Ação e reação.

Nossas ações tem consequências. Nisso, Sally e Somir concordam. Mas não necessariamente que existe uma lógica inerente ao processo. Os impopulares decidem aqui e agora.

Tema de hoje: aqui se faz, aqui se paga?

SOMIR

Não. O que não quer dizer exatamente que você está livre para fazer tudo o que quiser sem lidar com consequências negativas, mas que no final das contas, o que consideramos justiça é apenas uma fabricação da mente humana. A realidade obedece algumas regras, sim, só que essas regras são baseadas nas interações de partículas e forças fundamentais. Toda ação gera uma reação, desde que você se lembre que isso é uma questão física e não abstrata.

O conceito de justiça é importantíssimo para a evolução da humanidade, afinal, dele surge a grande maioria das leis que nos regem e definem nossas interações nesse mundo. Apesar de algumas observações de comportamentos parecidos em animais irracionais, agir de acordo com ideais de equilíbrio e altruísmo é algo essencialmente racional, afinal, são os humanos que conseguem agir consistentemente nesse sentido. O que já começa a entregar a natureza abstrata do senso de justiça.

Não é como se existisse uma “obrigação cósmica” de ser punido por ações consideradas ruins ou recompensado pelas boas. E a falta dessa obrigatoriedade na natureza é uma das explicações da popularidade do pensamento místico/religioso: a ideia de que estamos sendo observados o tempo todo e julgados por nossas ações é curiosamente reconfortante para o ser humano. Nos sentimos punidos ou recompensados mesmo sem um gatilho físico para tal, temos descargas de substâncias de estresse e prazer no cérebro por nada mais do que ideias. Algo impressionantemente abstrato que acaba fazendo com que as pessoas acreditem que existe uma fonte externa alimentando essas sensações.

Mas, isso não é mais complexo do que a percepção de seres vivos dotados de cérebro acontecendo… no cérebro. Seus sentidos estão conectados com as respectivas áreas do cérebro que convertem os impulsos externos em imagens, sons, cheiros, gostos e sensações. De uma certa forma, tudo o que você conhece da realidade não é por contato direto, e sim por uma interpretação cerebral. Tanto que danos na região podem desligar sentidos completamente, mesmo com o órgão receptor intacto. O que eu quero dizer aqui é que no final das contas, toda nossa percepção tem uma base abstrata. Um rato não tem poder de processamento necessário para expandir essa abstração, mais um ser humano tem.

E por isso, expandimos sem parar até aqui. Algumas pessoas consideram que existe um ser mágico julgando em tempo real nossas ações (e tomando decisões conscientes sobre o que fazer conosco), outras consideram que existe uma ordem inerente ao funcionamento do universo que se encarrega de colocar nos nossos caminhos consequências das nossas ações… mas no fundo não deixam de ser iterações do mesmo conceito: o de que a abstração da mente humana existe fora da mente humana. Que existem agentes exteriores moldando a realidade além do campo físico. Para quem tem essa visão das coisas é difícil concordar com a minha sugestão sobre ausência de justiça no campo concreto, mas que pelo menos sirva como uma reflexão.

Pessoas que fazem coisas ruins fazem coisas ruins de acordo com alguma percepção sobre a definição de ruim. Igualmente com as boas. Explico: apesar de milênios tentando gerar consenso sobre um modelo de ação que configure ser uma “boa pessoa”, a humanidade não conseguiu avanços muito maiores do que a ideia de que as posses de uma pessoa não devem ser tomadas por outras sem seu consentimento ou compensação. O conceito de violência excessiva varia demais entre as culturas e as classes sociais, mesmo que historicamente tenha ficado mais restritivo. Conceitos sobre moral (honestidade, comportamento sexual e afins) parecem muito próximos entre diversos povos em tese, mas na prática são dos mais violados no dia a dia.

Quando digo que não acredito no “aqui se faz, aqui se paga”, também é porque a definição de fazer e pagar não é consistente suficiente nem mesmo quando tentamos com todas nossas forças entrar em acordo sobre isso. Ainda que você não esteja considerando nenhum agente sobrenatural tomando as decisões sobre como punir ou recompensar as pessoas, mesmo entre as pessoas é complicado definir quem merece o quê. Se a esfera de influência que tem poder sobre você considera sua ação positiva, pouco importa se o resto do mundo enxerga as coisas de forma diferente. Durante nossa história, permitimos muitas coisas que hoje consideramos horríveis. E pior: às vezes, o crime não tem testemunhas e a vítima consente ou perdoa.

