Aceleracionismo.

Se você pesquisar sobre o tema, vai encontrar uma definição bem comunista: aceleracionismo seria a ideia de que para gerar uma mudança social significativa, deve-se incentivar o capitalismo até que ele torne a vida das pessoas insuportável. Mas, se você começar a procurar pelo tema em inglês, abrem-se novas possibilidades. A internet em português ainda não tem informações suficientes sobre a direita cooptando o uso do termo para enfrentar o cenário cultural e político atual. Se tudo isso ficou confuso para você, aceleracionismo significa deixar de proteger a criança para que ela se machuque mesmo e aprenda sozinha. Nesse caso, a criança seria a sociedade.

No contexto original de esquerda, usado pelo próprio Karl Marx, a ideia seria deixar o comércio livre correr solto, fazendo com que o capitalismo tentasse gerar alguma estabilidade social e falhasse terrivelmente no processo. Só com os trabalhadores acuados num canto, roubados dos frutos dos seus esforços pelos burgueses cada vez mais ricos que a sociedade teria força suficiente para começar um movimento comunista verdadeiro. Forçar a desigualdade num limite onde a maioria não seria mais capaz de aguentar e fizesse qualquer coisa para se salvar.

Como tantas outras coisas que Marx disse, essa também faz muito sentido. Não, não sou eu virando comunista, é que é muita inocência achar que o pai de um movimento que dura mais de um século disputando o poder no mundo não sabia escrever coisas bem convincentes. O principal argumento contra o comunismo é que na prática a teoria não se sustentou, como é costumeiro com ideologias muito dependentes de uniformidade de pensamento. Em tese quase todo sistema de governo funciona com concordância irrestrita, na prática essa concordância é impossível. O capitalismo é mais bem armado para lidar com corrupção e desejos pessoais de poder.

O que não impede que um grande grupo de pessoas ainda esteja aprendendo e estendendo as ideias de Marx. Muitos chamam esse ambiente social de politicamente correto e lacração de marxismo cultural: numa simplificação quase criminosa, é uma forma de controlar a mentalidade da população de forma a gerar a concordância necessária para mais uma tentativa de comunismo. Se o problema é que o comunismo não resiste a vozes dissidentes, que acabemos com elas.

Mas, o mundo não é tão simples assim: eu até gostaria que a humanidade fosse tão organizada ao ponto de toda a turma do lacre estar tentando criar um sistema comunista no mundo. Que essas pessoas te enchendo a paciência nas redes sociais e manifestações nas ruas fizessem mesmo parte de um movimento político de longo prazo para derrubar o capitalismo e colocar seu sistema preferido no lugar. Não que eu ache agradável viver sob um sistema comunista, mas com um grau de coordenação desses a humanidade pode conseguir muitas coisas boas. Infelizmente, não estamos vendo isso acontecer, a indústria da lacração não consegue entrar em acordo sobra basicamente nada e frequentemente ataca até os seus caso demonstrem alguma fraqueza. É um movimento essencialmente egoísta.

Dito tudo isso, vamos falar de como a direita e os conservadores começam a abraçar a ideia de aceleracionismo: dada a prevalência de ideias como politicamente correto, demonização do homem branco, imigração desenfreada e desintegração de valores comuns na sociedade ocidental, alguns resolveram adotar uma filosofia parecida com a de Marx (oh, a ironia): não só observar calados todos os erros que percebem nesse movimento cultural como incentivar para que cheguem ao limite do tolerável para o resto da sociedade.

Se o cidadão médio não se mexe enquanto as coisas estão minimamente confortáveis, que os lacradores tornem a vida dele insuportável. Um dos símbolos escolhidos para isso são os palhaços, afinal, nos dias atuais memes fazem parte do cenário cultural e sempre há espaço para símbolos como vetores de ideias. E nesse caso de deixar os lacradores correrem soltos até ninguém mais aguentá-los, estamos realmente falhando de um mundo de palhaçadas. Um bando de millenials que enxergam nazismo em tudo colocando sentimentos acima da racionalidade controlando o mundo? É parar chorar, mas também é para rir.

Mesmo em casos horrendos, existe um humor negro envolvido. Casos terríveis como de mulheres que decidem viajar de carona sozinhas pelo Oriente Médio para provar como os muçulmanos são bonzinhos e acabam mortas e ativistas que são estupradas pelos homens que estão tentando ajudar em países que todo mundo sabe que são perigosos fazem com que muitos vejam a insanidade suicida do movimento. Idealismo levado às últimas consequências, numa visão de mundo completamente distorcida pelo o que acham que as coisas deveriam ser ao invés de constatar como elas são. O choque de realidade que tantos lacradores encontram na vida real é combustível farto para a simbologia do palhaço: quase sempre eles sofrem com consequências de algo que toda a plateia já percebeu que daria errado.

Um exemplo recente foi o suporte do Stormfront – o maior fórum abertamente nazista do mundo – ao pré-candidato democrata ao governo americano Andrew Yang. Yang prometeu criar um sistema de renda básica universal nos EUA se eleito, e a lógica dos nazistas (esses sim nazistas por terem escolhido se denominar assim) era que já que o governo Trump não mudou nada e continuava afundando o país dando dinheiro para Israel, que o país acabasse com eles ganhando 1.000 dólares por mês. Chegamos num ponto onde mesmo os adversários mais viscerais dos lacradores enxergam que não há mais salvação. Que esse mundo tem que seguir o caminho deles até o desastre completo, para que possam construir algo novo no lugar.

A ideia já se espalha rapidamente pelas “sopas primordiais” da cultura conservadora da internet, os fóruns políticos das chans, com o palhaço virando uma meme por si só. Tanto que já vemos algumas reações da mídia lacradora chamando o palhaço de símbolo de supremacistas raciais e pedindo o boicote até do filme do Coringa que está próximo de ser lançado. O curioso é que a ideia original seja do criador do comunismo, mas que tenha sido cooptada pelos seus detratores com basicamente o mesmo objetivo. Aceleracionismo vai virando sinônimo de direita aos poucos, como forma de contra-cultura. Como vocês vão ver numa pesquisa simples, a ideia ainda não está difundida o suficiente fora da língua inglesa, mas como eu sempre digo: o que vem de lá acaba aqui. Para quem não estava acompanhando esse movimento, considere uma prévia dos próximos capítulos.

Mais curioso ainda é que dada a força do politicamente correto no mundo atual, quem começa a se preocupar cada vez mais com a manutenção do status quo é justamente essa esquerda progressista que já percebe os primeiros sinais de fadiga da dominação do ambiente cultural e acadêmico. Se formos considerar conceitos clássicos de direita e esquerda como grupos que querem manter ou mudar a situação atual de uma sociedade, é quase como se estivessem trocando de lugar. Com a consolidação de poder em várias sociedades e instituições, o lacre começa a se preocupar em não deixar a sociedade ruir para não perder o que conquistaram (embora tenha sido basicamente normalizar o racismo e o sexismo desde que contra homens brancos, não tivemos grandes avanços sociais em geral). Já a direita conservadora considera o prospecto de incentivar essa turma a acabar com tudo para poder pegar um terreno mais limpo antes de consolidar seu poder.

Quem acompanha o desfavor sabe que tanto eu como Sally já éramos adeptos da filosofia antes mesmo das eleições do ano passado, mas que dobramos a aposta ao defender o Bolsonaro. Mesmo que eu e ela não tenhamos uma visão idêntica da solução pós-colapso da organização social vigente, concordamos que não dá para fazer o mesmo que sempre fizemos e esperar alguma mudança significativa. O Aceleracionismo que começa a ganhar força na internet e lentamente influenciar o embate contra o politicamente correto não é novidade alguma. Com certeza isso não quer dizer que o único caminho é derrubar tudo e refazer, até porque ninguém garante quem assume o poder depois disso, ou mesmo se dá para refazer a nossa sociedade dada essa condição, mas faz muito sentido que o ser humano só se mexa quando pressionado.

Então, até segunda ordem, continuo acreditando que se não der para vencê-los, que se ria deles.

Para dizer que esperava mais palhaçadas, para dizer que Bolsonaro é ainda melhor que Trump para isso, ou mesmo para dizer que o Brasil está nessa há 500 anos e não deu certo: somir@desfavor.com

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Comentários (6)

    • Vai não. Crimes com penas inferiores a 4 anos não geram pena de prisão no Brasil. Ainda assim, grave o que aconteceu.

  • Olha o tiro no pé. Quero ver a cara do pessoal caso o Trump seja reeleito pelo colégio eleitoral americano e o Bolsonaro perca pro Dória.

  • Nem a União Soviética era tão socialista quanto este país amaldiçoado chamado Brasil.
    E cada vez mais acredito que o Brasil será balcanizado em algumas décadas.

  • Nada resume melhor minha fase de resignação sobre a política brasileira e o lacre hegemônico quanto esse meme do clown world. Sempre que aparece alguma bizarrice cometida por lacradores ou políticos o “honk honk” me vem à mente automaticamente. Depois continuo seguindo a vida.
    Porque já não tem muito o que fazer, ninguém mais consegue acompanhar tanta loucura, tanta esquizofrenia ideológica (tipo aquela da objetificação x liberdade sexual). Reagir abertamente não dá porque, além de toda reação virar combustível pra fortalecer a hegemonia, os hegemônicos estão dispostos a te matar de fome se você pensar diferente, só ver quantas pessoas eles fizeram perder empregos e oportunidades. Até conseguiram tirar o Nobel daquele cientista que fez um comentário “anti lacre”. Inquisição virou uma brincadeira perto dos anos 2010 (e contando!).

    It’s all so tiresome…

    • e pior, eu vejo esses lacradores falando “ain eu odeio meus pais que cuidaram de mim a vida toda porque votaram no boloro fascista” e temo pelo futuro desses pais, quando estiverem na velhice, vulneráveis e completamente dependentes desses merdinhas. geração de psicopatas.

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