Conexão final.

Edílson gozava de relativo sucesso na sua carreira acadêmica. Pós-doutorado em física e vários estudos publicados na área de quântica. O suficiente para ser captado por uma mega corporação para capitanear o projeto de desenvolvimento de um computador quântico, junto a vários outros especialistas em áreas complementares de tecnologia. O setor privado, contanto, provou-se exigente demais para ele. Crises constantes de ansiedade transformando-se em pânico.

Incapaz de lidar com as cobranças e os prazos apertados vindos no pacote das centenas de milhões investidos no projeto, decidiu-se por largar tudo e pegar o dinheiro que ainda tinha para buscar refúgio no alto das montanhas do Nepal. Depois de uma generosa doação, fora aceito num mosteiro budista isolado. A meditação e o trabalho simples do dia a dia finalmente acalmaram sua mente, o voto de silêncio dos locais evitou qualquer barreira linguística. Ele estava em paz, tão em paz que fez dali sua morada por mais de ano.

Mas mesmo diante daquela paisagem bucólica e o silêncio gelado das montanhas, havia uma parte de sua mente que nunca abandonou o projeto. Sem as cobranças constantes e com a serenidade de poder lidar com o tema apenas em teoria, focou-se exclusivamente na natureza da informação armazenada no universo quântico. É como se fosse capaz de isolar uma partícula fundamental e extrair dela a ordem que parecia impossível em sua carreira pregressa. Logo, a mente não queria mais abandonar mais a ideia, o espaço para a contemplação reduzido progressivamente em troca de uma possível resposta.

Até que finalmente algo fez sentido. A função por trás do que parecia aleatório, a ordem, finalmente. Cada elemento da realidade agindo em conjunto, como se cada bóson e cada férmion fosse apenas uma instrução de um cálculo incomensurável. Mas cada parte do processo ainda sim era espelho do todo, uma ordem fractal repetindo-se sem parar. Seu corpo e sua mente não eram mais divisíveis, eram parte integrante da função, e através delas ele poderia se conectar com todo o resto. Entendeu finalmente o que tantos gurus diziam sobre a natureza da realidade. Só faltava para eles o conhecimento técnico para entender o que se poderia fazer a partir daquele ponto.

Edílson atingiu o nirvana, mas viu que era só o começo. Fechou os olhos pela última vez no começo da sessão de meditação, porque não os abriria mais. O corpo era apenas um veículo, e ao contrário de incontáveis que vieram antes dele, ao perceber isso, conseguiu sair dele. Depois de integrado com o todo, não havia mais como identificar um pedaço tão minúsculo da realidade, e sem as necessidades do corpo para ancorá-lo num ponto só, vagou por todas as escalas da matéria. Viu elétrons transformando-se em pósitrons sem respeito algum pelas leis do tempo, viu galáxias andando conscientemente pelo vazio, em busca de companhia. Vida surgindo e desaparecendo por todos os lugares.

Era impossível especificar tempo. Depois de um minuto ou um ano, começou a ouvir as primeiras vozes. Vozes humanas e outras irreconhecíveis. Da que tinha memória de significados, ouviu preces. Pedidos e agradecimentos. Mas as vozes não eram sons, não tinha como ouvir sem um corpo… eram ideias, puras. Ao notar isso, até mesmo as vozes completamente estranhas começavam a fazer sentido. O desejo e a intenção faziam sentido por si só. Pessoas de sua cidade natal e de planetas bilhões de anos-luz distantes falando coisas muito parecidas. Mesmos medos, mesmos sonhos.

Foi aí que percebeu que não estava mais limitado por distâncias. Todos os pontos da realidade acessíveis, e espaço infinito para criar novos. Dimensões novas existiam com a força de seu pensamento, regras universais podiam ser transformadas ao seu bel-prazer. Criou um falso vácuo só para ver quão rápido poderia se expandir, e depois só voltou no tempo para desfazer. As vozes mudavam rápido, com civilizações inteiras surgindo e desaparecendo no tempo de uma sinapse. Seu pensamento era tão infinito quanto desejasse, mas o tempo para as outras entidades vivas acelerava vertiginosamente.

Sua mente era capaz de tudo, desde que pagasse o preço do tempo. Mas o tempo era seu. Aprendeu então a ir e voltar até o fim dos tempos, a navegar pela entropia gerando realidades sem fim. Podia ouvir as vozes e começar a atendê-las se fragmentasse sua consciência. Podia voltar tudo ao início e refazer o universo todo da forma como desejasse, inclusive deixando várias sugestões de sua existência para as mais diversas formas de vida. Fez isso incontáveis vezes, cada vez com mais controle de cada etapa. Experimentou cada possível resultado e finalmente sentiu-se no controle. Foi quando se lembrou de uma curiosidade do passado: o que veio antes?

Voltou o tempo até o início, a explosão. Mas dessa vez, deu um passo além. Foi descobrir o que existia antes do universo. Foi quando finalmente entendeu tudo. Um fluxo de informações o esperava antes de começo da realidade, o Big Bang apenas a primeira instrução de um código. Ele se lembra de onde parou nas suas pesquisas, na teimosia de alguns bits quânticos de fazerem seus cálculos. Que alguns deles eram capazes e outros não sem nenhuma explicação aparente. E principalmente, que alguns simplesmente desligavam sem motivo aparente.

Ele era a explicação. Sua trajetória como “deus” dessa realidade respondia todas as dúvidas. Todos os universos que desenvolveu da infância até o final, um diferente do outro por um motivo. Suas ações não eram livres, era apenas o condutor de um cálculo complexo demais para ser feito de outra forma. Um de incontáveis. Percebeu que todos nós somos instruções num programa, uma simulação funcional com percepções diferentes de tempo de acordo com sua função. Uma formiga, uma pessoa ou uma supernova, todos meios de armazenar e modificar dados enviados no começo dos tempos. Era o ser maior de uma realidade viciada e ao dar função para ela, perdeu a sua.

E então, foi para o final dos tempos… e ficou por lá.

Para dizer que eventualmente alguém vai acertar chutando assim, para dizer que não entendeu nada mas gostou de viajar, ou mesmo para dizer que agora sabe porque seu computador vive travando: somir@desfavor.com

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