Vai dar tudo certo.

Somir é como menstruação: quando vem incomoda, quando não vem preocupa. Por isso, este breve parágrafo de esclarecimento: Somir passa bem, porém não postará hoje. Segue o baile.

“Vai dar tudo certo”, “Vai ficar tudo bem” e outras frases similares são a escolha mais comum aqui no Brasil para confortar uma pessoa que está passando por um momento difícil. Sei que são ditas com a melhor das intenções, mas, se você parar para pensar, esse tipo de frase é um tremendo desfavor.

Sim, eu sei, nossa mente pode criar realidade, pensamento positivo ajuda e tudo mais. Porém, nem tudo depende da gente. Então, afirmar que algo que está além do seu e do meu controle vai dar certo é tratar um adulto como uma criança: mentir às custas de tentar poupar a pessoa de sofrimento. Dá a impressão de que o interlocutor é frágil, incapaz de suportar/lidar com a verdade, digno de pena, que precisa ter a realidade maquiada para suportá-la e que, se dita a verdade, a pessoa vai sentar no chão e chorar com a mão na cara feito criança.

Antes de mais nada, o que é “dar certo”? Nesse contexto, é usado como um reforço para o fato de que o que a pessoa quer vai acontecer. Só que nem sempre o que a pessoa quer é o que configura “dar certo”. Somos pequenos micróbios no universo, não sabemos porra nenhuma de nada e temos a cara de pau de acreditar que estamos aptos a decidir o que é melhor.

Não temos. Sabemos muito pouco, não temos a big picture, apenas uma pequena fração de uma imagem distorcida. Então, endossar algo só por ser o desejo da outra pessoa, já começa errado. Assim, você não pode nem ao menos saber o que é “dar certo”, quanto mais garantir que determinado evento vá ou não acontecer.

Mentir nunca é a melhor forma de consolar alguém, então, a menos que você tenha a certeza absoluta de que tudo vai dar certo (e, spoiler: não dá para ter), não diga a ninguém com mais de dez anos de idade que tudo vai dar certo.

Sabe o que é pior? Se você falar esse tipo de coisa, por mais absurdo que seja, é provável que a pessoa acredite, pois em momentos de desespero as pessoas ficam fragilizadas e burras, então, você não faz nenhum favor acalmando a pessoa após convencê-la de algo que talvez seja uma mentira. Se tudo der errado, sair em desacordo com o que a pessoa esperava, o tombo dela vai ser muito maior.

“Mas Sally, quando a gente diz que tudo vai ficar bem, queremos dizer que é nosso desejo que tudo fique bem”. Pois é, meu anjo, uma pessoa fragilizada provavelmente não vai saber interpretar assim. Pessoas fragilizadas precisam de tudo dito muito claramente, pois a dor e o medo turvam a percepção de forma inacreditável.

Se você quer realmente fazer um bem a quem está em situação de ser consolado, use a verdade da forma mais clara e favorável possível, isso sim é dar uma contribuição valiosa, que, por sinal, quase ninguém dá. Sempre é possível levar um alento a alguém através da verdade.

“Mas Sally, você quer que diga o quê? Que a pessoa vai se foder toda? Que tá tudo uma merda?”. Só existem esses dois extremos? Ou engana a pessoa assegurando que tudo vai dar certo, ou joga a cara da pessoa na lama e pisa?

Você pode dizer que, não importa o que aconteça, você vai estar lá para a pessoa. Pode dizer que, não importa o que aconteça, ela vai superar no final das contas. Pode assegurar que, não importa o que aconteça, a pessoa não estará sozinha e você vai fazer tudo que estiver ao seu alcance para que o desdobramento da questão seja o melhor possível para ela.

Ficamos com a mente tão condicionada no “vai dar tudo certo” que criamos uma zona de conforto intelectual e cuspimos essa frase na maior parte das ocasiões, eu me incluo nisso. É quase como um “graças a Deus”, uma exclamação que todo mundo usa, inclusive quem não acredita em Deus. É um fast-consolo, algo rápido e socialmente aceito, que mostra que você se preocupa e tira a mente da pessoa daquele estado de angustia. Mas é um desfavor, pois não apaga o incêndio, apenas desliga a sirene que avisa sobre algo estar pegando fogo.

Se você parar para pensar, vai ver que tem muita coisa bacana que pode ser dita para uma pessoa que está assustada, sofrendo, angustiada ou com medo. Tem uma história que eu gosto muito, sobre um rei que amava muito sua esposa e ela faleceu de forma repentina, então, ele reuniu um grupo de sábios para criar um anel que o confortasse. Provavelmente eu já contei esta história aqui antes, mas vamos lá, mais uma vez.

Os sábios fizeram todo tipo de anel ostentação, para que o rei se sentisse poderoso e feliz, mas nada o consolava. Até que um dos sábios apareceu com um anel menor e mais simples, o que chamou a atenção do rei, e disse que para que ele se sinta melhor não era necessário nem ouro nem pedras preciosas. No anel estava escrita a frase “This too shall pass” (isso também vai passar). Bastava que o rei usasse o anel e olhasse para ele cada vez que estivesse triste. Porque a verdade é que, de fato, de um jeito ou de outro, tudo realmente passa.