Quem escravizou os africanos aqui no Brasil enquanto a lei permitia pagou pelo o que fez? Quem apedreja mulheres por serem estupradas num país islâmico paga algum preço? Vai dizer que você nunca cometeu uma injustiça que acabou impune até hoje? Quem faz muita coisa ruim aos olhos de seus pares costuma sofrer mais consequências negativas, mas desde que seus pares tenham disposição, poder ou mesmo interesse de exercer uma punição. Dado tempo suficiente, a sua chance de encontrar alguém que te faça pagar pelo que fez é muito grande, mas não é uma certeza.

Se João de Deus tivesse morrido dois anos atrás, teria pagado pelos seus crimes? Quanta gente não morreu ou parou com suas atitudes negativas antes de efetivamente sofrer uma punição por isso? Não estou dizendo que você pode fazer o que quiser sem consequências, nada desse niilismo de que nada importa, só estou dizendo que não adianta esperar o universo tomar uma atitude por você. O universo está preocupado com a entropia, não com conceitos abstratos da mente humana.

Justiça somos nós que fazemos, porque fomos nós que criamos. E entendemos tão bem isso que criamos coisas como Estados e religiões para exercer essas funções, ambos sendo atualizados (Estados num ritmo bem maior que as religiões) de acordo com a ideia de justiça mais popular a cada momento. Sacanagem exigir do universo ou qualquer outro agente externo à mente humana resolver esse problema pela gente. Fomos nós que criamos e só nós sabemos como é.

A tendência é que fazer coisas boas gere bons resultados e coisas ruins gerem resultados ruins, mas desde que as pessoas ao seu redor concordem e tenham a capacidade de exercer esse senso de justiça. Infelizmente, por pura aleatoriedade, pode não acontecer nada disso também se nenhum outro agente humano estiver ciente e/ou disposto. Quando falamos desse tema, a árvore não faz barulho quando cai na floresta…

Para dizer que nada importa, para dizer que Deus resolve tudo, ou mesmo para dizer que fazer o bem faz mal (estatisticamente não, larga de ser analfabeto da realidade): somir@desfavor.com

SALLY

No final das contas, você acredita que aqui se faz, aqui se paga?

Sim, não por motivos divinos, mas sim por probabilidade, por afinidade e pelo contexto social atual. Vou explicar melhor.

Seres humanos não são aleatórios, eles seguem um fio condutor forjado por sua educação, seu caráter, sua ética e muitos outros fatores. Portanto, existe um patamar de comportamento esperado, ainda que ele não seja 100% previsível. Existem tendências que guardam um mínimo de coerência. A conduta das pessoas costuma seguir algumas linhas gerais determinadas pelos seus valores.

Logo, dificilmente determinado comportamento nocivo da pessoa é pontual. Se ela é o tipo de pessoa corrompida, por exemplo, que adora levar vantagem em tudo, é de se esperar que não devolva o troco quando receber uma quantia a mais, que fraude o seguro do carro para receber um novo veículo ou que minta de qualquer outra forma para obter benefícios pessoais, afinal, dentro dela, ela encontra justificativas para conseguir fazer esse tipo de coisa e continuar dormindo à noite.

Se a pessoa não tem uma trava que a impeça de fazer isso, é um carro sem freio ladeira abaixo, ela vai repetir a conduta várias vezes, talvez por nem considerá-la equivocada, talvez por não achar que vá lhe causar algum problema. Só deixamos de fazer coisas “erradas” quanto temos uma trava para isso: moral, ética, legal ou de qualquer outra natureza.

Quando não se tem essa trava, a conduta reprovável acaba sendo algo recorrente na vida da pessoa, quase que um modo de funcionar. E é impossível que, durante uma vida toda (e estamos falando de uma expectativa de vida média de 76 anos) ela saia impune todas as vezes que repetir esta conduta. Em algum momento vai dar merda, por mais que a pessoa tenha a falsa sensação de que não, por ter feito aquilo por anos sem maiores consequências. Essa conta chega, é tempo demais para ter a sorte de se safar de tudo. É lei da probabilidade. É matemática.

Além disso, pessoas com índole desse tipo, pessoas que tem o que “fazer” e o que “pagar”, não costumam andar com pessoas mais, digamos… corretas. Pessoas “corretas” não aceitam gente que “aqui se faz”. Logo, o próprio entorno da pessoa, as afinidades, o que a cerca, é um ambiente propício para que “aqui se pague”: só fica ao lado da pessoa quem também é meio escrotinho.

