Desestatização.

Já é tradição: todo mês sai um novo estudo sobre a cada vez mais absurda concentração de dinheiro nas mãos de poucos. E a cada um desses, é difícil não achar que tem algo muito errado no mundo. E não importa para que lado do espectro político você se volte, o que não faltam são culpados. Como não deve ser surpresa para ninguém, a esquerda culpa a direita e a direita culpa a esquerda. Mas… será que é culpa de alguém em específico?

Talvez alguns de vocês mais atenciosos tenham achado estranho eu dizer que a direita culpa a esquerda pela concentração de renda desigual. Se o argumento da esquerda é que as políticas do lado oposto concentram riqueza na mão de poucos privilegiados, a direita reclama do excesso de distribuição da renda ainda disponível através de políticas de imigração e assistência social. Sim, a direita tolera os milionários e bilionários, mas desde que não tenha que dividir demais o que sobrar. De uma forma ou de outra, o estado atual da humanidade no que tange a distribuição de renda não anda agradando ninguém (além, é claro, dos que já estão podres de ricos).

Não estou me propondo aqui a encontrar uma solução, só quero fazer uma análise sobre os rumos da humanidade pós-capitalismo globalizado. Cada vez mais me parece que estamos voltando para algo muito parecido com o feudalismo, em mais uma evidência que a história humana é sim cíclica. Feudalismo foi o sistema vigente na Europa durante a Idade Média, onde cada região tinha um líder (através de títulos oferecidos pela nobreza) controlando não só a terra como as pessoas que viviam nela. O dono da terra era dono dos habitantes também. Não era a mesma coisa que escravidão, mas passava muito perto.

De uma forma ou de outra, a humanidade seguiu com o modelo por vários séculos, adaptando um detalhe aqui e outro acolá de acordo com as particularidades de cada região. Eventualmente os reis e rainhas conseguiram consolidar poder suficiente para ter mais controle sobre seus países, reduzindo a força dos líderes locais e seus feudos. A revolução industrial tratou de explodir o conceito tirando as pessoas do campo e concentrando elas em grandes cidades. Quanto mais pessoas perdiam a conexão com a terra e se concentravam na vida urbana, a ideia de uma nação começava a ficar maior que qualquer pessoa. Reis e rainhas foram se tornando peças de museu, e muitos dos mais poderosos países do mundo fizeram a transição para democracias populares (mesmo as que mantém famílias reais, como o caso Inglaterra, embora a Rainha em tese tenha poder absoluto, não o exerce sob o risco de ser deposta instantaneamente).

A noção de poder que vinha de pessoas específicas tornou-se a noção de poderes nacionais. Essa coisa toda de um país unido não era muito comum há pouco mais de um século atrás. Na Europa mesmo, era comum que cada país tivesse umas cinco ou seis línguas oficiais até pouco antes da Primeira Grande Guerra. Mas como o mundo começou a encolher e todo mundo começou a ficar REALMENTE preocupado com suas fronteiras com o advento da guerra moderna, o movimento de união nacional pegou com força. E só depois da Segunda Guerra Mundial que finalmente chegamos numa divisão geopolítica parecida com a moderna. A Europa entregou suas colônias e o mundo tomou a cara que conhecemos. Desde então, com a Guerra Fria e todo o jogo de poder travado entre EUA e União Soviética, a preocupação com a manutenção das fronteiras cresceu exponencialmente.

Ao invés de recrutar os vilarejos e tribos da sua terra, era necessário unir o mundo de acordo com sua ideologia. Os EUA queriam manter a divisão geográfica mais ou menos como estava, a União Soviética queria engolir todos os outros países debaixo de sua bandeira (como ficou provado principalmente na Ásia, conquistar só uma parte de um país era um desastre sem fim, ou pegava inteiro, ou engolia uma guerra infindável como a do Vietnã ou da Coreia). Até pouco tempo atrás na nossa longa história o foco da nossa organização social estava em pessoas e não em Estados. Tivemos um “flash” de importância de nações nos últimos 150, 200 anos no máximo… e agora, estamos vivendo numa era onde poucas pessoas detém mais dinheiro na mão que a maioria dos países do mundo.

Não que não existissem pessoas extremamente ricas no passado, mas foi só no começo do século XX que o dinheiro passou a funcionar da forma como funciona hoje: até a criação dos bancos centrais mundo afora, riqueza era contada em ouro, recurso finito que tinha necessariamente que trocar de mãos para exercer transações comerciais. A partir daquele momento no século passado dinheiro passou de certificado de propriedade de riqueza para certidão de débito. Explico: o dinheiro que circula pelo mundo hoje é basicamente todo alguma dívida contraída por um governo. Não dependemos mais de alguém ter aquele peso em ouro para nos dar pelo dinheiro, mas sim da confiança que em última instância, o governo que emitiu as notas de dinheiro vai aceitá-las de volta em troca de ALGUMA coisa.

Por isso países que na prática são mais bem sucedidos financeiramente tem moedas mais fortes. Quando a coisa ficar difícil mesmo, você confia mais no governo americano ou no brasileiro para pagar uma dívida? Considerando a cotação atual, o mundo confia umas quatro vezes mais nos americanos do que em nós: 1 dólar vale 4 reais (ou 3.500 bolívares da Venezuela, sentiu o drama?). Claro que é uma simplificação bizarra, mas estamos só estabelecendo uma ideia aqui: dinheiro não é mais necessariamente um valor tangível, e sim uma medida de confiança. O dinheiro que está na sua carteira ou bolsa é literalmente uma nota promissória colorida do governo brasileiro.

E eu falo disso porque a ideia de nações começa a ficar meio complicada num mundo onde o dinheiro dos países é só promessa de pagamento. Primeiro porque uma nação tem responsabilidades intermináveis com seu povo, sendo obrigada a “criar” dinheiro do nada vez após vez para pagar seus compromissos, desvalorizando a própria moeda ao trazer mais desconfiança para o mercado. Nenhum país precisa ganhar mais dinheiro para gastar mais dinheiro, basta imprimir mais dessas promissórias. Uma nação não tem as responsabilidades de uma empresa privada, pode rodar no negativo, ser ineficiente e focar suas atenções nas coisas mais bizarras sem correr o risco constante de fechamento. Um país é uma empresa grande demais para falir… (e mesmo assim, vários acabam falindo).

E é aí que eu volto para os mega ricos. Eles se beneficiam bastante da máquina pública, mas tem que gerar dinheiro para poder gastar dinheiro. Sim, sempre tem um Eike Batista da vida que fica bilionário com o dinheiro do povo, mas a incompetência desse tipo de pessoa sempre volta para morder a bunda no futuro. Pra ficar na lista dos mais ricos do mundo por tempo suficiente, você precisa ter algo de muito valor real nas mãos. Nem que seja a habilidade de manipular o mercado financeiro como fazem especuladores como o George Soros. O bilionário moderno TEM que ter a capacidade de continuar gerando riqueza ancorada em algum aspecto da realidade. Nações não. Elas podem falir espetacularmente e ter milhões de otários pagando trilhões em impostos para ter serviços públicos horrorosos.

Pode até parecer que os movimentos nacionalistas estão em alta pelo mundo, com a direita chegando ao poder em diversos deles e a esquerda se agarrando ao que já tem com unhas e dentes, mas eu argumento que isso somos nós sentindo que o nacionalismo está com os dias contados e temendo as repercussões. Quando seus líderes parecem fracos ou confusos, é normal procurar figuras de poder, seja lá a asneira que estão dizendo (direita). Ou mesmo agir feito criança rebelde na expectativa de que algum adulto finalmente te ponha limites (esquerda). Ambos só querem um porto seguro nesse mundo cada vez mais confuso. Saber que alguém está no comando, porque as nações estão cada vez mais fracas.

