Igualdade low profile.

Semana passada, a nova Ministra da Cidadania do governo Bolsonaro viralizou por causa de um canto emocionado sobre as cores que cada criança deveria vestir de acordo com seu sexo. É uma imbecilidade achar que isso ajuda de alguma forma a sociedade? É. Mas entre num campo de tamanha obviedade que por si só nem valeria um texto. Hoje eu quero tratar de outro ponto: como diabos acabamos com uma pessoa assim no governo?

Apesar da gritaria dos lacradores temendo uma nova Idade Média, vivemos num mundo que caminha inequivocamente para mais tolerância de papéis de gênero e opções sexuais. Pergunta para qualquer ativista dos direitos LGBT (as outras letras ninguém entra em acordo) se eles preferiam tocar suas vidas hoje ou em qualquer década anterior. Você não vai ver nenhum deles dizendo que “bom mesmo eram os anos 90”. A cada ano que passa, as coisas ficam um pouco mais seguras para quem faz parte de minorias. O que obviamente não quer dizer que está tudo muito bem, mas quer dizer sim que a humanidade evolui claramente nesse sentido.

E caso não encaremos algum evento que reduza consideravelmente a qualidade de vida mundial como alguma catástrofe cósmica ou mesmo uma grande guerra mundial, a tendência é que as coisas continuem avançando assim: o gay que vive no ano 2029 não vai preferir viver em 2019 por motivos de maior liberdade pessoal e integração social. Podemos estar meio cegos para os imensos avanços do último século por estarmos inseridos nessas gerações de mudança, mas os últimos 100 anos viram a maior revolução social humana já registrada. Desconfio até que fizemos mais nesse período do que fizeram no resto da existência da espécie.

Já disse antes e reafirmo: tenho quase certeza que os historiadores do futuro vão usar o lançamento do Google ou do Facebook como marco do início de uma Era da humanidade. Não só o século XX veio para mudar a forma como o ser humano produz suas riquezas e constrói uma abundância sem precedentes em produtos e alimentos, como o começo do XXI transforma o mundo em algo extremamente conectado, reduzindo o mundo a um ovo. Estamos chacoalhando até agora com essa revolução da internet de alta velocidade alcançando a maior parte das pessoas.

E por que falo disso? Bom, é difícil enxergar uma mudança tão grande quando você está dentro dela, enquanto ela acontece. Nós que vivemos um pedacinho do mundo “desconectado” vamos contar histórias de um mundo alienígena para os mais jovens em algumas décadas. Fazemos parte de gerações que simplesmente se acostumaram a um mundo em constante mudança, quase que inexplicável para os outros meros 20 anos no futuro. E isso influencia também nossa visão da sociedade e seus problemas. Quem viu o Japão estar do outro lado do mundo para poucos anos depois estar a milissegundos de distância tem uma noção de naturalidade com a mudança que nos deixa cegos sobre o que realmente acontece.

Quando eu era criança, estava muito claro que não podia ser gay. E não só naquele sentido de bullying (a palavra nem existia) que crianças fazem com o que acham diferente, era uma noção generalizada. Não existiam na vida real: eram seres que apareciam em desfiles de carnaval e como personagens de programas de humor. Mesmo quem vinha de uma família mais inteligente e não tinha nenhuma fúria religiosa contra o tema enxergava o mundo como um lugar onde não cabia a existência do gay. Não era um “não pode porque eu não deixo”, era um “não pode porque não pode”. Não era compatível com a realidade. Com certeza o tratamento ruim ainda existe nos dias de hoje, mas aquele moleque que dava sinais de ser gay era tratado quase como uma “falha na realidade” pelos outros. A Matrix quebrando.

Mas, daquela década pra cá, algo com certeza evoluiu: o gay passou a existir no mundo. A fazer parte da nossa realidade percebida. Isso aconteceu sem grande alarde, sem chocar demais a sociedade. Quando percebemos, já tinha mudado. Vimos um filme aqui, conhecemos uma história ali, pessoas começaram a sair do armário… e de repente, crianças que saem de uma família bem estruturada intelectualmente já começam a lidar com a coisa muito melhor. Infelizmente em países como o Brasil, a baixa escolaridade e problemas sociais constantes fazem com que a maior parte da população seja muito impactada por dogmas religiosos, mas deixou de ser uma questão generalizada pelo costume do povo e mais um ranço de ignorância cristã.

O fenômeno dos lacradores é recente, no máximo uns 5 anos com eles realmente exercendo poder (e muito por ignorância de mídia e grandes empresas, que acham que eles representam muito mais do que realmente representam), eles já pegaram um mundo muito mais igualitário e tolerante para começo de conversa. É quase como se a realidade tivesse ficado tão permissiva com os direitos das minorias que até mesmo os radicais mais malucos recebessem uma voz. Talvez seja um subproduto desagradável da evolução social mesmo: para que meninos e meninas sejam mais livres para serem o que realmente quiserem, tenhamos que levar junto no pacote gente dando chilique na rede social por basicamente tudo.

Se você tem uma visão mais aberta das coisas, pode chegar a essa mesma conclusão que eu: lacradores são chatos e quase sempre pouco úteis para suas causas, mas há um limite até que generoso de quanta encheção de saco podemos aguentar antes de sequer pensar em reprimir os inocentes que estão finalmente tendo liberdade para viver de forma mais digna. Se o preço de saber que uma pessoa que sente que nasceu no corpo errado pode se reconectar com sua natureza livremente é uma chata reclamando de homens que abrem muito as pernas ao sentar no metrô quase como sinônimo de estupro, vá lá. Seria de um egoísmo terrível querer regressão de direitos como medida de combate contra os lacradores.

O problema, mais uma vez… é que são raras as pessoas que tentam pensar tão a fundo no tema. O ser humano tende a pensar em pequenas escalas de tempo e com objetivos pra lá de pessoais: não importa o quanto custe para os outros, se uma onda conservadora cala a boca de quem enche a paciência, vai ter uma onda conservadora. E é aí que a ministra inspetora de roupas de crianças aparece. Eu tenho horror de lacrador, mas prefiro lidar com a chatice deles do que com o atraso do fanático religioso. Pelo menos o lacrador é um problema novo, o fanático já deu o que tinha que dar, são milhares de anos aguentando eles, já ficou chato e até vergonhoso ter que explicar para as pessoas que cobra não fala século após século.

Sim, os lacradores dão plataforma para pessoas como essa ministra, estamos avisando isso há uma década já. Mas, é um erro achar que só se livrar dos lacradores resolve o problema: porque se tem um grupo que sabe continuar vivo e infernizando a vida das pessoas, é o dos fanáticos religiosos. Se você der uma chance, eles entram e ficam lá até serem fisicamente expulsos, tenha em vista o que aconteceu em toda teocracia até hoje. Tem que tirar na marra. Óbvio que eu não estou preocupado com um regime teocrático no Brasil, mas estou mencionando que cada maluco “terrivelmente cristão” que os lacradores colocam no poder por irritar o cidadão médio dá muito trabalho de tirar depois.

Eu estou feliz que o Lula saiu, estou esperançoso que essa virada de pêndulo que sempre mencionamos aqui ajude a equilibrar um pouco mais a nossa sociedade, mas… colocar Bolsonaro no poder não vem de graça. O preço é gente fanática com muito mais poder que deveria, e com uma habilidade histórica de ficar no poder muito além da aceitação da população, a coisa vai ser complicada nos próximos anos. Não só no governo, como na sociedade como um todo. Figuras religiosas ganhando mais poder e destaque demarcam seu território e lutam desesperadamente contra qualquer tentativa de derrubada. Esse é o custo do lacre.

E tudo isso acontece enquanto as verdadeiras evoluções sociais acontecem por trás da lacradores e fanáticos religiosos. Uma igualdade low profile, por assim dizer. As mulheres, por exemplo: o politicamente correto está dando chilique sem parar pela diferença de salários, chamando flerte de estupro e discutindo o machismo da temperatura do ar-condicionado… enquanto isso, as mulheres da vida real estão dando um show nos homens no quesito estudo. Vai em qualquer universidade para entender isso: elas são a maioria. E não só em cursos “femininos”, elas estão entrando com força em todos os setores da economia que exigem curso superior. Como todo projeto que presta, é de longo prazo. E como todo que funciona na sociedade humana, não é um show, é trabalho.

Os lacradores estão atacados, os fanáticos estão chegando ao poder. E no final das contas, as pessoas estão tocando suas vidas sempre no sentido de mais igualdade e justiça social, como começaram a fazer há alguns séculos e nunca mais pararam. Quando a humanidade sente que está na hora de seguir para uma direção, ela vai. Este texto não está aqui para te dar nenhuma conclusão direta, só para te fazer pensar nisso. Uma coisa é denunciar os absurdos pontuais como vivemos fazendo aqui, outra completamente diferente é achar que as coisas estão desabando. Precisa de algo muito grande para travar o avanço humano agora, não está acontecendo nada nessa proporção.

Eu aposto que daqui a 10 anos, nenhuma minoria vai ter vontade de viver nos dias de hoje, e aposto mais ainda que os conservadores também não. E nenhum desses grupos vai admitir. Fanáticos latem, mas a caravana passa, sempre passa.

Para dizer que mesmo assim acha mais divertido entrar em pânico, para dizer que nunca me imaginou dizendo que achava os lacradores melhores que algo, ou mesmo para dizer que otimismo não gera cliques: somir@desfavor.com

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Comentários (11)

  • A idade média não vai começar agora com esse governo merda, a verdade é que a idade média ainda não foi 100% superada.

