Igualdade.

“Eu não prendi o cinto.”

A frase passou pela sua cabeça de Karin no segundo entre o tranco habitual da reentrada atmosférica e a fria e dura realidade do chão metálico da cabine. Os estabilizadores lá fora entram em ação, permitindo seu retorno ao compartimento da cama. O colchonete fino cheirava mal e parecia sempre úmido, mas depois de quatro meses de viagem num velho cargueiro do tempo das colonizações, qualquer coisa macia já era um alento.

Deitou-se com o rosto virado para o lado oposto ao terminal, não queria saber quanto tempo tinha de cama ainda, muito menos ver a cara feia de Tesenya latindo ordens para a equipe antes do estritamente necessário. Mesmo com o braço ainda dolorido por aparar a queda minutos antes, a gravidade terrestre sempre gerou um efeito tranquilizador nela, facilitando o sono. Não importa o quanto tentem regular a nave, a realidade é inimitável.

Quando o corpo todo relaxa e a consciência começa a adentrar o mundo dos sonhos, o alarme dispara. Nesse trabalho, o sono nunca é o suficiente. Como de costume, logo após o som estridente do despertador, a voz áspera de Tesenya inunda o ambiente:

“Pouso em dez! Quem não estiver no deck em 15 vai para a limpeza do tanque séptico pelo resto da missão!”

Karin veste a roupa protetora ainda meio grogue, revisando várias vezes as juntas para garantir que não esqueceu nada aberto. A imagem de Jae sendo esfregada até ficar em carne viva pela equipe de descontaminação ainda assombra suas memórias, dois anos depois do ocorrido. Pior que o sofrimento é o risco de não ser mais chamada para as missões, ainda mais com a imensa dificuldade de um emprego fixo nas colônias. Ela confere mais uma vez o fechamento das luvas antes de sair da cabine.

Veterana de quase quatro anos na função, conquistou o privilégio de dormir sozinha, o que passa longe de ser a realidade da maioria de suas companheiras de trabalho. O corredor escuro fica pontuado pelas luzes vindas das portas que vão se abrindo, duas a três garotas saindo de dentro de cada uma delas. Um grupo de mais de cem delas segue em fila rumo aos gigantescos elevadores de carga que dão acesso ao deck da nave. Toneladas de metal cada vez mais enferrujado deslizam com dificuldade para abrir passagem no nível inferior.

O som dos alarmes da nave atacam seus ouvidos, seguido pelo inconfundível chacoalhar da aproximação do chão. Karin sabe exatamente onde se posicionar para evitar o pior do impacto, segurando-se nos conduítes do sistema de comunicação à esquerda da saída do elevador 3. As novatas não gozam da mesma experiência e ficam bem no meio do gigantesco compartimento de carga, algumas desabando com o impacto da nave em terra firme.

Ela ri. Mas há pouco tempo para curtir o momento, Tesenya logo assume o microfone numa plataforma superior e começa seu discurso de sempre:

“Bom dia, crianças. Espero que tenham dormido bem, porque o dia vai ser longo. Lá fora existem pelo menos cinquenta naves derrubadas na Guerra com baterias em funcionamento. Elas estão demarcadas em seus dispositivos de posicionamento, uma para cada dupla. Sigam sem treinamento, recuperem o material genético e não se deixem contaminar. Alguma dúvida?”

Silêncio.

“Ótimo. Agora vocês tem quatro horas para fazer seu trabalho. Quem não estiver de volta nesse período fica aqui, entendem? Não vamos esperar ninguém. Coloquem suas máscaras, as portas se abrem em 60 segundos.”

Karin mexe o pescoço e alonga os ombros antes de encaixar a máscara com o respirador. Uma das novatas se aproxima, sorrindo por detrás do visor plástico e apontando para seu localizador. Karin acena com a cabeça, reconhecendo sua parceira de missão. A garota parece ainda mais jovem que o habitual, porte franzino deixando muito espaço livre dentro do macacão. Karin inspeciona o encaixe do pescoço da garota e encontra uma fresta.

A contagem regressiva da porta começa no sistema de som: “Dez.”

Karin aponta para o próprio pescoço e aponta de volta para o da sua companheira. A jovem responde com um sinal de concordância.

“Oito.”

Karin faz gestos mais agressivos, apontando novamente para a fresta. A jovem parece perceber e começa a tatear a área de junção do macacão com a máscara.

“Cinco.”

Karin tenta fechar ela mesma o vão, mas as grossas luvas diminuem consideravelmente a precisão de seus movimentos. Os movimentos da jovem ficam mais desesperados, atrapalhando ainda mais.

“Três, dois, um…”

A fresta é fechada assim que a porta se abre. A luz do Sol invade o local em conjunto com uma brisa que movimenta os trajes das trabalhadoras. Sem delongas, Tesenya dá a ordem de evacuação, e todas as presentes a seguem. Percebe-se claramente a diferença entre novatas e veteranas, com as primeiras andando devagar e olhando em todas as direções e as mais experientes seguindo rapidamente em direção aos seus objetivos.

Karin nota que o verde está ainda mais verde este ano. A natureza parece ter tomado de volta quase todo o horizonte, sons de insetos e pássaros ainda mais presentes dessa vez. Sua acompanhante começa a ficar bem para trás, aparentemente fascinada pela vista. Ela espera alguns momentos para deixar a jovem absorver a paisagem, afinal, é bem provável que essa seja a primeira vez dela vendo a Terra ao vivo e a cores. A compreensão logo acaba com um ríspido gesto pedindo a aproximação dela.

A novata volta a si e corre para alcançar Karin. Elas seguem pelos escombros de uma cidade tomada pela natureza, paredes desabadas, metais completamente enferrujados e muito lixo plástico pontuando uma paisagem de gramas, ervas daninhas e pequenos arbustos floridos. A cena só muda quando as duas encontram os escombros de uma das naves invasoras. Num raio de mais ou menos dez metros do objeto, nada cresce, a terra nua lavada pelas chuvas de séculos.

A parte frontal da nave parece ter sido completamente destruída, por um míssil ou pela queda, o bico afundado no chão, equilibrando a estrutura no ar de forma precária. A separação entre a central de comando e o compartimento de carga continua de pé, e é lá que as duas começam a trabalhar. Karin acende seu equipamento e começa a derreter uma das travas segurando a porta. A jovem auxilia trocando as baterias da ferramenta e retirando do local o excesso de pedras, equipamentos destruídos e carcaças de animais que se acumularam com o passar do tempo. De tempos em tempos a nave emite rangidos metálicos, como se não estivesse gostando do peso de duas pessoas concentrado num espaço tão pequeno.

Após mais ou menos duas horas de trabalho, a porta finalmente cede, lançando uma onda de choque pela estrutura da nave ao cair alguns metros até o chão. Dentro do compartimento de carga da nave, as luzes continuam acesas, os painéis ainda funcionais e principalmente, um compartimento refrigerado demarcado com um símbolo de perigo biológico. A jovem sorri, empolgada. Karin presta muita atenção para garantir que seus olhos não estão pregando uma peça. Em cinco décadas de missões, nunca foi encontrado um banco genético tão bem preservado quanto o que se apresentava diante de seus olhos. Sem sinais de estragos por fora e painéis iluminados com dados como se tivesse acabado de sair da linha de produção.

Ela imagina que talvez esse tenha sobrevivido à radiação. Que talvez aqueles embriões fossem viáveis, finalmente. Karin pega seu localizador e dedilha uma sequência que nunca fora usada além de treinamentos até ali: um banco de genes em estado perfeito pronto para extração. Prioridade máxima para todas as equipes de recuperação, em minutos um time de especialistas estaria ali. A novata segue o protocolo e continua limpando a área, em busca de qualquer superfície cortante que pudesse colocar em risco a integridade das roupas de proteção das trabalhadoras.

Com um martelo, a jovem começa a dobrar uma das pontas metálicas que protuberavam da conexão entre ponte e compartimento de carga. Depois de algumas dobradas, uma batida mais forte numa das mais resistentes faz com que toda a estrutura emita um gemido enferrujado e comece a tremer. Karin arregala os olhos. Ela já pode ouvir a equipe de extração se aproximando. Os compartimentos refrigerados desses modelos de nave do final da Guerra eram notoriamente complexos de retirar sem expor o interior à imensa radiação emitida pelas baterias da nave, exigindo uma equipe especial capaz de retirar todo o compartimento sem abri-lo, fornecendo energia auxiliar o tempo todo. Ela não tinha uma fração do conhecimento necessário.

As duas sentem o primeiro movimento da estrutura rumo ao chão. Instintivamente, Karin coloca o corpo ao redor do compartimento refrigerado, tentando gerar alguma proteção contra o impacto iminente. A novata adere ao plano a seguir. Uma de cada lado, as mulheres usam seus corpos para mitigar os cinco metros de metal tombando no chão de terra.

Os restos da nave colapsam de cima para baixo, um setor desmontando e soterrando o inferior. O estrondo da queda pode ser ouvido por todas as outras trabalhadoras na região. Karin fecha os olhos e sente uma dor profunda na perna. Uma das pontas soltas atravessou não só a roupa de proteção como a pele e os músculos. Abre os olhos e vê a jovem bem diante de seu rosto, com um buraco enorme no visor da sua máscara. Atrás, a expressão de dor e os olhos cheios de lágrimas.

Karin arranca sua máscara. Não havia mais função para ela. A novata parece fazer muita força para conseguir proferir uma palavra:

“Desculpa…”

Karin engole seco sua dor, e vendo o desespero da jovem, responde:
“Qual o seu nome?”

“Nelli.”

“Nelli, não foi culpa sua… a gente salvou os embriões… olha…”

A novata observa o compartimento, que parece não ter sofrido nenhuma avaria, continuando com o visor ligado, inclusive.

“Mas a gente vai morrer com essa dose… a gente nunca vai poder ver um dos homens de verdade…”

“Me disseram que eles eram uma porcaria mesmo…”

As duas riem no limite que a dor permite. Karin percebe a vida se esvaindo do corpo da novata:

“Escuta… elas não costumam jogar fora as tão novas como você. Talvez te salvem… viu?”

Não há resposta, e não faria diferença por ser uma grande mentira. Todas eram dispensáveis. Karin sente a cabeça ficar leve, o sangramento e a radiação já estavam fazendo seu efeito. Antes do último suspiro, sua mente vagou para um mundo onde as pessoas podiam ser diferentes dela.

A equipe de extração encontrou-a com um sorriso no rosto.

Para dizer que eu voltei com nada, para dizer que ficou com mais dúvidas que respostas, ou mesmo para dizer que não sabia que eu era feminista: somir@desfavor.com

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Comentários (8)

  • Mulheres voltando a um planeta Terra arrasado após muito tempo no espaço para recolher sobras de material genético em naves destruídas em alguma grande guerra de um passado longínquo? Isso daria um bom roteiro de filme/ série de ficção científica, viu?

    • E esse seria só o piloto. Porque muitas coisas podem acontecer depois de usar o material genético. Netflix, me chama!

  • Para dizer que sentia falta dos descontos, para dizer que queria continuação, para dizer que melhor não porque quando o Somir começa não termina e para pedir para ele dar um descanso para a coitada da Sally e fazer um post sobre a Fazenda.

    • Sem chance: só a Sally é capaz de segurar um mês inteiro de posts no desfavor. Já aceitei que esse é o super poder dela.

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