Pode contar?

Por uma série de motivos, mesmo nos melhores relacionamentos acabamos lidando com algumas mentiras. Sally e Somir não escondem suas diferenças na hora de confrontá-las. Os impopulares prometem dizer a verdade, e somente a verdade.

Tema de hoje: se você pega seu(sua) parceiro(a) numa mentira, é melhor confrontar ou esperar para ver até onde vai?

SOMIR

Aproveite o momento. Se você tem a vantagem de saber que a pessoa está mentindo, use a oportunidade para ver até onde isso pode ir. Não necessariamente com más intenções, para punir a outra pessoa pela mentira, mas para entender melhor o processo que gerou esse comportamento. Num relacionamento, a verdade é essencial, mas informações também.

Faz parte de uma estratégia de agir com todas as ferramentas em mão. Muito mais certeiro fazer a pessoa lidar com sua mentira depois que ela está muito envolvida nela do que numa fase embrionária, onde você tem que arriscar uma reação bem negativa de quem está sendo confrontado. Explico: quem mente normalmente tem alguma segurança que fez isso direito. E a primeira reação é se defender da acusação. Esse combo de comportamentos ruins, mas pra lá de humanos, gera a maioria dos problemas nesse momento.

Se você coloca a pessoa na parede nesse momento inicial da sua descoberta, ela ainda vai ter a ilusão de escapar. Muito provavelmente pela vergonha de ter mentido ou pelas consequências negativas que presume da verdade vir à tona. Poucos estão acima disso, mesmo pessoas que você ame provavelmente tem essa dificuldade de lidar com o fato de serem expostas na mentira. Então, o ideal é tornar esse momento de revelação tão inescapável que contar a verdade se torna um negócio ainda melhor.

E infelizmente, não basta uma prova para causar essa sensação de inescapabilidade da verdade, parece ser até um processo irracional esse de defender sua mentira, de tão automático que é. Se você tiver provas e tiver feito a pessoa mentirosa passear um pouco pelo horror que é manter essa mentira sob pressão, ela vai ter uma escolha bem mais fácil na hora que você quiser resolver a situação.

O que ajuda a gerar um ambiente melhor para a verdade no futuro. Se a pessoa associar falar a verdade com um momento de desconforto, tende a pensar duas vezes antes de escolher a verdade no futuro; mas se falar a verdade vier com uma descarga enorme de alívio por se livrar de uma rede de mentiras paralelas criada para defender a primeira, a associação fica mais positiva.

Estou, claro, considerando uma mentira que não seja motivo para término do relacionamento, onde você possa tentar fomentar um ambiente mais agradável para a verdade na relação sem sofrer você mesmo no processo. Se você pretende continuar com a pessoa (mentira é uma merda, mas algumas permitem a continuidade da relação numa boa se resolvidas), é bom que a pessoa saiba que não tem alívio com você acreditando no que ela diz originalmente. É bom manter no outro a clara ideia de que você é capaz de enxergar a mentira e continuar dando corda para ela. Porque nesse caso, ela sempre vai ficar com uma pulga atrás da orelha depois de mentir, aumentando o sofrimento e a paranoia caso esteja fazendo isso de novo.

E queremos gerar experiências horríveis na mentira ao mesmo tempo que queremos demonstrar o alívio imenso da verdade. Sei que soa como adestramento, mas adestramento funciona em quase todos os animais minimamente inteligentes por um excelente motivo: o exemplo prático ensina de uma forma que o teórico jamais alcança. Saber que algo vai acontecer em resposta a um ato seu é até um alívio para uma mente humana, gera um senso de ordem e padrão nas coisas que nos faz gastar menos energia com o tema. Se a outra pessoa já tem clara na cabeça que não existe paz na mentira porque você vai dar corda até ela se colocar numa situação ainda pior, o ato de mentir fica instintivamente mais custoso.

Mas existe o outro lado: a mentira que você sabe que vai ser muito difícil de perdoar e talvez até acabe com o relacionamento. Mesmo assim, não é tão valioso confrontar de cara: pelos mesmos motivos de defesa da mentira, você corre o risco de cair numa explicação ruim ou mesmo sair de uma mentira para cair em outra quando a outra pessoa começar a se defender. Não podemos esquecer o componente emocional envolvido: você gosta da pessoa e quer acreditar no que te faz poder continuar com ela. Sua tolerância para bobagens está mais alta naquele momento.

