Falando além.

Algumas coisas que vemos não podem ser explicadas, não ainda. Sally e Somir discordam sobre o quanto deve-se ser aberto nessas situações… sobrenaturais. Os impopulares acreditam ou não.

Tema de hoje: se você presencia um evento paranormal, conta para outras pessoas?

SOMIR

Sim. Evidente. A gente conta cada coisa banal da nossa vida para os outros, principalmente nesses tempos de evasão de privacidade como norma. Acredito que tudo neste tema dependa de como você enxerga o paranormal: para mim é simples, se existe é natural. Ver um fantasma ou algo do gênero não quebraria minha visão de mundo nem me faria sentir maluco.

Sempre digo que céticos não veem fantasmas, só que essa frase vai bem mais longe do que mera negação da existência do sobrenatural: primeiro quer dizer que uma pessoa que não está predisposta a acreditar em algo tende a não encontrar situações onde essa coisa se manifesta. Quem acredita em duendes pode acabar vendo algum vulto no mato que tente explicar imediatamente como um duende. Não significa que tenha sido um, mas como a pessoa já parte da presunção que esses seres existem, é muito mais fácil para ela gerar essa explicação. Quem não acredita vê um vulto indeterminado.

E em segundo lugar, mesmo que a pessoa que segue essa linha cética veja um suposto fantasma, ela tem ao seu dispor muito mais ferramentas para gerar essa explicação, mesmo que não existam dúvidas sobre o que ela viu. Ver algo e explicar algo são coisas completamente diferentes, vide as inúmeras ilusões de ótica que existem por aí. O cérebro tem seus pontos exploráveis sim, não é nada de muito estranho que sejamos tapeados por algo inesperado. Eu, por exemplo, até acharia interessante ver um fantasma, na possibilidade remota de ser um mesmo e isso expandir imensamente o meu grau de compreensão da realidade. Provavelmente não é, mas se for, é natural e pode ser estudado e compreendido.

Partindo desse princípio, eu contaria numa boa se visse algo considerado paranormal. Eu não teria a pretensão de saber a explicação daquilo, estaria só entregando um testemunho. Mania das pessoas de precisar saber tudo para apreciar uma situação fora do habitual. É a minha briga com a maioria das religiões: as explicações que eles dão para o sobrenatural (presumidamente) são ainda mais bizarras que os próprios eventos relatados. É tamanha a sanha de tentar simplificar as coisas e se livrar do medo de não saber (spoiler: não saber é o que você mais vai fazer na vida, de longe) que qualquer cobra falante está valendo a pena.

Como não partilho dessa visão das coisas, não há mal algum em relatar um evento paranormal, afinal, se você não está passando a vergonha de invetar uma explicação infantilóide ou mesmo repetindo a ignorância de outros que vieram antes de você, qual o problema? Você viu algo, relatou algo. Não tem nem como estar errado: ao tratar o tema com a racionalidade necessária, é até positivo que alguém te dê novas informações que te façam rever a “aparição” ou seja lá o que presenciou com novos olhos.

Sim, tem gente maluca que vai achar que você é amaldiçoado ou se mete com energias demoníacas simplesmente por falar, mas… francamente? Procura seus serviços do dia a dia em outra loja… crente maluco desses nunca chega em posição de poder suficiente para te ameaçar. Sim, eu disse isso. Gente que se dá bem na vida nunca age dessa forma, mesmo os pastores mais insanos só fazem isso na frente de uma plateia, na vida real agem de forma muito mais “secularista”. Eu mantenho que a maioria da população humana é agnóstica na melhor das hipóteses. Se os fanáticos fossem maioria, não teríamos saído da Idade Média.

Até por isso, faz muita falta gente com capacidade de relatar as coisas que vê de forma calma e racional, para que a discussão avance um mínimo. Quem fala do paranormal normalmente não tem provas de nada ou tem a eloquência de uma criança bêbada… não é à toa que os céticos existem: quem costuma relatar esses eventos o faz de uma forma tão tosca e pouco científica que na pequena chance de estarem certos, fazem mais mal do que bem para a própria credibilidade. Deles e de tudo o que tange o sobrenatural.

Viu um fantasma, um poder mediúnico ou um ET? Relate numa boa. Se estiver errado, menos coisas para se preocupar. Se estiver certo e for minimamente capaz de se expressar, pode ajudar o conhecimento humano de forma nunca antes realizada. São milhares de anos de história sem prova nenhuma, estava ficando feio para a turma do sobrenatural uns quatro mil anos atrás, hoje em dia já está imperdoável mesmo. E não é falta de boa vontade dos céticos, é que não conseguiram levar nada disso em frente mesmo.

Só precisa ter medo disso quem acredita que precisa ter medo disso. Não tem nada inexplicável, se existe é natural (quanta coisa não existia até poucas décadas atrás?). Se existe, obedece as leis da física (quem disse que sabemos todas?). Tenha medo de bandido e animal selvagem, porque o resto, até alguém conseguir explicar direito, nem existe. Só saber disso que você não se preocupa mais em contar… vai dizer que não acha uma boa história falar sobre as bobagens que fez enquanto estava bêbado (no ambiente certo, espero eu)? É só isso, só você contando a peça que seu cérebro te pregou.

E se por um acaso tiver algo além disso e alguém te ajudar a explicar… você pode desvendar mistérios insolúveis há milênios. Não tem como perder.

Para dizer que é fácil dizer sabendo que não vai ver, para dizer que minha arrogância será minha ruína (pau no cu de todos os deuses e seres mágicos inexistentes do mundo, eles nunca vão causar efeitos na minha vida), ou mesmo para dizer que viu, mas não vai contar: somir@desfavor.com

SALLY

Caso você presencie algum evento paranormal, qual seria a melhor decisão: contar para alguém ou calar a boca? 

Conselho de amiga: cale a boca.

Sério, guarda pra você. Se você compartilha uma porra dessas com alguém, em algum momento sua sanidade vai ser questionada, isso vai ser jogado na sua cara para te desacreditar ou vai ser comentado em um ambiente inapropriado. As pessoas simplesmente não estão preparadas para escutar uma coisa dessas, independente de ser verdade ou não.

Tem gente que vai saber escutar? Tem. Mas são poucos e raros. Se tem uma coisa que eu aprendi na vida é a contar que a regra geral aconteça. Se vier a exceção, putz, que lindo! Mas na maior parte das vezes, é a regra geral quem se concretiza. A regra geral é que as pessoas são muito inconscientes, ignorantes e toscas, dificilmente lidarão de uma forma bacana com uma informação dessas. Ainda mais no Brasil, onde tudo se diviniza, se demoniza ou descamba para o religioso.

O que você ganha compartilhando uma informação dessas? Nada. Só tem a perder. Vai esperar compreensão, ajuda ou até, quem sabe, uma explicação e não vai ter. É fato: ninguém tem nenhuma resposta definitiva para eventos paranormais, então, ninguém vai poder elucidar o caso para você. Vai se expor dessa forma por qual motivo?

“Mas Sally, as pessoas podem me ajudar a entender”. Não, não podem. Arquivo X mentiu para vocês, a verdade não está lá fora, está dentro de você. Tudo que você precisa está dentro de você, senta o cu, estuda, medita, faz regressão, toma ayuasca, evoca o Unicórnio Sagrado, faz o que achar melhor, mas acessa isso dentro de você. A resposta não está fora. Não tem ninguém “mais sábio” que você para elucidar a questão.

Não atormente outros seres humanos jogando neles sua ignorância, seu susto, sua quebra de paradigmas. Só pra variar, se faça responsável sobre a compreensão que diz respeito a você mesmo e a algo que te aconteceu. Há inúmeros caminhos: física quântica, psiquiatria, psicologia, parapsicologia, religião ou o que for. Procura tua resposta em todos os lugares e pega a que te ressoar como verdade. Ou deixa a questão em aberto e vive com isso, que, na minha opinião, seria a melhor opção.

Que necessidade é essa de contar tudo que te acontece para outra pessoa? Quando a pessoa pode ajudar, aconselhar, eu até entendo. Mas em se tratando de um assunto que ninguém entende, ninguém sabe e ninguém responde porra nenhuma, vai se expor por nada. Ter que sair falando é sintoma. Precisar correr e contar para alguém é sintoma. Tenha serenidade, tente digerir e entender isso sozinho, dentro de você. Ninguém vai te salvar, te proteger ou te explicar nada.

Vou além: periga da pessoa que escutar a história ainda te induzir a erro. Se tem alguém que pode entender o contexto daquilo, a razão de ser, a origem, é você, que vivenciou a experiência. Você, que se conhece, que sabe em detalhes de toda sua história de vida, do seu estado anímico no momento, de todo o entorno. Não uma pessoa estranha que não vai ter subsídios para montar esse quebra-cabeça.

Então, se é que há uma resposta, só você a tem ou só você tem os subsídios para saber. As pecinhas que juntam e forma esse quebra-cabeça são suas. Procurar isso fora de você é insegurança ou preguiça mental.

“Mas Sally, uma pessoa que entenda de fenômenos paranormais pode me ajudar, pois tem um conhecimento que eu não tenho”. Para começo de conversa, se aconteceu (o que quer que seja) é normal, e não paranormal. Além disso, não há faculdade, não há fontes precisas, não há onde ou quem consultar que ser um expert e te dê certezas. Quem melhor sabe qual pode ser a explicação é você.

Suponho que muitos compartilhem apenas pela diarreia verborrágica que as pessoas adquirem ao conviver. As pessoas tendem a querer contar tudo umas para as outras. Não seja essa pessoa, isso é um saco. Ninguém, por mais que te ame muito, quer saber o que você comeu, a fofoca que aconteceu no seu trabalho ou se você está com diarreia. Por caridade, tenham a decência ter guardar ao menos algumas informações para vocês mesmos.

Uma vivência como essa é algo único, especial, íntimo. Não é para sair contando. Apenas quem vivenciou vai entender e mensurar o que foi o evento. Dificilmente palavras expliquem e mais dificilmente a outra pessoa lide bem com isso. Ela pode ficar com medo, pavor, terror. Pode te achar maluco. Poucas pessoas tem a serenidade de se deparar com algo assim e deixar em aberto, sem precisar encaixar em alguma explicação conhecida. E nessa de enquadrar em explicação, tem grandes chances da pessoa te magoar simplificando, ridicularizando ou duvidando do ocorrido.

“Mas Sally, eu e meu mozão contamos tudo um para o outro!”. Seu mozão mentiu pra você, meu anjo. NINGUÉM conta tudo um para o outro, e que bom que não conta, pois isso implicaria na total perda de privacidade e individualidade. Sério mesmo, faz mais mal do que bem contar algo tão pessoal e íntimo. A outra pessoa pode não estar preparada para lidar e, mesmo que esteja preparada para observar a questão serenamente sem juízo de valor e sem enquadrar o evento em nenhuma explicação conhecida, não terá respostas para te dar.

Não se trata de mentir. Coisas relevantes, que afetam terceiros devem ser compartilhadas sim. Mas isso? Isso é um evento único, que só diz respeito a você. É algo personalíssimo, sem qualquer explicação. Uma coisa sobre a qual não se tem o menor controle. É um convite à observação, à reflexão, a olhar dentro de você e não a passar a mão no telefone e sair vomitando “Você nãããããão sabe o que me aconteceeeeeu”.

Sério mesmo. Fiquem calados. As chances do interlocutor não ajudar e ainda gerar problemas são muito maiores do que a da pessoa levar de boa e conseguir dar alguma ajuda ou acolhimento.

Para dizer que isso é macumba, para dizer que isso é encosto ou ainda para dizer que está repreendido: sally@desfavor.com

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Comentários (15)

  • Eu não contaria pelos seguintes motivos:

    – A parte de questionarem minha sanidade. Não quero ganhar reputação de doido/doente.

    – Se aquilo realmente aconteceu e não foi uma alucinação minha, sair divulgando que eu vi um demônio/ET/fantasma/etc pode atrair a atenção de autoridades e organizações com propósitos escusos. Posso acabar sendo sequestrado, virando cobaia de experimentos ou até assassinado por saber demais.

    – Sou cético pra caralho e, dependendo de como fosse essa experiencia com o paranormal, atribuiria tudo a uma alucinação pessoal.

    Além disso, eu conheço um cara que alega se comunicar com espíritos desde pequeno, e que tais espíritos tem planos pra ele. Ele diz que desde que esse contato começou, ele nunca mais teve sonhos quando dorme e que teve certeza que esses espíritos eram reais depois que ele obteve informações sobre algumas pessoas, informações que nem essas pessoas nem ninguém além dos espíritos tinha falado pra ele sobre elas. Eu acho viagem pra caralho, mas sempre que converso com ele parto da premissa que esses espíritos existem. Se ele acredita que tem provas, quem sou eu pra julgar? Tirando essa parte dos espíritos, ele é bem racional e é uma boa pessoa.

  • Com os meus amigos esse tipo de historia sempre fez sucesso, claro que éramos adolescentes quando rolavam esses papos mas tem gente que é naturalmente mais aberta e curiosa com o sobrenatural ou oculto, entre nós nunca houve esse julgamento, ou talvez todos fossem malucos !!

    Esse assunto sempre foi tratado com naturalidade por mim e pela maioria das pessoas que eu convivi, acabo de descobrir que pode ser um problema agora que a Sally disse mas particularmente falar sobre isso nunca me causou problemas, nem mesmo essa pretensão de loucura acho que cada pessoa interpreta esses acontecimentos “sobrenaturais” da forma que acha mais conveniente, quando você fala sobre isso você descobre que quase todo mundo tem um causo sobrenatural para contar.

  • Vivi uma situação que não sei se era paranormal e só acreditei na hora porque meu filho viu a mesma coisa. Ele só fala disso comigo e evita falar nesse assunto. Pra não ser tomada por doida, fico na minha. Acho impossível transmitir a impressão de susto, medo, surpresa, etc. a outra pessoa. Então fica assim!

  • Nessa sociedade já é difícil não acreditar em deuses, se um dia eu vier com uma história de que presenciei algo ”paranormal”, as pessoas, naturalmente, tentarão me atribuir alguma espécie de religião, por este suposto contato com o divino. Ou seja, todo o inferno(sem trocadilhos) que é tentar desvincular-se de religiões voltaria à estaca zero.
    Então, é melhor lidar sozinho com meus problemas!

  • Ah, eu conto quando rolam assuntos que se encaixam com o acontecido. E pode até dar uma força de ânimo pra quem eu tô contando. Tipo uma luz no fim do túnel pra quem está totalmente desacreditado de tudo.

    Para alguns amigos mais próximos eu conto quando é algo muito interessante mesmo. Quem quiser me julgar que julgue.

  • Hoje em dia eu falaria porque se ganha até $ falando sobre isso. Na minha época eu não falava nem pra minha mãe porque tinha medo de apanhar e ser internado.

    • Se ganha dinheiro mas se perde credibilidade, respeito e até a dignidade. Vale a pena ganhar dinheiro nesse esquema?

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