A nova África.

Se as coisas continuarem do jeito que estão, em uns 50 anos, de cada 5 bebês que nascerem, dois serão africanos. Outros dois serão asiáticos e o resto do mundo vai disputar o restante. E a tendência depois disso é que a África passe para o primeiro lugar isolado. A nova fronteira da humanidade é justamente o continente onde tudo começou. Como isso é possível? Bom, como de costume nos últimos tempos, as coisas não param de mudar.

Eu sei que não é lá muito inteligente falar de um continente inteiro como se fosse um só país (e pra falar a verdade, nem mesmo falar de um país como se fosse uma coisa só), mas temos que combater fogo com fogo aqui: como a maioria de nós de fora fomos ensinados a ver a África como um poço infinito de pobreza e atraso, vamos tirar o continente todo dessa fossa primeiro: apesar de abrigar vários dos países mais problemáticos do mundo, o continente africano também é cenário de desenvolvimento num ritmo alucinante em comparação com o resto do mundo. De uma certa forma, a África é a nova China.

Eu lembro de tomar um susto com a minha percepção da África ao ver uma palestra em vídeo de Hans Gosling, um estatístico sueco que passou a vida (morreu recentemente) lutando para mostrar para as pessoas que se formos olhar os números, o mundo está melhorando demais. Ele mostrava a comparação entre as estatísticas de qualidade de vida como mortalidade infantil na Europa do século XIX e da África atual, demonstrando que era mais ou menos como se os africanos tivessem demorado mais para começar o processo de modernização, mas que no final das contas, evoluíam até mais rápido que seus colegas europeus.

Podemos dizer que mais ou menos como a China entrou no século XX uns cinquenta anos depois dos países ricos ocidentais, abrindo a economia e tornando-se gigantesca no cenário global em algumas décadas, a África demorou o dobro para começar, mas agora que pegou gosto pela coisa, vai seguir o mesmo caminho (o Brasil é um ponto fora da curva nesse sentido, entrou no século XX junto com todo mundo, mas parou no tempo). Agora, diferentemente dos chineses, os africanos não vivem debaixo de só um governo eficiente em estabelecer metas e fazê-las serem cumpridas.

O continente africano evolui em pontos diferentes em locais diferentes. Não existe a mesma unidade dos países asiáticos, por isso não chama tanta atenção. Nossa visão ocidentalizada nos fez prestar muita atenção na África do Sul (meio que uma cópia do Brasil no sentido de entrar no século XX na hora certa, mas parar no meio do caminho) como único ponto de civilização local. E isso não poderia ser menos verdade: debaixo do nariz de todo mundo, alguns países foram crescendo e se tornando potências locais. O maior exemplo atual é a Nigéria, um país com uma grande extensão territorial, economia forte (para os padrões locais), e com exceção de problemas com radicais do Boko Haram, um dos lugares mais bem desenvolvidos da região. Outros países praticamente desconhecidos do resto do mundo como a Eritréia também crescem a olhos vistos, modernizando e industrializando num ritmo quase que chinês.

Sem contar casos incríveis como o de Ruanda. Em 1994, o país foi palco de um massacre terrível, quando a população local começou a matar todos os integrantes de um dos grupos étnicos do país (os hutus mataram os tutsis). Foi um dos maiores banhos de sangues dos tempos modernos, e as vistas grossas da sociedade ocidental ainda são criticadas até hoje (não tinha petróleo por lá). Mas, o tempo passa. O tempo passa e sem intervenção externa, o povo local achou uma solução: uma ditadura extremamente focada em eliminar a percepção de etnias entre o povo. É criminoso por lá pregar a diferença entre hutus e tutsis. Hoje em dia, o país vive um renascimento econômico, com serviços básicos melhorando consideravelmente e uma surpresa: é considerado um dos países mais igualitários politicamente do mundo. O parlamento tem maioria feminina.

Claro que isso não quer dizer que nenhum dos países de lá, mesmo os em franco desenvolvimento, chegam perto do nível de proteção dos direitos humanos dos países mais ricos de outras regiões. Ainda é um continente que prende homossexuais (quando não matam) e que funcionam muito na base da corrupção (como a gente). Ainda é um dos lugares mais pobres do mundo, com muita gente passando fome e morrendo de doenças absolutamente tratáveis, mas o salto de qualidade de vida que um africano médio experimentou nas últimas décadas só tem paralelos na China moderna.

Ao contrário do que sempre acabamos vendo, a África não é feita só de vilarejos miseráveis, muito do continente é assim, mas é uma visão seletiva da grande mídia. Se só mostrassem o estado de São Paulo ou o Sul do Brasil, perigava dos estrangeiros acharem que o Brasil era um país rico com alguns problemas de desigualdade social. A África tem grandes cidades, centros de tecnologia, arquitetura moderna, empresas poderosas e alguns lugares com infraestrutura pau a pau com algumas partes da Europa. Mais ou menos como o Brasil. A grande questão atual é que o continente ainda não está muito bem conectado com o resto do mundo.

Recentemente eu escrevi um texto sobre um canal de YouTube indiano se aproximando da posição de maior do mundo, e sobre como a imensa população do país vai começar a invadir a internet nos próximos anos. Querendo ou não, o cidadão médio sabe muito mais sobre a Índia agora do que sabia há algumas décadas. Indianos não são só malucos de vestido nadando em rios poluídos. Por exemplo: um dos canais que eu mais uso para aprender dicas novas de Photoshop é feito por um indiano. A visão sobre o país vai mudando quando você começa a ver mais do que é interessante para emissoras de TV e documentaristas. Especialmente se a barreira de linguagem é pequena, os indianos são bem interessados em aprender inglês pelos empregos no setor de tecnologia, facilitando muito o contato.

