Campo Paralelo.

Sellas respira fundo, fecha os olhos por alguns segundos, e depois de um sorriso, começa a falar:

– Tudo começou com a descoberta do Campo Paralelo, acredito que foi o Derish Nazai em 2081… ou 82? Ou o Nazai descobriu os Saltos? Faz tempo que eu tive essa aula… posso ter o meu Memo de volta? Ajudaria tanto…

A plateia ri. Sellas lança um olhar irônico para o senador Tobias, que responde:

– Acredito que ninguém aqui precise da história da ciência por trás do Campo Paralelo para entender melhor os eventos ocorridos na Zona de Exclusão mês passado, senhor Gerdov.

– Então o senhor senador tem minha total permissão para acessar os dados do meu Memo e descobrir por conta própria.

A plateia não resiste aos risos novamente. Sellas Gerdov, um dos mais famosos exploradores do Campo Paralelo nas últimas décadas, fez para si uma reputação de ser tão corajoso quanto carismático, com suas aventuras gravadas nos desconhecidos mundos paralelos alcançando níveis sem precedentes de popularidade deste lado da realidade. Ele segura o queixo com uma das mãos, cotovelo prostrado sobre a grande mesa e sorriso debochado decorando o rosto.

– O senhor não está em um de seus shows, esta audiência não precisa ser entretida com sua personalidade midiática para ter sucesso. Atenha-se ao que foi perguntado sob o risco de prisão por desacato à autoridade.

Tobias Artoz Exorbinaz, um senhor de meia idade, alto e esguio, era senador da Federação Terrena há praticamente um século e não compartilhava do carisma do astro à sua frente, mas ainda sim exercia suficiente respeito à plateia para silenciá-la com um mero olhar de desaprovação. A expressão sisuda emoldurando o frondoso bigode acinzentado do homem finalmente contamina Sellas, que, resignado, continua seu relato:

– Olha… eu não me mantive no topo do mercado de exploradores do Campo Paralelo à toa. Eu sempre tive que assumir riscos para mostrar para as pessoas o que existe do outro lado. Mostrar os campos energéticos fascina as pessoas por algum tempo, se é que você me entende. Hoje em dia você fecha os olhos e recebe duzentas transmissões com documentários completos sobre os Seres Iluminados, as Almas Eco e até mesmo o Povo dos Céus… você tem que entender que nos últimos 50 anos, todos os mistérios dos nossos antepassados viraram matérias escolares. Tudo o que era paranormal explicado… nada mais do que seres de realidades diferentes entrando em contato eventual por falhas na Membrana.

– Prossiga.

– Eu fui o primeiro a entrevistar uma Alma Eco, eu fui o primeiro a atravessar de volta numa das máquinas do Povo dos Céus… eu fui o primeiro a trazer para esse mundo muitas das primeiras imagens de dentro do Campo Paralelo. Eu precisava explorar a Zona de Exclusão. Eu não levei ninguém. Estava sozinho com meu equipamento. Só me coloquei em risco.

– O senhor compreende que a Zona de Exclusão tem o nome que tem por um motivo?

Escuta-se algumas reações humorosas de algumas das centenas de pessoas acompanhando a audiência de forma presencial. Na Terra e nas quatro colônias, bilhões acompanham pelos receptores cerebrais. Sellas franze a testa.

– Não, e ninguém compreende. Porque eu fui o único que voltou até hoje? Até onde eu sei, estou com a saúde intacta. Faz muitos anos que eu venho dizendo que essa é uma proibição sem base nenhuma e que as pessoas deveriam ter o direito de atravessar se for o desejo delas.

– O senhor pode nos confirmar quanto tempo passou dentro da Zona de Exclusão?

– Eu não lembro de nada lá dentro. Para mim foram segundos, no máximo.

– E no entanto, a distância entre sua ida e volta da Zona de Exclusão foi de dois meses.

– Existem discos voadores e fantasmas no Campo Paralelo… uma dilação de tempo não deveria ser surpresa! Aliás, isso até explica porque ninguém mais voltou… continuaram em frente. Talvez voltem daqui há alguns séculos se passaram mais que alguns segundos lá dentro.

– O senhor poderia me confirmar se se reconhece nessa gravação feita no dia 18 de Outubro de 2304?

Sellas aparece na borda entre os campos fronteiriços e a enorme parede negra que delimita a Zona de Exclusão. Ele parece desorientado e agressivo ao lidar com a pessoa fazendo a gravação retinal. Suas mãos coçam a cabeça ao redor do Memo enquanto diz palavras sem nexo.

– Cinco minutos depois eu estava ótimo. Já vi gente pior ao desembarcar em Titã! – Sellas cruza os braços e reclina-se na cadeira.

– Na verdade, foram quatro horas até o senhor deixar de demonstrar o comportamento que acabamos de ver na gravação. O senhor acredita que a retirada do seu implante de memória teve impacto na recuperação das suas faculdades mentais?

– Não sei. Não sei. O cirurgião não me devolveu o Memo, os oficiais levaram embora. Eu não sei se foi isso que me ajudou naquela hora. Eu só quero o meu implante de volta, é propriedade privada!

– O senhor poderia me confirmar se se reconhece nesta gravação retinal?

Sellas aparece deitado numa cama de hospital, com amarras nos braços e pernas. Ele alterna momentos de se debater com rigidez total. Eventualmente, começa a balbuciar algumas palavras: “eu me lembro de tudo… eu sou uma lembrança também… eu quero ir para o fim… me leva para o fim disso tudo…”

– Me deram tanto sedativo que eu acho até que falei bonito nessa hora.

Risos. Sellas estufa o peito e sorri novamente.

– O senhor consegue explicar o significado das palavras que proferia naquele momento? – Tobias impõe sua voz e reconquista o silêncio dos presentes.

– Não, eu mal me lembro da operação. Eu uso o Memo há mais de setenta anos… como a maioria das pessoas aqui, sem ele eu não sei buscar as coisas de forma efetiva na memória biológica. Não sei porque tanta confusão… devolvam o meu Memo que eu respondo todas essas perguntas.

– Isso não será possível.

– Porque lá estão informações sobre o que vocês não querem que as pessoas vejam? Aliás, isso não é crime? Acessar o Memo de outra pessoa sem consentimento?

– Eu posso garantir ao senhor que todas as ações realizadas no seu caso são legais. Caso o senhor não saiba, eu fui o proponente original da lei de proteção à memória em 2241! – Tobias parece visivelmente ofendido.

– Que seja… olha, eu não quero brigar. Eu cresci te vendo trabalhar aqui na Federação, assim como todo mundo acompanhando, eu respeito o que você faz , mas não faz sentido não me devolver o Memo. Vocês já analisaram tudo o que tinham que analisar, senão nem precisariam dessa audiência, não? Eu só quero ele de volta para poder contar a história.

– Senhor Sellas Gerdov, o seu pedido não pode ser realizado. O seu implante de memória foi destruído.

A plateia reage chocada. A destruição do implante de memória de uma pessoa é crime mais sério até mesmo que o assassinato desde a popularização dos clones humanos.

– Minha última cópia da memória era de um mês antes daquilo! Como vocês tiveram coragem de fazer isso? Eu vou processar a Federação por cada segundo perdido ali! Por quê? E ainda mais montar esse circo todo só para me dizer isso?

– Quarenta e nove pessoas tiveram contato com você antes da retirada do seu implante de memória. Incluindo oficiais de segurança, médicos, enfermeiros e técnicos da Memo. Todos tiveram suas memórias corrompidas localmente, e sete deles inclusive perderam todas as cópias de segurança conectadas à rede Neural Norte.

Espanto audível na plateia local. Sellas arregala os olhos e falha em emitir uma resposta. Tobias continua:

– Temos motivos para acreditar que o que quer que estivesse na sua memória era capaz de causar sérios danos para as pessoas próximas. E a presunção mais lógica é que você teve acesso a alguma coisa na Zona de Exclusão que gerou o efeito. Não temos mais acesso aos dados recuperados, pois foram eles que causaram as últimas causalidades e tiveram que ser eliminados do sistema. Portanto, seu relato da memória biológica é a única coisa que temos no momento. Precisamos que você se concentre.

– Eu… eu… eu não sabia…

– Agora sabe. Eu não tenho interesse em me aproveitar da sua fama para me tornar relevante novamente, como você insinuou na sua última entrevista antes dessa audiência. Estou falando de forma tão pública para deixar muito claro que a decisão de criar uma Zona de Exclusão no Campo Paralelo tinha seus motivos. Com a aprovação dos meus colegas, estou emitindo oficialmente uma ordem de terminação imediata de qualquer corpo que se aproximar da Parede Negra. Inclusive o implante de memória.

– Os sete… não tinham mais nenhuma cópia?

– Não. Insisto… o senhor consegue se lembrar da motivação por trás das palavras que disse na última gravação retinal mostrada? O senhor disse que se lembrava de tudo e que queria chegar até o fim. Qual o significado dessas palavras?

– Eu não sei! Não lembro de nada depois de atravessar… eu juro.

– Qualquer… coisa…

– Não! Não! Era tudo escuro…

– O senhor se lembra de como eu não era tão alto quanto você imaginava?

– Hã?

– Por algum motivo, o senhor sempre me imaginou com um bigode. Eu não uso bigode há quarenta anos.

O bigode no rosto de Tobias desaparece, como se nunca estivesse lá para começo de conversa. Sua estatura também parece menor. Sellas esfrega os olhos e coça a cabeça.

– Você quebrou a continuidade, Sellas.

Continua…

Para dizer que nem sabe se quer ler a continuação, para dizer que já sabia que não ia saber, ou mesmo para dizer que tendo punição é fácil aguentar os meus textos: somir@desfavor.com

Se você encontrou algum erro na postagem, selecione o pedaço e digite Ctrl+Enter para nos avisar.

Desfavores relacionados:

Etiquetas:

Comentários (5)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Relatório de erros de ortografia

O texto a seguir será enviado para nossos editores: