Monopólio da força.

Continuando o texto anterior: falávamos sobre como o conceito de nações começava a se esvaziar, abrindo espaço para um futuro onde os bilionários tinham espaço para se tornar mais poderosos que países, inclusive com apoio popular, inaugurando uma nova era de reis e rainhas. Mas, havia o problema do Estado barrar esse crescimento com o uso de polícia e exércitos. Isso é, se não começássemos a usar uma tática pra lá de comum em séculos e milênios passados: mercenários.

Mas, o que é o monopólio da força? Em termos simples, é um dos conceitos básicos de qualquer uma das nações do planeta: o governo é o único que pode usar de violência para conseguir o que quer. Pessoas comuns só podem usar desse artifício na forma de legítima defesa. O Estado pode te enfiar a porrada ou até te matar sem repercussões caso você esteja quebrando a lei de alguma forma. Claro que é muito mais complexo do isso nas minúcias legais, mas no geral, violência só em nome do Estado.

E é aí que os sonhos de reinado dos bilionários fica muito complicado. Em tese um deles pode começar a comprar todos os terrenos privados de uma cidade e se tornar extremamente poderoso, mas na primeira vez que fizer algo contrário à legislação da cidade, região ou país, está na mão do Estado. Claro que suborno é uma possibilidade real, e é muito utilizada no mundo inteiro (inclusive nos países mais civilizados, ninguém é imune), mas no final das contas, não tem como peitar o Estado, porque ele pode usar desde a polícia até mesmo o exército para te parar.

Historicamente, uma das formas de lidar com esse problema sempre foi o emprego de mercenários, ou seja, soldados que lutam em troca de dinheiro e nada mais. Antes da consolidação das nações no mundo moderno, ter o dinheiro para contratar sua força de combate era a coisa mais importante para um líder. A ideia de manter um exército permanente é muito recente, com a maioria dos países do mundo só estabelecendo um no começo do século passado. Antes disso, guerras eram travadas entre mercenários e os pobres camponeses forçados pelos mercenários a ficar na linha de frente.

Guerras não eram tanto sobre o quanto seu exército se preparou e investiu antes dela, mas sobre quantas pessoas você conseguia comprar para o seu lado. Não havia monopólio da força, quem tinha mais dinheiro costumava ganhar. Sempre funcionou, até que um belo dia não funcionou mais… um dos marcos do fim da era dos mercenários é a Primeira Guerra Mundial, o Império Austro-Húngaro tinha muito dinheiro e fez uso do combo de mercenários mais camponeses forçados, e foi varrido do mapa pelos países que investiram em exércitos permanentes. Aliás, foi só por isso que a Alemanha não ganhou toda aquela guerra nas primeiras semanas: os ingleses eram os únicos que já tinham um exército permanente bem treinado no começo da guerra e conseguiram segurar a situação até o resto dos seus aliados botarem a casa em ordem.

Na Segunda Guerra Mundial, todo mundo já tinha aprendido a lição. Exércitos permanentes eram muito mais fortes que mercenários, afinal, eles eram treinados constantemente e tinham um senso de hierarquia e coordenação muito maior. Sem contar os bolsos fundos de um Estado para equipá-los com os melhores equipamentos. Lembrando que essa já é a era do dinheiro “promissória”, e um Estado podia simplesmente imprimir mais dinheiro para financiar seu exército, deixando a conta para o povo ao invés de gastar do próprio bolso dos líderes. O modelo funcionou tão bem que nunca mais mexemos nele.

Bom, nunca mais é uma expressão muito forte… vejam bem, o problema de contratar mercenários é que eles costumavam ser muito heterogêneos no treinamento e organização. É literalmente um bando de brigões lutando por dinheiro e a chance de saques e estupros sem repercussões. Não é gente da qual você realmente quer depender. Durante a história, os grupos de mercenários formados durante guerras rapidamente viravam grupos de bandidos assim que elas terminavam. Homens sem pátria, brutalizados e dependentes de brigas para pagar suas contas. Os líderes locais gostavam deles durante a guerra, mas queriam ver eles muito longe depois dela.

Só que, vejam só… décadas de guerras travadas pelas nações começaram a mudar a história dos mercenários. Hoje em dia eles ainda existem, frequentemente sob contrato do exército americano, atuando no Oriente Médio, fazendo os serviços sujos demais para as tropas oficiais. Mas esses soldados privados receberam treinamento do exército oficial também. Não só são capazes de se organizar como os exércitos das nações, como frequentemente contratam os que mais se destacam neles. Os Estados treinaram os mercenários da atualidade. E como as empresas tem contratos bilionários com os governos, esses mercenários tem tudo do bom e do melhor ao seu dispor. Não são mais brigões aleatórios.

E longe dos olhos da grande mídia, essas empresas crescem muito fazendo trabalhos de segurança, e de forma escondida, realizando contratos de invasões, recuperações de bens (em alguns casos até roubo mesmo) e assassinatos em nome de agências de espionagem ao redor do mundo. É gente bem treinada com todo o equipamento necessário para o trabalho. E todos trabalham para quem pagar mais. Existe um vácuo legal ao redor de uma empresa que atua no mundo todo em missões secretas para governos. São muitos rabos presos com eles.

E é aí que o ciclo se fecha: o problema dos mercenários que trabalhavam para a nobreza na antiguidade é que eram selvagens comprados. Mas caso os riquíssimo de hoje comecem a tomar o poder, tem ao seu dispor os mercenários mais bem treinados e organizados da história. Gente que cumpre missões e resolve problemas. Gente que não fica zanzando perdida pelo país roubando e matando depois da guerra. Países com exércitos muito poderosos como Estados Unidos, China e Inglaterra provavelmente não precisam se preocupar com isso por várias décadas ainda, mas quando falamos de países menores e mais caóticos como os da América do Sul, Oriente Médio e África, há pouco ou nada o que fazer contra eles. Tecnicamente, dá para comprar um golpe militar até mesmo no Brasil.

Não hoje, com as nações ainda tendo muito poder, mas talvez no futuro, com a continuidade do processo de desvalorização delas. E aí, um bilionário pode começar a desafiar Estados, estabelecendo bases e tendo como defende-las. E eu nem vou para o futuro com colonização espacial, porque desse momento para frente, a humanidade vai ser terra de ninguém por muito tempo. Com exércitos mercenários altamente treinados e muito bem equipados, bilionários poderão estabelecer leis próprias, e com tanta gente disposta a se render ao círculo de influência de uma pessoa absurdamente rica, não vão faltar “camponeses” sob seu controle. Novas fronteiras do desenvolvimento humano como a África têm toda a cara que vão ser os primeiros lugares onde esses Estados privados vão começar a surgir. Ainda mais considerando a mudança de mentalidade média dos grandes poderes constituídos, cada vez menos interessados em intervenções oficiais. Há 30 anos atrás, os EUA teriam invadido oficialmente Líbia, Síria e Venezuela sem pensar duas vezes. Mas não é mais assim que as coisas funcionam.

A era dos reis e rainhas bilionários tem toda a cara de estar chegando. E nem precisamos considerar isso um futuro distópico de repressão e injustiça: bons líderes geram boas sociedades. O modelo democrático atual impede que isso aconteça sempre, mas um modelo absolutista tem chances de acertar no alvo muito mais vezes. E com menos ênfase no local que você nasceu e mais no local que você escolheu viver, podemos resolver vários dos problemas de convivência que enfrentamos nos dias atuais. Quer viver numa sociedade totalmente libertária? Algum bilionário vai pensar assim. Quer viver numa sociedade tradicionalista que segrega as pessoas diferentes de você? Ache o seu bilionário preferido e mude-se para uma de suas áreas. Até porque nesse modelo, não precisa de um lugar só. Os reis do futuro podem ter cidades espalhadas pelo mundo todo, e com certeza vão ter incentivos para quem quiser ser um de seus súditos. Pessoas podem começar a ser valorizadas novamente, como insumos essenciais para o funcionamento de cada um desses feudos futuristas.

Apesar de achar muito divertido ver histórias sobre cenários futurista de corporações dominando tudo e oprimindo o povo, não é realista achar que qualquer sistema consiga se manter funcional maltratando abertamente a população. Durante a história humana tivemos muitos exemplos, mas todos curtos considerando a totalidade da nossa história. Ainda não me decidi se o fim do poder das nações é uma coisa necessariamente boa, mas é muito provável que não seja só ruim. A vida real é sempre bem mais cinza do que costumamos achar. Reis e mercenários pelo menos não seriam tão surpreendentes assim para a humanidade.

Para dizer que no final das contas é sempre o dinheiro, para dizer que vai montar sua empresa de mercenários treinados pelo tráfico, ou mesmo para dizer que quer ir para o reino do Elon Musk só pelas memes: somir@desfavor.com

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Comentários (9)

  • “não é realista achar que qualquer sistema consiga se manter funcional maltratando abertamente a população”
    Somir, o mundo tem vários países passando por ditaduras há décadas nesse molde de “apoie o governo senão você não vai ganhar a ração da semana”. Provavelmente o Brasil também teria se tornado isso, mas tivemos a sorte de o PT ter investido em inclusão digital, com a internet muitas pessoas abriram os olhos. Aposto que o PT se arrepende até hoje.

    • Sim, manda essa gente desestabilizar o governo venezuelano ou foder o Paraguai (só pra não perder o costume). Besteira deixar eles aqui fazendo bagunça.

  • Infelizmente acredito que esses supostos impérios dos milionários não seriam tão diferentes de outros impérios da história, ou mesmo de governos atuais de países pobres: O objetivo principal será enriquecer os monarcas e agregados sanguessugas enquanto o grosso da população está na miséria, se contentando com algumas migalhas que o governante dá de vez em quando pra evitar revoltas e questionamentos. Não é muito difícil agradar quem está nivelado por baixo, assim, as pessoas vão se acostumando e normalizando esse modus operandi. Te parece familiar?

    PS.: Certa vez você mencionou a alternativa de um governo comandado por uma inteligência artificial, pretende desenvolver esse tema?

    • Não é muito difícil agradar quem está nivelado por baixo, assim, as pessoas vão se acostumando e normalizando esse modus operandi. Te parece familiar?

      Nem precisa ser muito diferente. Nos já vivemos em sistemas baseados enriquecimento de poucos, o modelo que realmente pegou na humanidade foi o de “loteria”: muitos investem no sucesso de poucos. Tudo que o sistema precisa é manter a ilusão que todo mundo tem chance de ficar rico um dia (mas nunca ao mesmo tempo). Talvez uma monarquia bilionária possa ser mais bem sucedida ao deixar as regras dessa loteria mais claras, e segregar quem quer ser segregado. Mas, só o tempo dirá…

      Certa vez você mencionou a alternativa de um governo comandado por uma inteligência artificial, pretende desenvolver esse tema?

      Pretendo sim, provavelmente dentro da série sobre Transumanismo.

    • Lembro que vi uma matéria sobre um chinês dando uma palestra sobre como os chineses podem aprender com os judeus a controlar o mundo… não lembro se era oficial do governo ou funcionário. Se achar eu coloco o link aqui.

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