Game of Nerds

Puta que pariu! Game of Thrones de novo? Game of Thrones de novo! Sally tem a postagem da terça, e quando ela escreveu o último, “roubou” meu tema. E isso aconteceu de novo nesta terça. Eu tenho meu sagrado direito de reclamar da série (tudo bem que ela escreveu muito do que eu estava pensando e eu me senti representado). Se quer outro assunto, volte amanhã. Se serve de consolo, eu nunca falo exatamente do tema que prometo na introdução do texto…

Quando soube que a HBO estava adaptando uma obra de fantasia medieval, fiquei curioso na hora. Quando assisti o primeiro episódio e vi sangue de fora e peitos escorrendo (ou algo assim), soube que tinha algo diferente ali. O choque foi suficiente para me manter assistindo, mas esses elementos funcionam até certo ponto: a história tem que ser boa, porque sexo e violência não estão em falta em tempos de internet. A história se provou muito interessante, não pelos dragões e cenários fantásticos, mas por um elemento central à trama: consequências.

Muitos dizem que o apelo de Game of Thrones é que qualquer um pode morrer a qualquer momento e isso a torna mais realista. Em termos… se fosse para ser realista mesmo, quase todos os personagens morreriam de doenças ou simples infecções, dado o estágio da medicina apresentado no universo da série. Não é realista que quase ninguém morra aleatoriamente, até porque isso não é o que se espera de roteiros do tipo. O que realmente me deixava tenso ao ver os episódios era a ideia de que decisões tinham consequências, se você visse uma cena e imaginasse que ia dar merda, na maioria das vezes era exatamente o que acontecia.

A morte que gerou o interesse mundial na série – a do protagonista no final da primeira temporada – foi algo chocante, mas foi construída pelo roteiro como algo possível. Todos os elementos estavam lá. A mensagem da série ali era clara: toda vez que você toma uma decisão arriscada, pode pagar o preço. E esse foi o fio condutor da história até o triste momento onde os produtores da série ficaram sem livros para adaptar. Quem enxerga mais longe e entende as regras do mundo toma decisões melhores e fica em posições privilegiadas.

Muita gente agora fica procurando o momento onde as coisas estragam em Game of Thrones, e por mais que a sexta temporada já tenha sido composta prioritariamente de roteiros “originais”, os problemas começam a ficar claros mesmo é na sétima, a penúltima. A sexta temporada estava ficando meio estranha, mas a cena final de Cersei explodindo a “igreja” da cidade e o suicídio do filho dela salvam tudo colocando uma dose de consequências nas ações realizadas. Mesmo quem já sentia algo estranho ali acabou distraído pelos fogos de artifício.

E foi aí que os produtores tiraram a conclusão errada: que era só fazer coisas grandiosas que as pessoas esqueceriam dos problemas bizarros de roteiro. Por uma temporada, saíram quase que ilesos. O povão nem se tocou dos buracos. Aquela história de Jon Snow e amigos indo para o outro lado da muralha buscar um morto-vivo já era de um grau de retardamento mental impressionante, mas a forma como eles escapam é ainda mais ridícula e completamente fora da lógica da série. Mesmo assim, quase ninguém reclamou disso. Os produtores descobriram que podiam mudar a série para algo completamente estúpido, porque a série já era vista por todo mundo, e no universo de todo mundo, a maioria sempre vai ser muito burra e engolir qualquer coisa.

Para mim a série original acabou quando Littlefinger morreu. A personagem que agia pelos bastidores desde o começo tinha uma habilidade acima da média de enxergar mais longe e tomar boas decisões. Foi reduzido a um imbecil desprevenido enganado por duas crianças porque os produtores queriam criar um momento de empoderamento feminino (“as pesquisas dizem que as pessoas gostam disso”), mas principalmente porque personagens inteligentes eram terríveis para o planejamento deles. Percebam que na mesma temporada, Tyrion e Varys também tem seus Q.I.s reduzidos em 50 pontos. Para finalizar a série em mais uma temporada, as personagens inteligentes tinham que morrer ou perder o cérebro.

Tyrion, o anão, não podia ser assassinado do nada, era um favorito dos fãs. Com o roteiro baseado nos livros, mesmo sendo um bêbado viciado em prostitutas, o cérebro avantajado permitia que ele se posicionasse bem e fizesse alianças poderosas para escapar dos problemas de enfrentava. A solução que encontraram para ele foi muito suja: colocado numa posição de segurança ao lado de Daenerys e seus exércitos, ficou relegado ao papel de um péssimo conselheiro, sem ter motivos para usar a inteligência até os últimos minutos da série. Isso fez com que a grande massa esquecesse da capacidade dele pelo tempo suficiente para acreditar na sequência de burrices tremenda feita pelo seu “lado” da guerra.

Varys, que não era alguém de muito impacto direto no roteiro, foi demovido de mestre espião que sempre tinha um plano B para um reles amiguinho do Tyrion, para quando a série precisasse de uma conversa com palavras de mais de 2 sílabas. Ele não faz nada até a oitava temporada, e quando faz, é de uma burrice e inépcia impressionantes. Quando você soma o assassinato direto de Littlefinger e a lobotomia em Tyrion e Varys, chega ao resultado esperado pelos produtores: uma série sem reviravoltas. Os três eram um veneno para o caminho preguiçoso que escolheram para a história. De trio realmente influente nas primeiras temporadas para três patetas. Pode-se argumentar que é difícil escrever uma personagem mais inteligente que você, mas pra mim é pior ainda do que burrice dos roteiristas e produtores: é preguiça e arrogância mesmo.

Para quem não sabe, a HBO liberou infinitas temporadas para a série. Podiam ter feito mais umas 5 que teria dinheiro. A HBO liberou, os fãs adorariam e até os atores topariam. Mas os produtores decidiram que iam fazer só mais uma temporada. Razoável ficar de saco cheio, mas se não queriam mais, que deixassem na mão de outras pessoas. Não quiseram, resolveram forçar um final corrido só para ficarem com os louros do final da série mais famosa do momento e poderem ir estragar (mais ainda) Star Wars, já contratados pela Disney.

O tiro saiu pela culatra. Até o espectador imbecil médio percebeu o problema: a série saiu correndo sem explicação rumo ao final. E para isso acontecer, fizeram a pior coisa que um roteirista pode fazer. Forçaram as personagens a estarem nos lugares onde deveriam estar sem criar nenhuma base para isso. Reza a lenda que esse final é baseado nas ideias de GRRM, o autor dos livros, mas são linhas gerais, não como a história se desenrola. Era impossível pegar uma história como a do fim da sexta temporada e empurrá-la para o estado final que vimos no último domingo em meros 13 episódios (7 da sétima e 6 da oitava). É como se o filme do Senhor dos Anéis fosse um só, de uma hora e meia. Ninguém ia entender nada.

Para condensar uns 30 a 40 episódios em 13, eles tiraram toda a inteligência da série. Não é um absurdo que Daenerys ficasse maluca com o poder, não é um absurdo que o Bran se tornasse o rei no final, mas essas ideias precisam ser vendidas para o público. É verdade que qualquer final deixaria muita gente puta da vida, porque todo mundo tinha sua própria ideia do que iria acontecer. Mas as pessoas perdoaram a porra do Casamento Vermelho porque acreditaram que aquilo podia acontecer e conseguiram ver como suas personagens queridas fizeram parte daquela história. Os imbecis dos produtores e roteiristas acharam que as pessoas só gostavam de serem surpreendidas e chocadas por desastres.

Mas ao mesmo tempo, só sabiam escrever roteiros de filmes merdas de Hollywood, com batalhas gigantes cheias de efeitos especiais e histórias que só precisavam acabar com finais felizes. Junte as duas coisas e temos a esquizofrênica oitava temporada. Ninguém gostou. Porque colocar Game of Thrones numa história genérica desagrada quem gosta de qualquer uma dessas coisas. Quem gostava da ideia original, como eu, ficou puto com o fim das consequências e a morte da inteligência no mundo, e quem estava lá só para torcer pela mocinha empoderada e seguir o rebanho porque a série era famosa ficou puto porque não teve final feliz esmagando o patriarcado ou algo do tipo. Conseguiram trair os dois lados ao mesmo tempo e ganhar milhões de dólares no processo. Parece que foi o Littlefinger que escreveu o roteiro.

Popularidade é um problema para qualquer passatempo do tipo, se a série continuasse popular, mas não se tornasse um fenômeno cultural gigantesco, provavelmente teríamos mais temporadas e um desenvolvimento mais interessante da história. Me perdoem pela reclamação nerd, mas tudo o que começa com nerds e fica popular é estragado. Nerd sabe fazer essas coisas, gente normal não. Gente normal não sabe o que gosta, porque gosta do que outras pessoas gostam obrigatoriamente. Game of Thrones era uma série para nerds, escrita por um nerd. Quando se tornou popular e não tinha mais livro para adaptar, expulsaram os nerds da mesa e deu no que deu.

Aliás, vou tirar as luvas de pelica: sabem a merda? Sabem a maior merda de todas? MULHER COMEÇOU A GOSTAR DA SÉRIE! Não dá. A quantidade de mulher nerd ainda é pequena demais, então, quando elas começam a gostar, gera um influxo quase que homogêneo de gente que só quer atenção por gostar de algo popular. A maioria dos homens também é assim? É. Mas entre homens é algo em torno de 80%, entre mulheres estamos falando de 99%. Sei que tem mulher nerd aqui no desfavor, não se sintam ofendidas, mas vocês sabem que são uma minoria avassaladora. Para agradar “gente normal” como a série ficou fazendo desde que se tornou imensamente popular, não pode ser nerd, tem que matar personagem inteligente e pode ignorar totalmente o bom senso, porque essa gente não tem nenhum. E se não for nerd, Game of Thrones não funciona.

A verdade é essa. Game of Thrones foi nerd por 5 temporadas, confusa na sexta, e foi remontada para “gente normal” na sétima e oitava. Nerdice não tem a ver com peitos ou dragões, é uma medida de complexidade e novidade nos roteiros. Nerd já viu mil universos fantásticos diferentes, não se surpreende fácil e espera consistência. Nerd conhece quase todos os mecanismos de contar uma história, porque vive nesse mundo. O grau de qualidade sobe, e por incrível que pareça, produtores e executivos de grandes estúdios e canais de TV parecem esquecer que no final das contas, é isso que atrai o cidadão médio. Para ver a mesma merda de sempre, tem o resto da indústria cultural. Game of Thrones mostrou que dava para fazer diferente, atraiu a atenção das pessoas, mas ficou preguiçoso e entregou a mesma bobagem sem cérebro de sempre quando todos os olhos estavam voltados para si.

Sim, eu ainda estou puto pela morte do Littlefinger. Foi quando me expulsaram da série. O único alento é que quem veio depois sofreu também e foi traído de outra forma. Minha fúria desapareceu quando eu descobri que Khaleesi realmente se tornou um dos nomes mais populares para meninas nos últimos anos. Chupem, normies!

Para dizer que eu sou um nerd azedo, para dizer que o C.U. vai nos punir por falar tanto disso, ou mesmo para dizer que pelo menos as cenas estavam bonitas (verdade): somir@desfavor.com

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Comentários (6)

  • Fico imaginando a jovem Khaleesi sendo curiosa, pesquisando sobre seu nome, e encontrando o vídeo da mini-maluca sendo currada pelo aquaman.

    • Eu adorei a notícia recente que a atriz se inspirou em discursos do Hitler para fazer as últimas cenas dela na série.

  • A sexta temporada não é baseada em livros?

    Sempre achei o lance da ascensão da Igreja Universal e dos puritanos uma história tirada do nada na série, agora faz sentido essa impressão que eu tinha.

  • Eu não assisti a série, nem sei quem são as personagens, mas também apostei em um final decepcionante porque sabia que jogavam pra torcida. Não acredito em história que se vai escrevendo conforme dá audiência. Ou o cara tem um boneco em mente, com as linhas gerais dos conflitos e reviravoltas, ou acaba forçando a mão e fazendo merda.

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