Sistema de Crédito Social.

Em 2014, o governo chinês lançou uma ideia: o Sistema de Crédito Social. Aprovado pelo Partido Comunista, vulgo o único partido, o projeto está em desenvolvimento até hoje, com vários experimentos locais acontecendo por todo o país, tudo dentro dos prazos previstos. Mas… o que é um Sistema de Crédito Social e por que você está lendo um texto sobre isso?

Vamos lá: o Sistema de Crédito Social atualmente em implantação pelos chineses destina-se a dar notas para cada um dos cidadãos do país, beneficiando ou punindo eles de acordo com os números. Quando a pessoa faz algo que é considerado positivo pelo governo, ela ganha pontos. Quando faz algo negativo… tira nota baixa. O conceito não é tão bizarro assim para quem está de fora, afinal, se você deixar de pagar uma conta pode ir para um cadastro como o SPC e ter sua chance de conseguir um empréstimo ou financiamento basicamente anulada.

Sistema de Crédito Financeiro é algo que usamos no dito mundo ocidental faz muito tempo. Ninguém quer dar dinheiro na mão de caloteiros, evidente. A sua relação com o dinheiro vira uma nota na mão de instituições financeiras, que te dão benefícios ou punições de acordo com ela. Agora, imaginem ir para o SPC de comportamento. Fez alguma ação que o governo desaprova (mesmo sem ser crime) e o governo começa a te punir restringindo seu acesso aos serviços mais básicos.

Aqui temos dois tipos de pessoas: as que dizem que quem “não deve não teme” e as que sentem um cheiro de totalitarismo digno de obras de ficção distópicas. Spoiler: eu estou no segundo grupo. Spoiler 2: mas não muito. Vamos entender primeiro as implicações disso: segundo o governo chinês, o objetivo é aumentar a integridade e o grau de confiança dentro da sociedade. Em tese parecem bons objetivos, mas podem ser bem distorcidos de acordo com as vontades das pessoas que definem as regras do que é ser íntegro e confiável.

Quando pensamos na variação estritamente financeira do modelo, a com a qual vivemos aqui mesmo no Brasil e na maior parte do mundo, é bem mais simples definir as notas e os pesos que cada ação terão nelas, estamos falando basicamente de números. Gasta mais que recebe, atrasa ou simplesmente abandona pagamentos ou está sempre quebrado? Perde pontos. Pode não ser muito justo com toda a disparidade social presente no Brasil, por exemplo, mas não deixa de ser bem claro o que está sendo julgado.

Mas quando isso se torna comportamental, tudo se torna muito mais cinza. Segundo as informações já disponíveis sobre as versões de teste do sistema chinês, se uma mulher compra muita bebida alcoólica começa a perder pontos, se compra fraldas, ganha. O primeiro comportamento denota propensão a um vício e/ou falta de responsabilidade; o segundo sugere que a pessoa está criando um filho e dedicando seus recursos para isso. Apesar de não ter muita simpatia por crianças, não se pode ignorar que há alguma lógica nisso: a pessoa que bebe muito realmente parece menos confiável do que a que está gastando seu dinheiro com fraldas. Mas… e daí? Não é difícil achar casos onde a bebum é melhor pessoa que a mãe. Ou onde os dois arquétipos se misturam.

Estamos falando de China, mas pode aplicar isso para qualquer governo que tiver a chance de fazer: o bom cidadão para quem está no poder é aquele que não se rebela, que obedece e mantém o status quo intocado. Por mais que um Sistema de Crédito Social acabe punindo pessoas que a maioria de nós acha que merece punição mesmo, quando entra a variável docilidade ao governo constituído, as coisas ficam bem complicadas. Os chineses não tem nem vergonha de colocar dissidentes em listas negras e tornar sua vida um inferno no país, então é evidente que quanto mais uma pessoa provocar o Partido Comunista, menor vai ser sua nota. Esteja ela fazendo algum esquema de corrupção ou denunciando abusos contra os direitos humanos, se um dos elementos considerados for a obediência, e nesse caso é óbvio que é, as regras já não encontram eco no bom senso.

Já existem jornalistas chineses sendo punidos pelas versões de teste do Sistema por terem denunciado esquemas de corrupção do Partido, ficando sem acesso a basicamente tudo o que o governo controla, e no caso chinês é virtualmente tudo no país. Pessoas com números baixos perdem oportunidades de emprego, acesso a alguns tipos de transporte público, direitos de posse de casas e terrenos, até mesmo escolas de qualidade para os filhos! Quem não se molda aos desejos do Partido vira um cidadão de segunda linha, o que com certeza limita demais sua capacidade de ganhar esses pontos de volta. E, sim, a nota dos pais influencia a vida dos filhos. A China está basicamente aplicando um sistema de castas tecnológico.

Tecnológico porque o Sistema depende de dois pilares para funcionar: vigilância eletrônica constante e análise de dados avançada, a famosa Big Data. A China rapidamente está se tornando o país com o maior número de câmeras por cidadão no mundo, mesmo considerando sua população imensa. Nos grandes centros urbanos, praticamente não existem mais pontos cegos, e como vimos em notícias anteriores, houve um investimento pesado em tecnologia de reconhecimento facial por lá. Pra gente chinês pode ser tudo igual, mas para as câmeras e os computadores analisando essas imagens longe disso, é praticamente o fim do anonimato até mesmo andando na rua.

Sistemas de vigilância populacional sempre foram um sonho dourado de ditadores, especialmente nos países comunistas, onde era incentivado que um cidadão entregasse o outro sempre que possível, tentando usar a própria população como o olho onipresente do governo. O grau de sucesso foi bem limitado, afinal, pessoas tomam decisões imprevisíveis. Podem denunciar inocentes por interesse pessoal ou mesmo fazer vistas grossas para os “crimes” daqueles que gosta. Mas a tecnologia avança, e esse sonho dourado reluz como nunca: com câmeras em todos os cantos e computadores para analisar essa quantidade imensa de dados, o grande olho do governo finalmente pode existir.

Difícil não traçar paralelos com o Grande Irmão, mas o modelo chinês parece ter se livrado do maior problema do totalitarismo da obra ficcional: a ilusão de livre arbítrio dificilmente se quebra quando existe um modelo capitalista em funcionamento. Orwell abusou do comunismo na sua distopia, o ser humano gosta de acreditar que está livre para ter vantagens sobre os outros. Tudo o que descrevi até aqui não entra em choque direto contra a livre iniciativa: a pessoa ainda pode ficar rica, mas tudo continua imensamente mais fácil para quem já tem alguma vantagem em relação à média, seja no berço ou na capacidade de aproveitar suas conexões sociais. O pobre vai continuar vendo os super-ricos por aí e continuar babando pela oportunidade dele mesmo participar daquela vida. Quem sabe se mantiver uma nota boa?

O “preço” é apenas obedecer ao governo. E enquanto o cidadão não tiver muita certeza que está sendo sacaneado pelo sistema, é provável que tenha mais prazer em manter suas notas altas do que usufruir de liberdade. Muitos falam sobre a cultura oriental que prega a obediência como fato determinante para esse Sistema não ser um fracasso absoluto, mas não vamos nos esquecer que aqui mesmo no Brasil tem muita gente que acha uma boa a retomada da ditadura se isso significar maior segurança pública e menores índices de corrupção. O ser humano tende a negociar sua liberdade pessoal para ter outros ganhos, e não é de hoje. E vamos concordar, essa coisa de receber pontos por ações cotidianas tem toda cara de algo que vai viciar pessoas. Transforma a vida num jogo previsível e molda de forma mais clara os objetivos, uma espécie de atalho para a realização pessoal; mesmo que essa realização tenha sido terceirizada para o Estado.

A impressão que dá é que a China finalmente descobriu a solução para fazer o comunismo funcionar: uma espécie de “capitalismo cyberpunk” onde as pessoas estão tão preocupadas em se manter viáveis para o Sistema que até esquecem que o Sistema pode ser derrubado. Uma forma de manter repressão automatizada constante para incentivar a disputa entre os cidadãos enquanto desestimula qualquer forma de dissidência do poder constituído. Se algum lugar do mundo consegue colocar isso em prática, é a China.

Claro, vai depender muito da economia deles não entrar em colapso enquanto esperam o Trump sair do poder, mas toda a base para isso acontecer já está lá. O Sistema de Crédito Social só não foi universalizado ainda. Mas é agora que eu dou uma guinada: muito embora seja óbvio que o Estado julgando em tempo real seu comportamento e mudando seu status social de acordo com ele seja uma afronta contra a liberdade pessoal, pode-se argumentar que para muita gente nesse mundo muita liberdade não seja saudável. Da mesma forma como o pensamento do governo vigente molda o comportamento vigiado para se perpetuar, caso nesse pacote de valores estejam presentes comportamentos comprovadamente eficientes para melhorar a qualidade de vida da população, há sim um ganho secundário.

Muitos dos que passam mais tempo na China falam sobre a mentalidade do povo, especialmente dos mais humildes e/ou velhos. O país viveu uma bagunça institucional sem fim por décadas, Mao Tse Tung foi um dos líderes mais malucos que já passaram por esse mundo e isso moldou boa parte da imensa população chinesa. Do tipo que mandava todo mundo matar pássaros porque eles comiam as plantações, o povo atender e o país ficar com uma crise de gafanhotos que jogou o país numa fome generalizada e matou milhões. Falam por lá de uma “geração perdida” por causa dele, gente que não aprendeu nada além de obedecer o Partido Comunista e agora vaga perdida pelas novos imensos centros urbanos, sem estudo ou recursos para participar da reabertura chinesa para o resto do mundo.

Claro que o país avançou muito e temos jovens muito mais adaptados à realidade do mundo moderno, mas o chinês médio é uma praga parecida com o brasileiro médio. Gente que adora tirar vantagem, não se mobiliza por melhorias e pouco se importa com manutenção, padrões de qualidade ou evolução pessoal. Sem contar que séculos de ocupações e regimes totalitários incutiram uma mentalidade de desinteresse no coletivo que novamente, lembra muito o Brasil, inclusive na corrupção institucionalizada. Chinês trabalha 16 horas por dia até desmaiar ou tentar o suicídio, mas a diferença acaba aí.

Será que um Sistema de Crédito Social não traria alguma vantagem para esse povo? O truque de gerar mudanças coletivas através de uma pontuação individual pode ser sim eficiente caso o governo chinês não se destrua pela própria corrupção e sede de poder. Uma preocupação real do governo é fazer as pessoas começarem a confiar mais nos chineses, porque as empresas que vão para lá fazem dinheiro, mas reclamam horrores da baderna que é. Ninguém fica por lá se não estiver lucrando muito, porque custa muito caro lidar com um país bagunçado (quantos paralelos com o Brasil, não?). Como esse crescimento econômico de entulhar gente nas cidades enquanto mecaniza o campo que a China faz não é sustentável, está mais do que na hora deles serem vistos como sérios e estáveis.

E se há uma mentalidade de desinteresse no coletivo vinda de uma história de desgostos com o Estado e uma falta de liberdade constante, talvez seja a única solução mesmo. Coloca os chineses dentro de um jogo e torce para eles fazerem muitos pontos. O que, preconceitos considerados, parece uma excelente ideia. No final das contas, talvez tenhamos três tipos de pessoas: as duas mencionadas antes e as que como eu, acham que pode existir um meio termo desde que o déspota em questão não abuse e queira controlar demais a vida das pessoas. Se for focado em aumentar a responsabilidade cívica e a capacidade de controle das finanças pessoais com uma pitada de manutenção de poder, pode dar certo.

Mas, quem estou enganando? Se a história nos ensina algo… é que com grandes poderes vem grandes abusos. Se o governo chinês tiver sucesso e aumentar ainda mais seu controle sobre a população, podem apostar que muita gente vai querer copiar o modelo, sejam lá os ganhos secundários. Pode demorar mais algumas décadas, mas eu tenho a nítida impressão que o sucesso do modelo chinês pode definir o funcionamento dos governos do futuro ao redor do mundo.

Por via das dúvidas, quebre a próxima câmera de segurança que vir na rua.

Para dizer que morreu de tédio no segundo parágrafo, para dizer que leu tudo e perdeu mil pontos, ou mesmo para dizer que preocupante mesmo é comprar pinga E fraldas: somir@desfavor.com

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Comentários (24)

  • “Claro, vai depender muito da economia deles não entrar em colapso enquanto esperam o Trump sair do poder”

    Como assim ? O q o Trump pode fazer ? A China não vende para o mundo todo ? Tem como “quebrar” a economia deles ?

  • Nem ferrando que eu gostaria de um sistema desse. Pra mim nada justifica a perda de liberdades individuais. A única coisa que me confortaria se eu estivesse dentro de um sistema desses é que parece um negócio bem “gamificado”, e como todo jogo, os jogadores vão descobrir maneiras de explorar qualquer brecha e vulnerabilidade, o que vai facilitar a vida de quem sair perdendo nele.

  • Excelente texto Somir, parece um resumo (bem elaborado) de muito do que já li de teorias semelhantes + aplicações para o Big Data no controle via leitura de algoritmos relacionados ao comportamento humano.

    • Sim, mas o poder fica centralizado no governo. Juro que não sei qual dos casos seria menos pior… o governo pelo menos é um pouco mais previsível.

  • Não sabia q era possível isso . Então, um comportamento inadequado será como um crime ? Q chatice! Seria como se as minhas vizinhas fofoqueiras fossem PMs. Ainda bem q somos uma merda na tecnologia hahaha vou morrer sem essa merda aqui.
    Dormir … e o tal artigo 13, 11 na Europa pra controlar as redes sociais? Controlar ou acabar né ! Será q chega aqui ? Pior q câmeras em todas as ruas é ficar sem YouTube rs.

    • Sem querer ser chato… o brasileiro não precisa ser bom de tecnologia. Se “índio vender soja e minério de ferro” o suficiente, os chineses entregam tudo instalado aqui.

      O seu corretor está me sacaneando… “Dormir”? Se seu celular não gosta dos textos que acesse o Instagram! Mas, falando sério, o Artigo 13 parece uma cagada tão grande que o sistema vai se corrigir sozinho. O Google já está ameaçando desligar seus serviços em vários países europeus pelo medo de falir com os processos. Veremos…

      • Olaaa … estava lendo sobre o tal consórcio Nordeste com os chineses e lembrei do seu texto. Buscando no YouTube alguma reportagem achei esse cara . Vc acha q tem perigo dessa migração para o Nordeste é São Paulo e Rio ficarem na merda . Bem … Rio já está , mas queria saber se já arrumo as malas rs.
        https://youtu.be/3WIhjB44TSA

    • Em Cuba suas vizinhas fofoqueiras seriam do comando dos CDR´s, os Comitês de Defesa da Revolução que existem em cada quadra, fiscalizando tudo e mais um pouco dos cidadãos. Provavelmente ganhariam um pouco mais de feijão e frango na cesta básica, mais o prazer de ferrar com as “inimigas”- do regime e delas.

  • Praticamente todos os governos estão revelando a verdadeira face atualmente, esse sistema chinês aí tá no mesmo nível que os vários projetos de lei nos países ocidentais pra regulamentar a internet em prol de um bem maior. Bem para empresas, isso sim.
    Podemos finalmente nos tocar de que democracia, na verdade a política como um todo é uma mentira e que estamos nas mãos de acordos entre elites sedentas por dinheiro e poder?

    • Democracia é uma merda, mas é a melhor merda que temos. Não discordo que o sistema só existe porque mantém interesses de grandes empresas e instituições mais protegidos de revoltas (de grande escala), mas, ainda não tem outro mais “estável” nesse equilíbrio de interesses. Talvez uma tecnocracia governada por uma inteligência artificial seja a solução…

  • Pela madrugada, Somir! Agora eu fiquei preocupado. Muito preocupado… E o pior é que eu não sei de mais ninguém que tenha tocado nesse assunto além de você. Tanto que tenho que confessar que o que você disse hoje jamais tinha me passado pela cabeça antes. Mas agora, depois de ler seu texto, isso faz todo o sentido do mundo e abre uma perspectiva aterrorizante para o futuro próximo. Fiz questão de repassar o link daqui pra todo mundo que eu conheço.

    • Quanto mais eu leio e estudo sobre história, mais percebo que as grandes mudanças sociais tem em comum um processo de pequenos detalhes acumulando com o passar de muitos anos. A gente aprende sobre eventos especiais e datas por ser mais simples de lembrar, mas nada muda de um dia para o outro. Tudo o que a China está fazendo agora começou há décadas ao redor do mundo. Talvez lembrem do começo dessa ditadura tecnológica com o lançamento oficial do programa, mas na prática, o aviso já veio tarde demais.

  • Só o fato de grande parte dos estudantes e professores universitários ocidentais pagarem pau pro comunismo e pra China já indica que o comunismo não perdeu a Guerra Fria coisa nenhuma, se é que essa guerra realmente acabou.

    Rússia e China deitando e rolando pelo mundo, fazendo várias atrocidades e tocando o terror sem serem incomodados, Europa perdida no labirinto da burrocracia da União, Américas passando por infinitas crises e tensões internas, a população da Índia, China e países árabes só aumentando, crescendo suas economias e poder militar… É, o futuro vai ser bem diferente do que alguns idealistas pensam, queria não estar viva em 2050.
    A humanidade evoluiu por causa de sua ambição infinita, e pode ir à ruína pela mesma razão.

    • Continuo discordando de um futuro pior, apesar de tudo. Toda era tem suas bizarrices, governos totalitários e uma imensa maioria de pessoas que sequer sabe o que está fazendo. Eu ainda acredito que a chave é aceitar que a humanidade avança sem saber para onde está indo e acaba assimilando alguns comportamentos insanos, mas que no final das contas, a vida de cada geração é um pouco mais fácil e longa que a anterior.

      Se a tecnocracia é inevitável, melhor aprender a programar.

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