Trump me diverte, mas parece um dos líderes mais fracos da história americana. Bolsonaro entrou cheio de pose, mas parece perdido no meio da confusão de Brasília. Líderes progressistas europeus não sabem mais o que fazer com a imigração e as constantes brigas internas da União Europeia. A China está gastando o resto da munição que tem, mas está com toda cara de quem vai entrar em recessão nos próximos anos. A Índia ainda é uma incógnita por ser uma democracia e talvez não conseguir se organizar como a China fez. E ainda tem uns bons 40 ou 50 anos antes da África salvar a economia mundial.

O modelo das nações está fraquejando. Mas ao mesmo tempo, temos um dos grupos mais poderosos de bilionários da história: quase todos envolvidos com tecnologia de dados e comunicação num tempo onde esses elementos permeiam basicamente a economia inteira. Essas pessoas estão com a faca e o queijo na mão para se tornarem os próximos líderes da humanidade. Concentrando quase toda a riqueza privada do mundo e seguindo o modelo de oligopólio (quando poucas empresas controlam todo o mercado) em basicamente todo o sistema produtivo humano, não é de se estranhar que um belo dia acordem para o fato de que é mais barato comprar a lealdade do povo do que a de políticos. Tirar o intermediário.

Pessoas adoram bilionários, fomos criados para admirar os ricos como exemplos de sucesso. Lembram da macaquice que foi aqui no Brasil com o Eike? As pessoas confiavam mais nele do que no governo. Agora imagine um bilionário que não seja uma completa fraude! Se o Mark Zuckerberg começa a investir horrores no nordeste brasileiro, por exemplo, NADA que o Lula dissesse seria capaz de fazer o povo local deixar de amá-lo, era só ele sorrir na direção de um candidato e ele estaria eleito no primeiro turno. Como o PT bem sabe, o povo se vende bem barato. E dessa vez não estou pegando no pé do Nordeste, em qualquer outro lugar do Brasil seria a mesma coisa, só mudaria o quanto teria que gastar.

E mesmo que não gastasse tanto dinheiro assim, bilionários exercem um poder especial só por prestar atenção em algum lugar. Quase todo mundo tem o instinto de querer alguém muito rico por perto, pela chance de cair algo de bom na sua direção. Eu lido com algumas pessoas bem ricas no meu trabalho, e sei muito bem como existe um exército de parasitas ao redor deles o tempo todo. Não conseguem arrotar sem alguém para elogiar o bom gosto da refeição anterior… pessoas adoram a ideia de reis e rainhas porque é justamente lá que se concentra a riqueza e o poder. A chance de estar por perto de alguém assim, ou no mínimo estar no time dessa pessoa parece boa demais para uma pessoa normal desperdiçar.

Com as nações perdendo força a olhos vistos e indivíduos acumulando riquezas inimagináveis, é de se esperar que a próxima fase da humanidade tenha mais a ver com pessoas seguindo bilionários do que nações. A próxima geração de reis e rainhas não vão mais depender da posse da terra ou de qualquer outra medida de riqueza tradicional, o mundo já está abrindo mão disso, estamos quase todos esmagados em grandes cidades. Mas, é óbvio que tem um problema nessa ideia dos bilionários se tornarem os reis do futuro: as nações ainda têm o monopólio da força. Enquanto existirem exércitos, ninguém pode passar por cima do Estado…

Mas, o passado também tem lições valiosas sobre como lidar com esse problema. Sexta-feira eu continuo.

Para dizer que isso se chama Cyberpunk, para dizer que ninguém ia querer ser responsável por bilhões de pobres (exatamente), ou mesmo para dizer que a teoria do enfraquecimento das nações explica muito mais do que deveria: somir@desfavor.com

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Comentários (9)

  • Não, Somir, vários não “falem” porque essa conjugação não existe! Vários vão a falência. (nono parágrafo, última linha)

  • Esse texto me faz refletir sobre essa confusão toda que nem nós sabemos direito interpretar, comumente chamada aí de “pós-modernidade”. Realmente, o modelo é outro, as conjunturas (política, social, econômica…) são outras, o problema parece ser certa resistência das pessoas em mudar de vez, em aceitar outro modelo e pô-lo em prática.