E talvez esse seja o segredo para realmente consolar alguém de forma eficaz: relembrar que isso também vai passar, porque quando estamos na merda, parece que nunca vai passar. Sei que parece óbvio, mas, como eu disse, para quem está sofrendo, com medo, dor ou angustia, a visão racional nem sempre é clara. Dia após dia, basta estar presente e relembrar que isso também vai passar. Lembrar que você está lá para fazer o que estiver ao seu alcance para que isso passe. Lembrar que essa sensação de que não vai passar nunca é um bug cerebral gerado pelo medo.

Eu gosto tanto dessa frase, “This too shall pass”, que já pensei em tatuá-la no meu dedo na forma de anel várias vezes. Eu sou uma pessoa que precisa ser constantemente relembrada que “This too shall pass”. Talvez todos nós, em momentos de desgraçamento, precisemos. Então, em vez de dizer que vai ficar tudo bem (infelizmente, às vezes não fica), diga que isso também vai passar, mais cedo ou mais tarde, por mais que pareça que não. Talvez não conforte tanto a pessoa, mas ao menos será verdadeiro. O melhor que você pode fazer por qualquer pessoa, em qualquer situação, é ajuda-la a se manter na verdade.

Sempre que passo por momentos difíceis o Somir me pergunta diariamente como eu estou. Às vezes ele não fala nada, só diz que está ali, pergunta se eu preciso de alguma coisa. Dia após dia, ele passa e pergunta como eu estou e às vezes as minhas respostas não são das melhores.

Se eu digo que estou mal, ele responde “um dia eu vou perguntar e você vai estar bem”. Ele continua, diariamente perguntando como eu estou. Contando assim parece pouco, talvez até frio, mas é extremamente eficiente. Muito mais útil do que gente que entra em contato para assegurar que tudo vai dar certo e que o resultado que eu pretendo será alcançado.

Então, meu conselho é: esteja. Mesmo que calado, mesmo que impotente, mesmo que devastado pela pessoa. Esteja. Sem prometer resultados que não dependem de você.

Também é muito comum nessas horas que se tente resolver o problema do outro, que se soterre a pessoa de sugestões, perguntas e até se tome atitudes por conta própria, na melhor das intenções. Pode atrapalhar mais do que ajudar. O verbo da vez é estar. Esteja presente, esteja disponível, esteja incondicionalmente. É isso que gera conforto a quem está sofrendo, com medo ou angustiado. Aos poucos, mesmo sem querer, mesmo sem saber verbalizar direito, a pessoa vai te indicar o que precisa de você. Enquanto você não tem essa percepção, apenas esteja.

Em resumo, o que quero dizer hoje é que “tudo vai dar certo” não é necessariamente a única resposta ou coisa boa a se esperar. Às vezes é necessário que tudo fique ruim, muito ruim, para ruir estruturas e permitir que nasça algo novo muito melhor. Às vezes é produtivo que algo fique ruim para que disso se tire um aprendizado. Às vezes tudo fica muito ruim porque sim, porque a vida tem dessas e a gente não entende e não controla tudo e, quem sabe, em um futuro distante, você não consiga vislumbrar que o que aparentemente foi ruim na verdade foi bom no saldo final.

Sei que muitos de vocês já me disseram mais de uma vez que “tudo vai dar certo” em vários momentos da minha vida, e não é uma indireta nem ingratidão para com vocês. Aprecio o gesto. Porém, acredito que na média geral o “tudo vai dar certo” faça mais mal do que bem. Se, para atenuar o sofrimento de alguém é necessário mentir ou iludir, validando o desejo da pessoa como um evento futuro e certo, melhor ficar calado e apenas estar por perto.

Talvez o “vai dar tudo certo” seja uma forma de acalmar a si mesmo. Muitas vezes ficamos nervosos frente ao sofrimento daqueles que gostamos, principalmente quando a pessoa sempre se apresentou com alguém forte. Esse nervosismo, esse espanto ao ser confrontado com a fragilidade de alguém que até então considerávamos uma fortaleza, faz com que nós balancemos de tal forma na hora de consolar que, muitas vezes, no final das contas, nós é que precisamos ser consolados. A sensação de que a vida pode cacetar e derrubar temporariamente até quem julgávamos ser mais fortes do que nós assusta.

Então, reflita até que ponto ver o outro desabando não te faz entrar em negação, no medo ou recuar para não lidar com o que isso te desperta. A forma como reagimos ao sofrimento das pessoas amadas diz muito sobre nós e sobre questões que podemos melhorar.

Talvez o “Vai dar tudo certo” seja mais para você mesmo do que para o outro, e, neste caso, vale uma reflexão sobre a necessidade de trabalhar isso. E, enquanto não o fizer, segura a onda ai para não respingar em quem já está fragilizado.

Por favor, evitem o “Vai dar tudo certo”, é estelionato emocional.

Para dizer que então vai dar tudo errado, para dizer que mulher só sabe reclamar ou ainda para dizer que pensamento positivo é seu pau de óculos: sally@desfavor.com

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