Sim Senhora: Comerciais Toscos.

Vitimado mais uma vez pela histeria punitiva de Sally e seus minions, cá estou eu tendo que violar meu senso estético analisando comerciais de TV que vocês julgam ruins. Recebi uma lista de indicações, e tentei eliminar os que obviamente não eram comerciais de verdade, já que vocês todos parecem incapazes de diferenciar paródias da realidade. Sem mais delongas:

Proctan – Creme para hemorroidas.

Vamos lá… pra começo de conversa, não é um comercial ruim. É só aquele seu lado infantil atacado porque “o moço falou de cu”. Sejamos realistas: pessoas tem hemorroidas, então alguém vai oferecer produtos para o problema. E onde existe um produto com um mínimo de demanda, algum publicitário vai ter que se virar para fazer uma propaganda. Vender um creme para passar num cu inflamado é uma missão muito difícil, não tem como escapar da realidade. Na minha sempre correta opinião, o pessoal que fez o comercial do Proctan foi até competente para resolver o problema.

Fazer uma propaganda para esse produto é mais ou menos como cuidar de uma hemorroidas: não tem como escapar de mexer com algo desagradável. O máximo que dá pra fazer é o que fizeram mesmo: usar uns vídeos filmados para comerciais de gastrite (o cidadão no escritório) e sensibilidade no dente (o da moça com o copo) e deixar o telespectador imaginar o ânus pulsante por conta própria. A animação 3D do cu é agradável? Não, não é. Parece que o cu foi arrombado pela perna do Kid Bengala? Parece. Mas se fizer algo muito mais realista que isso, nenhuma TV vai aprovar, nem mesmo uma sem padrão de qualidade como a que apresentava A Fazenda.

Considerando o tema, é um comercial digno e eficiente. Eu desafio qualquer um de vocês a bolar um roteiro bom para um comercial para creme para hemorroidas sem tirar sarro de pessoas que tem hemorroidas. Você quer que a pessoa entre na farmácia e peça esse produto, e não criar entretenimento para o resto das pessoas, perpetuando a vergonha de quem sofre disso procurar um tratamento. Adivinha só: falar de hemorroidas é um cu mesmo.

Selaria Texana

É ruim? É ruim. Mas na cabeça de quem bolou, não era pra ser assim. Eu consigo enxergar claramente como isso foi imaginado como um bom comercial. “A gente faz assim, um casal vê a sela na loja, o homem fica sonhando com ela… a mulher vai na loja, compra e dá de presente surpresa para ele!”. Não sei quanto a vocês, mas eu consigo imaginar umas cenas bacanas pra isso. A maioria dos comerciais com roteiro desse tipo funciona SE a produtora for boa e tiverem os recursos para fazer direito.

O problema, como sempre, é que na prática a teoria é outra. Não existe ideia à prova de incompetência: foram decisões erradas atrás de decisões erradas. Precisavam de pessoas bonitas, afinal, queremos que o público deseje estar no lugar deles. Pegaram duas pessoas bonitas para quem não tem dinheiro para contratar pessoas bonitas… tanto o homem como a mulher não tem nada de bizarro, mas para os padrões da indústria de consumo, seriam no máximo figurantes em comerciais mais bem financiados. A mulher parece que vai começar a cantar uma música do Calypso a qualquer momento. Faltou bom gosto. Melhor: faltou dinheiro para ter bom gosto.

Pouca gente nesse mundo consegue falar da forma certa com uma câmera na frente da cara, por isso que muito comercial não tem falas para seus atores, só uma pessoa narrando por trás. Gente bonita que atua bem é rara e custa caro. Fazer os dois terem falas foi o principal erro desse comercial. Primeiro porque ambos são atores terríveis e só leem as falas sem emoção alguma, mais preocupados com dicção do que com significado, e outra porque escancara o erro bizarro de contar a história com falas ao invés de imagens. Regra básica de roteirização: mostre, não conte. Se você colocar duas pessoas falando sobre o que fizeram ao invés de mostrar as cenas, a tendência é que fique tosco.

Sem contar que essa porcaria tem um minuto! Se você não consegue contar a história de um presente surpresa em 30 segundos, desista da vida de produção de vídeos para publicidade! Mas eu posso estar sendo cruel com quem fez o vídeo, isso tem muita cara de dono da empresa decidindo tudo sozinho, mandando colocar a amante ou mulher como estrela do vídeo e ainda reclamando que estava tudo muito caro. Seja como for, você não viu uma propaganda ruim, você viu um vídeo ruim. No final das contas, vende o produto.