    • Modelos tendem a mudar mais rápido que pessoas. Porque modelos dependem de uma minoria poderosa e informada que pode agir rapidamente, mas pessoas tem que incluir todo mundo, inclusive quem não tem saco ou mesmo capacidade de entender o que acontece. Parece que a humanidade é um grupinho puxando o resto para onde bem entendem (mesmo que não saibam onde esse caminho vai dar).

  • Quanto mais as coisas mudam mais elas permanecem as mesmas. Também aconteceu com as moedas. A regra era várias moedas diferentes circulando entre as nações, eventualmente uma era mais valorizada e se tornava a moeda dominante nas transações, mas sem invalidar as outras moedas. Só no século 20, com os movimentos nacionalistas, que veio essa ideia de “Uma nação, uma moeda”, pois era preciso criar símbolos para unir o povo e all that jazz.
    E vejam só: hoje em dia, vários países usam moedas diferentes da nacional, especialmente os que vivem de turismo. Na América do Sul o real é aceito em alguns lugares, alguns cantos na Ásia e no Caribe aceitam dólares americanos, etc. A quem se interessar, recomendo o livro A Geografia do Dinheiro.

    E sim, a atual desconfiança na democracia pode levar ao império global dos super ricos. Ainda mais quando terminarem os mandatos dos atuais governos de direita e acabar a ilusão de “trazer de volta os bons tempos politicamente incorretos” que os elegeu. Venho percebendo que tanto meus conhecidos com pouco estudo quanto os bem estudados não se interessam por política. Os primeiros estão com a cabeça ocupada por coisas simples típicas de humano médio, os últimos (e me incluo nesse grupo) estão tão desiludidos por saber de toda a podridão na política e na mídia que preferem esquecer e tocar a vida.
    Acredito que vai chegar num ponto que as pessoas estarão tão saturadas de pensar em política que vão aceitar essa neo-monarquia dos super ricos, desde que não mexa com seu smartphone, sua bebida e suas putarias.

    TLDR: A “direita”, do ponto de vista nacionalista e conservador, perdeu pra “esquerda” faz tempo, mas ainda não caiu a ficha.

    • Também me incluo no grupo dos que “estão tão desiludidos por saber de toda a podridão na política e na mídia que preferem esquecer e tocar a vida”, Hikaru.

    • A política no modelo atual está pra lá de esgotada. Toda discussão entre lados opostos parece tão cansativa… e no final das contas, as eleições do Trump e do Bolsonaro (e por tabela o Brexit) parecem coisas de gente com o saco muito cheio do jogo político. Todo mundo querendo ver o circo pegar fogo.

      Interessante sobre o que você disse sobre a esquerda ter ganhado. Se toda a história de pensadores marxistas influenciando pesadamente a sociedade moderna for verdadeira, esvaziar o valor das nações pode ter sido o último golpe da União Soviética no mundo.

  • Adorei sua análise, Somir. Eu até já havia reparado em várias das coisas que você mencionou e tenho algumas idéias parecidas com as suas, mas o seu texto vai bem mais fundo. Se me permite tecer-lhe um elogio, mostrar de forma clara a nós, leitores, algo que sempre esteve bem debaixo dos nossos narizes e que nunca observamos com a devida atenção é uma de suas especialidades. E, aliás, já pensou em colocar este ensaio – junto de outros de sua autoria que acho igualmente inspirados – em um livro?

    • Cada vez que eu escrevo sobre um tema desses, parece que poderia encher um livro. É só toda a história humana…

      Agradeço o elogio, mas anda faltando tempo mesmo para avançar o projeto do livro. Sally e eu andamos tão sobrecarregados que já um milagre sair texto todo dia aqui.

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