Umas palavrinhas rápidas sobre a pancadaria ideológica envolvendo ditadura militar que tomaram conta das redes sociais: ambos os lados estão errados. Aliás, só o fato de existirem lados, já é, por si só, bem errado.

Para que não está a par, um breve resumo: o grupo dito “de direita” está exaltando e comemorando os 55 anos do que chama “O Governo de 1964” (que eles não entendem nem como golpe de estado nem como uma ditadura) e o grupo que se diz “de esquerda” está repudiando essa atitude de forma agressiva, se colocando como superiores intelectuais e tentando proibir as comemorações.

O fato de “comemorarem” um golpe de estado poderia ter sido tranquilamente o Desfavor da Semana no último sábado, porém, ao contrário da maioria, nós sabemos que bater no Poket é um favor e não um ataque. Não vamos seguir a mesma linha geral e ficar antagonizando com ele. Não se dá palco nem holofote para aquilo que consideramos um erro nocivo.

Vamos tentar conversar sobre isso do ponto de vista da neutralidade, sem ataques pessoais, afinal, a premissa é bem simples e independe do atual Presidente: qualquer ditadura é ruim, reprovável e condenável.

Somos contra qualquer tipo de ditadura, assim entendida como um regime não democrático, ou seja, um país regido por uma pessoa ou uma entidade que não chegou ao posto através da escolha popular ou que desconsidera a participação popular em sua gestão. Normalmente, o poder se concentra todo nessa pessoa ou órgão, gerando um autoritarismo que não pode ter outra consequência que não severas injustiças.

Acho muito válido criticar ditaduras, eu mesma o estou fazendo, afinal, a maior parte da população brasileira nunca a vivenciou. Quando mais descentralizado o poder, menores as chances de abusos. Mas, criticar é fácil, quero ver alinhas o que se fala com o que se faz.

Se a gente for avaliar postura e discurso, poucos brasileiros são contra a ditadura enquanto conceito. O que temos são dois grupos antagônicos onde um é contra a ditadura de direita (e tolera ditaduras de esquerda) e outro que é contra ditaduras de esquerda (e tolera ditaduras de direita). Ambos hipócritas, ambos autoritários, ambos sem moral alguma para falar do assunto e repudiar ditadura.

Vamos deixa a coisa mais clara: se você se diz contra uma ditadura, você tem que criticar e repudiar qualquer ditadura. Não adianta repudiar a ditadura militar no Brasil e enaltecer Comandante Fidel ou Companheiro Maduro. Tá maluco? Quando é “do seu time” pode, quando é “do time adversário” é uma barbárie? Se você critica uma, mas enaltece a outra, sinto te informar, mas você não é realmente contra ditadura, você é contra certa ideologia política. Em essência, se te convier, se convergir para sua ideologia, esta pessoa é sim a favor de ditadura.

Se você por algum motivo acha que garantias fundamentais podem ser relativizadas, que tem que matar, torturar e coisa do tipo, você não é contra ditadura. Por favor, não levante essa bandeira, pois você estará envergonhando a si mesmo e desacreditando quem realmente é contra. Quando o pactuado pelo povo e seus representantes em uma Constituição é descartado para dar vazão ao um desejo ou achismo pessoal seu, saímos da democracia.

Se você defende qualquer medida que afronte a democracia apenas para causar desgosto no “lado adversário”, você não é contra ditadura. Você é um egoísta mimado que para vencer uma guerrinha ideológica abre mão de valores fundamentais para uma sociedade civilizada. E se você usa como justificativa para isso que o “outro lado” não respeita a Constituição, logo, você não vai respeitar, saiba que você é exatamente a mesma merda que aqueles que critica.

Então, se você é petista e acha Bolsonaro um lixo por querer comemorar a ditadura militar brasileira, comece a se perguntar por qual motivo não repudiou com igual ênfase quando Lula foi dar as mãos a Kadafi ou quando financiou e publicamente apoiou Maduro. Quem apoia ditadura colabora para um mundo pior, seja ela de esquerda ou de direita. Não seja essa pessoa.

E a questão é ainda mais complexa, pois o brasileiro parece ter dificuldade em compreender o conceito de “ditadura”. Quando a prática é perpetrada por alguém de sua simpatia política, não é vista como ditadura. Um belo exemplo é Maduro, que prende, mata e tortura em larga escala, mas, por contar com a simpatia do pessoal de esquerda, não é visto como ditador. Não importa que seu regime já tenha matado 18 vezes mais pessoas que a ditadura brasileira em execuções sem julgamento, como a ideologia converge, como vale tudo pela causa, ele não é ditador. Aí fica difícil sequer dialogar.

Só tem um probleminha: os tempos mudaram, as pessoas cansaram, a espiral de silêncio acabou. Agir desta forma contraditória coloca a pessoa com uma etiqueta de “retardado” na testa. Se as únicas pessoas que confrontam o Bolsonaro têm uma etiqueta de “retardado” na testa, sabe quando ele vai deixar o poder? Filhos e netos dele se elegerão, enquanto a outra opção forem retardados mentais. Recomponham-se, voltem aos trilhos, voltem à sanidade e coerência, se querem ser oposição. Até aqui estão funcionando como apoio à direita.

Lula podia apoiar publicamente ditaduras e ditadores de diversos países, como Kadafi na Líbia, o Fulano de nome estranho da Guiné Equatorial, Daniel Ortega da Nicarágua, Chávez e Maduro da Venezuela e tantos outros. Aí “não é ditadura” pois a pessoa concorda com o viés ideológico e, pelo visto, como os métodos de tortura, desaparecimento e morte também. A dualidade nociva e ultrapassada de “eliminar o inimigo”. Não existe o inimigo, é uma visão equivocada de uma mente com medo. Felizmente, essa época já passou, não cola mais, é preciso revisar a coerência de sua fala com seus atos.

Neste ponto você pode estar pensando “ok, a esquerda é incoerente, e daí?”. E daí que estamos sem predador para a direita. A esquerda hoje funciona como suporte para a direita. Quando a direita faz uma cagada, a esquerda faz questão de vir a público e fazer outra ainda pior, para manter bem vivo nas nossas mentes que, por mais que Bolsonaro seja tenebroso, a outra opção continua pior. Bolsonaro pode ser a merda que vocês quiserem, mas ao menos ele é coerente: o que ele fala está alinhado com o que ele pensa, coisa que a esquerda perdeu lá pela década de 80.

Não adianta criticar o Bolsonaro por defender a ditadura militar brasileira e logo abaixo apoiar Maduro. É desacreditar todos aqueles que realmente são contra ditadura e jogá-los no mesmo saco de hipocrisia e retardo mental que o imbecil que faz isso.

Logo depois que surgiu essa conversa de “comemorações” do aniversário do “Governo de 64” (vulgo ditadura) eu pensei que finalmente Bolsonaro ia sair chamuscado. Mas não, parece que a esquerda se encarrega sempre de ofuscar cada bosta que ele faz, fazendo uma ainda maior: o Judiciário resolveu proibir qualquer comemoração do golpe de 1964, uma medida tão autoritária quanto aquilo que ela critica.

Comemorar golpe militar é uma imbecilidade, suponho que ninguém aqui duvide disso. Mas proibir as pessoas de serem imbecis é uma imbecilidade maior ainda. As pessoas podem pensar o que quiserem, comemorar o que quiserem. É aquela velha frase: posso não concordar com as merdas que você diz, mas vou lutar até o fim pelo seu direito de dizê-las. Pior do que escutar merda é vive em um país onde merdas são censuradas. Democracia não é dizer o que você quer, é saber que tem que escutar o que não quer também, pois todos tem o direito de expressar o que pensam.

Com esta atitude imbecilóide, Bolsonaro foi o que saiu menos sujo do evento. Some-se a isso a enxurrada de fotos em redes sociais de Lula e Dilma abraçados com ditadores e documentos que mostram o envio de dinheiro e apoio brasileiro para eles, desacreditando cada pessoa que criticava ditadura mas defende Lula e o PT.

O cenário que isso cria: temos dois lados imbecis, um deles faz exatamente o que prega (defende ditadura na fala e na prática) o outro é hipócrita (se posiciona contra ditadura, porém defende algumas ditaduras). Aí eu te pergunto, se você tiver que escolher, prefere uma merda pura ou uma merda hipócrita?

Acho inacreditável que seja necessário traçar esta linha, mas vamos lá: se você é a favor de qualquer atitude que afronte o Estado Democrático de Direito, você não pode bater no peito e defender democracia, pois além de hipócrita, soa burro também (nem ao menos percebe a contradição que está pregando). Se você apoia algum regime que não respeita o Estado Democrático de Direito, você não pode bater no peito e defender democracia da mesma forma.

E se você nem ao menos sabe quais são os requisitos para que um governo seja considerado democrático ou ditatorial, meu anjo, vai conversar sobre o tempo, sobre cinema ou sobre qualquer outra coisa, pois você vai passar muita vergonha expondo um achismo seu como se fosse uma verdade. As coisas são como elas são, não como você gostaria que elas fossem. Seu bom senso, seu achismo, seu juízo de valor nem sempre corresponde à realidade.

