando a pessoa supostamente se reinventa, é mais uma descoberta de algo que já estava lá dentro do que uma virada total de funcionamento do cérebro.

Quantos executivos do setor farmacêutico se redescobriram como snowboarders? Não funciona bem assim. Uma série de fatores que vão desde genética até criação vão formando nossas capacidades de priorizar aprendizados e atividades durante a vida. Quem tem zero interesse ou admiração por dança nunca vai fazer direito, porque aprender algo é conseguir manter algo: quantas coisas você já aprendeu e esqueceu? Por ter aprendido alguma coisa de matemática na escola você diz que sabe fazer isso agora? Não existe aprender de verdade se você não for capaz de manter isso.

Decorar algumas coreografias que você despreza para nunca mais ter vontade de fazer aquilo de novo configura aprender a dançar? Porque assim que o cérebro for reescrevendo aquela coisa chata que não te cativou para começo de conversa, você vai cair para um nível bem mais baixo. Dança exige dedicação e gosto. Se você acha aquilo um saco e as músicas que gosta não exigem coreografia, só vai gerar reforços negativos no seu cérebro, e fazer as coisas com mais e mais má vontade. Não existe aprender o que não gosta, existe decorar. Decoreba de dois movimentos não configura a capacidade de dançar.

E outra, a não ser que você tenha prazer intrínseco em se desafiar a fazer algo e aquele orgulho interno de não parar enquanto não estiver fazendo bem, nem mesmo gasta energia na marra vai te ajudar. E, spoiler: poucas pessoas nesse mundo tem esse tipo de energia interna. Quer maior prova que as pessoas em média não tem capacidade de aprender qualquer coisa? Incompetência. Pra todos os lados que você olha, você vê gente que é ruim no que faz não porque começou ontem, mas porque simplesmente não parece entender o que configura qualidade e excelência naquilo.

Eu tenho um olhar para excelência muito bom para diversas artes, mas dança é uma que uma pessoa ruim e uma espetacular quase que não gera diferença percebida. Parecem duas pessoas tendo uma convulsão ritmada, mas uma delas parece um pouco menos ameaçada de cair no chão. Eu SEI que para quem sabe olhar tem uma diferença imensa, aceito a opinião numa boa de quem tem esse amor pela dança, mas eu mesmo? Falta o foco mental para entender tudo aquilo. Não adianta dar murro em ponta de faca: seu cérebro tem uma linha guia mínima, e você está pendurado nela a vida toda. A linha é muito elástica, claro, mas é papo furado isso que você pode fazer tudo o que quiser… não, não pode. Você vai ser ruim em várias coisas nessa vida, e nada mais natural do que isso.

Para dizer que adora começar a semana com anti-auto-ajuda, para dizer que é só desculpa pra não dançar, ou mesmo para dizer que também acha que é convulsão ritmada: somir@desfavor.com

SALLY

Todo mundo pode aprender a dançar? Sim. Por mais que você ache que não, a resposta é sim.

Dança é aprendível sim senhores. Algumas são bem fáceis, outras bem difíceis, mas todas podem ser aprendidas. Obviamente as limitações corporais de cada um (fôlego, elasticidade, força, etc) influenciarão no desempenho, mas aprender a dançar, todo mundo pode. Quem está falando é uma pessoa com mais de 25 anos de dança. Podem confiar.

É quase que matemático. Simplificando de uma forma muito, muito, muito grosseira, toda música pode ser dividida em vários trechos de oito tempos. Basta fazer seus movimentos dentro desses oito tempos. Em algumas músicas ele é contado de forma mais lenta, em outra mais rápida. Basta sincronizar seus movimentos com o tempo da música e executá-los nessa sincronia. Com o tempo você vai percebendo que batidas mais fortes pedem movimentos mais duros e trechos mais suaves pedem movimentos mais leves. Com o tempo você vê os movimentos que ficam bonitos em você e os que ficam grotescos, estilo Happy Feet dançando. É prática.

