Home Office

Quando eu era obrigada a sair de casa todos os dias para ir até o meu local de trabalho estar de corpo presente (apesar de que tudo que eu poderia fazer lá também poderia fazer de casa), meu sonho de consumo era conseguir trabalhar de casa. Hoje, eu trabalho assim, e descobri as dores e delícias de trabalhar em esquema de Home Office. Se você tem vontade de trabalhar de casa, por favor, leia este texto antes de colocar seu plano em prática. Home Office não é para qualquer um.

Como qualquer coisa que a gente não experienciou, tendemos a ver apenas os benefícios: não ter que encarar transporte público, trânsito, não precisar comer na rua, não ter que aturar colegas de trabalho desagradáveis e tantas outras vantagens fazem o trabalhar de casa parecer um suposto paraíso. Pode ser, para mim é, mas para algumas pessoas pode virar um verdadeiro inferno. Por isso vou compartilhar algumas coisas que gostaria que tivessem compartilhado comigo quando comecei a trabalhar nesse esquema.

A primeira coisa que você tem que saber é que para conseguir trabalhar assim, você deve ser uma pessoa muito organizada. Não me refiro a ser metódico, por sinal, isso até atrapalha. Não importa quão arrumada é a sua gaveta ou quão organizada é sua mesa de trabalho. A minha é uma zona e eu produzo mais do que a maior parte das pessoas que eu conheço. Estou falando de organização interna, um tipo mais sutil e mais difícil de organização.

Tem que ser organizado com seu tempo e com a sua produtividade. Se você tem uma boa noção de tempo, não atrasa, se conhece bem e sabe o quanto você demora para executar cada tarefa na sua vida (não apenas as de trabalho), se sabe até onde vai sua capacidade de concentração, produtiva e o que fazer para estica-la quando necessário, acredito que não tenha maiores problemas.

Mas, a verdade é que, na regra geral, o brasileiro não sabe organizar seu tempo e não se conhece. Não há nenhum problema, por exemplo, em demorar duas horas para tomar um café da manhã, desde que você esteja ciente disso e monte um cronograma reservando duas horas para o café da manhã. Seja realista. Se observe, se conheça e só se imponha prazos que você pode cumprir. O grande problema é: se você demorar duas horas para tomar café da manhã, vai ter que trabalhar até mais tarde, além do horário comum do expediente. Ninguém quer. Aí vem o problema.

Ao ver o custo que duas horas de café da manhã geram, ao perceber que isso consequentemente obriga a trabalhar até as 21h, coisa que ninguém quer, muita gente decide que vai tomar café em meia hora e monta um cronograma reservando apenas meia hora para esta atividade, mesmo sabedo que no seu ritmo normal ela dura duas horas.

Este exemplo meramente ilustrativo é uma das maiores ciladas do Home Office. Sabe porquê? Porque a pessoa se programa com base no que ela gostaria de fazer e não com base no que ela tem capacidade de fazer. Não vai conseguir seguir o cronograma e vai encerrar o dia se sentindo estressada e frustrada, com a autoestima no pé. “Na hora eu dou um jeito” é o prenúncio da desgraça. No geral, as pessoas sempre acham que conseguem fazer as coisas em menos tempo do que realmente precisam. Não caia nessa cilada. Se conheça, respeite seus limites, suas capacidades. “Todo mundo toma café da manhã em meia hora, então, eu também consigo fazer”. Não necessariamente. Como sua mãe já dizia quando você era pequeno, você não é todo mundo.

Então, se você vive errando o cálculo de tempo, chega atrasado, atrasa entrega de pendências, e etc, faça um favor a você mesmo: se observe, faça um diário de atividades anotando o tempo que demora para cada coisa e aprenda a calcular seu dia com precisão.

