O Facebook lança no Brasil, na próxima semana, seu programa de verificação de notícias, em parceria com as agências de checagem Aos Fatos e Agência Lupa. As duas agências de verificação terão acesso às notícias denunciadas como falsas pela comunidade no Facebook para analisar sua veracidade. Os conteúdos classificados como falsos terão sua distribuição orgânica reduzida de forma significativa no Feed de Notícias. Páginas no Facebook que repetidamente compartilharem notícias falsas terão todo o seu alcance diminuído. LINK


E quem checa os fatos dos checadores de fatos? Desfavor da semana.

SALLY

Não dá para dizer que as agências de checagem de fatos surgiram com a disseminação das Fake News, pois temos Fake News desde que o mundo é mundo. Porém, quando algum idiota resolveu gourmetizar a clássica mentira ou fofoca e alçar algo trivial à categoria de mal do século, surgiu a oportunidade para os pseudo-heróis combaterem esse “mal”. Bondade? Não, uma baita oportunidade de manipular informação e/ou ganhar dinheiro com isso. Agências checando a veracidade de notícias e decidindo o que vai ou não ser tirado do ar em determinados meios é uma das ideias mais hediondas que escutei nos últimos tempos.

Para começo de conversa, a verdade é subjetiva. É possível mentir dizendo apenas verdade. É possível dizer verdades usando apenas mentiras. Nem sempre existe uma linha clara para delimitar se uma notícia é verdadeira ou falsa. Uma omissão, uma palavra dúbia, uma imagem tendenciosa ou até uma manchete imprecisa podem induzir a erro. Se tem uma coisa que eu aprendi sobre o Brasil é que não se deve dar poder para agir com base em subjetividade, pois as pessoas se corrompem e/ou fazem o que lhes convém, e não o que é certo.

A principal agência de checagem do momento, que foi contratada pelo Facebook e que terá poder de tirar notícias do ar, é absurdamente partidária. Não vejo qualquer possibilidade de isenção. Além disso, a figura de alguém que, se discordar da notícia (subjetividade, lembra?) pode tirá-la de circulação me lembra demais à figura dos censores: uma versão moderna, revestida do manto heroico de salvar o povo das mentiras. Esse discurso justifica basicamente todo tipo de abuso. Não dá para pensar em tese, aqui é Brasil.

Mas meu argumento principal de hoje não se baseia na subjetividade da verdade nem no combate à censura. Estes dois pontos já estão sendo suficientemente debatidos por aí. Seguindo aquela nossa proposta de sempre trazer um novo ponto de vista, meu principal argumento sobre as agencias de checagem de notícias é: emburrece o povo. É de um paternalismo ímpar pagar pessoas para verificarem a veracidade de notícias e tirá-las de circulação, para que o brasileiro, o bom selvagem, não seja sistematicamente enganado.

Uma criança que vive no andador nunca vai aprender a andar sozinha. Uma criança que só cai na piscina de boia, nunca vai aprender a nadar sozinha. Percebem onde quero chegar? Contratar agências de checagem de notícias para tirar de circulação supostas “notícias falsas” é dizer ao brasileiro “não precisa pensar não, meu querido, que eu decido por você o que merece ser lido e o que não”. Parece que a única forma é dar o peixe, não ensinar a pescar. Parece que o único meio do brasileiro não ser enganado é tirando do ar centenas de notícias falsas todos os dias, em vez de educar as pessoas para aprender a identifica-las e ignorá-las.

Ler mentiras faz parte do processo de aprendizado. É indispensável para aprender a separar o joio do trigo, para entender quem é o filho da puta desonesto que está querendo te manipular. Só se aprende a identificar mentiras lendo mentiras e exercitando seu senso crítico. Brasileiro tem? Não tem. Para nada nesta vida. Mas não será assim que o problema será resolvido. “Protegendo” o povo como um bebê indefeso, com o argumento de que esse tipo de conteúdo “faz mal” para o país não se gera nada de bom. Por sinal, mesmo argumento que era usado para eliminar conteúdos tidos como “comunistas” na década de 60: são mentiras que enganam e fazem mal para o povo.

O povo tem que aprender a ler, refletir, exercer seu senso crítico. Na pior das hipóteses, aprender mecanismos básicos de pesquisa para que cada pessoa possa fazer sua própria checagem dos fatos. É de graça, é só procurar no Google. É muito simples, basta usar um pouquinho do seu tempo para averiguar o que recebe em vez de ficar mandando hediondo “bom dia” em grupo de whatsapp, curtindo fotinho ostentação no Instagram ou evadindo sua privacidade no Facebook.

Obviamente o brasileiro adora não ter trabalho. Mais do que não ter trabalho, o brasileiro ama que exista trabalho e alguém o faça por ele. Aí é quase um orgasmo, ele se sente espertão, sente que se deu bem. O problema é que quando você delega algo subjetivo a outra pessoa corre o sério risco de ser manipulado. Brasileiro paga, porque ser espertão vale qualquer preço quando a pessoa é burra e complexada. Mas com o tempo, essa conta vai ficar cara demais de se pagar.

Caso esse sistema de checagem de notícias “verdadeiras” de fato se popularize e vire uma rotina, teremos uma grupinho, uma elite, decidindo o que vamos ler e o que vai ter tirado do ar. Será institucionalizado que não temos a capacidade intelectual de filtrar o que é verdade do que é mentira e é preciso que algumas “cabeças pensantes” façam isso por nós. E, acima de tudo, teremos um belíssimo mercado negro de manipulação, onde as agencias funcionarão como uma nova mídia, promovendo ou detonando quem pagar melhor. É esse o país que você quer?

Outro ponto que merece ser destacado: se você não deixar o filho da puta ser filho da puta, como vai saber quem são os filhos da puta? Se tem alguém querendo mentir para a gente, eu digo: deixem essa pessoa falar! Eu quero ler, pesquisar e perceber que esse filho da puta está tentado me enganar, assim nunca mais na vida acredito nele ou em pessoas vinculadas a ele.

Como sempre, o Brasil parte para a solução mais ineficaz e autoritária. Caso não tenham percebido, tentar controlar a internet, em qualquer de suas formas, é enxugar gelo. Não dá certo. Não é possível. Parem de se portar como Tios do Pavê que não entendem a dinâmica online e de achar que conseguem controlar tudo. Eduquem o povo e não precisarão controlar nada, cada um terá plena capacidade de filtrar o conteúdo que recebe.

Para dizer que se educar o povo não se elegem mais, para dizer que vai abrir hoje mesmo uma agencia de checagem ou ainda para dizer que não quer viver em uma internet apenas de verdades pois seria muito chato: sally@desfavor.com

SOMIR

Pra vocês verem como essa coisa de verdade é complicada: a notícia faz questão de dizer que as agências de verificação não tem poder de censura, mas… talvez você enxergue a situação de outra forma com a informação de que no Facebook, relevância é tudo. Não relevância para sua vida, vide as bobagens que circulam sem parar por lá, mas a relevância como auferida pelo algoritmo do site. Sua popularidade depende de dois fatores principais: o quanto o sistema do site acredita que suas postagens são interessantes para o público e o quanto você paga para o Facebook.

E o fator do dinheiro pode trabalhar sozinho. Mas mais sobre isso depois, por agora, vamos falar do que se presume que é o algoritmo de relevância dessa rede social, porque certeza mesmo ninguém tem e dificilmente terá. Facebook nunca revela exatamente o que está fazendo – o que é até justo considerando que abusariam horrores dele se fosse público. Em resumo, esse algoritmo é um programa que roda dentro do Facebook analisando as reações das pessoas post por post, e entregando o conteúdo de acordo com esses resultados.

Porque caso vocês não saibam, o Facebook não mostra tudo o que uma página posta. Segundo eles, para evitar que todos os usuários sejam soterrados em posts o tempo todo. Apenas uma porcentagem das pessoas que curtiram uma página recebem as postagens dela, atualmente menos de 1% dos que curtiram. Ou seja: se sua página tem 1000 curtidas, cada um dos seus posts vai ser mostrado para no máximo 10 dessas pessoas. Acontece com a página da celebridade e do desconhecido, sem distinções. Cá entre nós, o Facebook vive dizendo que quer material mais relevante na sua timeline, mas não é segredo no mundo da publicidade que a rede social faz isso para forçar empresas a pagar pelos seus espaços publicitários.

Mas é claro que você já viu postagens com milhares de curtidas e comentários por aí… como isso pode acontecer se o Facebook se esforça para esconder o conteúdo que as páginas postam? Aí voltamos para os dois fatores. O algoritmo gosta de postagens que geram muitas interações, e presume que qual seja seu conteúdo, chama a atenção de muita gente. Então, se algo começa a bombar de curtidas, comentários e compartilhamentos, o próprio Facebook dá uma ajudinha mostrando para mais pessoas que o normal. Um efeito bola de neve que aumenta muito o alcance de um conteúdo postado sem cobrar nada a mais por isso. Páginas que conseguem postar muitas coisas (supostamente) interessantes para quem as curtiu ou tem interesses parecidos recebem outro apoio: seus próximos posts já saem com apoio extra para divulgação.

O outro fator é o quanto você quer pagar pela fama. O Facebook faz dinheiro vendendo anúncios, misturando o conteúdo comum com propagandas na sua timeline e cobrando por isso das empresas que querem aparecer. Quem paga pula todo esse processo do algoritmo e é exibido para todos aqueles que o anunciante escolheu como de seu interesse, enquanto ele puder pagar por isso, e dependendo de quanta gente você quer alcançar, não é caro não. Se aquela sua tia chata do bom dia com anjinho soubesse que com uns 10 reais poderia entulhar a rede social da família toda, ninguém mais teria rede social no mundo. Por sorte, não é uma informação muito conhecida.

Junte essas informações com o tema de hoje e dá para ver a coisa dando errado. Se o Facebook usa um algoritmo para fazer o conteúdo das páginas ser exibido para quem as curtiu, uma agência de verificação de notícias com poder de reduzir a relevância de um post que julga falso tem sim o poder de desaparecer com aquele material. Perder relevância no Facebook é mais ou menos como ter o post deletado. A bola de neve funciona ao contrário aqui: se o algorítimo quer reduzir o seu alcance, ele vai esquecer que foi uma decisão consciente de alguma pessoa e considerar que aquele conteúdo é uma porcaria que ninguém quer ver e esconder ainda mais. Sem contar que as próximas postagens dessa página vão ser punidas por tabela.

Se você pensar num desocupado que fica o dia todo inventado bobagens sobre Lula e/ou Bolsonaro para desinformar as pessoas, parece super justo. Mas, se for alguém misturando opinião com informação, e a opinião não agradar a agência de verificação… bom, como evitar que uma posição pessoal do verificador não vai desaparecer com uma postagem? É baboseira esse papo que só vai reduzir a relevância, no Facebook isso é sinônimo de sumir com o post. Existem áreas cinzas inclusive no que é verdade, como bem disse a Sally no seu texto. É dar muito poder para quem não se provou como isento ainda.

Sem contar que dar a volta no sistema é relativamente simples: pague para o Facebook. Sim, existem políticas de publicidade no site e não se pode impulsionar (o termo para divulgar postagem paga) qualquer coisa, mas publicitários que mexem com redes sociais passam o dia lidando com essas regras, e muitas vezes distorcendo-as para ajudar seus clientes. E com ferramentas de filtro de público, dá para inclusive esconder essas postagens das agências de verificação ou só se concentrar em gente que cai que nem um patinho em tudo o que lê na internet (aparentemente a maioria, mas tem públicos mais afeitos a um tipo de mensagem com a qual já concordam).

Na eleição presidencial passada, já foi um festival de comprar relevância tanto pelo PSDB como pelo PT, espere por algo muito parecido dessa vez. Mas, com o problema extra de ter gente decidindo o que pode ou não pode aparecer na sua timeline, sem te contar exatamente os motivos que tem. Sem contar que no final das contas, lá vamos nós de volta pra estaca zero: ao invés da pessoa usar seu senso crítico, vai terceirizar novamente a verdade. Não deu muito certo com as mídias mais antigas, de onde vem a ideia que dessa vez vai?

E se não quer acreditar em mim, vai pesquisar. Deveria de qualquer jeito mesmo…

Para perguntar com qual candidato vou trabalhar, para dizer que verdade é supervalorizada, ou mesmo para dizer que o Brasil é uma grande Fake News: somir@desfavor.com

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Comentários (20)

  • Sério mesmo que ninguém se deu conta de que o viés político não é um efeito colateral da coisa, mas o real objetivo por trás de tudo?
    Não está evidente que a rede do tio Zuck é claramente alinhada à esquerda, não só no Brasil, mas no mundo?

