Baixa resolução.

Stella suspira ao ver o horizonte desaparecendo mais uma vez pela janela de seu minúsculo apartamento. A vista foi uma das tantas promessas vazias do operador que lhe vendera o local meses atrás. A impossibilidade de trazer os amigos para uma visita ou mesmo ter um animal de estimação já era incômodo suficiente. Ver as grandes montanhas perdendo a definição no horizonte antes de desaparecem completamente, levando consigo quase toda a cidade até poucos quarteirões dali sugaram o resto da empolgação com sua compra mais recente: um sonho.

Desde que a estação de transporte foi instalada do outro lado do quarteirão, tornou-se impossível realizar qualquer operação complexa na região. O enorme fluxo de pessoas indo e vindo consumia dados demais. A qualidade da simulação tornava-se cada vez pior, com objetos menos essenciais simplesmente desaparecendo por falta de memória no nódulo local. Poucos dias atrás, teve uma garrafa de vinho que guardava para uma ocasião especial deixando de existir diante de seus olhos.

Ela volta o olhar para o interior do recinto, pouco mais de dez metros quadrados ocupados por uma cama, uma mesa, duas cadeiras e um armário com capacidade para pouco mais que dois gigabytes. Em cima da mesa, um prato sujo com os restos do jantar divide espaço com seus pertences pessoais: sua interface e um molho de chaves criptográficas. Na parede, seu bem mais valioso: um espelho que raramente funcionava pelo excesso de processamento que exigia. Ela faz questão de tocar todos os objetos do local, para garantir que nenhum deles expire e tenha o mesmo destino do vinho. Os restos de comida no prato lançam no ar um painel holográfico.

“Racionamento de processamento ativo: objetos não essenciais devem ser removidos se não estiverem em uso. Confirma?

Ela faz um gesto na direção do botão “sim”. Nenhum resultado. Continua chacoalhando a mão, dois dedos em riste. Depois de alguns segundos, o prato fica limpo e o painel desaparece. Logo em sequência, se joga deitada sobre a cama, e estica o braço para alcançar a interface em cima da mesa. Sem olhar, tateia em busca do pequeno dispositivo, uma das poucas coisas resistentes ao racionamento em seu poder. Nada. Frustrada, vira o rosto em direção à mesa ao mesmo tempo que a luz se apaga. O sistema local não resiste à carga e cancela a simulação de luz, uma das mais complexas em atividade. Em alguns segundos, a iluminação retorna, mas monocromática, banhando todo o local numa luz verde de baixa intensidade que sequer projeta sombras, uma das mais econômicas em processamento. Tenta se lembrar da última vez que o sistema local conseguiu simular a luz do sol por mais que uma hora por dia, mas não consegue.

Ela consegue enxergar sua interface, pelo menos. De posse do equipamento, entra na interface de controle da casa e desliga a luz de vez, iluminação de baixa qualidade sempre foi algo incômodo para ela. Aliás, mais uma das promessas quebradas pelo operador. Segundo ele, a área estava em desenvolvimento e usava muito pouco do sistema da cidade, inclusive para manter iluminação natural na imensa maioria do tempo. Claro que ele não contou sobre a estação… ela se remói por ter acreditado que poderia ter uma casa só para ela por míseros cento e vinte gigabytes de armazenamento.

Sua cota de processamento diário estava quase no fim, os primeiros sinais do sono lançam um ícone de alerta sobre sua visão, que dispensa rapidamente. Na interface, surge a confirmação: não haveria memória suficiente no seu setor para carregar o sonho original que comprara a duras penas depois de quatro meses de trabalho na Rede Neural Norte. Diante de si, a escolha entre mais uma noite em modo de economia ou a troca por um sonho pré-carregado no sistema de outra pessoa. Ela não cometeria o erro outra vez. Meses atrás aceitou a oferta e acabou num sonho horrendo de um homem muito gordo que molestava uma famosa cantora pop.

Escolheu então simplesmente entrar em modo de hibernação e tentar a sorte no dia seguinte. A contagem regressiva para seu desligamento diário já estava nos segundos finais quando sentiu todo o apartamento banhado numa forte luz branca. Silêncio. A contagem para faltando um segundo. Stella tenta se mexer, mas não consegue. Ela já havia experimentado situações de lentidão na realidade, algumas vezes até falhas de vários segundos na sua percepção e memória, mas nunca tinha se sentido assim. Seus pensamentos vinham embaralhados, lembranças da infância misturadas com cenas de dias anteriores, cheiros, gostos e sensações alternando em alta velocidade. Algumas delas… novas.

Ela se vê num belíssimo cenário tropical, segurando um coco com um canudo decorado, ela aproxima da boca e sente um gosto adocicado, mas definitivamente alcoólico. A brisa refrescante acaricia sua pele, pode sentir a areia fresca escorrendo por entre os dedos dos pés. A luz do Sol que não via há tanto tempo ofusca a visão. Stella sente uma paz enorme com o mar calmo à poucos metros de distância, as ondas batendo lentamente na praia. Ela olha para o próprio corpo, mas não o reconhece. Especialmente pelo corpo ser masculino. E claramente masculino, pois não estava usando roupas. O tórax esculpido, os braços enormes, e um membro extra, que apesar de flácido, parecia muito grande. A pele era dourada, pontuada por tatuagens extremamente complexas, especialmente no antebraço, onde uma espécie de índia maravilhosamente bem desenhada segurava uma rosa vermelha.

Stella olha para os lados. Numa praia impossivelmente bonita, cercada por montanhas arborizadas debaixo de um céu azul sem nuvens, estava acompanhada por mais algumas dezenas de pessoas. Algumas sentadas em cadeiras meticulosamente protegidas pela sombra de palmeiras, outras correndo e se divertindo das águas esverdeadas do mar. Todos nus. Todos, homens, mulheres e alguns híbridos curiosos, estonteantemente belos, jovens e despreocupados. Na cadeira ao seu lado, uma mulher relaxa vestindo apenas óculos escuros e um chapéu. Seus seios são uma afronta à gravidade, ainda mais com o volume que apresentam.

Apesar de todo o estímulo visual ao seu redor, Stella volta sua atenção novamente para o coco. Olhando mais de perto, pode notar que cada uma das fibras da parte do coco que foi cortada está presente e simulada com uma resolução impressionante. Ela aproxima ainda mais dos olhos, e fica encantada com a quantidade de detalhes que podem ser notados a cada milímetro do objeto.

“O que foi, Pablo?”

Ela olha na direção da voz. É a mulher que sentava ao seu lado.

“Não é bicho, né? Eu pedi para não simularem bicho.” – ela diz usando um dedo para segurar os óculos escuros na altura do nariz. Seus olhos são de um tom azul ainda mais claro que o céu, grandes como os de uma boneca.

“Não… não é bicho.” – Stella responde tentando simular tranquilidade, mas se assusta por um momento com sua voz grossa.

“Eu estava pensando, não acho que vou gostar daquela história de piratas. Ouvi dizer que é fedido e te fazem usar umas roupas horrorosas. Vamos para a floresta dos elfos de novo hoje? Eu achei tão gostoso.” – a mulher sorri mordendo o lábio inferior de forma sedutora.

“Tá bom… vamos…” – Stella responde, com um sorriso amarelo.

“Quem sabe eu não te deixo brincar com uma daquelas menininhas dessa vez?” – ela sorri mais uma vez antes de voltar para a posição anterior, escondendo os olhos novamente debaixo dos óculos e puxando o chapéu por cima do rosto.

“Que menin…” – antes de terminar a frase, Stella sente seu corpo perdendo os movimentos mais uma vez. O cenário apaga de uma só vez, com seu corpo perdendo resolução até se desfazer na escuridão.

Sente-se deitada novamente. O cenário pouco definido de seu apartamento ressurge junto com seu corpo. Ela sente a interface ainda em sua mão, que imediatamente puxa para diante do rosto. Passaram-se doze horas, quando poderia jurar que passara apenas alguns minutos naquela bela paisagem tropical. Um alerta pisca intermitentemente na tela da interface:

“Sistema restaurado com sucesso, dilação de tempo ativada por 3.912 ciclos de processamento.”

Mais uma dilação. O que significava que o sistema local estava sobrecarregado e precisou simular o tempo mais devagar para dar conta da demanda. Começa a se perguntar se por esse motivo que conseguiu sonhar, mas jamais se imaginaria sonhando em ser um homem numa praia, quando tinha o privilégio de um sonho original, costumava escolher aventuras ou romances proibidos. Talvez o sistema tenha adicionado um sonho pré-carregado mesmo contra sua vontade. Busca pelos seus sonhos reservados, mas ainda continuava com um.

Com dilação ou não, é obrigada a sair da cama e ir direto para o trabalho. A Rede Neural Norte nunca foi de perdoar atrasos, especialmente com tanta gente querendo sua vaga. Ela se levanta, acessa o armário e busca pelo uniforme. Desperdício de armazenamento fazer que ela mantenha uma cópia dele na própria casa, mas era a política da empresa. Stella seleciona o penteado padronizado do uniforme de sua cada vez mais limitada seleção de estilos e sai dali. No corredor, encontra uma das vizinhas, que segura a porta do elevador.

“Bom dia Stella” – a mulher aparentemente sorri, mas é muito difícil notar outros detalhes faciais, seu rosto está numa resolução péssima.

“Bom dia Joana.” – Stella sorri de volta, mas claramente desconfortável.

“O rosto, né? O Thomaz precisou de um pouco de espaço ontem para um projeto. Mas eu tenho seguro de backup de duas semanas, assim que pagarmos o prêmio eu volto ao normal. Vai dar tudo certo!” – Joana ri de forma meio nervosa.

“Vai sim. E… você é bonita em qualquer resolução!” – Stella contorce o rosto tentando parecer encorajadora, mas acaba soando condescendente.

Joana olha para baixo, expressão indecifrável. O resto da descida é acompanhado por um silêncio incômodo. As duas se despedem rapidamente, seguindo para lados opostos. Stella pega o caminho da estação de transporte, e já começa a sentir os efeitos do excesso de pessoas. Seus passos alternam lentidão e velocidade excessiva de forma praticamente aleatória, assim como os das pessoas ao seu redor. Ao chegar mais perto da linha de conexão, os efeitos ficam ainda mais severos. Ela sente o corpo parando no ar por vários segundos, o suficiente para notar uma pessoa em baixíssima resolução sentado no chão, com as costas na parede. Difícil determinar o sexo com essa qualidade, mas ela pode notar um ciclo de repetição dos braços dessa pessoa subindo e descendo em intervalos idênticos entre si.

Quando finalmente ela consegue continuar seus movimentos, percebe o sinal da linha de transmissão se aproximando. Um grupo de várias pessoas se aglomera na pequena plataforma de embarque. Stella sente seu corpo sendo comprimido. A sensação é horrível, todos os dados redundantes daquelas pessoas seriam unificados para economizar processamento no transporte, ela pode sentir o corpo sendo fundido numa massa disforme, com apenas a cabeça para fora. Anos de costume não são suficientes para ignorar o incômodo, ainda mais com o sempre presente risco de corrupção dos dados. Na Rede Neural Norte, conheceu um homem que perdeu a maior parte do corpo numa linha de transmissão. O corpo genérico que recebeu no lugar nunca mais foi aceito pela mente. Acabou deletando a consciência.

Mas não era hora de pensar nisso. A linha estava iluminada, significando que o próximo pacote de dados seria enviado. Pelo gigantesco túnel que se estendia a perder de vista para ambos os lados, chegava uma das cápsulas de transporte em altíssima velocidade. Com uma freada repentina, o tubo metálico abre uma grande porta, e Stella sente a massa de corpos sendo carregada até seu interior. Sem o controle das pernas, restava apenas seguir o fluxo.

“Stella? Stella? Você está aqui?” – Uma voz grossa ecoa pela estação.

Stella tenta virar o rosto na direção do som, mas seu pescoço está fundido com a massa de pessoas avançando para dentro do tubo de transporte. Na dúvida, presume que não é com ela, e fica com vergonha de gritar de volta, ainda mais com tantos rostos tão próximos.

“Stella?” – a voz está mais próxima.

O grupo começa a virar em uníssono para encaixar dentro do tubo, e é quando ela vê apenas um braço esticado saltando da multidão na estação antes da porta do tubo se fechar. Mesmo de relance, não deixou de notar a tatuagem de uma índia segurando uma rosa vermelha.

Continua…

Para dizer que sempre se arrepende quando descobre que chegou até aqui para ver que tem continuação, para dizer que vai me desconectar da vida se eu esquecer desse, ou mesmo para dizer que essa é sua vida com o 3G: somir@desfavor.com

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  • Gosto “desses universos” que o Somir cria. Minha impressão pode mudar após as continuações, mas, pelo que eu já li, me pareceu uma coisa meio “Matrix” meio “Metrópolis”. Um futuro distópico no qual todos nós poderemos realmente desaguar daqui a não muito tempo, a julgar pelo que já temos visto; com tudo e todos extremamente dependentes de tecnologia e com os limites entre o real e o virtual separados por uma linha cada vez mais tênue. Isso sem falar nas dificuldades técnicas que sempre surgem por causa de uma insaciável demanda que maquinário nenhum consegue dar conta, por mais sofisticado que seja, e da vida quase que sem prazeres daqueles que tem menos posses, ou que talvez tenham apenas “menos créditos e menos poder de processamento”. Vai ver, no futuro, os grandes problemas da humanidade continuarão a ser os mesmos, mudando apenas a ambientação e a forma como algumas coisas são feitas…

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