Ódio relacionado.

Não se pode agradar a todos, especialmente quando se faz uma escolha tão pessoal quanto arranjar um namorado ou namorada. Sally e Somir discutem qual o pior dos casos se as suas pessoas próximas não concordarem com seu gosto. Os impopulares relacionam suas ideias.

Tema de hoje: é melhor namorar alguém que sua família odeie e seus amigos amem ou que sua família ame e seus amigos odeiem?

SOMIR

Na dúvida, coloque pressão no lado mais resistente. E nesse caso, o lado mais resistente sempre tende a ser a família. Mais fácil aguentar a pressão do desgosto familiar do que a morte agonizante de suas amizades. Sem contar que namoros contra a vontade da família devem ser tão velhos quanto o conceito de namoro, já virou banalidade. Não se esqueçam: nesses textos, falamos da média. Se sua família é super racional e atenciosa, sorria, você não faz parte da média.

A questão aqui é que dada a sua escolha de parceiro(a), é quase certeza que pelo menos uma das pessoas que já está na sua vida vai ter algum problema com essa nova “aquisição” no círculo social. É quase que estatístico: a cada pessoa extra na sua vida, mais uma chance de você não gostar dela. Alguns de nós somos mais discretos, alguns são mais vocais, mas é raríssimo passar a vida sem gerar atritos entre pessoas conhecidas, simplesmente por sermos a conexão entre elas.

Então, é melhor tratar isso como um fato da vida. Não dá pra escapar. Claro que ninguém vai deixar de começar um relacionamento por medo de alguém do seu entorno social não gostar, mas é saudável já estar com isso em mente. Cada pessoa que você apresenta para um grupo já estabelecido tende a gerar desgosto em pelo menos um dos indivíduos. Às vezes isso se resolve, às vezes não, mas… temos que seguir em frente, certo? Todos já passamos por isso.

E aqui o meu primeiro ponto: na verdade isso é tão comum que sua família provavelmente já passou por isso diversas vezes, por vários outros membros integrantes. Como famílias se formam por afinidade genética, é extremamente comum que pessoas completamente diferentes sejam obrigadas a conviver, e muitas vezes a focar num objetivo comum. Um festival de atritos, como qualquer um aqui vai ter algum exemplo em mente. Famílias já lidam o tempo todo com membros “estranhos” entrando ou mesmo se formando com o passar do tempo. Pode ser um namorado(a) de alguém que já faz parte, pode até mesmo ser um dos jovens que cresce com mentalidade completamente diferente da média anterior.

Famílias são máquinas de assimilação, gostando ou não. E é comum que pessoas numa mesma família não se gostem, mas tenham aprendido a se tolerar com o passar dos anos. É melhor ter um relacionamento odiado pela família porque sua família já deve ter muito treino nisso. Não se esqueça que sua família teve que aprender a tolerar inclusive você! Ou você acha que sua personalidade atual é tão compreensível pra eles quanto a de uma criança? Está na função principal deles aprender a lidar com pessoas contra sua vontade.

Já seus amigos… eles normalmente se unem a você por afinidade. Ninguém forçou seus amigos a assumirem esse papel, e é um tipo de amor muito mais condicional. Funciona enquanto os amigos funcionam, e nem um pouco a mais. E nem é um argumento sobre amigos serem menos fiéis, é que mesmo os mais resistentes no final das contas não estão presos de forma alguma a você. Se você se tornar insuportável por passar a maior parte do tempo com outra pessoa que eles julgam insuportável, é chato, é triste… mas todo mundo vai seguir em frente e deixar você com sua escolha. Famílias enchem mais o saco, sim, mas são mais recuperáveis com o passar do tempo. Amizades acabam e não deixam muita coisa no lugar.

E outro ponto que pode parecer desvantagem de deixar a família puta da vida com seu namoro, mas é uma vantagem: ao contrário da sua família, seus amigos vão respeitar sua decisão muito mais de boa. Se quer ficar com aquela pessoa, eles podem até te dar uns toques e reclamarem, mas no final das contas, o problema vai ser seu. Amigos começam a aparecer cada vez menos, ter menos interesses em comum, arranjar outras companhias para as coisas que vocês faziam juntos… não vão te odiar, provavelmente, mas você vai ficar cada vez menos interessante.

Porque pela lógica do desgosto comum entre amigos e famílias, é provável que você fique uma pessoa muito mais mala e indesejável se seus amigos não gostarem da sua namorada. Famílias costumam se preocupar mais se a pessoa que você escolhe é de confiança ou tem “nível” suficiente para você. Sua família pode encanar com uma pessoa tatuada ou de uma cor/religião/classe social considerada ruim por eles, e frequentemente isso é baboseira e não influencia de verdade sua qualidade de vida. Famílias tendem a encanar com namorados e namoradas por motivos superficiais. E isso passa com um pouco de teimosia da sua parte. Quase sempre a pessoa que era odiada antes acaba sendo aceita/tolerada/amada com o passar dos anos.

Mas seus amigos? Eles vão sentir o cheiro de pessoa merda à distância. Porque como normalmente dividem os mesmos valores com você e não estão tomados por hormônios de acasalamento, conseguem enxergar uma pessoa que não tem nada a ver com você ou com a imagem que você projetou até hoje. Amigos costumam odiar namoradas que enchem o saco, monopolizam atenção e pressionam homens a mudar demais seu jeito. Amigas costumam… bom, mulheres são mestres em achar motivos para reclamar dos outros, eu nem me atrevo a descrever a infinita complexidade da putez feminina. O importante é que o ódio dos amigos diz muito mais sobre uma possível má escolha sua do que o ódio da família.

Dá mais segurança que seja a família que odeie a pessoa com quem você está namorando, tanto no presente com a ideia de que eles provavelmente estão errados na crítica (ao contrário dos amigos) e que seja como for, família entuba quase qualquer merda para se manter viável. Basta um pouco de teimosia pra vencer a maioria das famílias. Seus amigos vão tentar por um tempo, mas se nada melhorar, vão seguir suas vidas e provavelmente não voltar mais, não por ódio de você, mas pela falta de sintonia, que sempre foi essencial nessa relação.

Para dizer que amigos do Alicate não podem dizer isso, para dizer que amigos são família com cérebro, ou mesmo para dizer que vai votar no Bolsonaro por pessoas que fazem pouco da família como eu: somir@desfavor.com

SALLY

O que é menos sofrido: namorar alguém que sua família odeie mas seus amigos amem ou alguém que sua família ame mas seus amigos odeiem?

Ambos uma merda, mas a merda menos merda, na minha opinião, é namorar alguém que minha família ame e meus amigos odeiem.

Sim, eu valorizo família. Meus amigos eu mando à merda, até porque são todos malucos como eu, mas minha família… causar qualquer tipo de decepção ou desgosto para minha família é sofrido. Meus amigos eu encontrei lá na esquina, nos juntamos por afinidade. Minha família deu o sangue para me criar e me ajudar a ser quem eu sou hoje. São pesos muito diferentes.

Verdade seja dita, nenhum dos meus amigos está em condições de julgar qualquer relacionamento meu, pois eles mesmos cultivam relacionamentos bastante disfuncionais, como por sinal, a maior parte das pessoas hoje em dia. Amigos podem alertar, podem conversar, podem dar um toque, mas é isso aí. Recado passado, segue o baile.

Família não. Família está presente na vida de forma permanente e se preocupa muito mais. Quando você se relaciona com alguém, não necessariamente a pessoa vai virar amiga dos seus amigos, mas fatalmente ela vai fazer parte da sua família se a coisa ficar séria. E fica bastante complicado para todo mundo fazer parte de uma família que desgosta de você. Mesmo que a família seja educada e saiba tolerar a pessoa, é uma merda pra todo mundo expor sua família a alguém que lhes é desagradável.

Se seus amigos não gostarem do seu namorado, serão diversas entidades distintas desgostando dele de forma autônoma. Provavelmente, dá para fazer alguma gincana e reunir amigos dele e amigos seus para diluir o desgostar, vai que seus amigos se dão com os amigos dele e a coisa fica mais tolerável? Já família…

Família é uma entidade única, uma massa poderosa que vai desgostar da pessoa de forma unida e organizada. Vai colocar apelidos, vai reclamar e, quando puder, vai minar o relacionamento relembrando tudo que a pessoa tem de “errado”. Com família, não dá para diluir ou atenuar, é levar seu namorado para um lugar onde você sabe que as pessoas estarão desgostando dele, com sorte, de forma silenciosa. E que depois usarão o que ele falar ou fizer para criticá-lo. É levar a pessoa que você gosta para a cova dos leões.

Amigos sabem que podem deixar de ser seus amigos se pisarem na bola feio com você. Por isso, amigos costumam ter uma trava maior no que falam ou no quanto se metem na sua vida. Família não. Sua família nunca vai deixar de ser sua família e isso pode gerar abusos. A família se sente no dever de se proteger e muitas vezes isso é feito de uma forma torna, tentando determinar o que é melhor para o outro.

E, na pior das hipóteses, se amigo de fato se excederem, você pode procurar amigos novos que gostem do seu namorado (ou que seja, ao menos, mais educado). Já família… bem, você não pode procurar uma família nova. Melhor que a família goste do seu namorado.

Amigos você pode ver em horários distintos, não há necessidade de sair com amigos e namorado, todo mundo junto. Não há data, dia ou horas marcadas, não há convenção de quando amigos devem se encontrar. Porém família, por tradição, está presente na vida da pessoa nas principais datas comemorativas do ano: aniversário, natal, etc. Deve ser doloroso ter que escolher entre sua família e a pessoa que está com você, ter que magoar um destes dois.

Caso se apresente uma hostilidade entre namorado e amigos, isso pode ser resolvido inclusive pelas partes interessadas. Nada impede que o próprio namorado sente tente resolver, entenda por qual motivo os amigos o estão criticando, por qual motivo ele está incomodando. Fazer isso com família é mais complicado, pois além de serem, no geral, pessoas mais velhas, mais difíceis de conversar, com mais cabeça fechada, você não pode mandar o familiar de alguém à merda. No geral, devemos mais respeito aos familiares dos outros do que aos amigos.

