Transumanismo: Coordenação.

Transumanismo pode ser definido como a ideia de aumentar as capacidades intelectuais, físicas e psicológicas do ser humano através da tecnologia. Não só para melhorar o que fazemos e permitir novas possibilidades, mas também para acabar com boa parte do sofrimento inerente à condição humana. Como o tema é muito vasto, eu vou trabalhar com um aspecto por vez, conectado com um texto mais “humano”. Ontem eu escrevi sobre os inúmeros problemas que a falta de coordenação entre pessoas em ideias e atitudes causa, hoje escrevo sobre a imensa vantagem que as máquinas têm nesse aspecto.

Quem já tentou instalar uma impressora pode desconfiar dessa afirmação, mas em média máquinas e computadores são espetaculares nesse trabalho de coordenar ações e informações entre si. A própria existência deste texto é uma prova disso: para um computador mostrar na tela a letra que você acabou de apertar no teclado, precisa coletar a informação que chegou do teclado, processar e mandar um certo número de pixels na tela mudarem sua cor para exibir um símbolo que você entenda. E eu não estou nem me atentando ao fato que tudo isso é feito por diferenças em correntes elétricas sendo transformadas inúmeras vezes a cada fração de segundo.

Só o parágrafo anterior já gastou a capacidade de processamento mental da humanidade em número de dados. Humanos não foram feitos para reagir tão rápido ou guardar tanta informação na cabeça ao mesmo tempo. O mesmo vale para quase todas as ferramentas que usamos, ninguém é mais rápido que um carro ou mais duro que um martelo, por exemplo. A tecnologia existe para cobrir lacunas na nossa capacidade natural. Somos os macacos que mais bem sabem utilizar a tecnologia, e isso permitiu a sociedade humana como conhecemos.

Desde a domesticação do fogo e o começo da agricultura até a revolução industrial e a era digital, fomos nos transformando em seres diferentes do “projeto natural” geração a geração. O corpo humano é fascinante, cheio de vantagens evolutivas poderosas, mas não é suficiente para nossas ambições. De uma certa forma, já somos transumanistas. Agradecemos a evolução de coração, mas há uns 40.000 anos atrás, começamos a seguir nosso próprio caminho. Ao invés de evoluir nossos corpos, evoluímos quase tudo o que nos cercava. Terceirizamos alguns serviços difíceis para máquinas, alcançamos o impossível para nossos antepassados com invenções como o avião. Nenhum ser humano voa. Mas com o avião atrelado ao nosso corpo, isso é possível.

Muita gente pode pensar que transumanismo é algo frio e desumano, mas se a evolução da tecnologia nos ensinou alguma coisa, é que ela segue no sentido dos nossos desejos e emoções mais primais. Sem a necessidade de proximidade, não precisaríamos de meios de transporte. Sem a vontade primal de se conectar com outras pessoas, celulares não teriam se popularizado. Nem mesmo a tecnologia da agricultura teria avançado tanto se alimentação não tivesse um componente emocional tão poderoso no ser humano. Podemos até discutir exageros na forma como as pessoas usam essas tecnologias, mas no cerne da questão ainda está algo muito humano e honesto sobre nossa natureza.

E desde o começo da nossa vida em sociedade, temos um problema crônico de coordenação. Vulgo fazer as pessoas concordarem em alguma coisa e agirem em conjunto. Não conseguimos ler a mente do outro. Pessoas mais bem socializadas conseguem prever e entender bem o comportamento alheio, mas nem sempre tem a inteligência, o carisma ou a motivação para coordenar outros seres humanos. É realmente complicado. Tanto que pessoas que conseguem fazer isso tendem a ficar muito famosas: grandes líderes são lembrados por várias gerações justamente por vencer um dos maiores desafios da vida em sociedade. Se são lembrados com afeto ou terror, vai do que a pessoa escolheu fazer com sua habilidade.

E como dizia no texto de ontem, é muito provável que essa dificuldade acentuada com organização gere a maior parte dos nossos problemas. É muito fácil achar que um grupo de pessoas é maligno, mas no dia a dia, lidando com uma pessoa por vez, é mais provável que você conheça uma imensa maioria de pessoas que julga como boas. E é muito comum também que ao ser forçado a conviver com alguém de um grupo que julgava ruim antes, seja surpreendido por como essa pessoa não parece nem um pouco com a imagem terrível que você tinha na sua mente.

Eu chamo essa dissonância entre o indivíduo e o grupo de um problema de coordenação. Muitas pessoas diferentes tentando fazer senso da mesma coisa e impossibilitadas de se conhecerem, seja por uma mentalidade de bando de ódio pelo diferente, seja pelo simples fato que não tem espaço no cérebro humano para conhecer todo mundo do grupo que você acha que odeia. Somos humanos. O cérebro não comporta muita informação por vez, precisamos de muitos atalhos para continuar funcionando na vida. Um dos atalhos para o problema de não conseguir se coordenar com tanta gente diferente é gerar grupos de mocinhos e bandidos. Isso ajuda a dividir a humanidade em blocos menores, dando a ilusão de coordenação.

Homens não prestam, mulheres são malucas, brancos são racistas, negros são violentos… reduções de uma mente incapaz de lidar caso a caso com o resto da humanidade. A verdade é que nenhum grupo humano é homogêneo o suficiente para você estar certo numa generalização. E essa verdade é enlouquecedora. Não gostamos sequer de pensar nisso. Imagina só: quase tudo o que eu escrevi sobre grupos de pessoas aqui, quase tudo o que eu falei generalizando até hoje… tudo errado. É o tipo da coisa que se você pensar muito a fundo, deixa de ter opiniões sobre… qualquer coisa.

E onde a tecnologia pode entrar para nos transformar nesse aspecto? Um dos elementos que impede o desenvolvimento de uma inteligência artificial que nos convença como inteligente de verdade é justamente a dificuldade de generalizar. O computador não tem subconsciente: ele sabe tudo o que está pensando a cada momento. Projetamos eles assim, para não ter o mesmo “barulho” interno que temos quando pensamos. Mesmo uma máquina processando milhões de informações por segundo ainda sim lida com cada uma delas como uma entidade única. Algo que nossas mentes não evoluíram para fazer. Fato curioso: chimpanzés tem uma memória de curto prazo muito melhor que a dos humanos. Eles nunca precisaram trocar essa capacidade de retenção de dados imediatos (muito útil quando sua vida é matar ou morrer o tempo todo) por generalizações e reconhecimento de padrões no longo prazo.

Resumindo: somos ruins para lidar com muitas informações ao mesmo tempo. Por isso generalizamos e tentamos prever coisas demais no futuro para compensar, o que nos leva a desconfiar muito do outro e ter uma dificuldade pronunciada de cooperação e coordenação. Dito isso, não precisamos perder a nossa habilidade natural para resolver o problema, podemos, assim como fizemos em tantas outras ocasiões, passar o serviço para uma máquina. A internet, as redes sociais e os smartphones com certeza são o primeiro passo, por mais que estejamos num mundo onde todo mundo parece brigar o tempo todo, a capacidade do ser humano moderno de conhecer melhor outros seres humanos aumentou exponencialmente em questão de poucas décadas.

Vai parecer torto, mas pensem comigo: o cidadão de hoje é muito mais diversificado nos seus preconceitos que seus antepassados. E isso é um avanço! Antigamente a pessoa tinha preconceito com sexos, nacionalidades, cores de pele… hoje isso já está dividido em grupos muito menores. Uma mulher pode ser julgada não mais só pela sua genitália e um comportamento pré-definido sobre carregar uma, mas pelas suas posições políticas, escolhas sobre família e carreira, religião, visão sobre sexualidade… sim, as pessoas ainda odeiam muitos grupos diferentes de pessoas, mas existem mais grupos. Estatisticamente, a chance de cair num grupo que outra pessoa detesta fica menor.

Pode não parecer olhando para o cenário todo, mas este mundo raivoso que vivemos é na verdade o mais inclusivo e livre de toda a história quando se olha para um cidadão específico. Não só diminui o tamanho do alvo para o preconceito alheio, como também aumenta a possibilidade de já se apresentar com uma característica desejada pelo outro. Estamos sempre focados (e o desfavor cai nessa armadilha muitas vezes) nas brigas entre as pessoas, mas esquecemos que uma pessoa que gosta de fazer esculturas com fósforos vai encontrar um grupo de pessoas com os mesmos gostos, possivelmente ao redor do mundo, numa pesquisa de Google. Ao mesmo tempo que as brigas parecem mais presentes, a conexão honesta entre pessoas com gostos parecidos acontece numa escala imensa a cada segundo dessa nossa vida conectada. Pra cada treta de Twitter, tem 20 meninos ou meninas encontrando um streamer do jogo preferido deles, e se sentindo menos sozinhos.

