Quando ou como?

A única certeza da vida é a morte… mas e se desse para ter uma certeza mais aprofundada? Sally e Somir discutem suas preferências caso sejam obrigados a saber mais do que desejam sobre sua mortalidade. Os impopulares sopram vida nova no tema.

Tema de hoje: você preferiria saber quando ou como vai morrer?

SOMIR

Atenção, quando OU como. Na hipótese que levantamos hoje, algum ser ou entidade te dá a escolha de saber quando será a data da sua morte com imensa precisão ou saber em detalhes como sua morte ocorrerá. Não se pode saber as duas coisas ao mesmo tempo. Com essa escolha em mãos, eu acredito que seja melhor saber a forma como se vai morrer, mesmo sabendo que não vai ser a escolha mais popular.

Mas eu pretendo fazer uma análise mais completa: em primeiro lugar, presume-se que quem te deu essa informação está correto. Afinal, se uma pessoa aleatória te der essa informação, a tendência é que você nem dê bola (ou pelo menos não deveria). Até aqui nossa única certeza é que acreditamos na informação o suficiente para pautar a continuidade da nossa existência sobre ela. O que não quer dizer exatamente que vai acontecer. Seja lá o seu grau de confiança na fonte da data ou modo da sua morte, vai precisar viver (ou morrer) a situação para confirmar, correto?

Enquanto você não estiver morto, a informação existe num plano paralelo entre mentira e verdade cujo tempo pode e vai acabar modificando. Não necessariamente a realidade do fato, mas o quanto você acredita ou não nele. E até o fato se concretizar, você continua livre para modular sua certeza pessoal sobre os dados da sua morte. E é aí que saber como pode ser mais tolerável do que saber quando, na continuidade da sua vida.

Se você sabe quando vai morrer, é retirado de você o simples direito de escolher quanto tempo quer viver. Se te dizem que você vai morrer em 10 anos, você sabe que é imortal por esse período de tempo. Porque se a informação é correta, nem mesmo botando uma arma na cabeça e puxando o gatilho você vai conseguir mudar o fato. Agora, se houver algum erro na informação passada, você vai descobrir da pior forma possível. Saber quando vai morrer é perder o poder de escolha de se matar antes dessa data, ou é um convite a tentar as ações mais suicidas possíveis pelo simples fato de se considerar temporariamente invulnerável.

E é aí que voltamos com o quanto de certeza você vai ter sobre a informação dentro da sua cabeça. Imagine a tortura mental de contemplar total ausência de consequências (de morte, pelo menos) pelas suas ações regulada pela crença na profecia sobre a data da sua morte. Duvido que alguma pessoa consiga viver em paz com essa ideia. Se você acredita, pode virar um super herói imortal pelo tempo que te resta, mas tem que acreditar o suficiente para arriscar a morte. E ao arriscar a morte, você pode estar se provando um imbecil por só descobrir que a informação estava errada ao perder seu bem mais valioso: a vida. Basicamente te contaram que você é o Super-Homem, mas precisa pular de um avião em pleno ar para descobrir se consegue voar.

E daí, duas possibilidades: você foi enganado e morreu, ou você recebeu a informação correta e agora sabe que pode se bronzear na superfície do Sol sem morrer se quiser, desde que faça antes da data prometida da sua morte. Acabou sua capacidade de lidar com outros seres humanos. Você deixou de ser um de nós e logo logo vai ser descoberto. Com tempo limitado e cada vez mais incapaz de lidar com pessoas comuns. Pode usar quantas drogas quiser, pode brincar de Counter Strike na Síria, pode pegar todas as DSTs existentes… as outras pessoas vão ficar muito chatas. E suas decisões provavelmente vão estragar ou mesmo terminar a vida a de quase todo mundo ao seu redor.

Agora, se você sabe como vai morrer, existe um risco parecido, mas ele não é mais tão “mágico”. Se você for morrer de parada cardíaca, sabe que pode acontecer a qualquer hora e qualquer coisa que gere isso pode te matar. Saber como morre tira o timer de invulnerabilidade. Na verdade, ele nega a invulnerabilidade quase que totalmente. E aquela dúvida maligna na cabeça sobre a veracidade da informação joga ao seu favor nesse sentido: se a informação estiver errada, você pode tentar contornar ou reduzir esses riscos. Se você estiver errado em tentar evitar, morre quando tinha que morrer mesmo, mas se você acertou ao desafiar a informação, retoma o controle sobre sua vida. Um ser ou entidade que tem banca pra te dar essa informação pode muito bem estar te testando ou simplesmente te trollando. Tipo fingindo que joga uma bolinha para um cachorro só pra ver ele correr à toa.

E saber como vai morrer pode ser vago o suficiente para não impactar como sua vida funciona. Se você vai morrer por falência múltipla dos órgãos, oras… quase todo mundo que morre de velhice morre assim. Quer dizer que é só continuar fazendo o que acha certo pra sua vida, porque a tendência é que dê pra viver muitos anos ainda. Sua morte tende a não chocar ninguém dessa forma… é como costuma acontecer. Dá pra ter filhos e netos numa boa com esses dados, se quiser. A maioria das causas de morte são bem repetitivas entre a humanidade, e a média de idade de cada população ainda vai contar. Se for algo comum como parada cardíaca, por exemplo, é mais ou menos como saber que vai morrer… e isso já sabemos. Nada demais.

E se for algo mais exótico como atacado por uma orca, que tal tentar extrair um pouco de diversão da vida? Se você sabe que morre dessa forma, vai evitar ao máximo qualquer situação onde possa ser confrontado com uma. Se a previsão estava errada, você venceu o sistema. Se a previsão estava certa, imagina só que morte gloriosa ser atacado por uma orca no meio de uma cidade minúscula no interior do país? Se o universo precisar arranjar uma situação dessas pra te matar, o universo merece levar sua vida. Seria algo espetacular! Você seria uma lenda para o resto da humanidade.

A lógica dita que você vai morrer de uma forma que muita gente morre também, nada traumático ou acidental. Jogar a moeda pra tirar a sorte no caso de como é mais vantajoso do que no caso de quando. Possibilidade gigante da informação ser banal o suficiente para você continuar vivendo como se nada, possibilidade minúscula de ser uma morte gloriosa com a porra do universo todo se desdobrando pra te levar, e uma possibilidade pequena de ser algo incômodo como acidente de carro ou tiro, mas mesmo isso pode acontecer em qualquer idade, e não é novidade pra ninguém. Você vai tomar os mesmos cuidados de sempre. Toda vez que você sai de casa pode ser que não volte, mas a tendência é que volte. Então, não é tão diferente assim da vida real.

E mais uma: se você sabe como vai morrer, pode preparar a situação e se matar quando quiser. Pelo menos a vida é sua.

Para dizer que não esperava essa maluquice toda do tema, para dizer que preferia não saber nenhuma (não pode), ou mesmo para dizer que preferia saber o porquê: somir@desfavor.com

SALLY

O que você prefere: saber quando vai morrer ou saber como vai morrer?

Na verdade, eu prefiro saber nenhum dos dois, mas, tendo que escolher algum, prefiro saber quando. Tempo é meu bem mais valioso, dependendo de quanto tempo me resta, eu administraria minha vida de uma forma totalmente diferente.

Se alguém aqui está com pensamento brasileiro malandrinho de tentar evitar a própria morte, saibam que isto não é uma opção na hipótese de hoje. Então, cientes de que terão que viver com esta informação e de que a morte não poderá ser evitada por qualquer ato seu, acredito que ter a consciência do quando restringe muito menos a vida do que que saber como.