  • Quem pega notícias em sites gratuitos, não costuma procurar neutralidade nos fatos. Muito pelo contrário: o “minion” caça informação na rede já com uma opinião pré-definida na cabeça, fruto dos meios em que vive (ou viveu).

    Aliás, mesmo com o “fact checking” dificilmente deixarão de existir fatos enviesados, sem nexo com a realidade – principalmente no Brasil, país no qual a opinião do amigo íntimo tem mais força do que o texto do especialista.

    E isso, particularmente, é o mais bizarro dessa história toda: vão gastar dinheiro para checar a veracidade dos fatos – à toa.

  • Cada dia que passa eu fico mais convencida de que a maioria das pessoas simplesmente não pensa e nem pesquisa antes de formar uma opinião e sair vociferando-a por aí. Vejo um monte de gente isolada num grupinho de amigos com opiniões idênticas, argumentos idênticos (e ruins) e só recebendo informações distorcidas de quem concorda com a ideologia do grupinho. Acho que a Sally falou sobre isso no texto dos inputs há algum tempo também. E com essa “dádiva” de verificadores “absolutamente imparciais e honestos”, aí é que não vai ter como manter nenhum otimismo em relação a este país. Nesse ritmo, não duvido da possibilidade de acontecer um golpe de estado e a população sequer perceber. Aliás, acho que só não aconteceu e nem vai porque ninguém com um pouquinho a mais de inteligência quer essa porcaria que o Brasil anda fazendo força pra ser.

  • Curiosamente todos os envolvidos com essas “Agências de checagem de fatos” são simpatizantes de causas esquerdistas. Que coisa, não?

    Ou seja, se for bom pra “causa” e pro “lacre” tudo é verdadeiro, do contrário é “fake news”. Simples assim.

    PS: E olha que eu odeio mortalmente gente que compartilha notícia falsa, mas dizer que uma notícia é falsa por razões ideológicas é de uma filha da putice tão grande que me deixa sem palavras. Pior é ver que tem muita gente que irá no embalo desses cretinos!

    • Concordo, Fernanda. Não são agências imparciais, não serão decisões imparciais. Notícia falsa é ruim, mas censura prévia é pior ainda.

  • E quem vai checar o Desfavor? O gato de Schodinger não está vivo nem morto. Isso é informação que se preste?

  • GRIPE SUÍNA KKKK

    Falando sério, o povo brasileiro não demonstra ser capaz de pensar sozinho, mesmo que alguém “ensine” (Se é que isso pode ser ensinado).
    São décadas de submissão que não são apagadas, aliás, será que isso é “sequela” da retirada da filosofia nas escolas na ditadura? (“Respeite os mais velhos”, sendo que os mais velhos tem um modo de pensar completamente atrasado, fufufufufufu.)

    • Bárbara, teria que existir um investimento massivo em educação, começando pelas crianças. Teriamos duas ou três gerações perdidas, até colher os frutos do investimento feito crianças pequenas. Va acontecer? Não vai acontecer. Mas em tese, é possível.

      • Educar as crianças em teoria é fácil, ninguém sabe o que fazer é com os adultos burros. Que estragam as crianças, por sua vez.

  • …Pois é, uma estaca zero que já pode ser completamente burlada…

    Aliás, “Aos Fatos” e Agência Lupa já são bem melhores que os rumores de que seriam Agência Pública e (principalmente) “Catraca Livre”…Porém, vai continuar fazendo falta (muito e principalmente) mais espaço para o E-farsas e o Snopes…

    ** E não há notícia(s) de distorcida(s) importante(s) no México, lá vai ganhar no turno único o favoritado (de esquerda “realista”)…

  • Aí você vai ver a agência de checagem de informações, é um bando de feministas gordas, de cabelo colorido raspado em um lado, que posta no Twitter que odeia brancos (mesmo a maioria delas sendo brancas) e passa pano pra crimes cometidos por imigrantes e pessoas não brancas. Esse tipo de trabalho é a cara desse tipo de gente. Enfim.

    “É possível mentir dizendo apenas verdade. ”
    Inclusive, Sally, você fez um texto sensacional sobre isso há alguns anos. Nunca mais achei…
    Perigoso esse negócio de checagem de informação, parece que a gente não aprendeu nada com a nossa vizinha lá no norte. E ainda falam que não existe nenhum risco de venezuelização no Brasil. Vai vendo.

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