A transição de uma percepção de realidade puramente orgânica para uma baseada em dados armazenados em nuvem parece assustadora, mas é exatamente o que a humanidade quer. As informações que não cabem nas nossas cabeças ainda sim são desejáveis. Mais informações significam mais coordenação, não só do indivíduo com o todo, mas do todo em si. E quanto mais formos terceirizando esse processo para as máquinas, maior a nossa chance de cooperação. O computador não tem bagagem emocional, ele entende cada pessoa como ela está armazenada em seu banco de dados, e se tenta fazer previsões, faz com base nas que tem mais confiança matemática de darem certo. Parece bizarro o que eu vou dizer: mas se nada der errado, em algumas gerações máquinas vão decidir com quem você vai se relacionar ou não, coordenando interesses e padrões de vida numa mistura mais ideal do que fazemos na base da aleatoriedade e primeiras impressões, para amizades, trabalho ou mesmo namoro. Sim, se nada der errado. Parece absurdo querer que um algoritmo de computador tome decisões consideradas emocionais por nós na atualidade, mas a chance da humanidade evoluir sua… humanidade… está mais segura na mão de quem não generaliza e quem não tenta a sorte.

A quantidade de jeitos que isso pode dar errado é enorme, não vou negar. Máquinas não são preconceituosas, mas as pessoas que as programam podem ser. Mas um sistema desses, uma evolução das redes sociais onde cada pessoa é julgada por parâmetros baseados nas suas opiniões, escolhas e peculiaridades para ser conectada com outras pessoas compatíveis (nem digo parecidas, mas compatíveis) tira muito do estresse da socialização. Socialização que é tão importante para o ser humano que não deveria ser feita por macacos briguentos. Você pode não concordar comigo, mas seus bisnetos vão. A tendência é clara, estamos vendo as explosões do ser humano se conectando globalmente pela primeira vez na história, mas não estamos vendo o que está sendo construído na base disso tudo. Estamos aprendendo sobre cooperação e coordenação numa velocidade incrível, e isso tem tudo a ver com a tecnologia que temos ao nosso dispor hoje.

Tecnologia que não tem motivo algum para parar de evoluir. Tanto a feminista radical quando o tiozão do WhatsApp podem parecer que estão rasgando a sociedade no meio, mas… ao mesmo tempo, é uma das primeiras vezes que o cidadão médio acha que está participando do mundo, de verdade. Lacrando ou trollando, dá um gostinho de agência sobre a realidade, conexão raivosa com o outro, mas conexão do mesmo jeito. Isso só é possível porque a dificuldade imensa de encontrar outras pessoas e conseguir julgá-las por algo mais específico do que só o que os olhos veem está “subsidiada” pela tecnologia. Coloca um @ na frente e você pode ir falar merda para qualquer um desse mundo! Conexão humana entregue de bandeja para você. E para cada briga, não se esqueçam, tem muito mais elogios e trocas de informação.

O trabalho pesado de saber quem é quem, pegar as informações e entregar no lugar certo está sendo feito pelo seu smartphone. Por isso que eu quis começar a falar sobre transumanismo com esse tema de coordenação: porque essa parte já começou. Estamos vendo as pessoas perderem mais um pedaço do pacote biológico de socialização e trocando pela versão digital. Pode me chamar de otimista incorrigível, talvez eu seja, mas lembra disso da próxima vez que passar muito tempo na internet: você passou mais tempo consumindo conteúdo que te interessa e interagindo com pessoas que gosta ou admira, ou mais tempo puto da vida com quem detesta? Eu te garanto que uma dessas vai ter a maioria do tempo, quase todas as vezes.

Tudo o que sempre dissemos aqui sobre exageros continua valendo. Quem viver só pela internet vai acabar depressivo, o orgânico não aceita uma mudança tão radical. Olho no olho e pele na pele ainda não pode ser “transumanizado”, mas as formas de chegar nesses momentos com certeza serão. A máquina nasceu para nos ajudar a cooperar e coordenar, faz isso muito melhor que qualquer um de nós jamais sonhou em fazer, é só questão de tempo. E com o bônus de se não eliminar o preconceito e as generalizações de vez, nos ajudar a tornar nossa percepção do outro tão mais específica que a maioria deles tornam-se obsoletos. Poderemos finalmente desgostar das pessoas pelo o que elas realmente são.

Existem muitos mais aspectos do transumanismo que merecem ser mencionados, mas são problemas para os próximos textos. Até lá, seres humanos.

