Abrindo o bueiro.

Há poucos dias atrás, reuniram-se em Paris representantes de vários governos e de gigantes da tecnologia como Google e Facebook num evento chamado “Christchurch Call Summit”, buscando soluções para o problema do aumento de comunidades online fomentando discursos de ódio e intolerância. Explicando assim, parece pra lá de razoável, mas… analisando um pouco melhor o que se considera o problema e os resultados esperados, a coisa muda de figura.

O evento teve este nome por causa do massacre de Christchurch, onde um rapaz completamente maluco matou 50 muçulmanos ao invadir duas mesquitas da cidade neozelandesa armado até os dentes. O governo local agiu rápido: baniu rifles de alta capacidade, cortou o acesso aos sites que o assassino visitava (em sua maioria, chans) e está processando várias pessoas que divulgaram o vídeo com penas pra lá de pesadas. Concordando ou não com as ações, não podemos negar que não perderam tempo, definiram o objetivo e lidaram com a situação.

É difícil achar um consenso sobre a melhor forma de agir após um evento desses, você tem que decidir uma linha de ação e seguir em frente. A forma que a Nova Zelândia decidiu agir envolve banir armas e censurar o discurso que acredita levar até esse tipo de violência. Talvez num país mais organizado como lá a regulação de rifles de assalto funcione, mas há muito o que se discutir sobre regulamentar ideias através de censura. Há quem defenda que é um mal necessário, e há pessoas como eu que acreditam que isso tende a radicalizar ainda mais as pessoas afetadas.

Podemos discordar. Justo que as pessoas pensem em soluções diferentes e justo também que não pequemos pelo atraso: se lá eles querem fazer isso, é melhor que botem o plano em ação logo. No final das contas, o papel de um governo é tomar decisões difíceis e arcar com as consequências partindo do princípio que é o melhor para seu povo (estando certos ou não). Nesse sentido, a Nova Zelândia liderou pelo exemplo e ganhou o direito de capitanear o evento. Para eles, a internet deve ser censurada quando falamos de extremistas violentos. Outros governos, especialmente os da União Europeia, parecem alinhados com a ideia: está cada vez mais claro que o parlamento europeu está voltando suas atenções para o controle da internet.

Dá para fazer uma análise imparcial sobre o tema. Faz tempo que falamos aqui sobre uma espécie de “vírus maniqueísta” que se apossou das discussões modernas. Podemos fazer melhor do que isso. Porém, pode-se perceber um problema nessa história toda: não estamos falando de radicais em geral. Se a ideia é reduzir a violência através da restrição da comunicação de pessoas com esses desejos, estamos preocupados com um grupo bem restrito de pessoas: homens brancos de direita. Google, Facebook e Twitter demonstram suporte aos desejos governamentais de aumentar o controle sobre o conteúdo dito aceitável na internet, mas estão seguindo o caminho mais simples também: focando seus esforços no único público aceitável para se bater na atualidade.

Não temos conversas abertas sobre limitar outros grupos extremistas na internet, temos? Organizações jihadistas e até grupos “pré-terroristas” como a Antifa (uma espécie de gangue da esquerda radical moderna) gozam de muito mais liberdade para publicar e discutir discursos extremistas e claramente odiosos ao mesmo tempo que autoridades políticas e grandes empresas de comunicação tentam descobrir como censurar o conteúdo da “direita alternativa”. Isso não quer dizer que eu não entenda a vontade de limitar o potencial de recrutamento e radicalização em direção à ideologia fascista, mas me leva a acreditar que é mais um caso de bater em quem menos vai se defender. Escolher só um grupo para atacar soa preguiçoso e oportunista.

E como quase tudo o que deriva da preguiça, o resultado não tende a ser bom. Para não enfrentar grupos “protegidos” pela cultura atual, governos e empresas de tecnologia vão ter que permitir a existência de sites e aplicativos focados em unir pessoas baseado em seus interesses. Se a forma escolhida para reduzir o discurso de ódio na internet é a censura, mesmo que eu discorde, consigo entender uma lógica. Nem sempre concordamos com as leis, mas se elas existem, é razoável segui-las. Agora, se a censura vier com alvos específicos e não lidar com o problema geral de radicalização ideológica que enfrentamos atualmente, o tiro sai pela culatra.

Censura não faz com que os defensores de uma ideia desapareçam, servem apenas para mantê-los distantes e desorganizados. Reduz o potencial de recrutamento, mas não elimina a ideia. Desde o cristianismo até o nazismo, podemos ver como nada consegue matar uma ideia, a maior parte da comunicação humana ainda é feita entre duas pessoas, sem supervisão. Pais passam para filhos, amigos contam histórias… censura diminui o alcance de uma ideia, mas não consegue eliminá-la. Dito isso, qual a função prática de tentar cortar o acesso do cidadão comum aos conteúdos de uma facção radical mantendo toda a estrutura necessária para a disseminação do conteúdo de outras?

Talvez a internet precise ser mais controlada, mas caso essa seja a decisão, não é possível focar num tipo de radicalismo apenas. Todos contra o ódio, desde que o ódio venha de um dos gêneros, tenha uma determinada cor de pele e pregue um sistema de governo específico. O resto é liberdade de expressão. Pois bem, um ataque desses gera um problema sério: abre a tampa do bueiro. Quando você fecha o cerco em comunidades onde esse público congrega livremente, força-os a sair de onde estão e “infectar” outras comunidades. O movimento à direita das chans está intimamente ligado à pressão feita contra um grande fórum abertamente nazista chamado Stormfront, que fez com que seus membros temessem pelo fim de seu lugar preferido e começassem a influenciar os fóruns de política da 4chan. Foi um sucesso que eu ainda acredito que no final das contas foi um dos responsáveis diretos pela eleição do Trump.

Quando você ataca grupos muito específicos que mantém comunidades igualmente específicas, você força essas pessoas a saírem da toca e procurarem outros lugares para manter sua discussão viva. As redes sociais atuais como Facebook, YouTube, Instagram e Twitter tem uma visão bem de “esquerda” atualmente, mas para quem não conhecia, a 4chan também há alguns anos atrás. Quando o ataque vier contra esses sites recheados de homens brancos fascistas, eles vão ter que se reorganizar em outro lugar. Vocês não têm ideia da virulência escondida nos sites que o encontro em Paris está tentando atacar. Vimos isso na prática nas eleições: o cidadão médio não está muita paciência para lacradores, e no momento que eles forem apresentados a um grupo contrário à maluquice raivosa dos politicamente corretos, a tendência é a contaminação.

A direita alternativa é melhor nas memes e nos argumentos chocantes. Defendem pontos de vista mais palatáveis para um cidadão médio e mexem com o inconsciente conservador da maioria de uma forma muito mais eficiente. O pêndulo está virando, mas a forma desastrada e preguiçosa como os lacradores estão focando num grupo muito específico de pessoas vai permitir um fluxo de imigrantes nas redes sociais para o qual eu acredito que o cidadão médio não está preparado para lidar. Eu temo que a guinada à direita no nosso futuro seja muito mais severa do que o previsto.

Toda ação tem uma reação. Se eu estivesse no poder, faria de tudo para manter a tampa desse bueiro bem fechada. Porque não acredito que possamos corrigir os radicais no curto prazo, historicamente nem extermínios em massa conseguiram fazer isso. O trabalho de um governante não é aumentar a pressão sobre uma sociedade, é evitar desastres. Mas mesmo que você tenha uma visão mais autoritária, deve entender que seja lá como um governo aja, que o faça de forma consistente. Se focar só num grupo radical, ele vai ter toda a munição que precisa para aumentar.

Boa sorte para todos nós.

Para me chamar de nazista, para me chamar de comunista, ou mesmo para dizer que não entendeu nada mas vai deletar seu Facebook só por garantia: somir@desfavor.com

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Comentários (10)

  • O objetivo deles é claro: usar o massacre da mesquita como uma justificativa pra censurar e banir sumariamente os conservadores cristãos ocidentais. Desde sempre o Twitter e o Facebook estão atulhados de muçulmanos fazendo apologia a violência e terrorismo, bem como apologistas de genocídio branco aos montes, e por mais insanas e monstruosas que sejam as coisas que postam nessas redes sociais, eles são intocáveis.

    • Há um lado meu que sorri quando ouve que cristãos serão censurados, mas esse é o lado burro e imediatista que não enxerga as consequências disso. Infelizmente não parece ser um requisito básico para os líderes atuais perceber que também tem esse lado, seja lá o grupo que querem atacar.

  • Hoje mesmo vi um vídeo de um “tradcon” sobre MGTOWs, e nos comentários achei um comentário que começava, claramente, “estou com medo do futuro”… E ler esse texto também aumentou o meu “cringe” do dia. Eu meio que me identifiquei, com ambos casos, rs.

    Acredito que em breve veremos mais pessoas ponderando sobre o futuro, indo além dessa babaquice de quem dá o cu x quem quer fiscalizar cu.

    É ameaçador pra caralho. E, pra somar a desgraça: Já tem nego aos montes esperando mulher e útero artificiais… Já deve haver empresas com sérios planos de trocar seus funcionários humanos por máquinas… O texto já ressalta sobre os surtados com alguma noção política e ideológica, mas não demorará para que religiosos extremistas, sejam eles islâmicos ou cristãos, também sejam vistos como uma espécie de “resistência”… E sabe-se lá a quantos passos estamos de uma nova guerra mundial ou de uma merda proporcional à Peste Negra, Chernobyl, etc.

    Sinceramente? Sinto como se entrássemos num enredo de sci-fi distópico. Boa sorte, mesmo… Vamos precisar.

    • Só pra atiçar o chapéu de alumínio que existe em todos nós, tem umas teorias que falam que os multimilionários não precisam de mais de 500 mil ou 5 milhões de pessoas no mundo para manter seu padrão de vida. Assim, o foco deles agora seria reduzir a população mundial sempre que tiverem chance, pois está difícil controlar tanta gente.

  • Cuidado que cedo ou tarde a censura sempre se volta contra quem a defende, imagina se o Desfavor vazar pro mainstream e aparecer na mídia como um “site de ódio” que nem os chans. Eu só seria a favor de censura se eu fosse podre de rico e pudesse passar por cima das leis.

    • Com toda certeza o Desfavor seria classificado como Site propagador de ódio. A régua tá passando bem baixo, e qqr um que sai do padrão mainstream pode ser acusado.

  • Somir, larga de ser inocente.
    A ideia por trás disso é usar justamente a balela de “discurso de ódio” para minar a posição de grupos inconvenientes ao interesse deles (na Venezuela do Maduro, essa tática deu tão certo, mas tão certo que o pífio Guaidó sequer foi capaz de formar uma oposição a sério, ainda que o país esteja caindo de podre) e de quebra ainda garantir vultosos lucros em favor das corporações que estão implementando tais sistemas como um verdadeiro firewall similar ao presente na China.
    Sério mesmo, o foco não é acabar com os radicais, mas dispersá-los de forma que eles não impliquem em grande risco ao status quo. De qualquer forma, se busca uma convivência relativamente amigável com os grupos de interesse pretensamente “minoritários” para ir titerizando os hipsters que se acham os grandes revolucionários, mas na verdade não passam de massa de manobra dos grandes capitalistas.
    Por trás disso, não se tem nada mais que a velha tática de diferenciar melhor para explorar melhor.

  • A verdade é que depois que essas empresas do Vale do Silício compraram um pedação da internet e redes sociais como Facebook e Twitter foram criadas, a internet nunca mais foi a mesma. Como se espera de um lugar com poucas empresas controlando muita coisa, tudo ficou muito homogêneo, não é só ideologia, o design dos sites estão a mesma coisa, por causa dessa obsessão por minimalismo (leia-se preguiça), e até o conteúdo está a mesma coisa, galera vê a fórmula que dá mais monetização e repete até cansar. Sem falar nessas “tretas” ridículas por causa de política e fofoca. Antes eram só sites anônimos onde seus posts não afetavam sua vida e sua profissão, hoje em dia tem gente demitida ou boicotada porque não repete os mesmos discursos genéricos na internet.
    Posso estar enganado, mas não descarto a possibilidade que muitas pessoas, especialmente as que destoam dessa homogeneidade, reduzam bastante seu uso de internet, ou pelo menos das redes sociais. Pra que continuar entrando num lugar que não acrescenta mais nada? Não tenho mais saco pra ficar filtrando nada não, e a internet não tem mais aquele cheiro de novo, sabe?

  • 2017: banido das redes sociais por dizer “coisas erradas”. (check)
    2018: demitido do seu emprego por dizer “coisas erradas” na internet. (check)
    2019: perda da conta bancária por dizer “coisas erradas” na internet (check) (isso aconteceu de verdade!)
    20??: banido de uma loja ou supermercado por dizer “coisas erradas” na internet. (loading…)
    20??: impedido de ter acesso a serviços públicos por dizer “coisas erradas” na internet. (loading…)
    20??: impedido de ter acesso a serviços públicos porque o pai postou “coisas erradas” na internet (loading…)

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