O Evento.

Eu tenho quase certeza que esta não é uma carta de suicídio. Não quero que você sofra, do fundo do meu coração, mas eu tinha que sair. Não é possível que O Evento tenha sido algo tão terrível assim, não o suficiente para nos prender aqui a vida toda. Seja lá o que aconteceu, já deve ter passado. Não é possível que não tenha passado.

Pra começo de conversa, o que é O Evento? Ninguém explica, ninguém viu. Você sabe como eu penso, os guardiões usam O Evento para nos manter presos aqui dentro. Está na cara. Lá fora eles não vão mais ter poder sobre a gente, por isso é tão importante assim colocar na cabeça da gente, desde criança, o quão terrível é o mundo do outro lado das paredes. É tudo sobre poder. Eu li quase todos os livros que os antigos escreveram, se te uma coisa que nunca mudou foi a sede de poder. Quem o tem não quer perder.

Eu acreditava que eles sabiam o que tinha acontecido e que estavam escondendo, acreditava mesmo. Quanto tempo eu não passei fazendo serviço voluntário nos templos só para conseguir tirar informações deles? Eu tinha certeza que eles estavam sendo evasivos, mas começou a ficar muito claro que eles nem sabem o que foi O Evento. Mentir e não saber o que dizer são coisas muito diferentes, você precisa treinar os olhos para pegar as sutilezas das expressões. Eu descobri quando você deixou de regar a plantação, lembra? Foi pelo seu olhar, a forma como você desviou o olho bem na hora que eu perguntei. Eu li num livro que se a pessoa desviar o olhar para a direita, está mentindo, e se virar os olhos para a esquerda, está pensando no que dizer.

Quando eu perguntava para eles algo comum como quando poderíamos sair, a resposta vinha imediata. Mas quando eu buscava algo no meio da história ensaiada, eles vacilavam. Eu perguntei se o problema do mundo lá fora era ser quente ou frio demais, e todos faziam a mesma coisa, olhavam para a esquerda, e depois para a direita. Estavam procurando pela informação, e quando não encontravam, mentiam. Aquele mais alto que sempre olha estranho para a sua filha me disse que era quente demais. Mas o irmão dele, aquele de bigode, disse que era frio demais. Eles deveriam saber isso, não? Eles deveriam saber muito bem o que estava lá fora para nos dizer com tanta certeza que não podemos sair.

Se fosse uma mentira pura e simples, eu poderia até presumir que estavam nos escondendo algo ainda pior. Mas eles não sabem! É só ligar os pontos. Ninguém pode sair porque eles não querem perder a vida que tem. Você sabe que o alto vai escolher a menina quando ela tiver a idade, não sabe? Ela morre de medo dele, eu consigo ver na expressão dela. Isso confunde a cabeça de uma criança, todos dizendo que aqueles homens são puros e nos protegem, mas sentindo um arrepio na espinha a cada vez que um olha pra ela. Ela sempre olha pra baixo. Presta atenção.

Eu lembro de ter medo deles também. Os templos são tão gelados. Dizem que era essa a temperatura que os antigos achavam confortável, mas eu não sei se vale todo o esforço de ficarmos sem energia uma vez a cada dois dias para que eles consigam manter aqueles lugares tão gelados. Quando eles estão entre nós pegando tudo o que tem vontade, parecem bem confortáveis com a temperatura que nós vivemos. Você não percebe como está tudo muito estranho? Eles fazem coisas que eu duvido que os antigos aprovariam. É só ler os livros. Meu pai ficava furioso comigo quando eu deixava de trabalhar nas plantações para ler os livros, mas eles me ensinaram muito. Os antigos tinham algo chamado Democracia. Poder do povo. Ninguém nascia um dos guardiões, as pessoas decidiam quem podia ser um, e se o guardião não fosse bom e justo, deixava de ser!

O mundo dos antigos não era assim. Eles viam estrelas de noite. Os livros dizem que elas são lindas de verdade, muito mais do que as fotos e vídeos. Eles tinham todo o céu só para eles, por isso cresciam tanto. O alto seria um dos mais baixos no mundo dos antigos, sabia? Os livros falam de homens com quase dois metros de altura! E a pele deles tinham tantas cores diferentes, era o que o Sol fazia. Mas você já me ouviu falando disso um milhão de vezes. Estou me repetindo, né? Você sempre diz que eu só tenho dois modos de funcionamento: ou mudo ou falando sem parar.

Mas esse mundo parece tão pequeno se a gente não pensar em ir lá para fora. Todo dia as mesmas coisas para fazer. As mesmas comidas, os mesmos assuntos. Eu acho que mesmo se sair me matar, eu vou estar melhor do que preso aqui. Vou sentir falta de você, vou sentir muita falta de você, mas não aguento mais. Por mim eu já teria saído correndo, mas não queria te deixar sem uma despedida. Não é fácil escrever sem luz, mas nas noites com energia você nunca dorme cedo. E fica bem mais difícil passar pelos guardiões na saída. Eu encontrei um jeito, mas não posso te dizer por onde, se eu conseguir sobreviver lá fora, quero ter um jeito de voltar e buscar você, a menina e quem mais quiser escapar. Podem encontrar essa carta e fechar a saída. Não preciso te dizer que é para queimar ela assim que terminar de ler, né? Melhor dizer: queime essa carta depois de ler.

Eu tenho mais alguns minutos antes do momento ideal, que eu também não posso dizer qual é, você sabe o porquê. Eu estou levando algumas sementes comigo, lá fora as plantas crescem muito rápido, por causa do Sol e dos nutrientes da terra, sabia? Nos livros falavam de plantações maiores que toda nossa área de habitação, e isso era só a terra de uma pessoa! Se eu conseguir plantar lá fora, posso trazer de volta, e ninguém mais vai precisar ficar sem comer. Eu vou ter uma plantação enorme, só espero que não tenham coelhos por perto, eu li num dos livros que eles comem as plantações. Talvez se forem só alguns, eles parecem tão bonitos nas fotos, queria poder ver um de verdade. Eles também fazem tocas, eu li. Podem ter escapado do Evento assim como a gente.

Você deveria ter lido os livros enquanto os guardiões ainda deixavam. Não aqueles chatos que usam para nos ensinar, mas os proibidos. Histórias e mais histórias de como os antigos viviam. Eu acho que muitos dos guardiões não devem ter lido nem metade do que eu li, lembra que outro dia um deles disse as pessoas comiam cachorros? Aliás, esta aí algo que eu espero poder ver lá fora: cachorros. Eles eram os melhores amigos dos antigos, espero que me reconheçam. Eu tenho certeza que esconderam os livros com cachorros para que as pessoas daqui não sintam falta de estar lá fora. Faz alguns anos que não vejo mais nenhuma foto ou vídeo com eles também. A menina nunca vai saber como é um deles do jeito que os guardiões estão escondendo as coisas.

Eu sei como você é, acho que não vai querer sair mesmo que eu diga que é seguro, mas você deveria deixar ela sair. Não gosto da ideia dela tendo o filho de um guardião. Mas vamos conversar sobre isso assim que eu voltar. Vai pensando. Eu tenho certeza que a gente foi feito para ficar lá fora, que vamos ser mais felizes debaixo do Sol. Quando a gente fica no Sol, a pele fica dourada, quem nem nas fotos dos antigos. Eu quero voltar dourado para cá. Vai ser até mais fácil convencer os outros a saírem comigo.

Chegou a hora, eu preciso sair. Não fique triste, eu estou indo para um lugar melhor. E vai sobrar mais comida para você e para a menina! Ponto positivo, né? Eu nunca fui bom com despedidas ou com qualquer coisa do tipo, então só saiba que eu vou sentir falta de você e fazer de tudo para a gente se reencontrar. Obrigado por ter cuidado de mim quando ninguém mais quis, por ter dividido o pouco de comida e água que tinha. Se tudo der certo, eu vou te pagar de volta com juros e correção! Eu acho que já te disse o que eram juros, mas só pra ter certeza: você vai receber mais do que gastou comigo.

Eu já estou escrevendo demais. A gente se vê, tudo bem? Até a minha volta.

O helicóptero avança velozmente pelas montanhas apesar da aparência sucateada, um soldado manejando uma enorme metralhadora claramente visível com a porta do veículo totalmente aberta. O piloto levanta o braço direito, dois dedos em riste. O soldado começa a procurar por algo no alto gramado que cobre um dos vales aos pés da maior montanha dali.

O piloto rotaciona a mão, designando uma arma. O soldado avista um tufo de grama começando a se mexer e fixa a mira naquela direção. É começo da manhã, a luz ainda alaranjada projeta uma longa sombra sobre o local, mas a visibilidade é suficiente: um pequenino homem de pele muito branca coloca metade do corpo para fora de uma escotilha posicionada entre duas grandes pedras.

As balas de grosso calibre não são precisas, mas saem da arma em tamanha profusão que em questão de segundos o homem desaparece numa pilha de poeira marrom, cinza e vermelha. O soldado comemora num grito abafado pelas lâminas da aeronave. O piloto começa a fazer uma longa curva para reduzir velocidade e altura, passando por cima da área onde estava o homem até pouco tempo atrás. Ele confirma o abate para a base e recebe autorização para pouso.

Já no chão, o soldado salta do helicóptero carregando uma grande mochila metálica. O veículo continua ligado, hélices rodando lentamente, mas o suficiente para dispersar a nuvem de poeira causada pelos tiros. O soldado se aproxima cautelosamente do corpo dilacerado, que forma uma depressão na grama alta. Depois de um rápido processo de montagem, o lança-chamas está pronto para uso. O tanque é esvaziado numa torrente de fogo que consome o corpo e a vegetação ao seu redor.

O helicóptero vai desligando seus motores. Enquanto o soldado procura por outros pedaços do corpo ainda não carbonizados, o piloto se aproxima acendendo um cigarro.

“Área livre?”

“Sim. Não sobrou nenhum pedaço.” – O soldado responde com expressão fria e distante.

“Seria tão mais fácil abrir essa escotilha e jogar uma bomba…” – O piloto faz um sinal com as mãos como se jogasse algo para baixo antes de retomar a tragada.

“E vai jogar bomba em todas? Eu já vou tomar bronca por ter gastado muita munição com esse. A gente vai ter que confiar nos guardiões mesmo.” – O soldado gesticula pedindo um trago do cigarro.

“Um dia os alarmes vão falhar e não vai ter ninguém para impedir que um deles encontre um dos nossos. Eles estão se multiplicando, sabia?”

“Nesse dia a gente descobre se já estamos imunes. Vamos?”

O piloto concorda com um aceno de cabeça. O soldado dá a última tragada no cigarro e joga a bituca na clareira causada pelo fogo.

Para dizer que adora história pra cima, para dizer que lá fora é perigoso, ou mesmo para dizer que já conhece muitos infectados: somir@desfavor.com

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Comentários (3)

  • Só faltou o fugitivo miúdo e branquelo atirar pilhas contra o helicóptero e gritar pras balas “Merespeita!”

  • Somir, eu posso estar falando besteira, mas acho que a moral da história é: não acredite em tudo o que te dizem e procure sair da bolha em que outros te mantém para ver o mundo real com os próprios olhos. Isso deve ser feito mesmo que seja difícil, que custe muito e que haja soldados com ordens de atirar para matar do lado de fora. E, apesar de o conto parecer ambientado em um futuro distópico, conforme lia eu pensei nas pessoas que morreram tentando passar pelo Muro de Berlim para fugir da antiga Alemanha Oriental.

    • Não tem como falar besteira analisando moral da história. Até porque eu tentei escrever uma história bem amoral. Se eu tivesse que colocar uma, seria a de que tudo acontece por um motivo, mesmo que você não saiba qual, mesmo que não seja um motivo consciente…

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