Para dizer que um texto falando só sobre socialização é frio e distante, para dizer que desistiu no primeiro parágrafo e só veio aqui pra ver se tinha piada, ou mesmo para dizer que se sente melhor achando que o mundo está piorando: somir@desfavor.com

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Comentários (14)

  • Uma premissa?
    “….mas transformar tudo em escolha pode ser o fim de quase todos os preconceitos.”
    Em tempo: Sim, fã desde 2009!!!!

  • Esse texto é uma outra forma de ver o transhumanismo, pq o que vemos por aí é uma versão mais hard (ou pessimista) de como estes algoritmos serão usado de fato.
    Os softwares serão muito mais desenvolvidos para identificar nossos “geps” e nos desvendar, além de nos induzir ao que matematicamente seja uma melhor escolha/decisão/ação, etc.
    Somir Harari, aguardo próximos capítulos.
    Já falei que sou fã dos seus textos??

    • A visão do futuro quase sempre utopia ou distopia. A mesma geração criou os Jetsons e 1984… eu tento me esforçar para ficar entre os dois mundos, sempre. Porque aparentemente é o que acontece com a humanidade. Nesse caso, máquinas assumirem essa parte da interação humana parece o caminho óbvio, gostemos ou não.

      Já falei que sou fã dos seus textos??
      Não sei se falou, mas agradeço do mesmo jeito!

  • A verdade é que o mundo é uma grande palhaçada e, fora uns malucos antivaxxer terraplanistas, várias “teorias da conspiração” que as pessoas riam se mostraram verdadeiras um tempo depois.
    Lembram de quando falavam que não existia Foro de São Paulo? Isso só pra citar um.
    E mesmo que você não leve a sério, pelo menos é um bom input pra questionar o mundo, a mídia e o governo, diferente dessa massa homogênea, acima de questionamentos, de politicamente correto que ficam tentando empurrar toda hora.

    • O mundo é um bando de gente tentando se entender.

      Talvez a tecnologia consiga ir diminuindo a sensação de confusão aos poucos.

  • o futuro só vai ser ruim pras aulas de história, imagina quanto conteúdo as crianças do futuro vão ter que estudar, coitadas!

    • Talvez estudo seja algo desnecessário no futuro. Mas seria muito engraçado ter um capítulo de livro de história falando sobre os tweets do Donald Trump…

  • (acho que enviei um comentário duplicado sem querer, foi mal, deleta o primeiro)
    Isso é tão Gattaca! Tomara que não haja nenhuma estratificação social entre quem decide abraçar a tecnologia e quem decide ter uma vida mais “orgânica”.
    Por enquanto tudo aquilo que sabemos sobre o CRISPR é sensacionalismo, mas quando chegarem lá vai ser bizarro o terceiro-mundista médio poder encomendar um filho Gary Stu mas ainda não ter o fuckin saneamento básico :S

      • Acontece…
        O computador teve um derrame aqui, então fiquei em dúvida se tinha sido enviado e quando fui reescrever nem lembrava direito o que tinha escrito antes :P

  • Isso é tão Gattaca! Mas tomara que aquela estratificação social baseada em genes não tenha espaço na vida real. Se a pessoa quiser usar o Tinder futurista descrito no texto e depois encomendar um filho Gary Stu, fique à vontade, contanto que não inferiorizem
    pessoas concebidas biologicamente…

    Vai ser bizarro o terceiro-mundista médio poder editar os filhos mas ainda não ter o fuckin saneamento básico.

    Mas CRISPR e afins por enquanto são puro sensacionalismo midiático.

    Será que escolherem a cor dos olhos é um preço tão alto para ninguém mais nascer com uma bomba-relógio em seus genes, aguardando a hora de desencadear Huntington, esclerose múltipla, Alzheimer ou vegetarianismo?

    Eu adoraria cortar a predisposição de enxaqueca e problemas cardíacos de um filho imaginário, são duas pragas da família.

    • Eu não acho que vai ser algo evitável… se der para programar genes, loiros de olhos azuis serão pobres e ricos serão morenos ou negros. Eu acharia muito engraçado! Como eu sou defensor de editar genes sem dó nem pena, acho que escolher cor de olhos e pele é um preço minúsculo pela redução das doenças genéticas. Eu entro em mais detalhes no texto de transumanismo genético, mas transformar tudo em escolha pode ser o fim de quase todos os preconceitos.

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