A Águia.

Enquanto isso, numa sala de reunião de um grande estúdio:

MARKETING: Boa tarde, como vocês já sabem, encomendamos uma pesquisa com os usuários da plataforma streaming para montar uma série perfeita para seus gostos. A nossa equipe de roteiristas vem trabalhando duro nos últimos três dias para definir uma ideia do que apresentar, e agora em primeira mão, vão nos apresentar, certo?
ROTEIRISTA: Isso mesmo! Olá para todos vocês, é com muito orgulho que apresentamos… A Águia!
PRESIDENTE: Já gostei do nome!

Todos riem.

ROTEIRISTA: Oba! Segundo as pesquisas, o público deseja uma série mais complexa, cheia de intrigas e personagens fortes. Não tem medo de violência e temas adultos em geral, ainda mais porque 93% assistem sozinhos e não tem que se preocupar com crianças. O que descobrimos também é que querem a volta de protagonistas mais centrados, que permitam que a história assuma a narrativa ao invés de problemas pessoais intermináveis. O tema espionagem internacional ficou à frente de vários outros como o que mais sentiam falta de ver.
VICE-PRESIDENTE: E sobre ambientação, o que a pesquisa disse?
MARKETING: Se me permite… na verdade foi um empate de vários elementos, e foi o nosso departamento que definiu o cenário ideal com base na nossa capacidade de produção e custos antes de repassar para os criativos.
ROTEIRISTA: Ficou definido que ainda há interesse por histórias de época, mas não nos cenários que já são considerados “batidos” como Idade Média, Segunda Guerra ou Guerra Fria. Por isso pensamos em abordar um período histórico entre o século XVI e XVII, numa Europa reimaginada. Cortes imperiais pomposas, disparidades sociais gritantes numa estrutura social que o espectador reconhece, mas com toda a dureza e a realidade de um tempo sem as comodidades modernas.
VICE-PRESIDENTE: Ok, interessante. Continuem.
ROTEIRISTA: O nosso protagonista se chama Edward Rassmussen. Filho de um diplomata sueco com uma prostituta inglesa, teve uma infância difícil depois de ser renegado pelo pai. Apesar de tudo, ele se destaca pela mente ágil e capacidade de analisar muito bem os desejos e interesses das pessoas ao seu redor. Ainda na adolescência, sai da Inglaterra rumo à Suécia para procurar o pai depois da morte da mãe. Passa alguns anos trabalhando como contrabandista para pagar a viagem, até finalmente chegar num reino imaginário entre a…
DIVERSIDADE: Meu olhos estão doendo.

Todos param e olham para a chefe do Departamento de Diversidade e Justiça Social do estúdio, que esfrega os olhos de forma caricata.

ROTEIRISTA: Pois não?
DIVERSIDADE: Essa história está tão branca que meus olhos estão doendo. O mundo não é só europeus branquinhos.
ROTEIRISTA: Acho que podemos adicionar um elemento mais étnico nas origens da personagem…
DIVERSIDADE: E se ela fosse negra?
ROTEIRISTA: Ela quem?
DIVERSIDADE: A protagonista! Porque eu vou fingir que nem percebi que você colocou um homem como personagem principal. Seria tão antiquado que eu teria medo até que te demitissem por isso. Óbvio que vai ser uma mulher. E negra.
ROTEIRISTA: Então… é que na lógica da época não soa muito realista uma mulher fazer as coisas que eu ainda estou para descrever aqui.
DIVERSIDADE: Mulheres podem fazer tudo!
ROTEIRISTA: Eu sei… mas, é que naquela época…
DIVERSIDADE: Tem algum personagem gay?
ROTEIRISTA: Tem sim, na corte da Rainha Freya.
DIVERSIDADE: Um?
ROTEIRISTA: Pode ter um pouco mais, é que pelo período…
DIVERSIDADE: E se a protagonista, e eu estou pensando num nome poderoso como Ginga Mutombo, fosse lésbica?
ROTEIRISTA: Bom, isso resolveria alguns problemas…
DIVERSIDADE: Trans!
VICE-PRESIDENTE: Então, eu acho melhor escutarmos as…
DIVERSIDADE: TRAAAANS! Que história! Uma transexual negra super poderosa derruba um reino controlado por heteros brancos e libera a população!
ROTEIRISTA: Mas a história não é essa, tem a intriga e a espionagem…
DIVERSIDADE: Ela… ADOTA! Adota uma criança…
PRESIDENTE: Ok, adotar…
DIVERSIDADE: TRAAAANS! Uma princesinha viada maravilhosa que ataca o patriarcado usando vestidos nas batalhas!
ROTEIRISTA: É que falamos sobre a história ser mais adulta.
DIVERSIDADE: E chega de Europa, vamos para a África. Pensa no mais próximo de Wakanda que conseguir sem forçar a barra nos direitos autorais. Uma sociedade negra maravilhosa cheia de tecnologia, carros voadores…
VICE-PRESIDENTE: Não parece combinar com a época.
DIVERSIDADE: Quem gosta de passado é museu, meu amor! Um grupo de nazistas invade Waganga, depois vocês olham se esse nome vai dar problema, e Ginga e sua linda criança trans adotada lutam contra eles. Empoderadas ao extremooooo!
ROTEIRISTA: Se vocês querem essa história, temos que reescrever tudo.
PRESIDENTE: Talvez dê para encontrar um meio termo.
DIVERSIDADE: Os nazistas querem acabar com o programa público de empoderamento das mulheres de Waganga, mas Ginga tem uma amiga cientista incrivelmente inteligente…

Todos esperam em silêncio.

DIVERSIDADE: TRAAAANS! Que faz uma máquina do tempo para voltar até a Alemanha Nazista e elas matam Hitler com uma espada em formato de unicórnio! Depois ensinam todos os europeus a ter mais tolerância!

A roteirista sai da sala.

DIVERSIDADE: Não! Melhor, os nazistas resolvem banir o casamento entre pessoas do mesmo sexo e matar todos os asiáticos de cor. Não! A protagonista nasce branca mas quer ser negra e vira transracial…

O marketing e o vice-presidente saem da sala.

DIVERSIDADE: E se todos fossem gays e negros? Isso ia representar a realidade! Poder para as mulheres!
PRESIDENTE: Filha, eu sei que eu disse que você precisava de um emprego, mas eu acho melhor você passar mais um ano viajando pelo mundo e conhecendo novas culturas.
DIVERSIDADE: Ok, papai!

Para dizer que não entendeu a moral da história, para dizer que quer saber mais sobre a série original, ou mesmo para dizer que vai se mudar para Waganga: somir@desfavor.com

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Comentários (2)

  • Dei risada à beça, Somir. E tomara que o pêndulo esteja mesmo virando como a Sally costuma dizer, porque se esse negócio de inclusão a todo custo ganhar um pouquinho mais de terreno, não estará longe o dia em que reuniões como essa descrita no texto passem a acontecer mesmo. Se é que já não acontecem…

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