Controle judeu.

Continuamos a Semana judia! aqui no desfavor, e hoje eu atendo um pedido especial da Missão Informativa dos Judeus Online: um texto falando sobre o mito do controle dos judeus sobre a imprensa, a mídia, corporações e políticos. Segundo o que me foi proposto, já passou da hora de alguém falar sério sobre isso. Concordo. Vamos acabar de uma vez por todas a desinformação ao redor do tema!

Se você não anda em más companhias ou fuça cantos mais obscuros da internet, provavelmente vai precisar de uma explicação aqui: uma das teorias da conspiração mais comuns sugere que os judeus tem uma representação totalmente desproporcional nos cargos de maior poder de grandes empresas, especialmente nas que controlam mídia e imprensa. Além disso, também relata um imenso poder de lobby sobre os políticos para defender os interesses de Israel e o povo judeu em geral. Ou seja, segundo essa teoria, os judeus controlam não só o que acontece na nossa sociedade como também como a informação é passada para as pessoas.

Dizem que por estarem no controle de grandes conglomerados de mídia e imprensa, moldam toda a narrativa sobre o que sabemos do mundo. Como estão no controle das maiores empresas e bancos, definem como a economia global funciona. E mais: como por esses motivos tem uma quantidade inacreditável de recursos financeiros, colocam os políticos no bolso e ainda fazem as leis funcionarem ao seu favor. Em resumo, os judeus controlam o mundo e seu objetivo é transformar todos nós em seus escravos.

E posso dizer aqui sem medo que isso é uma grande mentira!

Quer dizer, tirando a parte de que os judeus controlam desproporcionalmente as maiores empresas, grupos de mídia e imprensa além dos bancos. E também que tem um poder de influenciar os políticos imensamente maior que qualquer outro povo na história da humanidade. Isso é verdade mesmo. Especialmente na maior potência mundial, os Estados Unidos. Se você for analisar os dados mesmo, buscando por sobrenomes, famílias dos cônjuges e suporte público dado a grupos de interesse judaicos, sim… o número é absurdamente desproporcional. Em Hollywood, por exemplo, não se joga uma pedra num grupo de grandes executivos e donos de estúdios sem acertar um judeu. Inclusive muitos desses judeus adotam nomes artísticos que dão menos bandeira.

Mas o cerne da conspiração continua sendo mentira.

Embora sim, pareça haver uma preferência pronunciada pela manutenção de judeus nessas posições de poder, com nepotismo e favorecimento pela religião comendo soltos nessas escalas. E ok, parece mesmo um grupo muito unido que usa o imenso poder e vastos recursos financeiros para influenciar decisões políticas ao redor do planeta, ainda mais contando o poder exercido sobre os EUA, que acaba se estendendo internacionalmente. E nem vamos começar a falar sobre o sistema monetário mundial, onde o suposto preconceito de achar que todos os banqueiros são judeus passa terrivelmente perto da verdade. Foram judeus que ajudaram a desenvolver não só o capitalismo moderno como o comunismo, boa parte dos pensadores modernos mais influentes tinham parentes próximos abertamente judeus. Cientistas também. Judeus são os campeões de prêmios Nobel. Proporcionalmente, nos últimos séculos, nenhum grupo humano moldou tanto a história da sociedade como os judeus. E se você se sente sacaneado pelo mundo… bom, tem uma conexão.

E mesmo assim, a teoria da conspiração sobre os judeus está errada.

Porque não é só porque você consegue traçar uma relação entre dois fatos que eles são consequência um do outro. Explico: digamos que você resolve visitar uma lanchonete nova na cidade e pede uma empada de forno, seu lanche preferido. No dia seguinte, fica com uma dor de barriga terrível. Uma semana depois, volta na mesma lanchonete e pede empada de forno de novo. No dia seguinte, passa mal de novo. Agora, me responda: é razoável você achar que ficou alérgico a empadas de forno e nunca mais comer uma seja onde for? Existe uma relação entre comer aquilo e passar mal depois, mas é insanidade pensar que o problema é a empada de forno e não a lanchonete!

Na minha analogia, os judeus são a empada de forno. Sim, faz todo o sentido dizer que foi o que te fez mal, mas o problema não é a empada de forno ser empada de forno, e sim a lanchonete. E na analogia, a lanchonete é o funcionamento da humanidade quando estruturada em sociedade. Essa teoria da conspiração faz muito sentido quando você analisa quem são essas pessoas com imenso poder na nossa sociedade, mas falha terrivelmente na hora de analisar se seria diferente de alguma forma se não fossem judeus. Tanto que tirando os mais retardados, a maioria dos defensores dessa proposta sabem que não são só judeus no controle, que diversas outras pessoas de outras raças e credos são pra lá de proficientes nessa coisa de acumular dinheiro e poder.

Em qualquer lugar onde algumas pessoas conseguem vantagem considerável sobre muitas outras, vemos todo esse processo sugerido pelos teóricos da conspiração se repetindo, só que com outros sobrenomes e tamanhos de narizes. Brancos fazem isso? Fazem. E números por números, estão na frente dos judeus. Negros fazem isso, especialmente nos países africanos. Mulheres fazem isso quando conseguem o poder. Latinos fazem isso, vai dizer que não somos mestres nisso de fazer conchavo com os amigos para dominar uma sociedade em informação e poder econômico através do setor público? Orientais, todos organizados… fazem também. Ei, sabe do que mais? Muitos animais fazem isso de fechar um grupo de líderes e dominar os recursos disponíveis para os outros.