Não existe a possibilidade de criticar “algumas” ditaduras e se manter coerente. Ou você é contra ditadura, seja ela militar, do proletariado ou da puta que te pariu, ou você não é uma pessoa contra ditadura. Ou você repudia igualmente ditadura na União Soviética, China, Vietnã, Camboja, Venezuela, Nicarágua, Zimbábue, Angola e tantas outras ou então se assuma e comece a se dizer a favor de algumas ditaduras.

E parem de banalizar ditadura, algo muito grave, atribuindo o status de ditador a aqueles com os quais vocês simplesmente não concordam. Não estamos vivendo uma ditadura com Bolsonaro, não vamos viver uma ditadura com Bolsonaro, não usem o termo para atacar adversário, banaliza-lo é um dos maiores desfavores que se pode fazer para a sociedade. Acreditem, se estivéssemos em uma ditadura, este texto não poderia ser publicado.

Não existe meio termo, ou você é a favor ou contra ditadura, de qualquer espécie, de qualquer ideologia, de qualquer país. Reveja seus conceitos, suas falas, seus posicionamentos antes de repudiar publicamente ditadura, pois a última coisa de que precisamos é pessoas contrária à ditadura desacreditadas, ridicularizadas e vistas como sinônimo de hipócritas. Parem antes de caia todo mundo no mesmo saco.

Para dizer que se atender à sua ideologia nunca é ditadura, para dizer que a família Bolsonaro vai ficar no poder até 2047 ou ainda para dizer que ditador e aquele que discorda de você: sally@desfavor.com

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Comentários (23)

  • Finalmente o Brasil tem o governo que merece. Mediocre, burro, teimoso, iludido, hipócrita, incompetente e mentiroso. Acho que na história da humanidade nenhum país passou tanta vergonha internacional como o Brasil agora, exaltando a BURRICE e a IGNORÂNCIA como forma de autoafirmação de uma soberania cagada. Cadê o discurso duro contra a Venezuela agora que desceu tropas da Russia e China lá? Ou pq apagou post que mandava o Hamas se explodir?
    Somos um povo escroto mesmo. Ja tinha vergonha, mas agora ser brasileiro se tornou desonra humana.

  • Sinceramente, eu acho que ditaduras não são de esquerda nem de direita…. são de puro ego do infeliz que vira ditador. Ele não está nem aí se os pets dele sobrevivem ou não, desde que obedeçam, seja com uma visão de esquerda ou de direita. Gente que faz isso (tipo o Maduro, ou o Mugabe ou afins) tem muitos problemas, só pode. Ninguém normal trata outras pessoas daquele jeito.

    Agora, eu não posso falar que a ditadura aqui foi boa,ruim, pq eu tinha 5 anos (12 quando a ditadura terminou com o teatrinho do Tancredo), e minha maior preocupação era se eu ia ganhar ou não o castelinho do Meu Querido Pônei no Natal. Então… A maioria das demência que apóia a ditadura é mais nova que eu ainda, o que diabos eles sabem do que aconteceu? Só quem estava lá, e prestou atenção, para saber.

    Bah, estamos cercados de idiotas. E a notícia mais lida do jornal é ‘Quem vai sair no próximo paredão do BBB19’. *se esconde num canto, em posição fetal*

    • Qualquer um, mesmo apolítico e apartidário, pode ser um ditador. Realmente não tem partido, não tem ideologia, não tem nada que justifique.

  • Olha, eu não sei como é que a esquerda brasileira consegue pagar mico após mico achando que está abafando. A última destas foi a enquadrada da Tábata Amaral no Vélez Rodriguez, cobrando propostas de quem está lá apenas representando uma ideologia, a dos minions-cabeça-oca (e como se alguém, em algum momento, tivesse elaborado propostas governamentais a sério, e cumprido o plano original).

    Quanto ao assunto em questão, a chegada de Bolsonaro ao poder foi a constatação de que os militares venceram a guerra que interessa, a da impressão final. Brasileiro não olha além do que a vista alcança, e a bagunça desordenada que veio com a Nova República reforçou na maioria a tese de que só os militares (ou alguém ligado a eles) organizaria essa joça.

    Se ditadura ou não, se verdadeiro ou não, isso é irrelevante para a maioria da população. Sob os militares tínhamos ordem, segurança, e a impressão de que tudo funcionava. É o que basta.

    • “Se ditadura ou não, se verdadeiro ou não, isso é irrelevante para a maioria da população. Sob os militares tínhamos ordem, segurança, e a impressão de que tudo funcionava. É o que basta.” Conheço uma porção de gente bem mais velha do que eu – que viveu aquela época – que diz exatamente a mesma coisa…

  • Texto interessante, apenas duas objeções.

    1 – Nenhum cidadão particular foi proibido de celebrar a ditadura, ENTIDADES OFICIAIS foram.

    E têm de ser mesmo, porque entidades oficiais representam o estado e se o estado celebra os valores da ditadura é porque está a deixar de ser um estado democrático.

    Com certeza que um presidente, o chefe do estado de direito, festejar o fim do estado de direito é CRIME. Ele está a destruir o estado que jurou defender.

    2 – Com estas atitudes como pode ter a certeza que Bolsonaro não vai restabelecer a ditadura ?

    • Pedro, só é crime o que está definido como crime no Código Penal. Já que você afirma com tanta certeza que 3 crime (em caixa alta), suponho que você seja um operador do direito, certo? Por favor, me aponte a tipificação penal deste crime?

  • Pra brazucóide médio nem desenhar adianta, quanto mais tentar explicar o óbvio por um texto tão maravilhosamente simples e objetivo como esse. Eu fico só olhando as discussões inócuas entre partidários acérrimos de ambos os lados, sem saber o que fazer, pois tenho amigos em ambos os grupos (não desfaço amizades de longa data – 20,30 anos! – nem fodendo por causa de política ou religião).

    • Basta ter um mínimo de integridade, de coerência, para perceber que não dá para atacar uma ditadura e defender a outra. Uma pena que nem isso o brasileiro médio tenha…

  • Vamos, lá BMzada. Quem está mais certo sobre a ditadura?
    ( ) historiadores
    ( ) vítimas da ditadura
    ( ) instituições que trabalham em busca dos desaparecidos da ditadura
    ( ) militares, que já admitiram e já expuseram as atrocidades cometidas
    ( ) seu avô que morava no interior e nem sabia o que acontecia fora do raio de 300 metros do vilarejo

  • Alguém precisa avisar esses polarizadores que vivem nessa guerrinha cretina de Esquerda x Direita que o Muro de Berlim já caiu faz 30 anos…

  • Zé povinho punhetando 1964 (e olha que muitos não tavam nem no saco do pai na época da ditadura)
    é 2019 cara, o futuro tá chamando, pau no cu da ditadura e pau no cu dos comuna
    Eu não vou viver minha vida pautada por um passado que eu não controlei mas o futuro é algo que eu posso realmente fazer algo a respeito.
    E mesmo que fosse pra celebrar que “fomos salvos de uma invasão esquerdista”, a ditadura foi bem ineficaz. Basta ver a ideologia dominante nas mídias e no sistema educacional atualmente. Esquerdista sabe pensar melhor a longo prazo, enquanto se gabam de ter eleito a Bolsa de fezes num cargo que tem pouco poder, a esquerda já está pensando em como vai doutrinar a próxima geração.

      • A ideologia do Brasil é astrofisico. Tem a finalidade de ir pro buraco ou ser o proprio. Sabe qual é ne.l? Aquele sujo e produtivo…Olavo de Carvalho é espelho gente.

  • Vídeo curto para assistir depois de ler o texto de hoje: trecho sobre ditadores do documentário “Nós Que Aqui Estamos, Por Vós Esperamos”, de 1999, dirigido por Marcelo Masagão. Esse filme é uma “colcha de retalhos” de cenas de grandes e pequenos acontecimentos do séc. XX sem falas, entremeadas apenas pela música densa e expressiva de Wim Mertens e por pequenos textos aparecendo na tela de tempos em tempos.

    O link: https://www.youtube.com/watch?v=0Qp8h79Svr

  • Tive que compartilhar este texto! Vai bem na direção de um pensamento que eu já expus aqui mais de uma vez nos meus comentários em uma época nem tão distante assim, quando cogitar que o Bolsonaro um dia chegaria a ser presidente ainda era visto apenas como puro delírio. Permitam-me repetir: “Por mais que às vezes eu até goste de ver o circo pegar fogo, eu não gostaria de viver num lugar onde apenas se trocaria um mal por outro, com a esquerdalha mimzenta dando lugar a reaças saudosos da ditadura. Tudo bem que o pêndulo sempre vira, mas será que não daria mesmo pra achar um ponto de equilíbrio? Ou isso, em se tratando de Brasil, já seria pedir demais?”

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