Campo Paralelo – Parte 2

Continuando…

– Você quebrou a continuidade, Sellas.

A frase de Tobias ecoa pela mente de Sellas, que agora começa a observar o ambiente ao seu redor perder a definição, primeiro os rostos de alguns dos outros senadores que acompanhavam a conversa numa grande mesa atrás de Tobias, e depois mesmo os móveis e as paredes do local vão ficando cada vez mais borrados.

Em questão de segundos, o cenário vai se refazendo ao tomar as formas sólidas dos campos energéticos do Campo Paralelo. O céu, que assume um tom mais arroxeado e escuro, passa a impressão de noite com apenas alguns esparsos pontos luminosos lembrando estrelas, mas o horizonte a perder de vista está iluminado como se fosse dia. Característica comum da região, ainda não explicada totalmente pela ciência. Por quilômetros e quilômetros, é como se uma imensa plantação de cristais amarelados emanasse partículas de luz, que navegam preguiçosamente pelo ar.

Sellas se volta para trás, em busca da plateia. No lugar dela, a imensa parede negra que delimita o início da Zona de Exclusão. Ele não está mais sentado diante dos senadores, mas andando em direção à escuridão. A confusão transforma-se em medo quando percebe que não controla os movimentos do corpo, continua seguindo rumo à Zona de Exclusão contra sua vontade. A própria luz do ambiente parece ser consumida pela massa negra quanto mais próximo fica. O céu escurece até se tornar totalmente preto e em questão de poucos passos é como se a noite finalmente chegasse.

Logo a parede, tão estática quando vista de longe, parece mais e mais orgânica, como se várias fibras e fios a compusessem, e quanto mais Sellas presta atenção, começam a parecer vivas, movimentando-se lentamente. Seu corpo começa a ser engolido pela massa de linhas negras, que vão se contorcendo ao redor de seu corpo enquanto o puxam para dentro. A sensação não é incômoda, é como se estivesse submergindo num líquido em temperatura ambiente. A visão escurece por alguns momentos, mas logo retorna com um poderoso flash luminoso. O lugar agora parece uma versão muito mais iluminada dos campos energéticos que observara anteriormente. Até o céu é mais claro, com uma tonalidade mais rósea e estrelas muito maiores que as anteriores.

– Você voltou! – Sellas está diante dele mesmo. Uma cópia perfeita, como se olhasse num espelho. Seu clone sorri.

– O que está acontecendo?

– Você me diz! Eu fiquei parado aqui te esperando por sabe-se lá quanto tempo. O que tem do outro lado?

– Eu não sei o que está acontecendo, eu estava respondendo as perguntas… você é um clone meu?

– Eu? Não… eu… ah, já sei. Acontece com alguns que atravessam. Você só está me vendo como você, pelo o que eu já entendi, a minha forma verdadeira nem faz sentido para as mentes de quem vem de lá. Fica tranquilo, eu não sou você não. A forma que a sua mente mais conhece é justamente a sua, por isso deve ser mais fácil me ver assim.

– Peraí… eu estava sonhando com aquela audiência do Senado? Eu nunca saí daqui?

– Claro que saiu! Senão eu nem estaria te esperando, Sellas! Mas você voltou sem o seu Memo. Eu te disse que eu precisava dele quando você voltasse!

– Quem é você? – Sellas começa a esfregar os olhos e respirar fundo, nervoso por não conseguir fazer senso da situação.

– Você esqueceu tudo! Não acredito… não acredito! Não se lembra do que me prometeu? De me mostrar como as coisas são do outro lado?

– Não! Não lembro de nada!

– Vocês sempre me decepcionam. Eu vivo aqui desde que tenho consciência. Eu viajei por todos os lugares do universo, em todos os tempos, e só aqui, nessa barreira negra… só aqui eu encontrei outros como eu. Limitados e confusos, com formas pequenas e frágeis, mas capazes de pensar como eu. Até eu encontrar o primeiro de vocês, nem sabia que podia… podia me comunicar.

– Eu já te encontrei antes?

– Claro. Você me prometeu a visão do seu lado. Todas as visões da mesma forma que você me deu a sua com o Memo. Você não me trouxe nada?

– Eles destruíram o meu Memo. Eu acho… eu não sei por que eu vim parar aqui. Da primeira vez que eu passei, eu não lembro de nada…

– Então volte! Volte e cumpra sua promessa, Sellas! Eu não aguento mais esperar aqui. Eu não posso mais existir sabendo que todos vocês estão do outro lado!

– Por que você não atravessa?

– Eu tentei. Eu tentei no começo dos tempos, eu tentei no final. A única coisa que sempre existe é essa barreira. Foram vocês que colocaram ela? Vocês não querem que eu passe? É isso?

– Não sei! Eu não sabia nem quem você era até cinco minutos atrás!

– Eu não deveria ter te deixado voltar. Eu não deveria ter confiado em vocês. O meu erro foi… o meu erro foi não ter usado sua verdadeira memória…

O som do burburinho da plateia volta imediatamente. Diante de Sellas, Tobias.

– O senhor não vai responder a pergunta?

Sellas está de volta à audiência. Ele olha para o vazio por alguns instantes, como se estivesse pensando em algo.

– Qual a sua primeira memória da existência da Zona de Exclusão, senador?

Continua…

Para dizer que ficou ainda pior, para dizer que já entendeu tudo, ou mesmo para dizer que nem eu sei o que estou fazendo: somir@desfavor.com

Se você encontrou algum erro na postagem, selecione o pedaço e digite Ctrl+Enter para nos avisar.

Etiquetas:

Comentários (3)

  • Olha, tá ficando interessante. Ao mesmo tempo, porém, também estou ficando cada vez mais confuso… Talvez tudo se esclareça no final, mas pode ser só eu que ainda não saquei alguma coisa. E o Somir, claro, nunca foi de facilitar pro leitor nesses contos…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Relatório de erros de ortografia

O texto a seguir será enviado para nossos editores: