Primeiros erros.

Todo relacionamento, por mais breve que seja, tem que começar em algum lugar. Sally e Somir concordam que primeiros encontros são complicados, mas não se encontram na hora de definir qual o melhor lugar para isso. Os impopulares estão convidados.

Tema de hoje: qual o melhor lugar para um primeiro encontro?

SOMIR

Um motel, porque já resolve tudo de cara!

Ha, nem eu acreditei nessa. Em tese um homem responderia isso, mas além de eu temer pelo roubo dos meus rins com uma mulher que topa algo tão repentino, ainda tem todo aquele lance de décadas de conformidade com o patriarcado me fazendo temer muita liberação sexual feminina muito rápido. Joguem pedras. Não, óbvio que não seria um motel. Na verdade, eu acredito que um bar seria a melhor resposta. Não uma balada, mas um bar.

Um lugar não muito romântico nem muito baixaria, com amplo acesso a bebidas alcoólicas e alimentação restrita. Eu adoraria dizer sem música ao vivo, mas eu tenho a impressão que existe uma sociedade secreta de músicos de bar que corre para qualquer um que eu estiver em questão de minutos. Músicos de bar, eu não odeio vocês, só queria que não existissem. Mas voltando ao ponto: um primeiro encontro é um momento delicado, de movimentos bem calculados ao navegar por um mar de dúvidas.

O leitor ou leitora mais observador(a) vai perceber que eu disse que não queria um lugar muito romântico. Parece contraproducente, mas na verdade não é. Um primeiro encontro presume que a coisa pode dar errado, afinal, é uma primeira tentativa. Inveja de quem encara um primeiro encontro com a confiança que vai dar tudo certo e conseguir o que quer, mas vamos concordar que a maioria das pessoas não toca a vida com esse grau de certeza nas coisas. Tanto você quanto a outra pessoa vão sabendo que pode não rolar nada daquilo, o que pode gerar nervosismo extra quando a situação parece conspirar para um final feliz…

O bar reduz as expectativas imediatamente. É mais esforço do que tentar desatar o sutiã dela dentro do seu carro, mas não é exatamente um jantar à luz de velas. Se a química rolar, existem muitos outros encontros no futuro para dar esse passo extra. Mas no primeiro, dá para ir com mais calma nesse aspecto. Assim ambos podem tirar suas impressões iniciais num ambiente sem pressão e decidir com mais tranquilidade até onde aquele encontro pode ir.

Além disso, a combinação de ambiente um pouco mais caótico e a presença constante de álcool ajuda a facilitar o processo da conversa. Se você está num lugar muito calmo, silêncios constrangedores tornam-se a bateria do Olodum do desconforto, existe uma expectativa de encaixar uma boa conversa, o que nem sempre é viável de cara. Eu já percebi na minha vida que tem gente com a qual você consegue conversar muito bem de cara e gente que demora um pouco mais para conseguir o encaixe, fluindo bem depois. E como eu tendo mais a ser o segundo tipo de pessoa (presuma que todo mundo é muito burro até provarem o contrário, a taxa de acerto é gigantesca), prefiro manter as coisas mais seguras nessa hora.

E não vamos esquecer o álcool. Sim, ninguém deveria depender disso, mas que quebra gelo como poucas outras coisas no mundo, isso quebra. E eu percebo isso muito mais nas mulheres, por mais que o mundo tenha evoluído nesses últimos tempos, mulheres ainda parecem treinadas demais para fazer pose de bonequinha inocente nos primeiros contatos com homens desconhecidos. Claro que é um plus, mas nem estou falando de se soltar sexualmente aqui. Pior, acho que as mais traumatizadas com isso são as que realmente tem cérebro e senso de humor, com medo de “assustar” homens ao mostrar esse lado muito rápido. Com um fluxo constante de bebida, é mais comum ver elas soltando esse lado. E se tirar alguma repressão sexual desnecessária, mais diversão para o casal.

A parte da comida também é mais tranquila no bar. Normalmente só tem porções e lanches, o que evita que qualquer um dos dois fique de barriga muito cheia e tenha que desistir de uma possível grande química imediata por bobagem. Vejam bem, eu disse no começo do texto que desconfiaria de algo como já marcar primeiro encontro direto no motel, mas acho que homem que desqualifica mulher por querer fazer sexo depois de um primeiro encontro tem merda na cabeça. Se for a vontade do casal, win/win. Outra coisa: muito comum esconder o grau de gordice num primeiro encontro, nem critico mais as que fazem, só aplaudo as que tocam o foda-se para isso; pelo menos no bar você sabe que a pessoa já comeu antes e não está fazendo pose ou passando fome por bobagem.

Não vou negar que num ambiente como um bar fica mais complicado conhecer a pessoa de verdade, fica um pouco menos pessoal e a conversa é mais quebrada, mas vamos ser honestos aqui: quanto tempo demora para conhecer uma pessoa? Não é retórica, eu tenho minha teoria! Eu estimo que o prazo mínimo para conhecer uma pessoa é de dois anos. Antes disso é quase certeza que você não está vendo o pacote todo. E por que dois anos? Por motivos de sazonalidade – um termo mais comum no mundo dos negócios que significa as variações de uma métrica (como vendas) no passar de um ano – e para medir sazonalidade, você precisa de um período de comparação. Saber como a pessoa se comporta por um ano e aí comparar isso com o que acontece no ano seguinte. Se você vê a personalidade da pessoa se repetindo por dois anos seguidos, pode confiar que aquilo vai continuar acontecendo. Se existe uma variação entre os anos, você pode tratar aquilo como esporádico ou mesmo situação única. Eu saí do tema… de qualquer forma…

Se eu não acredito que dá para conhecer uma pessoa tão rápido quanto em um encontro, não existe motivo lógico para tentar conseguir isso em… um encontro! Relações começam por atração e se perpetuam pela conexão que só pode vir com o tempo. Curta a atração no começo e tente não complicar as coisas, porque a complicação surge naturalmente. Não tem nada demais se proteger um pouco com caos e álcool no começo. A merda é ficar dependendo disso para sempre.

Para dizer que um dos seus óvulos virou pedra só de ler o texto, para dizer que eu só quero abusar de mulher bêbada, ou mesmo para dizer que a teoria dos dois anos faz mais sentido do que você gostaria: somir@desfavor.com

SALLY

Qual é o melhor lugar para um primeiro encontro?

Supondo que você, assim como eu, tenha interesse em conhecer um pouco melhor aquela pessoa, acredito que o melhor lugar seja um restaurante. Caso contrário, se só deseja sexo, bem, vá a um motel ou para a casa da pessoa “para ver um filme” e não perca tempo.

Minha argumentação vai girar toda em torno dessa premissa: nos primeiros encontros procuramos conhecer melhor a outra pessoa. Não porque a intenção seja casar com ela e constituir família, mas sim para ver se é uma pessoa com um mínimo de compatibilidade, de caráter, bom senso etc. É possível ter certeza de tudo isso em alguns encontros? Não. Mas em alguns casos a verdade transborda tão rápido que é possível ver o contrário. Certezas não teremos, mas indícios? Isso é possível conseguir.

Então, partindo desta meta, o melhor lugar para um primeiro encontro é um local relativamente silencioso (sem música alta) onde seja possível falar sem elevar o tom de voz, público (caso a pessoa apresente comportamentos estranhos e anormais), com relativa privacidade, onde se tenha um pretexto para sentar e conversar enquanto se realiza alguma atividade paralela. Um jantar em um restaurante mais sossegado me parece ideal.

Sei que as pessoas costumam marcar primeiros encontros em locais mais agitados, com música alta e bebida alcoólica. Acho furada, além de não ter clima para aprofundar uma conversa, bebida atrapalha tanto a percepção de quem escuta como o discernimento de quem fala. Precisar se entorpecer de qualquer forma que seja para conseguir interagir e conhecer melhor outra pessoa é algo que eu não quero para a minha vida.

Marcando um primeiro encontro em um restaurante bacana, no ruim, no ruim, você saboreia uma bela refeição. Marcando em bar, boate, festa ou qualquer outro evento onde o destaque está no binômio música/bebida, se o encontro der errado, sua noite foi uma belíssima merda: fila para entrar, barulho, muitas vezes caro, gente bêbada, problema para estacionar (ou chegar), fila para pagar, fila para sair, etc. Não, obrigada. Restaurantezinho, onde tem um garçom focado em mim, me trazendo uma água em menos de um minuto se eu pedir… muito melhor, não?

Uma conversa interessada, isto é, onde ambas as partes tem como objetivo se conhecer melhor, demanda todos os sentidos. Perceber quais palavras o outro escolheu, como está sua linguagem corporal enquanto a pessoa fala sobre certos assuntos, para onde ela olha, como ela olha, se fala mais baixo, mais alto, de forma mais doce ou mais irritada. Esse tipo de sutileza em um ambiente escuro e com música alta fica um pouco mais difícil de perceber.

Vamos colocar da seguinte forma: se você precisasse estudar um tema ou assistir a uma aula, escolheria fazê-lo em um lugar silencioso, sentado em uma mesa só sua com uma pessoa te servindo ou em um ambiente mais moderninho, com pouca luz e muito barulho? Sim, eu estudo a outra pessoa em um encontro, e para conseguir estudar, eu preciso de um ambiente minimamente tranquilo.

Outro fator importante: em um bar, por se tratar de um ambiente informal, é bem possível que acabe acontecendo o primeiro beijo no meio da noite. Aí eu te pergunto, e se a pessoa beijar feito um cachorro bebendo água da tigela? Você vai ter que aturar isso o resto da noite? Ou fazer a infantilidade de “receber um telefonema” comunicando alguma emergência e fugir do lugar? Melhor não se colocar nessa situação. A menos que a pessoa seja bem inconveniente, ela não vai sair te agarrando no meio de um restaurante, no meio de um jantar. Assim, o evento será focado apenas em conversa e, ao final da noite, quando se despedirem, pode ocorrer uma troca de beijos.

Se o beijo for hediondo, você terá que suportar poucos minutos daquilo. Vai para casa e nunca mais na vida entra em contato com esse ser humano, some do mapa ou dá uma desculpa qualquer. Além disso, elide aquela pressão por sexo no primeiro encontro, afinal, quem é o débil mental, o acéfalo, o demente que vai fazer a pessoa encher a pança de comida para querer fazer sexo logo depois? Primeiro encontro em restaurante, meus amores, é o test-drive perfeito.

Outra coisa relacionada ao beijo… quando se tem um primeiro encontro em um ambiente “beijável”, ou seja, onde é socialmente aceito que um casal troque beijos a qualquer momento, fica aquela tensão, esperando pelo momento acontecer. Ninguém relaxa, ninguém aproveita 100% da conversa. Observem casaizinhos em estado de primeiro encontro, é realmente interessante de se ver: parece que ficam o tempo todo avaliando, como um programa que roda de forma secundária em um celular, se é o melhor momento para tentar o primeiro beijo.

Além de todos os predicados já citados, restaurante não tem natureza, portanto, não tem os desgostos e transtornos que ela proporciona: suor, insetos desagradáveis, animais bizarros, sol, calor, terra, lama, sujeira, etc. É apenas uma mesa com duas cadeiras, em um ambiente tranquilo para que duas pessoas possam interagir e se conhecer melhor.