Tanto o tempo da música como a forma mais bonita de executar esses movimentos podem ser aprendidos e aprimorados. Muita gente adora se sentir especial, aquele floquinho de neve único e diferente de todo o resto, dizendo “não adianta, eu não consigo dançar”. Já tentou aprender? Porque ninguém nasce sabendo fazer nada nessa vida, a não ser cagar. Tem gente que aprende de primeira, tem gente que demora meses, mas eu garanto a vocês: todo mundo pode aprender a dançar. Basta se dedicar.

“Ah mas eu não levo jeito”. Beleza, vai demorar mais, mas vai aprender. “Ah mas eu não tenho interesse”. Eu não tinha interesse em metade das coisas que aprendi na escola, no entanto, tive capacidade de aprendê-las. Querem a verdade nua e crua? O que mais impede as pessoas de dançar são: medo e vergonha. O medo de errar, o medo de dar vexame, o medo de não conseguir. Vergonha de não saber fazer direito, de ser alvo de olhares, de receber atenção em um momento de “fracasso”. Spoiler: todo mundo que sabe dançar hoje já passou pela fase de aprendizado, onde não soube fazer direito, onde errou, onde fez movimentos grotescos e descoordenados. É uma etapa do aprendizado, não motivo para fechar uma porta.

Meus amores, é algo que pessoas analfabetas fazem. Não deve ser tão difícil, não é mesmo? “Ah, mas eu sou mais intelectual, não levo jeito para essas coisas com corpo”. Bora parar com essa crença limitante que o intelectual é inversamente proporcional ao físico? Vamos ser adultinhos inteiros e aceitar com o coração aberto que dá sim para ser bonzão no intelectual e bonzão no físico? Não precisa escolher, dá para fazer ambos bem direitinho. Inclusive recomendo, um intelecto em um corpo bichado não vai longe. Dança gera inúmeros benefícios físicos e mentais, desde redução das chances de Mal de Alzheimer até retirada de insulina de diabéticos (já vi, ninguém me contou).

A grande verdade é que, como qualquer atividade, dança requer aprendizado e prática. Se você sentar diante de um piano e tentar tocar, vai sair algo bonito? Não, vai ficar uma porcaria. Você pode sentar à frente do piano todo santo dia por anos, que se tentar tocar na base da “inspiração” vai continuar saindo uma titica. Para tocar piano você tem que pedir que alguém que sabe te ensine, observar, treinar, aprender. Pois bem, o mesmo vale para a dança. Quando a gente vê alguém dançando bem, parece fácil, parece natural, parece dom. Não é. Aquela pessoa se deixou ensinar, observou, treinou. Faça o mesmo e com o tempo você vai dançar.

O problema é que a dança, como a maior parte das atividades físicas, é muito desprestigiada. Dança não tem muito valor, então, as pessoas nem cogitam investir nesse tipo de aprendizado. Toca uma música: se a pessoa consegue dançar esteticamente ok, se não consegue decreta que não leva jeito e não sabe. Ridículo, né gente? Se quer aprender, você precisa de aulas, precisa de um professor, precisa investir tempo, executar, ser corrigido. Você fez isso?

Eu posso aceitar tranquilamente o argumento de que “eu não quero investir em aprender a dançar pois tenho outras prioridades que considero mais importantes”. Tá joinha, cada qual sabe da sua vida. Mas diga as coisas como elas são: uma escolha, não uma incapacidade sua. Você não quis investir nesse aprendizado, contratar um professor, gastar horas semanais, ensaiar, ler a respeito, ver outras pessoas dançando para tentar absorver algo. Foi escolha, não impossibilidade.

“Ah, mas eu não gosto”. Meu anjo, eu não gosto de matemática e tive que aprender esse cacete. Eu nutro um profundo desinteresse por criança e hoje sei mais do que muita gente que tem filho por ter me relacionado com uma pessoa que tinha filho (se é pra fazer, vamos fazer direito). Nem você nem eu precisamos gostar ou ter interesse em algo para aprender, basta ter dedicação. Se existe algum bom motivo para te levar a aprender (dinheiro, uma pessoa especial ou qualquer outra razão), você vai aprender. Ponto final.

