Simbiogênese atópica.

Um estudo recente da Universidade de Columbia revelou dados surpreendentes sobre a criação de células regenerativas nos tecidos cerebrais depois de experiências traumáticas. Basicamente, é como se os neurônios precisassem ser repostos depois de reações emocionais muito poderosas, o que sugere que a expressão “tornar-se uma nova pessoa” tem muito mais verdade do que imaginávamos.

Desculpa. Eu te enganei. O estudo não existe, esse nome é inventado e nada do que estava no primeiro parágrafo foi pesquisado. Na verdade, se você tentar clicar no link, não vai cair em lugar nenhum… não fiz isso só para te dar a velha dica de não confiar em nada que vê na internet sem pesquisar antes. Fiz para pensarmos melhor na forma como absorvemos informações.

Dependendo do seu grau de interesse num tema e principalmente do seu conhecimento prévio, basicamente toda notícia é uma Fake News. Sei que parece óbvio, mas vai além disso: absorver novas informações presume acreditar em algo totalmente alienígena à sua mente até então. A grande diferença entre a notícia falsa e a verdadeira não é o momento que você a absorve, e sim aquele na qual ela finalmente se aloja na sua memória como fato consolidado.

Faz parte da vida lidar com fontes de informação dúbias e ter que resolver isso internamente. E no final das contas, é muito complicado afirmar com segurança que aquilo que ficou é verdade, comprovável ou aplicável. Vejam no exemplo que eu inventei no começo do texto: como eu não pesquisei nada, só tirei da cartola, posso inclusive ter acertado alguma coisa sobre o tema tão provavelmente quanto posso ter falado nada com nada. Sem abrir uma pesquisa sobre o tema, impossível saber.

Aprender é pular de cabeça no desconhecido. E principalmente aceitar que mesmo depois da informação consumada, ela continua incerta. A Filosofia luta para ter uma resposta para isso há milênios, e ainda não há sinal de resolução: não sabemos precisar exatamente o que É a verdade. Até então, podemos entender que a verdade “está”, mas não “é”. E para quem não entendeu, simplificando: qualquer informação é verdade enquanto você estiver disposto a acreditar nela. Não existe algo definitivamente verdadeiro. As coisas mudam.

A não ser, é claro, que você tenha algum elemento absolutista na sua cabeça, como, por exemplo, uma religião: religiões e cultos, por definição, baseiam-se na ideia que existe sim uma verdade absoluta, que no final das contas você pode encontrar uma informação que nunca vai mudar, e por isso, sempre vai ser correta depois que você aprender. Não é pegar no pé de quem tem uma crença do tipo, é só um aviso de quem enxerga as coisas por outro ângulo: enquanto existir na sua cabeça a ideia de que algo como um deus pode ser absolutamente correto, fica complicado lidar com o resto da realidade, muito mais relativo por definição.

Sim, pessoas que acreditam em deuses e elementos místicos em geral são capazes de viver uma vida mentalmente saudável, sem tomar decisões bizarras e contraproducentes por causa disso, mas proponho que estão fazendo isso com uma mão amarrada atrás das costas. Manter noções absolutistas na cabeça gera uma dificuldade que me parece desnecessária, um contraste acentuado entre a natureza do que está real e a sua percepção sobre isso. Mas, nem é questão de, caso você pense dessa forma, mudar completamente a sua visão das coisas. Cada um vê o mundo como vê, abraçar a verdade relativa presume respeitar isso, no final das contas.

O ponto aqui é que ao lidar com qualquer informação nova, existe toda a sua base de conhecimento para gerar a comparação com o que você já julga ser verdadeiro, mas também há obrigatoriamente um “salto de fé” no início do processo. Quando existe um bloqueio contra a fonte, como por exemplo uma pessoa ou meio de comunicação que você não confia e/ou teme, esse processo inicial de absorção da informação sequer acontece. Mais ou menos como vemos nos dias atuais com a cada vez maior polarização política e social, especialmente nas redes sociais. A pessoa rejeita completamente o argumento e os dados do lado que detesta, evitando esse primeiro processo tão necessário de “confiar” na nova informação pelo tempo suficiente para o seu cérebro lidar com ela.

Talvez o que falte para muita gente é a percepção que seja a informação verdadeira ou falsa, no momento da absorção ela sempre depende de baixar suas defesas e aceitar aquilo na sua mente antes de ser julgada. Num mundo ideal, deveríamos ouvir qualquer informação nova com a confiança que temos das fontes que nos agradam. Se as comportas estiverem fechadas, nada pode ser agregado. Se o que você entende da realidade vem em forma de conceitos absolutos, esperando uma verdade imutável que só precisa ser descoberta, você sempre vai perder novas informações. Argumento inclusive que conhecer a informação vinda do lado que você não gosta é uma das melhores formas de entender as que vem do outro.

Eu sei que é quase uma traição eu ter começado um texto mentindo sobre um tema dessa forma, mas eu queria abusar da confiança que eu construí nesses anos para mostrar um estado mental de aceitação da nova informação: vimos na prática como a informação não gera nenhuma obrigação de manutenção posterior, por mais fácil e natural que ela tenha chegado até você. Já tentou ler a opinião de alguém que você tem horror com esse mesmo estado mental? Por pura probabilidade, aquela pessoa vai saber alguma coisa que você não sabe. Especialmente no caso de quem naturalmente pensa muito diferente, fez caminhos mentais que são mais raros entre as pessoas com as quais você já concorda por afinidade.

Já tentou confiar em tudo o que lê e ouve só para saber se consegue lidar com elas mantendo sua visão de mundo? Se não tem nada sobrando ou faltando nas suas opiniões? Dá mais trabalho, evidente, mas quanto mais bem trabalhada sua visão de mundo, mais simples é lidar com uma realidade tão relativa.

Para dizer que nem percebeu o que aconteceu no texto, para dizer que ainda está procurando a pesquisa, ou mesmo para dizer que eu sempre consigo decepcionar: somir@desfavor.com

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Comentários (2)

  • “Já tentou confiar em tudo o que lê e ouve só para saber se consegue lidar com elas mantendo sua visão de mundo?” Pra ser honesto, não, Somir. E eu não sei dizer se já nasci assim ou se isso me foi posto na cabeça desde muito cedo, mas minha tendência natural é de sempre desconfiar, mesmo quando parece estar “tudo certo” com a informação nova que recebo. Acabo sempre cruzando e recruzando essa informação com outras que eu já tinha previamente arquivadas no meu “banco de dados” mental. Por outro lado, depois de um tempo tendo uma relação de confiança estabelecida com algumas fontes eu acabo, até sem perceber, “baixando a guarda” e questionando menos, ainda mais se o assunto em questão for algo que eu não conheça direito. Daí acontece comigo a “enganação” que você demonstrou no começo do seu texto. Por favor, perdoe-me se pareço não ter te entendido bem e eu posso só estar falando bobagem, mas é mais ou menos isso o que é, na prática, o tal do “senso crítico”, não?

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