O restaurante também não tem aquela aura grupal hedionda, que eu não suporto. É um local onde qualquer pessoa de bom senso presume que, se tem duas pessoas jantando, estas pessoas devem ser deixadas em paz. Então, se encontrar um conhecido, um aceno ou um joinha de longe basta. Experimenta encontrar conhecidos em um bar, um quiosque, uma boate, um show ou qualquer outro ambiente mais informal e você vai ver a manada se formar em poucos minutos.

Pode ser a idade, mas cheguei em um ponto onde quero conforto para tudo, inclusive para conhecer melhor uma pessoa. Bar com música alta e muita gente? Tô fora. Encostar o carro para conversar? Tô fora. Ir para a casa da pessoa para “assistir um seriado”? Tô fora. Conhecer pessoas é uma forma de estudo, é estudar algo/alguém. Só consigo conceber um estudo eficiente em um ambiente calmo, confortável e sem pressão.

Para dizer que eu quero mesmo é comer de graça, para dizer que você caga baldes para conhecer o outro ou ainda para dizer está em um relacionamento sério com a Netflix e não quer conhecer ninguém: sally@desfavor.com

Se você encontrou algum erro na postagem, selecione o pedaço e digite Ctrl+Enter para nos avisar.

Etiquetas: ,

Comentários (15)

  • uma praia, se o aspecto geográfico permitir, e se a apresentação física de ambos ajudar.

    ou senão um parque, que tenha alguma atividade: andar de bike, tomar um sorvete, etc…

      • ah, pensei em pegar no fim do dia um clima de pôr do sol, é legal…
        aqui perto em Porto Alegre tem um lugar que acabaram de revitalizar, se chama Orla do Guaíba. Perfeito pra esse caso. Agora no inverno tá lotado de gente aproveitando muito, isso que o clima não tá colaborando e ultimamente só chove, aí eu fico imaginando isso no alto do verão o que vai ser de lindo

  • Avatar

    Larissa imigrante nivel senior

    Bom saber que Somir continua Somir… chaaaato!!

    Oi Sally!!

    Escolheria um bar Chill Out ou um desse cafés antiquario.

    • Avatar

      Fernando "terça-feira" Rocha

      Olá, “LariCa” ! haha

      * Minha opinião :
      sim, algum lugar(es) calmo(s0, porém
      talvez haja quem realmente consiga em bar(es),
      indo além do que Somir considerou acima…

  • Também voto no restaurante (embora de todas as opções, to na turma do café! Ainda mais que hoje em dia todos os cafés são climatizados, Sally!)

    Mas já tive primeiros encontros em parque de diversão, já tive no teatro, cinema… hahah! Acho que café mesmo, nunca tive O primeiro encontro!

  • Meu primeiro encontro com a pessoa que eu namoro foi num café (minha cidade permite kkk), e acho que não tinha lugar melhor; barzinho eu não curto (para primeiros encontros), porque por onde eu moro não tem um que seja com a música “só ambiente”.

    • Café é bacana: lugar calmo, dá para conversar e nem precisa mastigar muito. Mas tem que ser em uma cidade com temperatura humanamento possível

  • Primeiro encontro tem que ter o mínimo de obstáculos possíveis, que é pra criar empatia e perceber a linguagem corporal da pessoa. Nisso acho que restaurante é melhor, mas um café também é bom. Ter algo quente para tomar facilita a abertura para uma primeira comunicação, além de dar um ar mais sofisticado ao encontro. Também diminui a quantidade de obstáculos entre os dois, como mesas, pratos, garçons e etc.

    • Café é excelente, porém como moro em um lugar cuja temperatura é 40° no inverno, evito bebidas quentes para não suar como uma porca prenha.

      • Meu primeiro encontro com a pessoa que eu namoro foi num café (minha cidade permite kkk), e acho que não tinha lugar melhor; barzinho eu não curto (para primeiros encontros), porque por onde eu moro não tem um que seja com a música “só ambiente”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Relatório de erros de ortografia

O texto a seguir será enviado para nossos editores: