Monstro do Lago Ness

A ideia de que exista algo no Planeta Terra desconhecido pelo ser humano é, para muitos, tão afrontosa e assustadora que o cérebro tenta desqualificar tudo. Impossível que o ser humano não tenha total controle de tudo, não conheça tudo, não saiba tudo. Para outros, esta mesma ideia é tão fascinante, que tentam fechar os olhos para as evidências opostas, por ter a necessidade de acreditar que algo mágico e inusitado pode acontecer, inclusive com elas.

Esta dualidade de pensamento pode inclusive te atacar durante a leitura deste texto. Por momentos dá vontade de acreditar, por momentos dá vontade de refutar tudo. É normal. É difícil ver as coisas com os olhos da neutralidade. Graças a essa dualidade, fica muito difícil emitir uma opinião que não esteja, ao menos em parte, contaminada pelas nossas crenças pessoais, criando subjetivismos que se estendem por séculos com respostas diferentes dependendo do interlocutor. Desfavor Explica: Monstro do Lago Ness.

O Lago Ness é o maior lago (em volume) da Escócia, grande e profundo. Fica em uma paisagem considerada por muitos sugestiva: neblina, castelos e clima frio dão um ar soturno. Há muitos séculos que moradores locais e até pessoas de fora alegam, de tempos em tempos, ver uma criatura misteriosa dentro do lago. Inicialmente apelidado como “Monstro do Lago Ness”, sua primeira aparição é dos tempos em que a barba do papai noel era preta.

O primeiro relato sobre o monstro do Lago Ness data do século VI. O relato é bem fantasioso, mas, nessa época era assim que as coisas eram contadas, com uma generosa dose de fantasia, para que a história fosse atraente o suficiente para ser lembrada e passada adiante.

Consta que um santo (Saint Columba ou, se preferirem, São Columbano) se deparou com homens à beira do Lago Ness, carregando o corpo de uma pessoa morta. Ele perguntou o que teria acontecido e os homens explicaram que ele foi morto por um monstro que vivia no interior do lago. O santo então mandou uma bela mocinha para a beira do lago, para servir como isca. O plano deu certo, a mocinha rapidamente atraiu o monstro e, quando ele saiu para devorá-la, Saint Columba o espantou fazendo o sinal da cruz.

Vale informar que Saint Columba também era conhecido por ter matado um javali apenas com o poder da sua voz. Sim, Saint Columba era um caozeiro. Porém, com o passar dos anos diferentes pessoas (locais ou de fora) mesmo sem ter contato umas com as outras, contavam histórias sobre um monstro enorme que morava no Lago Ness. No geral, eram sempre relatos muito parecidos. Por séculos, muitos relatos de avistamentos inexplicáveis neste lago deram o que falar, consolidando o mito do Monstro do Lago Ness.

De tão famoso e tão falado, o monstro começou a ser incorporado à população local. Os escoceses no geral começaram a ver a criatura com carinho, como parte integrante do seu país e, em pouco tempo o termo “Monstro” caiu em desuso por lá. A criatura ganhou um apelido: Nessie, uma versão feminina do nome do lago, uma vez que presumem se tratar de uma fêmea, graças aos inúmeros avistamentos da criatura com um filhote ao lado.

Nessie teria um pescoço comprido e vertical com uma cabeça de forma arredondada e pequena em relação ao resto do corpo. Quando se movimenta na água, faz pequenas ondas estranhas que outros animais não fazem. Para muitos cientistas que de fato dizem ter visto Nessie, ele não é obra do sobrenatural e sim um plesiossauro, um dinossauro que se acreditava estar extinto. Por uma série de condições favoráveis daquele ambiente, o dinossauro teria conseguido prosperar no lago enquanto todos os seus colegas acabaram extintos.

De fato existem criaturas muito antigas que ainda habitam o planeta, que estão por aqui há mais de 250 milhões de anos, mas não são criaturas imensas como seria o caso de Nessie. Há muita resistência à teoria do Nessie-dinossauro, porém, na falta de uma explicação melhor, muitos se apegam a ela.

Com o desenvolvimento das câmeras à prova d’água, as investigações sobre o monstro ganharam força. Várias expedições à procura da criatura já foram realizadas, uma delas vastamente documentada por um grupo de pesquisadores contratados pela BBC: usaram 600 sonares e tecnologia de navegação por satélite. Varreram o lago todo, de ponta a ponta, do fundo à superfície, três vezes. Resultado: não havia absolutamente nada de anormal ali.

Ainda assim, os relatos de avistamento continuaram. Seja pela autossugestão de ir ao local esperando ver Nessie, seja por uma ilusão de ótica, seja por de fato existir um bichão grandão no lago, pessoas do mundo todo continuam jurando ter visto a criatura. Chegou-se a um ponto de instalar câmeras para acompanhar imagens ao vivo do lago 24 horas por dia em um site britânico (https://www.lochness.co.uk/livecam/), caso você deseje dar uma olhada de tempos em tempo, saiba que tem gente pelo mundo todo que monitora o habitat de Nessie diariamente.

A primeria “prova” concreta que se teve da existência de Nessie foi uma foto tirada em 1934 por um ginecologista inglês chamado Robert .K. Wilson, aquela imagem famosa em preto e branco, de um pescocinho para fora do lago. A foto ficou conhecida como “a foto do cirurgião” e passou por diversos peritos e todos atestaram: era verdadeira. A imagem correu o mundo e causou uma grande comoção. Esta versão durou por quase 60 anos.

O grande problema é esta foto foi desmentida muitos anos depois. Depois que Wilson faleceu, um de seus filhos veio a público dizer que a foto era uma fraude. Segundo ele, um grupo de amigo resolveu criar o monstro, usando Wilson como fotógrafo, como forma de vingança, pois um deles havia sido despedido e humilhado pelo jornal Daily Mirror. A ideia era forjar uma foto, deixar o jornal publicá-la e depois desacreditá-los mostrando a fraude, para acabar com a reputação do jornal.

Ele ainda contou que o falso monstro foi feito com um mini-submarino e uma cabeça feita de massa de modelar presa a ele, que ficava para fora da água.
Porém, há pessoas que refutam esta versão, uma vez que a confissão só veio depois da morte dos envolvidos, impossibilitando qualquer desmentido. Além disso, se o plano era desacreditar o jornal, por qual motivo a fraude não foi revelada logo depois? Pessoas próximas insistem em dizer que Christopher fora ameaçado ou subornado para dizer que era mentira. Porém, peritos dizem que a foto é sim uma fraude.

Curiosamente, foi no ano anterior à foto polêmica, 1933, que as aparições de Nessie aumentaram significativamente. Há quem diga que o monstro foi “acordado” ou incomodado por explosões de dinamite na abertura da estrada que liga a cidade de Inverness (cidade onde se localiza o Lago Ness) a uma cidade vizinha, Fort Augustus, nos extremos do lago. Não são incomuns relatos de sua aparição pouco tempo após grandes explosões feitas na época. Nativos dizem que ele colocava a cabeça para fora do lago, para inspecionar o que estava acontecendo, e voltava a submergir.

Ao todo, calcula-se que tenha sido visto por mais de 4 000 testemunhas, muitas delas com séria reputação a zelar e, por isso, consideradas confiáveis: monges, oficiais da Marinha e até mesmo cientistas. Os relatos são todos muito parecidos e convergem para os seguintes pontos: Nessie é vermelho-escuro, de pele brilhante e mede entre 8 e 9 metros de comprimento.

Até bem pouco tempo, registros que provem a existência de Nessie eram praticamente nulos. Vejam bem, estamos falando de aparições que começaram no século VI, ou você fazia uma pintura a óleo, ou apenas relatava o que viu. Durante muito tempo, o acesso a aparelhos que pudessem registrar o momento era exclusividade de uns poucos privilegiados e seria muito improvável que estas poucas pessoas estivessem no Lago Ness, no dia e hora corretos, para documentar a criatura.

Mas, com o passar do tempo e a democratização de aparelhos de câmera e vídeo, começaram a surgir dezenas de fotos e filmes também. Inicialmente eram de qualidade muito ruim, então, a dúvida permanecia. Mas, recentemente, surgiram algumas fotos e vídeos de qualidade boa o suficiente para passar por uma perícia apurada.

Sempre buscando encontrar alguma coisa, cientistas uniram o útil ao agradável e criaram uma “atração turística” no lago: passeios de submarino que custa uma pequena fortuna, onde os turistas exploram o fundo do lago por uma hora. O dinheiro arrecadado serve para financiar o Centro de Pesquisa sobre o Monstro do Lago Ness. Além disso, os passeios são filmados, na esperança de conseguir finalmente uma prova concreta do monstro.

Várias instituições de renome já mandaram expedições ao lago, como o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, a Fundação Smithsonian e até mesmo o jornal New York Times. Um dos encarregados destas pesquisas, Adrian Shine, chegou a afirmar que “Existe algo muito grande e estranho nadando lá embaixo. Poderia ser uma espécie de esturjão do Báltico — um peixe que pode medir 3 metros de comprimento e pesar 200 quilos”. Mas bater o martelo de que se trata de uma criatura desconhecida ou jurássica? Não dá.

Na dúvida, a lei escocesa já se adiantou: com o boom de aparições de Nessie em 1933, aprovaram uma lei proibindo qualquer pessoa ou instituição de capturar ou ferir Nessie. Então, hoje, mesmo que a criatura seja avistada, ela não pode, em hipótese alguma, ser capturada.

Entre as muitas teorias, para quem acredita em sua existência, a mais aceita continua sendo a de que Nessie seria um plesiossauro, que teria sido “preservado” pela glaciação e, por algum motivo, descongelado junto com o planeta. De fato, uma ossada de plesiossauro com 65 milhões de anos de idade foi encontrada em 2003 por um homem nas margens do lago. Não prova nada, mas é visto como um indício de que os bichos de fato estavam por ali.

Porém, esta teoria contém um furo: Nessie é avistado desde o século VI. Não pode ser o mesmo plesiossauro, a menos que, além de dinossauro, ele seja imortal. Para se reproduzir por mais de 14 séculos, seria necessária a presença de, pelo menos, vinte exemplares no lago. Não que isso não seja possível, o Lago Ness é gigante: 37 quilômetros de comprimento, 1,5 quilômetro de largura e 240 metros de profundidade média, com alimento em abundância. Porém é altamente improvável que 20 dinossauros não fossem claramente documentados durante todo este período. E mais: à medida que fossem morrendo, a tendência é que seus corpos boiassem na superfície do lago.

Há quem diga que no fundo do Lago Ness existe uma imensa caverna, que seria um habitat perfeito para abrigar uma família de Nessies sem que eles nunca precisem ir para a superfície. De fato, esta caverna existe, mas, ainda assim, as criaturas teriam que sair para se alimentar. Aí vem os mesmos e dizem que eles podem muito bem se alimentar no fundo do lago, citando o exemplo de vários animais aquáticos que nunca forma vistos na superfície, apenas descobertos quando se mergulhou. Dizem também que se uma dessas criaturas morrer, o corpo pode sim ficar no fundo do lago, pela densidade da água e acabar comido por outros animais.

Vamos ao que interessa, que, em última instância, é o que desempata esse impasse: provas. Existe documentação que não foi refutada, ou seja, as fotos e os vídeos não foram manipulados, são verdadeiros. O vídeo mais famoso é este. O problema é que pelo tamanho do lago, por suas águas escuras e uma série de outros fatores, é difícil ter imagens conclusivas. O vídeo mostra algo, mas não é conclusivo. Ele foi analisado por biólogos, que constataram ser compatível com um animal muito grande e não souberam identificar do que se tratava, pela forma como nadava.

Fotos também abundam, você pode ver algumas delas aqui, inclusive uma captada por satélites da Apple em 2014 (Apple Maps), mas, novamente, só dá para dizer que há algo ali, de forma alguma dá para bater o martelo de que se trata de um dinossauro extinto ou um animal inexplicável. Tem algo muito grande no Lago Ness, mas até hoje não se explica de forma conclusiva o que é, portanto, presumir se tratar de uma criatura extraordinária é uma baita forçação de barra. Por mais que a gente sempre espere pela exceção (ela costuma ser muito mais legal), na vida, a tendência é que aconteça a regra geral.

Ainda assim, muita gente boa, de credibilidade, dá moral para Nessie. A revista científica Nature, por exemplo, sugeriu até um nome científico para o monstro: Nessiteras rhombopteryx. Boa parte dos avistamentos e documentação sobre o caso vem de cientistas, supostamente pessoas que tem um olhar apurado e algum discernimento. E todos costumam ter a mesma opinião: fato que tem algo muito grande e não identificado ali, mas pelo material e pela distância não é possível bater o martelo sobre o que seja.

Hoje Nessie representa um negócio muito lucrativo para a Escócia, que todo ano recebe mais de um milhão de pessoas em busca do monstro. Camisetas, bichos de pelúcia, livros… o desdobramento financeiro de Nessie é imenso. Isso certamente compromete a busca da verdade, pois ninguém vai querer desmentir a possibilidade de uma criatura fantástica caso descubra se tratar apenas de um peixe muito grande.

Na internet vocês podem encontrar todo tipo de teoria: desde que não existe nada ali e tudo que foi dito, filmado e fotografado por 14 séculos são mentiras descaradas, até a existência de uma criatura mágica que vem sendo ocultada pelos principais governos do mundo. Não faltam documentários, reportagens e muito material visual, caso tenham curiosidade em se aprofundar no assunto.

Nessie continua um mistério. Pela lei natural das coisas, provavelmente é um animal que conhecemos ou apenas uma ilusão de ótica, mas, assim como não dá para bater o martelo para o sim, também não dá para bater o martelo para o não. Com base nas suas crenças, na sua avaliação das imagens e na sua visão de mundo, você mesmo vai formar sua opinião – ou não. Quem diz que existe ou quem diz que não existe deveria pensar melhor, pois a verdade ninguém sabe. Deixemos Nessie em aberto?

Para dizer que é claramente um cardume, para dizer que é claramente uma lula gigante ou para dizer que é claramente um dinossauro: sally@desfavor.com

Se você encontrou algum erro na postagem, selecione o pedaço e digite Ctrl+Enter para nos avisar.

Comentários (10)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Relatório de erros de ortografia

O texto a seguir será enviado para nossos editores: