Paradoxo de Fermi – Parte 3

Se alienígenas existem e se o universo é tão grande e antigo, é muito estranho que não tenhamos visto nenhum sinal deles até agora. Esse é o paradoxo de Fermi, tema que já abordei aqui e aqui no ano passado. Existem várias soluções possíveis para o problema, várias delas abordadas nos textos anteriores, mas hoje eu gostaria de relativizar duas coisas sobre a ideia: a de que o universo é grande e que é antigo. Pensando bem, pode não ser o caso…

Claro que ao considerarmos algo como 45 bilhões de anos luz para qualquer direção que se vá e 13 bilhões de anos de idade, o universo vai parecer muito vasto e antigo, talvez vasto e antigo demais para nenhuma outra forma de vida inteligente existir além de nós, mas tudo é uma questão de perspectiva. Para seres que medem distâncias em quilômetros e vivem um século nas melhores das hipóteses, as escalas do universo são absurdas de tão grandes.

Mas, para uma formiga, um bairro de uma cidade qualquer também é. Considerando que uma formiga vive em média menos que um ano e que seu tamanho é contado em milímetros, uma área de uns 200 mil metros quadrados construída há 50 anos atrás é imensa e muito antiga, mas para um ser humano médio, cabe totalmente dentro das noções de tempo e distância com as quais estamos confortáveis.

Se eu te disser que desde a construção da primeira casa do bairro onde você vive agora, nenhum japonês morou no lugar, isso é prova que japoneses não existem? Dificilmente alguém chegaria nessa conclusão, afinal, as pessoas entendem que um bairro de uma cidade é um universo muito pequeno para conter todas as possibilidades da raça humana. E se você tiver uma noção razoável do tamanho do planeta, sabe que um bairro é algo minúsculo na escala geral da Terra. Ou seja, é mais provável não encontrar um exemplar específico de ser humano nessa escala do que encontrar. Por isso não existe o Paradoxo do Bairro.

Agora, se eu te disser que desde o começo da vida na Terra, na superfície total do planeta, nunca se encontrou uma pessoa que nasceu com pele roxa e cabelos verdes, você estaria muito mais inclinado a acreditar que realmente essa combinação é impossível e que não precisa temer essa possibilidade quando tiver um filho. A escala desse universo é grande o suficiente para parecer confiável nas previsões sobre o futuro, e pequena o suficiente para caber dentro da nossa percepção da realidade. Quando essas duas condições se encontram, as coisas ficam mais fáceis.

Quanto mais as escalas aumentam, menor a nossa capacidade de percepção e previsão das possibilidades. Talvez dê para colocar uma pulga atrás da orelha de uma pessoa sobre a existência de pessoas de pele roxa e cabelos verdes se consideramos que o ser humano moderno está no planeta há pelo menos uns 40.000 anos e que só começamos a documentar a história de forma mais confiável nos últimos mil. Pode ser que tenha aparecido pelo menos uma pessoa assim. Você teria que conhecer o suficiente sobre a genética humana para bater o martelo sobre a impossibilidade, e a maioria de nós não tem esse tipo de conhecimento.

Dê um período longo o suficiente no planeta Terra e boa parte das pessoas já consegue imaginar criaturas fantásticas e seres humanos com superpoderes andando entre nós. E como os dinossauros estão aí para provar com seus restos mortais, esse mundo já abrigou coisas completamente diferentes do que conhecemos hoje em dia. Escalas maiores permitem possibilidades mais variadas, seja na imaginação, seja no que é cientificamente provável. A vegetação do planeta já foi totalmente roxa e a Lua já pareceu umas 4 vezes maior no céu. Muita coisa pode acontecer numa grande escala de tempo.

Atualmente, conseguimos observar bilhões de anos luz de distância do nosso planeta, e consequentemente, bilhões de anos no passado. São escalas absurdamente grandes para um ser que se mede em centímetros e que raramente vive mais que um século. Grandes demais para uma real compreensão do cérebro humano. Eu aposto que você não consegue visualizar um ano luz de distância (a Terra está a 8 minutos luz do Sol, só para você ter uma noção), quiçá os bilhões dos quais falamos em escalas astronômicas. E é muito por isso que existe o Paradoxo de Fermi.

Numa escala tão imensa, tão absurda de se imaginar… como é possível não termos captado nenhum sinal claro de vida inteligente além da nossa? Pode-se argumentar sobre avistamentos de objetos voadores estranhos e alguns relatos sobre contatos imediatos aqui mesmo, mas mesmo se você acreditar piamente que alienígenas estão entre nós aqui, ainda continua muito estranho que não vejamos sinais deles quando olhamos para a imensidão do espaço. Não é bizarro que uma civilização capaz de colocar uma nave dentro do nosso planeta não gere nenhuma indicação de existência quando olhamos para as estrelas no céu? Você pode acreditar em alienígenas no planeta Terra e ainda sim ficar confuso com o Paradoxo de Fermi.

Pois bem: sabe essa escala incomensurável do universo conhecido? É bem provável que ela não seja nem próxima do verdadeiro tamanho das coisas. Num texto recente eu falei sobre o que configura o universo observável, uma bolha de 90 bilhões de anos luz ao redor da Terra. Esse é o limite que conseguimos compreender minimamente, a distância máxima onde algo pode interagir com a gente de alguma forma, normalmente na forma de luz que nos alcança. Mas isso não quer dizer que esse seja o tamanho do universo, afinal, já aprendemos no passado que colocar a Terra no centro de tudo não é uma decisão muito lógica. O universo não está expandindo a partir de onde estamos, nós estamos num ponto qualquer dele vendo a expansão acontecer. Isso significa que esses 90 bilhões de anos luz provavelmente são só uma porcentagem insignificante do todo.

Com o passar do tempo, a Terra foi ficando cada vez menor. No começo, éramos tudo o que existia, depois éramos só um pedaço do sistema solar, e daí da galáxia, do supergrupo local, do universo… e cada uma dessas expansões de tamanho já fugiam, e muito, do tamanho que um ser humano comum consegue conceber na cabeça. É impossível te apresentar um exemplo de duas coisas visíveis na mesma distância que exemplifiquem a diferença de tamanho da Terra para o universo observável. Eu consigo te fazer imaginar a diferença de tamanho entre um grão de areia e uma daquelas bolas de praia para te fazer imaginar a diferença de tamanho entre Terra e o Sol, mas não tem nada que caiba na sua vista para te fazer entender a diferença entre a Terra o universo observável, mesmo começando com um grão de areia…

E o universo observável é provavelmente só um grão de areia perto do Sol no tamanho real do universo. Se o universo real não for mesmo infinito… não tenho fonte nenhuma para essa informação de tamanho do universo real, ninguém tem. É um palpite educado baseado no conhecimento acumulado até aqui. Pois bem, vocês começam a notar que podemos estar falando de uma escala ainda mais incrivelmente imensurável do que começamos ao falar do Paradoxo de Fermi? Se o universo real for mesmo tão maior que o observável, todas as probabilidades começam a mudar.

Considerando que o universo real é tão maior que o observável quanto o observável é maior que a Terra, não é mais tão estranho assim que não tenhamos avistado nenhuma outra civilização até agora. Afinal, a vida inteligente ainda pode ser muito comum, mas não tão comum ao ponto de estar presente em qualquer micro pedacinho do universo real. Se a probabilidade de vida inteligente surgir num espaço do tamanho do nosso universo observável for de 100%, ainda sim não tem nada de estranho no fato de não termos visto mais ninguém com nossos telescópios e satélites. Parece inacreditável que sejamos os únicos, mas tudo depende da escala.

Uma formiga pode ter a mesma noção se por algum acaso for a única viva num bairro de uma cidade. Estamos falando de algo muito grande. Muito grande mesmo. E normalmente dizem que algo muito antigo… mas, talvez esse também não seja o caso. Estima-se que o universo tenha pouco mais de 13 bilhões de anos de idade. Extremamente longevo para as escalas humanas, mas considerando o provável caminho que o universo vai seguir daqui pra frente, é apenas uma piscadela no quadro geral.

As teorias de que o universo vai continuar expandindo e esfriando sem limites sugerem números impossivelmente grandes em anos até a entropia finalmente vencer e o universo perder toda a energia aproveitável. De novo, não estou falando de escalas que cabem na cabeça humana. Esses 13 bilhões de anos são uma fração minúscula da “vida útil” do universo. Se eu for utilizar uma vida humana de uns 100 anos como escala para a vida do universo, não tenho nem como te fazer imaginar quão pouco tempo se passou desde o nascimento dessa criança. É muito, muito menos que um segundo de vida. Nessa analogia humana, o cérebro do médico não teve tempo nem de registrar que está vendo um feto sair da mãe. Essa é a idade atual do universo perto do tempo de vida esperado dele.

O que nos leva de volta ao Paradoxo de Fermi: será que deu tempo de surgir outra forma de vida inteligente no nosso grãozinho de areia do universo observável? É muito provável que nós tenhamos queimado a largada e desenvolvido mentes abstratas muito antes de qualquer outra espécie que venha a existir. O universo vai passar a maior parte da sua existência pontuado por buracos negros e nada mais. A vida como conhecemos vai ter mais trilhões e trilhões de anos para poder aparecer. Novamente, se a probabilidade da vida inteligente surgir no nosso universo observável permitir 100 civilizações totalmente diferentes, ainda temos todo o tempo do mundo (ou do universo) para as outras 99 aparecerem. Não tem nada de necessariamente estranho delas não estarem aqui ainda.

Isso quer dizer que não tem alienígena aqui no nosso quinhão do universo? Não, claro que não. Os dois textos anteriores falam sobre diversas outras possibilidades. Essa é mais uma, muito embora tenda a ser a mais “realista”, afinal, normalmente faz sentido prever que nossa percepção é limitada, porque historicamente, sempre foi. Parece mesmo bizarro sermos a única espécie inteligente considerando esse tamanho todo, é mais provável que não sejamos, mas certeza nesse caso é praticamente impossível.

De qualquer forma, é uma boa analogia para a forma como vemos as coisas: buscando padrões em escalas pequenas e cismando que elas se repetem quando olhamos para o todo. Talvez o principal problema da humanidade seja sempre o mesmo: somos muito novos e pequenos.

Para dizer que o universo precisa fazer uma dieta, para dizer que eu sou pago pelos aliens para continuar encobrindo sua existência, ou mesmo para dizer que se sentiu ainda mais insignificante: somir@desfavor.com

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Comentários (13)

  • Será que da mesma forma que estamos ainda nos desenvolvendo em viagens espaciais, outras raças ainda nem podem ao menos ter inventado a roda?

    Eu não consigo ser convencido que uma civilização desenvolve uma tecnologia para atravessar o espaço, para chegar aqui e ficar só aparecendo na surdina para um bando de caipiras. Cadê os aliens Independence Day ou o O Fim da infância?

    Eles devem estar lá fora sim, mas tal como nós ainda não chegaram de forma efetiva em outro planeta, ou ainda não desceram das arvores.

    • Numa escala cósmica, toda essa conversa de Paradoxo de Fermi é mais ou menos como ficar pensando se a pessoa morreu ou não quis se encontrar conosco porque passou um segundo da hora combinada e não estamos a vendo ainda…

      A gente ainda nem conseguiu colocar uma pessoa em Marte e já fica preocupado porque não vieram ainda de outras estrelas e galáxias.

      Não deixa de ser divertido pensar nisso, contanto.

  • Toda vez que leio sobre o universo e etc. me dá uma agonia enorme, tipo um mini ataque de panico, por não conseguir entender a magnitude da vida.

    • Somos minúsculos perto do cosmo, mas somos frutos de probabilidades ainda mais minúsculas. Um nada extremamente especial. É de quebrar a cabeça mesmo…

  • Tem também a possibilidade deles existirem, mas nós não os percebermos. Cães ouvem sons que não ouvimos, mas não percebem cores que percebemos. Nenhum ser vivo sabe o que existe fora das suas capacidades sensoperceptivas (naturais ou ampliadas por equipamentos).

    P.S.: Eu gostaria muito de ver um debate entre os defensores da Terra Plana e os da Terra Oca.

    • Eu acredito muito nisso. Não conseguimos experimentar todas as dimensões sensorialmente falando. Se eles estiverem em outra, só alguns conseguirão ver de vez em quando, quando dão uma escorregada para lá.

    • Era uma das alternativas do texto original. Talvez tenha um atrás de você neste exato momento. O universo é vasto, misterioso e aparentemente desocupado…

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