Essa é a lanchonete. E pra lanchonete, é excelente que gente maluca fique achando que empadas de forno fazem mal por conta própria. Assim, ninguém vai olhar a nojeira que é cozinha deles. E se você ainda não entendeu, não estou falando de outro grupo estranho de pessoas, estou falando de mim e de você. Alguns de nós são mais éticos e menos desesperados por dinheiro e poder, mas a habilidade de levar vantagem numa situação favorável está tatuada no nosso DNA. Até porque se essa coisa de não aproveitar as oportunidades geradas por nascer no grupo certo fosse comum, histórias como a do Buda não seriam tão famosas, não? Quando temos uma vantagem, adoramos a ideia de poder mantê-la. Judeus, apesar do seu número diminuto em comparação com outros povos, souberam trabalhar o mundo moderno com uma habilidade muito maior, e aumentaram muito a chance de cada um de seus indivíduos herdar posições de vantagem na sociedade.

Claro que parece injusto que um grupo ao qual não pertencemos manobrar para se manter com poder sobre nós, mas olhe para dentro desse seu coraçãozinho podre e admita que a pior coisa da frase anterior foi “ao qual não pertencemos”. A verdade é que o judeu é só o nome da bola da vez. Se um maluco de pedra feito o Hitler tivesse conseguido o que queria, provavelmente estaríamos falando de dominação germânica sobre cultura, imprensa, economia e política, por mais que a democracia tivesse vencido no final das contas.

E aqui no Brasil, onde o ponto de vista é diferente, a teoria da conspiração vigente é que são os americanos que controlam tudo e querem nos manter pra baixo. O que também é verdade, mas não é ao mesmo tempo. Eles só são mais eficientes em fazer as mesmas coisas que todos os outros povos querem fazer, mas não conseguem. Claro que tem muita sorte por bons timings históricos, mas seja lá quem chegou ao topo, fez alguma coisa muito certa (por mais que tenha sido terrível para os oprimidos/perdedores).

Então fica aqui minha defesa aos judeus: acabar com todos realmente impactaria muito no poder vigente na nossa sociedade, mas não melhoraria nada de verdade, seria só queimar tudo. Antes do assento do trono esfriar, outro grupo estaria no mesmo lugar fazendo as mesmas coisas. Se fossem negras lésbicas feministas, seria horrível para todos os diferentes delas do mesmo jeito. Dado tempo suficiente, qualquer grupo humano homogeneíza o controle que tem em mãos de pessoas parecidas, com forte preferência para seus herdeiros e amigos. Afinal, ainda não sabemos manter poder de outra forma.

Porque… o problema real é a lanchonete, não o que está no menu. O que não impede a gente sugerir que a empada não está boa, mas também não nos obriga a sermos malucos de achar que se resolve qualquer coisa voltando elas para o forno.

Para dizer que sentiu um problema com a analogia, para dizer que sente a necessidade de me chamar de nazista mesmo sabendo que não faz sentido, ou mesmo para dizer que eu vou receber muito bem por esse texto (provavelmente em balas): somir@desfavor.com

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Comentários (13)

  • M.I.J.O.
    https://tv.uol/16zQB
    Palestinos atirando pedras em um muro.
    Atiradores de elite, drones e o caramba à quatro.
    E o legal é que se noticia isso e ninguém, ninguém mesmo, condena, critica ou qualquer coisa parecida.

  • Teve uma época na vida que me divertia lendo até o finalzão os créditos finais de filmes comerciais tentando ver se algum era “jewish free”, mas em vão: podia parecer não ter na seção de “produtores executivos”, mas quase lá no finzinho dos tais créditos, o pião que coletou o cocô do cachorro da estrela era um Cohen (o “da Silva” israelense) ou um Epstein da vida. A gente meio que aprende a ver como eles deturpam nomes (Werner vira Warner) ou mesmo não apresentam consistência na grafia de sobrenomes (já cansei de ver Shapiro/Shapira, Katznelson/Katzenelson, Suskind/Sussekind e por aí vai… talvez seja algo como Sousa/Souza, sabe Deus!). Agora, o tal de Spielberg (tudo que termina com “berg” ou começa com “Gold” é judeu!) gosta de tirar sarrinho do Cristianismo em seus filmes, né?

  • Aliás, um assunto interessante para a Semana Judia seria o fim do mundo e os judeus. Pré-milenismo, a ideia de que o destino da humanidade está intimamente ligado ao Grande Israel e ao Apocalipse cristão.

  • Judeus, mórmons, adventistas, gays ativistas, militantes de esquerda, protestantes pentecostais, maçons, advogados, estudantes do Dante Alighieri… são tantas panelinhas por aí, por sangue ou por afinidade, que dá para concluir que quase nada, neste mundo, é imune ao apadrinhamento social.

    O caso judaico é mais interessante porque envolve um povo que está ligado à religião hegemônica no Ocidente de forma indissolúvel. Ser a pátria do Cristo é uma bênção e uma maldição, em muitos sentidos – porque, não importa para onde eles sigam, ou o que eles façam, ou o que queiram fazer no futuro, sempre terão a marca do “povo escolhido” estampada na testa.

    E isso, a longo prazo, é um saco.

  • Quem acredita em teoria da conspiração nunca deve ter feito trabalho em grupo na escola. É difícil pra caralho coordenar um punhado de pessoas pra um objetivo comum, que dirá dezenas.
    Recomendo parar de levar a vida tão a sério.

    • E se tiver uma pessoa mais burra no grupo, ela gasta a energia de umas 5 inteligentes. Considerando a média mundial, boa sorte mesmo arquitetando dominação global…

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