    Enfim, todo o fanatismo é péssimo. Mas, nesse momento, não é tão visível pra todos as consequências do fanatismo problematizador, mas já conhecemos as consequências do fanatismo religioso. O lacre pode ser temporário mas o radicalismo religioso ultrapassa gerações, então fica difícil dizer qual é pior.Cada vez mais as pessoas tendem a deixar as religiões, talvez com o tempo, essas ovelhas facciosas desapareçam ou fiquem controláveis.

    • O humano médio não vai deixar as religiões, só vai trocar por outras como ideologias e figuras políticas. Alguns desses até tem suas bíblias.

  • Apesar de ser irreligiosa, em se tratando de extremos, talvez eu prefira os religiosos. Porque bem ou mal, eles acrescentaram várias coisas à humanidade. Cristãos, muçulmanos, hindus, budistas… Todos deram alguma contribuição pra diversas áreas como Direito, astronomia, matemática, filosofia, medicina e tudo mais.
    Já os lacradores só falam em desconstruir isso, desconstruir aquilo. Nunca construíram nada e ainda querem desmontar a base que levou séculos pra se firmar e gerar a sociedade atual, bando de ingratos.
    Não sei se vocês já ouviram falar de um canal chamado Brasileirinhos, são um pouco radicais algumas vezes, mas tem uma ótima série de vídeos “Não tenhais medo” argumentando sobre a importância da história e tradição para um povo continuar indo pra frente e sobre como é arriscado tentar virar tudo de ponta cabeça em prol de um suposto progresso. Sem mais delongas:
    https://www.youtube.com/channel/UCBIubFOWKC-HRGxQHl4BP7g/videos

    • Muito provavelmente a religião ajudou a estruturar o pensamento abstrato humano, mas eu argumento que a chave virou faz pelo menos um século nesse sentido. O religioso atual já me parece intelectualmente desnecessário. Até porque na questão moral, acredito que nem seja polêmico (pelo menos por esses bandas) dizer que é uma base pra lá de furada, a pessoa faz o que der na telha se achar uma justificativa na sua religião.

      Interessante essa indicação de canal, estou vendo um agora mesmo.

      • Talvez a base sempre tenha algum furo aqui e ali, mesmo se um dia o pêndulo fique parado no centro.
        Religiões nunca vão acabar, apenas surgirão novas. Assim como existe o conceito de gerações da guerra (generations of warfare), quem sabe não surge um conceito semelhante para as religiões? Até time de futebol, horóscopo e celebridade poderiam ser considerados religiões.
        O jeito é mantê-las controladas pra não virarem uma fábrica de malucos que explodem, criminosos que vivem de extorquir fiéis ou idiotas que querem impedir as pessoas de terem vida sexual ativa.

  • “Eu tenho horror de lacrador, mas prefiro lidar com a chatice deles do que com o atraso do fanático religioso. Pelo menos o lacrador é um problema novo, o fanático já deu o que tinha que dar”

    Eu acho que lacradores e fanáticos religiosos são a mesma merda e que querem as mesmas coisas, porém sob justificativas “””diferentes””” (mas que no fundo é a mesma porcaria). O crentelho de 20 anos atrás que reclamava dos videogames serem “do diabo” (e que por isso “tem que proibir”) não se difere em nada da baranga problematizadora empoderada que reclama dos videogames hoje por serem “machistas” (e que por isso “tem que proibir” também). Os dois tipos são um retrocesso na minha opinião.

    • Parece algo que vem do mesmíssimo lugar mental: a necessidade de validação pessoal e uma espécie de arremedo de propósito de vida. A pessoa só pode ser “boa” se conseguir apontar claramente quem é “ruim”, não existe nada dentro da pessoa para nortear esse desejo, então fica tudo terceirizado para o outro.

    • É um caminho. O foda-se é uma parte. Como o mundo não te permite paz suficiente para pensar nas coisas e enxergar o que acontece, você se força por um tempo a se importar menos e coletar informações. Não sei se vou continuar assim para sempre…

  • Concordo sem tirar nem pôr, Somir. Tanto os lacradores quanto os extremistas religiosos podem espernear e – brigar entre si – o quanto quiserem porque o resto do mundo está ocupado demais seguindo realmente em frente para dar a atenção que esses grupelhos acham que merecem. Essa gente ranheta que faz muito barulho por nada e enxerga tudo na base do “8 ou 80” acaba, cedo ou tarde, sendo atropelada pela realidade, que é infinitamente mais complexa do que ambos os lados são capazes de entender ou de aceitar. Querendo eles ou não, as coisas mudam. Porque sempre mudam. Ou, para repetir sua última frase: “Fanáticos latem, mas a caravana passa, sempre passa.”

    • Naquela série de postagens onde Sally e eu fomos percebendo que o pêndulo virou, também tem um pouco de “agora temos que ficar espertos para não ir embora com ele”. O pêndulo não tinha que estar mudando de lado tanto assim (não era pra ter ido pro lado que estava também), mas já que está, o trabalho mais difícil é tentar ficar perto do centro. Vamos tentar.

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