Para quem quer fazer o Combo da Felicidade Mainstream, casar e ter filhos, a coisa fica ainda mais complicada, pois a pessoa vai depender da família de ambos para dar um suporte. Sabemos que hoje adultinhos não conseguem criar sua prole sozinhos, precisam de um batalhão de ajuda: creche, babá, empregada doméstica ou… família. Largar a criança com a sogra é tendência. Imagina uma situação dessas com uma família que não gosta da outra parte?

Outro porém: amigos são, geralmente, pessoas da nossa idade, com uma flexibilidade mental e tolerância maiores que os idosinhos da família. Eles podem aprender a gostar de alguém com mais facilidade. Podem encontrar pontos de afinidade com o seu namorado do qual desgostam, que pode bastar para sustentar uma conversa em uma festa, por exemplo. Um aplicativo que ambos usam, um seriado que ambos gostam, coisas do tipo.

Com família isso raramente acontece. Sua avó dificilmente vai ter um ponto em comum com aquele seu namorado que usa um alargador de orelha que passa um feto pelo buraco. Não tem assuntos ou interesses em comum, às vezes não há sequer compreensão do que o outro fala.

E, no final das contas, se um amigos seu fala algo escroto ou injusto, você pode mandar ele calar a boquinha, que isso vai ser socialmente aceito. Não há “hierarquia”. Porém, quando se trata de família, ainda existe, mesmo que muito danificada, uma hierarquia e respeito que muitas vezes impedem uma trava eficiente para o que as pessoas falam, tornando muito mais tortuoso ter que ouvir gente jogando lixo na pessoa que você ama.

Na boa? Namore quem você quiser, mas saiba que se sua família não gostar da pessoa, de tempos em tempos virão comentários, campanhas pró-término e intromissões apontando os defeitos da pessoa.

Para dizer que você é aquele que as famílias não gostam, para dizer que sua família não gosta nem de você ou ainda para dizer que nessas horas melhor namorar os irmãos Cravinhos: sally@desfavor.com

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Comentários (5)

  • Como eu prefiro evitar a fadiga e minha tolerância a encheção de saco é zero, prefiro que quem odeie sejam pessoas que eu não vejo ou interajo com frequência. Atualmente seria minha família. Moro a uns 500km dos meus pais, uns 250km do meu irmão e vejo eles tipo 2-3 vezes no ano, no máximo. Já meus amigos vejo com muito mais frequencia. Como o Somir disse, muitas vezes família encana com coisinha pouca, então não dá pra levar muito a sério. Eu nunca tive um relacionamento, mas já fiquei pensando em como eu reagiria em momentos de conflito desse tipo com meus pais, com diferentes “tipos” de namorada, e provavelmente numa situação real acabaria sendo mais agressivo e venenoso do que deveria com eles. Eu não tenho muita paciência quando alguém vem querer cagar regra na minha vida e dar palpite, e já fui extremamente rude com meus pais em momentos assim, não seria diferente numa situação dessas.

  • Já passei pelos dois casos…

    E embora seja muito difícil lidar com um relacionamento que a família desgoste (ficar nesse meio de campo é muito desgastante), tem mais futuro do que um que os amigos desgostem… a menos que vc viva sem amigos!

    Principalmente pelos argumentos do Somir… família geralmente implica com coisas pequenas, que não são falhas de caráter… implicam pelo ciúme, por “querer o melhor” (algo super idealizado), coisas assim… tanto que o mais comum é o ex virar santo assim que um outro assume o posto!

    • Nanda, você saberia me explicar esse estranho fenômeno de ex virar santo assim que vira ex? Queria muito entender como pessoas que supostamente confiam no meu dissernimento tem a pachorra de ficar repetindo “eu gostava do fulano”. Porracaralho, se eu não estou mais com ele, boa coisa ele não é!

      • Na verdade o comportamento só ocorre na frente do atual… meio que uma provocação pra gerar insegurança, brigas e minar o relacionamento…

        Tipo.. “ahh, vc não come passas? Nossa, o fulano não tinha frescuras, era ótimo cozinhar pra ele, comia de tudo”
        Coisas pequenas mesmo.

        Depois termina o relacionamento e vem um “nossa, mas sicrano era tão bonzinho” – virou santo!

        Outra maneira de melhorar é casando também… às vezes funciona pra santificar a pessoa.

  • Seus amigos podem começar a mudar de comportamento com você – sem falar que um relacionamento pode ser ótimo para se livrar de muito mala sem alça que você conhece. A sua família não vai mudar por causa disso – o que é bom, porque o primeiro “alerta vermelho” sobre o relacionamento ruim vem de lá.

    Na dúvida, ouça a família, os amigos, até os estranhos – mas, principalmente, ouça o seu coração (argh, que brega…) e o seu “feeling”. Quem tem que gostar do relacionamento é você, com seus defeitos e virtudes, não os que acham que sabem o que é bom para você.

    Mesmo na m… é possível ser feliz. Não duvide disso.

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