E algo parecido está prestes a acontecer na África. Com o enorme interesse chinês no continente, investindo bilhões e bilhões de dólares por lá em projetos de infraestrutura, logo logo vamos começar a ver mais e mais pessoas de países africanos aparecendo na nossa internet. E apesar dos pesares, a colonização europeia ajuda: a maioria fala alguma das línguas mais populares do mundo desde criança. Cinco países falam português como língua oficial, ora pois. O dinheiro do mundo vai começar a apontar para lá, inevitavelmente. O continente é riquíssimo em recursos naturais, mesmo considerando que tem o maior deserto do mundo ocupando sua área superior. Os chineses já perceberam que muitos dos materiais mais importantes das próximas décadas estão por lá, como as terras raras e outros elementos úteis para produção de eletrônicos.

Podemos discutir se a China não está comprando a África para explorá-la livremente, mas seja como for, o resultado disso vai ser um desenvolvimento acelerado do continente, com cada vez mais gente nascendo e continuando viva por lá, fazendo com que a população humana vá começando a se acumular nos seus países mais bem-sucedidos. Percebam que em momento algum estou falando sobre democracia, liberdade ou qualquer outro valor do tipo, estamos pensando puramente na combinação entre crescimento econômico, populacional e por consequência de influência cultural no mundo. Nós que ainda temos pelo menos uns 30 anos de vida pela frente ainda vamos ver a África de uma forma completamente diferente que vemos agora.

E não deixo de traçar um paralelo com o texto da quarta-feira aqui: enquanto muita ativista fica pensando na África como um continente de coitadinhos cuja cultura deve ser preservada das mãos apropriadoras dos ocidentais, os africanos estão trabalhando nos bastidores, criando a próxima explosão econômica do mundo e ganhando força real. Vai demorar um tempo, o continente vai continuar cheio de problemas por muitos e muitos anos, alguns países vão travar no tempo no meio do processo, mas o continente vai deixar de ser o primo pobre do mundo. A evolução não para e a humanidade se autorregula há milênios. Ninguém ficam vítima pra sempre.

A África não é mais o que você imagina. Preste atenção nela. Quem chegou tarde para a China e a Índia vai ter mais uma chance. Fica a dica.

Para dizer que incrivelmente não precisa falar de cor de pele para falar de África, para dizer que as coisas não são tão boas assim (não, mas são melhores que quase todo mundo acha), ou mesmo para dizer que nem a piada que o Brasil é a África que deu certo vai servir mais: somir@desfavor.com

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Comentários (6)

  • Uma correção: na verdade existem mais de dois países que falam língua portuguesa na África:
    Angola, Moçambique, Guinea Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.
    A Guinea Equatorial utiliza português como segunda língua.

    Já estive na Etiopia e honestamente esperava ver algo bem pior. No geral, a capital Addis Abbaba se parece muito com qualquer outra cidade pobre do Brasil.

    A China está investindo pesado na África. Chineses e indianos são vistos com “bons olhos”, como um povo relativamente bem sucedido.
    O único metrô da Etiópia foi construído pelos chineses.
    Tenho colegas de Moçambique, Angola e Guinea. Às vezes conversamos sobre custos de vida, segurança, mobilidade e no geral esses países se parecem bastante com Bahia e o nordeste do Brasil em termos de desenvolvimento.

    Uma curiosidade sobre Etiópia: Recentemente uma amiga se mudou para lá e ficou horrorizada ao descobrir que os shopping só vendem coisas usadas provinientes dessas ONG’s que “ajudam” os africanos pobres. Ficamos chocados!

    • Correção feita! Obrigado.

      É mais fácil para quem vem de um país emergente entender os problemas africanos. Talvez até por isso os chineses consigam encarar a situação tão melhor que o “ocidente rico”.

  • Pois é, uma vez fui ler sobre densidade demográfica e população, o continente africano é um dos lugares que mais nasce gente, “cresce muito” porém há um contra, a mortalidade infantil e a infecção pelo hiv continuam sendo uma das maiores do mundo, além da expectativa de vida ser baixa. É bom saber que o continente está se desenvolvendo, porque sinto (achismo meu) que desenvolvimento dialoga com democracia e com mais igualdade social. Contudo, tenho ressalvas, como você havia escrito, creio na possibilidade de a China controlar partes do território africano para garantir e manter o seu ritmo acelerado de industrialização e competitividade.

    • Posso ser uma pessoa amarga, mas acredito que o ser humano tende à exploração. Os chineses acharam um jeito de fazer colonialismo não oficial na África. Se não fossem eles, seria outro povo. A Segunda Guerra Mundial impediu o projeto europeu, mas o continente continua aberto para isso.

  • No Youtube volta e meia aparece um ad com um vídeo de um canal africano, em breve surge um novo T-Series aí.
    “para dizer que nem a piada que o Brasil é a África que deu certo vai servir mais” nesse passo, é mais provável a África superar a América Latina e NÓS nos tornarmos a ‘África’, em se tratando de um estereótipo de lugar fodido e instável. Não sei se você pensou nisso quando escreveu o título, mas seria uma boa sacada.

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