Supermercado Palomax

Sabe como eu sei que vocês são plebeus que não entendem nada de vídeo ou de publicidade? Porque vocês indicaram ESSA OBRA PRIMA como comercial ruim. Quem não acha esse comercial do caralho não merece nem o meu desprezo. Com um orçamento de uma coxinha, um guaraná e uma cortina retalhada, esses caras produziram um dos melhores efeitos especiais de voo já feito por amadores!

Vamos analisar isso cena a cena, vamos? Claro que vamos! Começa com uma mulher dirigindo (progressivo, aqui no interior não deixamos muitas fazerem isso, por isso não tem tanto congestionamento). O cenário é feio? É muito feio. Mato, casa mal acabada e aquele senso de vazio existencial. Mas isso é bom, estabelece um mundo ruim no qual não queremos viver: mulheres dirigindo e lugares feios. E aqui, o primeiro toque de genialidade! A mulher reclama com a câmera. Ela percebe que não faz sentido ter uma câmera ali, então coloca a audiência de volta na realidade quebrando a quarta parede e reestabelecendo a locação na vida real. Porque isso é importante para a próxima cena.

Muita gente acha que filmar é fácil, que é só ligar a câmera e tudo acontece por mágica, que as mega produtoras não gastam 10 horas para filmar uma cena de 5 segundos. Mas a realidade é cruel: é tudo muito difícil. Agora, imagina isso, o povo de um supermercado de Matão (o nome da cidade é pobre, impressionante) queria um homem voando no seu comercial, não tinha dinheiro pra nada… e CONSEGUIU! Parece mesmo que tem alguém voando lado a lado com o carro. Vocês tem noção do tamanho disso? Pensa, pensa um pouco: como eles fizeram essa cena? Ele não estava no banco de trás enfiado pela janela, o corpo dele está reto. Não é fundo verde, porque nem Hollywood faz fundo verde nesse nível de perfeição (e porque com qualquer fundo disponível, ninguém escolheria esse lugar horroroso). Lição de casa: imagina como eles fizeram essa cena.

Quando o Super-Homem surge, parece que ele vai assaltar a mulher? Parece. Mas isso só aumenta o elemento emocional da peça. A mulher se assusta, mas acaba cedendo à curiosidade e abre o vidro. E como num bom comercial, existe o humor de subverter as expectativas: ele não estava lá para cometer um crime, só queria achar um supermercado! Você não esperava isso, esperava? Eles atuam mal e o texto é meio chato? Sim e sim. Mas eles estavam num carro em movimento, com algum aparato para segurar o peão do lado do carro… E VOCÊ ENTENDE O QUE ELES FALAM! Pontos para a captação de áudio. Eu sei que essa gentalha não vai notar, pessoal do Palomax, mas eu notei. As legendas são supérfluas. Captação de áudio excelente (para o nível de investimento, é claro). E percebam que não tem fala inútil, cada frase tem uma função, ninguém fica te explicando à toa o que está acontecendo. Mostre, não conte.

O comercial atinge seu ápice quando Super-Perdido encontra a direção do supermercado (que agora você sabe que existe, função da publicidade resolvida) e ele faz um movimento de mudança de direção, que de novo, está muito mais bem feito do que tinha direito de estar. IMAGINA DE NOVO COMO FIZERAM ISSO! Ele gira no próprio eixo em mais de 180º, do lado de um carro em movimento! Eu sei que parece que é tudo fácil quando tudo o que você vê são vídeos feitos por profissionais com orçamento gigante, mas vai tentar fazer isso, vai…

Sem contar que o estilo de filmagem tosco de celular só complementa a ideia do filme: ser um vídeo aleatório que por um acaso pegou uma cena incrível. Uma produtora com mais dinheiro usaria atores melhores e com certeza um cenário melhor, mas podem apostar que não teria muita diferença em geral. O comercial do Palomax é mito, e se você achou uma porcaria, sua vida foi uma mentira até hoje.