Se você deixa a coisa avançar um pouco, vai conseguindo se distanciar emocionalmente no processo e entender melhor o que acontece. Ao dar corda, você consegue ver toda a mentira e provavelmente até notar outras que possivelmente acreditava até ali. Normalmente é difícil tirar uma pessoa da negação com uma prova, mas com várias resultantes de você deixar a pessoa continuar mentindo e aumentando? Aí você monta uma defesa muito mais forte para dizer o porquê de exigir uma mudança muito séria na pessoa, ou em casos mais graves, o de terminar tudo.

Ter um caso mais forte é sempre positivo. Para você, inclusive. Como disse antes, é uma situação com forte interferência emocional, é muito humano também fingir que não é tão grave ou achar desculpas pela pessoa nesse estado. Se você confronta de cara, vai para essa situação enfraquecido e com poucos recursos. A verdade é importante sim, tão importante que você tem que ter um trabalho extra por ela. Dar barraco e botar dedo na cara funciona algumas vezes, mas não é a solução mais inteligente.

Para dizer que eu consigo mentir até para dizer a verdade, para dizer que dedo na cara resolve tudo, ou mesmo para dizer que essa frieza é incompatível com amor (evolua): somir@desfavor.com

SALLY

Suponhamos que você flagre seu parceiro em uma mentira, de forma indubitável e incontroversa. Qual é a melhor atitude a tomar: confrontar no momento ou fingir que não sabe de nada para testar até onde a pessoa vai?

Meus queridos, exceto em casos que envolvam risco de vida ou gerem apenas o mal, minha resposta aqui vai seguir o mesmo padrão de costume: a verdade, sempre.

Um relacionamento sem joguinhos, sem armações, sem testes, é fundamental para mim. Não saberia viver (não mais) em um esquema de omissões, mentiras e desconfiança. Quem quer cultivar um ambiente onde a verdade pode aflorar tem que dar o exemplo. Soa um pouco hipócrita cobrar do outro verdade, se aborrecer com mentira, quando você mesmo optou por permanecer na mentira um tempo para testar ou avaliar o outro.

“Mas Sally, o filho da puta mentiu para você! A partir do momento em que a pessoa não é sincera, ela perde o direito de cobra que sejam sinceros com ela de volta, certo?”. Errado, querido leitor. Minha ética, meus valores, minha moral, não se medem pelo que o outro faz, me foram ensinados pelos meus pais e construídos ao longo da vida, com a minha experiência. Independem de terceiros. Eu faço a minha parte, tento ser correta e sincera, se o outro não o é, bem, problema do outro. O erro do outro não justifica um erro meu.

No exato instante em que eu pegar o outro na mentira vou chamar para conversar e entender o que está acontecendo. É meu parceiro, supostamente uma pessoa que eu amo, não vou manter a pessoa induzida a erro para espionar o que ela é capaz de fazer. Tenho para mim que um casal, não importa as divergências, sempre deve convergir para um objetivo comum, que é construir um relacionamento que seja saudável e bom para ambos. Eu vou fazer a minha parte.

Sinceramente? Não preciso deixar a pessoa se enrolar toda em uma mentira, passar por um efeito “bola de neve” para entende-la, medi-la ou conhece-la, muito menos para decidir se quero continuar com ela ou não. Se tem uma coisa que eu faço (e que o Somir pode facilmente confirmar) é dissecar por completo a pessoa que está ao meu lado. Eu conheço meus namorados como a palma da minha mão, não preciso espiar atrás da porta para perceber se a pessoa está bem intencionada ou se foi uma filha da putagem.

Só preciso uma coisa: sentar e conversar olho no olho. Falar da mentira, perguntar qual foi a razão daquilo e dar um espaço seguro e sereno para a pessoa se explicar. Ok, nem sempre é possível, eventualmente pode haver um grau de putez que nem sempre permite que as coisas sejam ditas da melhor forma possível, mas o contraditório e a ampla defesa tem que ser assegurados. Mesmo que escute bastante, a pessoa vai poder se explicar.

Depois da pessoa explicar seus motivos, depois que eu fizer todas as perguntas que preciso para compreender o que aconteceu, depois de esclarecer tudo que for necessário, decido se quero continuar com a pessoa ou não. Mas tudo feito às claras, estou muito velha para fazer joguinhos e, francamente, acho que nunca tive preparo emocional para uma coisa dessas.

Não conseguiria dormir ao lado de alguém que eu sei que está mentindo para mim e fingir que nada está acontecendo. Tomar café da manhã com a pessoa, almoçar, jantar, conversar, fazer sexo etc. Não tenho capacidade de fingir normalidade com algo assim martelando na minha cabeça.

Acho até um certo grau de psicopatia você desempenhar todas as atividades rotineiras de convivência como se nada tivesse acontecido. Se a pessoa mentiu para mim, provavelmente estarei bem triste por ter descoberto isso e sou transparente demais para que isso passe desapercebido. E que bom que sou, coisa mais odiosa ficar carregando máscaras, fingindo, colocando em prática estratégias. É seu parceiro, cacete, não se inimigo!

“Mas Sally, não vale a pena deixar de confrontar para ver até onde a pessoa vai?”. Não, não vale. Não vale a minha paz, não vale estar em um relacionamento, por um dia sequer que seja, com uma pessoa que estou desconfiando. Não é preciso esse tipo de “armadilha” para saber quem a pessoa é ou até onde ela vai. Quando você senta e tem uma conversa séria, olho no olho, e se coloca na verdade, é bem visível se o outro está com você ou está na mentira. Encostar na parede gera efeitos melhores do que escutar atrás da porta.

Foda-se o outro, o que ele fez, o que ele pensa, o que ele é. Preocupe-se com você. Mantenha-se na verdade, não pelo outro, mas para ser fiel à você mesmo, para ser uma pessoa da qual você mesmo possa se orgulhar. Se o outro quer fazer bosta, que chafurde na merda sozinho. Mesmo que seja para terminar, mesmo que o erro do outro seja deal breaker, eu quero e vou sair limpa, me portando da forma mais correta possível. Pois é, ser correto não é ser otário e ser babaca não é ser esperto. Não no meu mundo.

Conheça a pessoa que está com você, e você nunca vai precisar armar esse tipo de “estratégia”. É muito fácil ficar ao lado de alguém na superficialidade, ser colegas de quarto que fazem sexo, mas relacionamento vai muito além disso. Não existe qualquer chance de que qualquer relacionamento dê certo se você não investir na pessoa, em conhecê-la muito bem e se ambos não ficarem na verdade. E “dar certo” não é permanecer juntos, é ter cumplicidade, parceria e construir algo significativo juntos.

Não seja idiota, não monte armadilhas para seu parceiro(a). Não existe outra forma saudável de resolver as coisas que não na verdade. Seja a pessoa que você gostaria de ter ao lado. Seja honesto e verdadeiro, independente do outro.

Para dizer que em tese é muito lindo mas na prática é mais fácil mentir, para dizer que você praticaria uma terceira opção que seria quebrar os dentes da pessoa ou ainda para dizer que acha que se você falar a verdade ninguém fica ao seu lado: sally@desfavor.com

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Comentários (7)

  • “Minha ética, meus valores, minha moral, não se medem pelo que o outro faz, me foram ensinados pelos meus pais e construídos ao longo da vida, com a minha experiência. Independem de terceiros. Eu faço a minha parte, tento ser correta e sincera, se o outro não o é, bem, problema do outro. O erro do outro não justifica um erro meu.”

    Parabéns pela sua postura, Sally. Penso da mesma forma. Ah! E eu também prefiro a verdade, sempre.

  • (estranhando esse tema tão espinhoso e controverso assim, quase sem comentários – só reparei porque comento pouco, geralmente pq alguém já explicitou opinião semelhante à minha, daí não vejo pra quê redundar, rs)

    Eu fico com a Sally nessa. Nunca fui de jogos, comigo é tudo às claras, ou tá comigo ou tá contra mim. Tempo é meu ativo mais importante, não posso perder meu precioso tempo às voltas com uma situação dessa pra ver onde fulano chega. Que chegue na puta que pariu!!! Enquadro mesmo, tiro todas as satisfações; geralmente, é sinal forte para pular fora. Gente que acha normal esse tipo de situação com quem deveria ser seu parceiro, seu companheiro, que está ali deliberadamente e porque tá afim, não combina comigo.

  • Gostara muito de ser fria e calculista para ver se a pessoa assume o erro, ou piora tudo, mas sou muito ansiosa para tal.

    Já chego tirando satisfação na mesma hora que a bomba chega até mim.

  • Eu até queria ser como o Somir, mas não rola. Começou a mentir e eu reconheço, não me aguento: falo logo. Sempre acho que vou acabar me machucando mais se deixar a mentira rolar.

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