E, quem faz com os outros, uma hora faz com você também. Quando você se cerca de pessoas que fazem coisas erradas, pode ter certeza que um dia isso vai respingar em você, mais precisamente quando os interesses da pessoa conflitarem com os seus. Logo, temos mais um fator empurrando a probabilidade da pessoa uma hora “pagar” para o patamar de 100%.

É um beco sem saída. Às vezes demora a acontecer, por isso nos dá a falsa sensação de que a pessoa se safou para sempre das bostas que fez, mas, podem acreditar, essa conta chega. Talvez você não consiga ver a hora em que o caldo entorna quando acontecer com uma pessoa com a qual você não tem muita proximidade, mas basta pensar em alguém bem próximo e você vai ver que em algum momento a “lei do retorno” se fez presente. Por mais que muitas vezes seja longe dos nossos olhos, quem planta merda colhe bosta.

Ninguém é mais esperto que todo mundo, sempre tem um esperto mais espero do que aquele esperto. Ninguém consegue enganar todo mundo o tempo todo. Por mais que existam pessoas habilidosas, manipuladoras ou até chantagistas, um dia a casa cai. O ser humano é falho, não existe ser humano perfeito, logo, em algum momento qualquer mentira será descoberta, qualquer sacanagem virá à tona, qualquer ilegalidade virá a público, sobretudo em uma era de redes sociais e ampla disponibilidade de informações e pesquisa. E quando as coisas vêm a público, as consequências acontecem.

Basta olhar à sua volta. Os maiores mentirosos, que, em outros tempos, sairiam imunes, estão caindo, um a um. Lula está preso e derrotado de todas as formas possíveis, detentores de verdadeiras fortunas como Eike Batista não conseguiram se safar, manipuladores como João de Deus, que além de rico, gera influência pelo medo também caiu. Não estou dizendo que exista justiça, no sentido de um bom Judiciário no Brasil, porque realmente não existe e nunca vai existir. O que estou dizendo é algo muito mais profundo: a vida se encarrega.

As escolhas da pessoa a levam por um caminho que acaba mal, por mais que a pessoa nunca ache que isso vai acontecer. São apenas desdobramentos naturais de escolhas ruins, escolhas que geram de volta aquilo que a pessoa está colocando na sua vida e no mundo. Se eu escolho trabalhar para o tráfico de drogas, não é por uma punição divina que vou morrer cedo, e sim por me cercar de um ambiente de extrema violência.

Qualquer escolha de fazer algo nocivo te coloca necessariamente nesse ambiente nocivo, real ou virtualmente, não importa. E as consequências desse ambiente nocivo inevitavelmente chegarão, cedo ou tarde. Dizer que isso não é verdade é o mesmo que dizer que uma pessoa pode fumar uma vida inteira sem que isso prejudique sua saúde (em algum ponto, vai prejudicar). Não tem segredo, o que você é está interligado aos seus atos, e ninguém escapa das consequências do que você é.

Acredito que todos vocês já tiveram algum sinal, ainda que pequeno, disso. Alguém aqui já fez escolhas erradas como forma de vida por um longo período e saiu totalmente impune por isso, sem qualquer consequência negativa? Não creio. Se a consequência negativa compensou ou não a escolha de vida é análise pessoal de cada um, mas é fato que ela existe: aqui se faz, aqui se paga. Não me levem a mal, mas é romantismo achar que tem um inferno esperando por vocês, não sei se vocês repararam, mas o inferno é aqui mesmo.

Não caiam nessa crença falsa que já está quase no inconsciente coletivo de que “bonzinho só de fode”. Isso nada mais é do que uma tentativa de álibi para ser desonesto ou incorreto, como se ser bom necessariamente levasse a algum tipo de danação. Não faz o menor sentido pensar assim. Ser relapso, displicente, acomodado e delegar decisões e ações a terceiros é que faz uma pessoa se foder, não “ser bonzinho”. Não pode camuflar certas escolhas ruins de “bondade”. O “errado” também se fode no final das contas, e geralmente muito mais.

Para dizer que se acreditar nisso não vai mais poder se vitimizar, para dizer que se acreditar nisso não tem mais desculpas para fazer suas merdas ou ainda para dizer que se acreditar nisso vai ter que argumentar com o Somir: sally@desfavor.com

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