No começo, recomendo que você faça um “diário de horários”, anotando por umas duas semanas o tempo que você demora para fazer cada tarefa diária (não apenas as de trabalho), do minuto em que você acorda ao minuto em que você dorme. Isso porque quando se trabalha em Home Office, todas as tarefas diárias acabam roubando tempo do seu trabalho. Fazendo isso você saberá exatamente de quanto tempo livre dispõe para trabalhar naquele dia.

Enquanto isso, enquanto não tiver uma noção clara do tempo que demora para executar cada coisa, insira sempre meia hora a mais em todas as suas atividades diárias, para ter uma margem e não se ferrar todo no final do dia. E tenha em mente que nem sempre é possível “aprender” a fazer as coisas de forma mais rápida, ao menos não de uma semana para a outra. Cada um tem seu tempo, sua agilidade, sua capacidade.

Uma vez que você domine a organização do seu tempo, vem a parte mais difícil do Home Office: criar estratégias para conseguir trabalhar sem ser interrompido. A premissa é que se uma pessoa está em casa, de pijama, confortável ela não está fazendo nada importante: se está em casa, está disponível.

São séculos reforçando esta premissa, não adianta, por mais que você peça, explique, implore, a cabeça das pessoas acaba indo para o piloto-automático e elas te importunam por coisas que jamais ousariam importunar se você estivesse no local de trabalho. Guarde esta frase: “Se está em casa, está disponível”.

Alias, um apelo: você que está lendo isto agora mora ou convive com alguém que trabalha em esquema de Home Office, sempre que a pessoa estiver diante de um computador, presuma que ela está trabalhando, porque provavelmente ela está. Só a interrompa quando precisar de uma informação que te faria telefonar para o trabalho da pessoa para falar com ela. Se for menos urgente do que isso, anota todas as pendências que você precisa falar com essa pessoa em um caderninho e fala com ela quando ela acabar de trabalhar. Ou manda um e-mail, assim a pessoa lê quando puder.

A verdade é que, a menos que você more sozinho, sozinho mesmo, inclusive sem animais de estimação, que parece que sentem o cheiro de trabalho para começar a te importunar, dificilmente você vai ter um ambiente propício para trabalhar quando estiver de Home Office. Não são apenas as pessoas te interrompendo deliberadamente, elas também fazem barulho, falam como você como se você estivesse no sofá coçando o saco, colocam música alta, cantam e toda sorte de paunocuzação. Não adianta, está enraizado: se o outro está em casa, ele está disponível. Não brigue, não adianta.

Não acho que conversar resolva. Se forem crianças ou pets você pode bater, que daí resolve, eu garanto. Mas com adultos fica um pouco mais complicado. Então, crie estratégias. Se você conseguir trabalhar com fone de ouvido, escutando música alta de modo a não escutar nada que ninguém fale direcionado a você, ótimo. Eu não consigo, chego ao final do dia com dor de cabeça. Teste. Teste, teste, teste, até encontrar uma forma das pessoas não detonarem sua capacidade produtiva.

Existem muitas opções, como tampões de ouvido e fones que produzem um “ruído branco”, um barulho que não chega a incomodar, apenas abafa os sons de fora, mas nenhuma é 100%, pois a triste verdade é que ao estar em casa você nunca vai conseguir se desligar totalmente do mundo. Encontre a que te sirva melhor e se isole do resto da casa, porque não tem jeito, em algum momento as pessoas vão te interromper, voluntaria ou involuntariamente. Se você está em casa, está disponível.

E aí vem minha segunda observação: se você tem problemas de distração, concentração e retomada de concentração após uma interrupção, Home Office vai acabar com você. Então, além de ter uma cristalina noção de organização do seu tempo e das suas capacidades, você também precisa ter um grau alto de concentração, produtividade e capacidade de retomada do trabalho após milhões de interrupções ou, ao menos, conseguir criar mecanismos para lidar com a falta de noção das pessoas que não são capazes de deixar de falar com você quando você está digitando diante de uma tela de computador.

E se você já tem problemas de concentração, tudo piora, pois você mesmo é seu inimigo. Uma mente dispersa não precisa nem de motivos para se dispersar, apenas de oportunidade. Sente fome e levanta para comer. Sente vontade de ir ao banheiro. Sente qualquer coisa que tire do foco.

O número de ciladas que uma mente não-focada te coloca para fugir da concentração do trabalho é enorme, mas enorme mesmo, a ponto de, quando você perceber, ter acabado e dia e você ter rendido porra nenhuma. Por isso, não raro quem trabalha de Home Office deixa para trabalhar à noite ou de madrugada, trocando o dia pela noite: é um período com menos estímulos, menos distrações, menos barulho e menos propenso a que as pessoas te abordem.

Também é importante se conhecer bem, observar sua personalidade, sobretudo no que diz respeito a socialização e grau de atividade. Algumas pessoas podem se sentir claustrofóbicas em passar o dia todo em casa sem sair na rua e sem ver gente (eu me sinto apenas grata). Nesse caso, trabalhar em casa pode fazer mais mal do que bem. Normalmente quem trabalha fora aproveita a “viagem” para resolver tudo que tem que resolver na rua, desde ir ao banco na hora do almoço até comprar comida na volta do trabalho. Você não vai ter mais isso.

Sair de casa será um evento, que, em alguns dias, você não poderá se dar ao luxo de executar. Tudo bem para você isso? Geralmente para quem tem filhos não está tudo bem, a pessoa acaba enlouquecendo se tiver que aturar os próprios filhos 24h por dia, olha que situação mais escrota. Então, avalie friamente se sua casa é realmente um lugar onde você é capaz de estar por dias seguidos sem colocar o pé para fora e ainda assim estar feliz, e, ainda assim estra produtivo. Se a resposta é “não”, talvez Home Office não seja o melhor esquema de trabalho para você.

Outro problema comum acontece quando o seu cérebro não entra no “modo trabalho” por você estar em casa. Muitas pessoas tem dificuldade em dar o start no modo produtivo sem algum ritual que lhes indique que o horário de trabalho começou. Se ficam em casa, com roupa largada, confortáveis, parece que o cérebro não “liga”, não começa a funcionar. Muitas vezes se confunde isso com falta de disciplina ou de produtividade, mas é apenas um bug mental que pode ser solucionado inserindo diariamente um ritual que indique ao seu corpo que a hora do trabalho começou: trocar de roupa, tomar um café, ir para um local da casa reservado só para trabalho, por exemplo.

Quer ver uma forma fácil de mensurar se você pode ou não trabalhar de Home Office? Comece a escrever um blog diário. Não precisa publicá-lo, apenas escreva textos. Escolha um tema ou um assunto que você goste e se proponha, por 15 dias, a escrever texto diários de três ou quatro páginas sobre esse tema. Se você não conseguir manter essa rotina, bem, provavelmente Home Office não é para você. Se você não tem a disciplina, organização e concentração para fazer algo que gosta em casa por 15 dias, por poucas horas, provavelmente não vai dar conta de fazer o trabalho de um dia inteiro.

Se você tem o perfil e acha que consegue, eu sugiro que brigue por seu Home Office, mesmo que para isso você peça demissão de onde trabalha e vá trabalhar em um lugar onde ganhe menos. No final, você vai economizar bastante só por estar em casa. Acredite, estar na rua te faz gastar dinheiro. Tente negociar com seu empregador, tente procurar empresas abertas à ideia, tente tudo que puder, pois quando você tem o perfil, sua qualidade de vida dá um salto inimaginável trabalhando de casa.

Deixo aqui meu apelo a todos os empregadores do Brasil: parem de ser filhos da puta mesquinhos e permitam que seus empregados trabalhem de casa se isto for possível. A qualidade de vida do empregado melhora e as despesas com ele ficam menores (transporte, alimentação, etc). É muito mentalidade senhor de engenho querer ver a pessoa ali, debaixo dos seus olhos, não sejam atrasados, não sejam obsoletos.

Esse papo que de casa a pessoa vai fazer corpo mole fala mais sobre você do que sobre o seu empregado: você não sabe escolher quem contrata ou tem medinho de demitir quem não produz bem. Dê a oportunidade, se a pessoa não produzir de forma satisfatória em casa, demita ou reobrigue a ir ao trabalho. Mas ao menos dê a oportunidade.

É retrógado, é na contramão da modernidade, é mesquinho querer a presença física da pessoa debaixo da sua chibata só porque você “está pagando”. Não seja essa pessoa. Funcionário satisfeito produz mais, é mais fiel e colabora mais com você quando é necessário. Deixem as pessoas que podem trabalhar de casa trabalharem em casa, é bom para todo mundo, inclusive para a coletividade, pois é menos gente abarrotando a rua e os transportes públicos.

E para você, que sente vontade de trabalhar de casa, saiba que existem opções que vão muito além da autorização do seu patrão. Comece com algo pequeno, algo que você goste, que te desperta paixão. Algo que você tenha aptidão, vontade de fazer e faça bem feito, aquela coisa que quando você faz perde até a noção de tempo. Qualquer coisa. Tudo é monetizável.

Vá levando como hobby, essa atividade paralela, afinal, não dá para jogar tudo pro alto da noite para o dia, temos que pagar contas. Leve os dois trabalhos em paralelo, até conseguir um patamar de prática e produtividade significativo do que você faz em casa e, quando isso acontecer, busque uma forma de monetizá-lo e dê um belíssimo pé na bunda do seu patrão retrógrado que não entende a mudança dos tempos nem a virada do pêndulo: Home Office será regra em poucos anos em países civilizados e em poucas décadas no Brasil.

Para dizer que você precisa da chibata para produzir, para dizer que nunca havia sequer cogitado trabalhar de casa ou ainda para dizer que você só sabe fazer Home Sleeping: sally@desfavor.com

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Comentários (11)

  • Há outra vantagem: poder morar onde quiser. Isso é particularmente vantajoso no serviço público, em que o salário é o mesmo para carreiras com trabalho do Oiapoque ao Chuí. Assim, tem muito colega que foi morar até em Maceió em busca de melhor qualidade de vida e, acima de tudo, fazer o salário render muito mais em cidades com custo de vida muito menor do que São Paulo.

  • Olha só, que coincidência, estou buscando isso há alguns meses. Mas conseguir convencer o “patrão” é foda. Querem você ali na sua “baia” full time apenas para perguntar se tem papel na impressora, ou pior, como a justificativa “mas daí a empresa vai ter que abrir pra todos, não dá”.
    Vou refletir e tentar praticar suas dicas antes….vai q não tenho perfil?

    • É um pensamento muito pequeno, né? Patrão que não permite home office a aqueles funcionários que podem executar todas as suas tarefas de casa tem nome: obsoleto filho da puta.

  • Algo curioso pra se pensar. Meu trabalho, em parte, exige que eu seja home office. Em geral eu consigo ter um bom rendimento, aliás, eu adoro trabalhar sozinho, quetinho no meu canto, sem ninguém me incomodar. Mas as vezes, não resisto, e me rendo a algum prazer ou distração barata como rolar a página do twitter pra ver as últimas mensagens bem rapidinho, e depois voltar.

    Mas uma coisa a ser enfatizada no texto é: muita gente acha que trabalhar home office é glamour, luxo, sei lá o que. É bem desmistificar esses estereótipos, porque não é bem assim não.

    • Ge, se você dá conta do seu trabalho, não tem problema algum em ter momentos de lazer. Ninguém tem que trabalhar oito horas sem parar, é bom dar intervalos!

  • Eu moro sozinha, sou introvertida e só saio de casa mesmo pra trabalhar e me exercitar num parque aqui perto. O problema é meu attention span de uma criança de 3 anos, depois de um certo tempo parece que o cérebro desliga ou vai pra outra dimensão.
    Quantas pausas você costuma fazer, Sally? Um home office espaçado seria uma boa?

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