Mearim Motos

E é assim que gente tosca faz comercial com gente voando. Fundo verde mal feito, captação de áudio horrorosa e muito mais conversa do que o necessário. Isso sim é um desastre. Eu não sei porque diabos precisaram de um fundo verde para uma cena na frente de um PONTO DE ÔNIBUS! Qual a dificuldade? Fora isso, é um festival de mau gosto com fontes feias, atuação podre e criança. Criança estraga qualquer comercial, tanto que nos profissionais eles torturam as crianças para elas atuarem direito, fazendo com que todas virem adultos horríveis e cheios de traumas.

Tudo errado. Mas como muita gente gosta de criança (não sei por quê), pode ter funcionado. Uma ode à incapacidade técnica.

Patos Lubrificantes

Eu fiquei em dúvida se era comercial de verdade, mas infelizmente é: tem uma cena final com narradora profissional e as informações da empresa, coisa que nenhuma das paródias costuma fazer. E é tão sem graça que nem faria muito sentido ser paródia. Alguém achou engraçado colocar um negão e uma mulher num motel no vídeo para falar de lubrificantes. Mas esse alguém não foi macho de levar a piada ruim em frente, fazendo com que os atores não mencionassem em momento algum o “elefante na sala”. Pra quem ter o trabalho de montar essa cena e não entregar nada sobre “precisar de lubrificante”? Por que se contentar só com o trocadilho merda sobre “trocar o óleo”? Por que trocar óleo é gíria para sexo? Por que eu estou fazendo isso? Eu não aguento mais… concordo que esse é uma porcaria porque broxou na hora H.

Hipercap

É um bom comercial. Dá trabalho fazer isso, combina com o clima do produto (é basicamente aposta com outro nome) e ainda gera a certeza que vão falar sobre isso depois. Street Fighter é uma referência segura para o público com idade para consumir o produto, os golpes usados são os certos do jogo e está tudo com um nível de qualidade razoável. Eu não faria esse comercial, mas não vejo nada de errado com ele. O fato de vocês terem escolhido só prova meu ponto: acharam engraçado de um jeito meio vergonhoso, mas deixariam de comprar esse produto por causa do comercial? Pior, agora vocês sabem que existe.

Panificadora Alfa

Crianças. Estragam. Comerciais. Nota positiva para o recorte do cabelo das meninas no fundo verde, ficou bem melhor do que eu esperava. Cabelo assim é um desastre para separar do fundo… mas voltando ao vídeo: quem fez não tem noção de design, por isso que ficou tão pior do que deveria, mesmo tendo uma habilidade técnica em produção de vídeo aí. Eu SEI que chamam pão de cacetinho em alguns lugares do país, mas soa meio proposital fazer o bom velhinho falar isso na frente da criança. Pode ser a revolta dos produtores do vídeo de terem que trabalhar com as filhas do dono. Porque não tem outro motivo para escolher essas crianças, sejamos honestos. Parecem todas filhas do Zacarias do Trapalhões com a Mariele Franco.

Pesadão Life Style

Explorando uma pessoa com deficiência? Muito bom! O brasileiro médio acha essas coisas engraçadas, afinal, o brasileiro médio tem deficiência mental por natureza. O comercial, apesar de tudo, é muito bom. Tanto que o cidadão fez muitos outros, virou a cara da loja e deve viver disso hoje em dia. Claro, deve complementar a renda caçando pombas na praça, mas claramente deu dinheiro para o dono da loja, tanto que continuou. Comercial ruim é comercial que não vende, coloquem isso na cabeça. Publicidade é sobre dinheiro.

Star’s Chic

Campinas (e o resto do interior mais rico de SP) é um lugar curioso para publicidade por uma combinação hilária de mão-de-obra semi-competente e empresas com orçamentos semi-decentes. Em outros lugares as pessoas nem fazem comerciais, mas é aqui que alguns começam a passar do nível mínimo para sonhar com TV. E como existe esse mercado, existem profissionais semi-capacitados para fazer isso. E aí as coisas ficam nesse meio termo hilário entre ideias que poderiam dar certo e execuções desastradas. Novamente, não é fácil fazer esse comercial. Precisa de conhecimento técnico até pra essa tosquice, mas como quem faz não tem noção e o dono da empresa que quase sempre decide tudo, saem essas coisas. Que a Universal não veja esse vídeo, porque colocar um desenho na barriga do Pica-Pau não faz com que a empresa escape de um processo. Só não entendi porque mostrar as garras se matou o bicho com visão de calor…

Barriguinha Mole

Se eu fosse pobre (de alma) acho que conheceria a loira do comercial. Mas por sorte não sei quem é. Acho que alguém da produtora ou da empresa queria comer. Porque ela não sabe falar. E como foi filmado na cozinha de alguém e não num estúdio, tiveram que usar uma lente olho de peixe (tipo daquelas de GoPro) para pegar toda a cena. Não combina com o clima da peça, e deixa tudo meio estranho. A moça fica parecendo uma geladeira, com o corpo todo da mesma largura dos ombros. Ou ninguém pensou nisso e só usaram uma GoPro que alguém tinha. É, foi isso… a cena do supermercado é com a mesma câmera e o mesmo defeito no canto superior esquerdo.

Mas é claro, estamos aqui pelo Barriguinha Mole, não? Eu detesto o Dollynho porque tenho certeza que ele é intencional, a Dolly tem dinheiro pra fazer melhor, mas escolheu fazer daquele jeito para fazer todo mundo achar que seus produtos são baratos. Manipulador. Agora, a mascote dos laticínios Acrelândia tem algo de mais honesto: foi feito no Acre. Talvez aquela GoPro seja a única câmera que exista no estado mesmo. Barriguinha Mole foi modelado por alguém que provavelmente mexeu pela primeira vez na vida com um programa de 3D. Podemos perceber pelas mãos. Quando quem fez percebeu o TAMANHO do problema de fazer uma mão em 3D, tocou o foda-se e fez o boneco com paralisia eterna lá. Não mexe por nada.

Também descobriu na hora de entregar que dava para animar o modelo, então criou danças demoníacas para o Barriguinha Mole, que parecem que vão invocar um ser dos infernos a qualquer momento.

A voz horrenda simulando uma criança, o movimento da boca que não bate com a fala, os olhos extremamente dilatados… claramente é uma mentira que Barriguinha Mole não leva produtos químicos, essa coisa está obviamente numa viagem de LSD sem fim. Mas podem me xingar de novo: é um bom comercial. Mesmo sendo tosco, demonstra que a empresa tem padrões de qualidade na produção e um mínimo de estrutura. Se estiver barato no supermercado, quem já vai comprar leite mesmo pode muito bem lembrar do nome e levar.

Comercial ruim é comercial que não vende. Poucos dos escolhidos tem esse problema. O mundo da tosquice é o mundo do brasileiro médio. Eles escutam funk e votam no Lula… qualquer coisa está boa. A maioria do que eu vi dá conta do recado numa boa, e só ofende quem jamais compraria os produtos merda que estão vendendo.

Vocês não sabem de nada, Joões da Neve.

Para dizer que não sabe se eu sofri, para dizer que só queria que eu apontasse as tosquices sem analisar de verdade, ou mesmo para dizer que agora entende a mágica do comercial do Palomax: somir@desfavor.com

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Comentários (6)

  • Muito bom. Deveria virar coluna fixa.

    Pelo comentario sobre ser pobre de espirito por conhecer a loira do barriguinha mole já imagino que você a conheça de algum filme porno/trash/porno trash.
    Não se preocupe, aqui não julgamos.

  • Desnecessário esse jumpscare do Barriguinha Mole no começo do texto :(
    Será que realmente existe um comercial que não venda, por pior que seja a qualidade técnica? Nem comerciais polêmicos, como aquele do Boticário com casais gays, fazem as pessoas pararem de comprar. Sem falar que tem tanto oligopólio por aí que boicote afeta quase nada nos lucros.

    • Barriguinha mole vai te pasteurizar enquanto você dorme.

      Se a Audi começar a fazer comercial do naipe da Acrelândia, não vende. O público vai detestar e o produto deles vai parecer mais barato. Como nesse caso estamos só analisando podreiras para empresas e produtos de extremo apelo popular, não tem limite para o quanto você pode ser horrível. Vender carro de luxo e vender leite com 50% menos vermes que o concorrente são coisas completamente diferentes. Se o Boticário faz uma campanha pró-Bolsonaro, vai se foder muito, porque vai alienar o público deles. Crente só usa perfume de marca falsificado, o boicote deles não fez a menor diferença para a marca… se você cagar no seu público, aí sim pode dar errado.

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