Por exemplo, se você souber que vai morrer engasgado comendo, isso vai desgraçar sua vida, pois de agora em diante você vai fazer todas as suas refeições com o cu na mão. Via de regra, as pessoas tem medo de morrer, então, dificilmente alguém aceitaria de boa, de braços abertos, sem se importar ou se deixar influenciar psicologicamente por esta informação.

Se eu souber que vou morrer em três meses, certamente vou poder mudar muita coisa na minha vida para aproveitar melhor o tempo que me resta. Porém, se eu souber que vou morrer dormindo, isso não me ajuda em absolutamente nada no meu planejamento. Aliás, provavelmente me atrapalhe, pois vai me dar um certo cagaço de dormir dali pra frente. Não tenho medo de morrer, mas deve ser inevitável dar um “boa noite” para as pessoas queridas pensando “E se for hoje? E se for meu último dia?”.

Quem convive comigo sabe, eu sou a rainha dos prazos. Como e quando vou fazer cada coisa depende do tempo que me resta. Pode ser uma prova, pode ser a entrega de um trabalho, pode ser secar o cabelo, se é possível ter uma mensuração de tempo, eu me organizo melhor e consigo tirar o máximo de produtividade dentro do prazo que tenho. Acredito que, assim como eu, muitos de vocês também funcionam nesse esquema “Terceira Dimensão”, onde o tempo manda em tudo.

Se eu não sei quanto tempo terei, o trabalho tende a sair pior: como não sei quando meu prazo termina, a preocupação principal passa a ser concluir logo esta porra para não correr o risco de não conseguir terminar. Isso faz decair a qualidade do que se está fazendo.

Como ser humano não vem com prazo de validade impresso na nuca, a vida é um constante malabarismo ente o que você tem que fazer e o que você quer fazer. Saber a data da sua morte deve ser realmente assustador, porém ao menos tem esse efeito colateral positivo: permite que a pessoa se organize, ciente do tempo que dispõe, para fazer tudo que quer fazer.

Também acredito que revelar o “quando” seja menos perturbador do que revelar o “como”. Se você descobrir que vai morrer em 27 anos, ok, chato, desconfortável, mas você vai trabalhar a ideia até aprender a lidar com ela, terá tempo para isso. Porém, se você descobrir que vai morrer fazendo algo cotidiano, que não dá para evitar, sua vida vira um inferno. Imagina saber que você vai morrer tomando banho. Faz o que? Fica sujo pro resto da vida? Talvez muita gente ficasse. Esta informação poderia tirar a funcionalidade da pessoa. Dava um belo DesContos.

Pior coisa é essa expectativa, esse momento que antecede o susto em filme de terror. Não gostaria de viver assim. Um prazo para a morte é ruim, mas ao menos não tem esse constante esperar pelo pior. Vai ser naquele dia, ponto final, até lá aproveita a vida o máximo que puder. A incerteza temporal me afeta mais que a incerteza de forma.

Além disso, acredito que se puder compartilhar a informação do “quando” com pessoas queridas, pode não ser a coisa mais agradável de se ouvir, mas também gera algo positivo: todos sabem que tem até aquela data para conviver comigo, podem extrair tudo de bom que puderem de mim, resolver todas as pendências sem aquela sensação escrota de “eu podia ter feito isso, eu podia ter dito aquilo”. Também me permitiria deixar tudo organizado para minha morte, sem dar trabalho para os que ficam. Nada como se planejar.

E, talvez, saber a data da minha morte impulsionasse minha produtividade. Tenho uma teoria de que, na vida, a velocidade na qual a gente corre depende do tamanho do cachorro que está correndo atrás da gente. Se você tem um Chihuahua de 1kg latindo e correndo atrás de você, não vai se esforçar tanto. Mas se tem um Dogue Alemão mais pesado do que você te caçando, você vai correr como nunca, com toda sua capacidade. Saber a data da sua morte coloca um baita cachorro enorme para correr atrás de você.

Também pode ser um consolo para momentos de saco cheio: “Mas que bosta de vida, ok, vamos lá, falta pouco, só mais cinco anos e isso acaba”. O término dá perspectiva, torna mais suportável qualquer sofrimento quando sabemos qual é o prazo para que ele termine. Por sinal, qualquer ponto de vista muda quando se sabe o prazo para que tudo acabe: saboreamos mais cada conquista, nos importamos menos com cada derrota.

No nosso modelo atual (bem infeliz, por sinal, pois nos deixa tensos e ansiosos) o tempo é o rei, dominar os prazos é segurar as rédeas da vida. Por isso, prefiro ter o domínio do “quando” e não do “como”, pois por ter nascido na era do tempo, saberia usufruir melhor desta informação.

Para dizer que você não precisa de mais um prazo na sua vida, para dizer que gostaria de saber que é imortal ou ainda para dizer que é capaz de ficar a vida toda sem tomar banho por medo da morte: sally@desfavor.com

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Comentários (12)

  • “Tempo é meu bem mais valioso, dependendo de quanto tempo me resta, eu administraria minha vida de uma forma totalmente diferente.”
    “Saber a data da sua morte deve ser realmente assustador, porém ao menos tem esse efeito colateral positivo: permite que a pessoa se organize, ciente do tempo que dispõe, para fazer tudo que quer fazer.”

    Isso me angustia um pouco. Se o tempo influencia diretamente em nossas ações, por que deixamos para fazer algo no futuro mesmo cientes de que esse futuro pode não existir? É só uma questão de prioridade?

  • Acho que depende. Ia adorar ouvir “Vc vai morrer de velhice”. Em compensação prefiro saber quando do que ouvir: “vai morrer de acidente de carro”. Se ouve isso vc nunca mais sai na rua em paz.

  • Somir, e se a entidade dissesse que você iria morrer engasgado com uma rola? Que impacto teria sobre as suas convicções?

    Sally, e se a entidade dissesse que você morreria aos 120 anos, como você organizaria sua vida?

  • “E, talvez, saber a data da minha morte impulsionasse minha produtividade”

    Na ótica material, se todos soubessem quando, seria ótimo. Ótimo no sentido das pessoas, em um raciocínio simplista e utópico meu, se tocassem de que o mero acúmulo de riquezas perderia todo o sentido e gastassem seu dinheiro tendo em vista seu prazo de validade, gerando mais empregos para atender tantos planos com hora para acabar. Seja com escolhas saudáveis, seja com outras nem tanto…

    Por outro lado, na questão da produtividade, poderia ser a melhor coisa também. Fico imaginando o quanto de riqueza e de benefícios seriam gerados ainda mais por pessoas como Elon Musk, conscientes de quando não poderiam mais contribuir…

    • No sentido oposto: com hora marcada pra morrer, será que ainda valeria a pena fazer aquela hora extra? Nossa produtividade pode muito bem ser fruto da ilusão de tempo infinito.

  • Eu acredito que saber “quando” me afetaria menos.
    Motivos:
    1- Se eu soubesse a causa da minha morte eu ficaria encanada com aquilo toda vez que fosse realizar alguma atividade envolvendo a tal causa; provavelmente ia ficar paranoica, sonhando com aquilo, pesquisando sobre esse tipo de morte, enfim, pautaria minha vida nisso e ficaria nessa mono ideia até acontecer.
    2- Sabendo “quando”, grandes chances de eu morrer tendo feito/falado/vivido tudo que eu quero, afinal, eu saberia meu prazo.
    3- Provavelmente eu conseguiria me acostumar com a ideia mais facilmente. A morte é uma certeza, a gente sabe que TODOS vão morrer sem exceção, a unica diferença é que eu saberia a data. Beleza, justo. Agora se eu soubesse que certamente eu teria uma morte escrota/sofrida enquanto algum filho da puta poderia morrer dormindo eu ia ficar muito revoltada.

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