Tem idoso de 80 anos que dança. Tem criança com Síndrome de Down que dança. Tem muita gente em condições muito menos privilegiadas que a sua que dançam. São fodas? Tem um dom? Não, são apenas um pouquinho mais humildes e aceitaram ser ensinadas, investir na dança e praticar. Muito mimadinho pensar que, por não ter nascido sabendo você deve desprezar totalmente a atividade. Se você quer dançar, você pode dançar.

Vai ser o melhor do mundo nisso? Vai ganhar prêmios? Provavelmente não. Mas vai sabe dançar sem parecer um lêmure do filme Madagascar. Mas se dedicar que é bom, ninguém quer. Mais fácil decretar que não nasceu para isso, que é impossível e vida que segue. Isso não se chama incapacidade, se chama desistência. Tem duas pernas e dois braços funcionais? Tem audição? Tem visão? Pode dançar. É só se deixar ensinar e se dedicar.

Para dizer que agora vai ficar o resto do dia cantando “Eu me remexo muito”, para dizer que se eu tenho mais de 25 anos de dança eu sou velha ou ainda para dizer que só passou para ver se a maldita semana nerd tinha acabado: sally@desfavor.com

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Comentários (14)

  • Sally, mas tu diz que qualquer um pode aprender a dançar desde que não tenha nenhuma limitação física/motora/cognitiva etc, né? Porque eu já vi gente ter sérias dificuldades com determinados estilos de dança.
    Lembra de eu ter comentado que dancei durante toda infância ballet e jazz? Pois é, já vi com meus próprios olhos ter gente que desiste lá no meio do intermediário porque não dá conta de realizar os passos mais avançados, mesmo com todo o preparo e alongamento previamente necessário. Ok que no caso do ballet/jazz tem também a questão da dor: vai lá fazer pontas e meias pontas com demi-pliés, arabesques e saltos com giros pra ver uma coisa… Tem que saber senti-la, resisti-la. Muita gente não resiste daí desiste.

    • Mas não precisa fazer os passos mais difíceis de todos para dançar. Qualquer dança tem um básico que qualquer pessoa pode fazer.

      Além disso, estamos falando de desistência. Desistir não é não conseguir, é não querer continuar tentando…

  • Aprender os passos realmente com tempo e esforço acho todo mundo pode aprender. Mas dançar com desenvoltura exige gosto pela coisa.
    Vi um apresentação uma vez onde os passos eram feitos milimetricamente corretos mas o casal em questão era todo robótico esquisito.

  • lembrando que fui fazer uma oficina de dança do ventre e fiquei tão envergonhada da minha falta de jeito que nem fui nas outras aulas… bem, pelo visto eu estava errada. vou continuar insistindo

    • Maya, dança do ventre é, na minha opinião, uma das danças mais difíceis. Demora no mínimo seis meses para que você consiga dançar um pouquinho de forma digna.

  • Innen Wahrheit

    Acho que descobri o motivo de eu achar este conteúdo não necessariamente ruim, mas menos interessante que o dos outros dias.

    Ao elaborar a pergunta, assumiu-se o conceito de dança como “arte”, ao atribuir a ela um “aprendizado”, o qual condiciona a “qualidade” de sua prática.

    E mesmo com tantas variáveis definidas, não vejo uma resposta razoável ou conclusiva.

    (seria esse o propósito?)

    (em tempo: não é uma crítica ao conteúdo… só estava pensando aqui)

  • Sério que isso precisou ser discutido???

    Desculpa aí, Somir, mas qualquer um pode aprender a dançar sim.

    “Querem a verdade nua e crua? O que mais impede as pessoas de dançar são: medo e vergonha.” <<< THIS

  • Qualquer pessoa pode aprender qualquer coisa, menos a minha tia de 73 anos, que não consegue aprender a mexer em smartphone nem computador. Tem curso pra idosos, mas tenho medo de pagar e ela não aprender.

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