Desabafo de mãe: “Não fui à comemoração de Dia das Mães da escola porque acho um porre. Ninguém merece acordar cedo para ouvir 20 crianças desafinadas”. LINK


O Dia das Mães é amanhã, nós rimos muito com a notícia… é o suficiente para nós. Desfavor da semana.

SALLY

Parece que até as próprias mães estão cansando do desfavor que são esses rituais de comemoração. Quando uma revista devotada à santidade da maternidade coloca um depoimento de uma mãe dizendo que “NINGUÉM merece acordar cedo no sábado para ouvir 20 crianças desafinadas cantando a contragosto e no fim de tudo ganhar um LÁPIS, que pode ser plantado depois”, é sinal de que finalmente as coisas estão mudando.

Se você acha qualquer coisa relacionada a comemoração do dia das mães um saco, você não precisa fazer. Quem manda na sua vida e você e, se você se ama, não tem a menor obrigação de se sujeitar a algo que não te agrada por medo de críticas e julgamentos. Críticas e julgamentos sempre existirão, independente do esforço que você faça para se adequar à expectativa da sociedade. É simplesmente impossível agradar a todos. Portanto, não se violente por uma causa impossível.

Este texto é para te dizer que as coisas estão mudando muito rápido (crescimento exponencial, lembra?). Em 2012 o Desfavor quase veio abaixo quando falamos que gestação não é um mar de rosas, mas hoje, poucos anos depois, já é “permitido” dizer esse tipo de coisa. É até aplaudido, pela “coragem”, pelo “disruptivo”. Quando as coisas mudam assim, tão rápido, fica mais difícil de perceber. Por isso estamos aqui, apontando e gritando: mudou, não precisa mais fazer essa merda!

Então, o Desfavor da Semana, qual é? O Desfavor da Semana é que ninguém parece perceber isso. As pessoas continuam no piloto-automático fazendo o que se espera delas, sem se perguntar se é isso ou não o que elas querem, se isso lhes gera um bem-estar ou se isso demanda um sacrifício, mesmo sem existir mais a obrigação social. Elas se sentem presas a algo que nem existe mais e, mesmo que existisse, não deveria prendê-las.

Como bem escutei esta semana, as pessoas são como aquele elefante de circo, que quando pequeno é amarrado em um toco e não consegue sair. O elefante cresce, fica forte o suficiente para arrancar o toco e ir onde ele quiser, mas, por condicionamento, continua ali, preso, achando que não é capaz de sair. Este texto é basicamente para te dizer: não seja o elefante no toco. Não seja aquele passarinho que passou tanto tempo na gaiola que quando abrem a portinha ele nem percebe que consegue voar e ser livre.

Comemoração de dia das mães (ou do que quer que seja), só faz sentido se todos os envolvidos gostarem, quiserem e tiverem prazer em estar ali. Participar por culpa, por medo de julgamento ou para evitar problemas é trair a você mesmo. Pode parecer que não, mas esse tipo de concessão custa caro.

Como explicamos neste texto, fazer esse tipo de concessão é visto como algo normal, inerente à vida, necessário e que todo mundo faz. Mas não é. Não precisa ser. O acúmulo dessas concessões geram danos físicos e psicológicos à pessoa, danos que muitas vezes eclodem na forma de uma depressão, síndrome do pânico ou coisa pior. Não ser fiel a você mesmo custa um preço que não dá para pagar. “Mas Sally, todo mundo faz”. Sim. E dá uma olhada em como está a cabeça de todo mundo…

Mas, se já é socialmente autorizado romper com esses “tem que fazer tal coisa”, por qual motivo será que as pessoas não o fazem? Talvez, após décadas escutando o que tem que ser, o que tem que fazer, as pessoas não saibam mais o que realmente são e o que realmente querem. É um grau de desconexão com elas mesmas que as impede de perceber que dá para fazer diferente.

Levadas pela maré do condicionamento social, seguindo uma trilha socialmente imposta que seria o caminho para a felicidade (faculdade + trabalho bem remunerado + casar + ter filhos), a maioria caminha feito gado, sem se dar conta de que podem ir pelo caminho que quiserem e que o único caminho para a felicidade é escutar sua voz interior, seu verdadeiro querer, foda-se o que o resto do mundo vai achar.

E aí vem outro problema, ainda mais grave de solucionar: como sei se o que eu quero é realmente o que eu quero ou se eu só acho que quero isso por uma série de condicionamentos? Te respondo em uma frase: observe seu estado interno. Ele vai te dizer o quanto você está conectado com você mesmo e o quanto seu desejo parte verdadeiramente de você ou é condicionamento.

Você está se sentindo pleno, sereno, completo e com estabilidade emocional? Não tem qualquer problema para relaxar, comer, dormir ou se relacionar? Olha à sua volta, olhe como está a sua vida. Ela é um reflexo do seu estado interno.

Você está de boa ou está ansioso, com problemas no sono, angustiado, estressado, cansado e desanimado? Seu corpo fala. Sua mente fala. Sensações ruins não são “castigo de Deus”, “inveja” ou “macumba”. Sensações ruins são a forma do nosso corpo e mente indicar que o caminho não é por aí. Não devemos ficar putos com elas e sim ser gratos, pois elas são os avisos para mudar de caminho. Escute-as, ou os avisos continuarão.

Então, se você está se sentindo perdido e não sabe bem como sair dessa ciranda do “tem que” (ninguém “tem que” nada), eu te proponho um exercício. Antes de fazer qualquer coisa, se pergunte se você realmente quer isso e por qual motivo você quer isso. Mas não responda racionalmente, em vez disso, observe sua sensação interna e deixe ela te guiar. Faça, nem que seja por uma semana, para experimentar.

Se a sensação interna for ruim (medo, temor, estresse etc) ou se os motivos forem externos (“para não ser demitido”, “para fulano não encher meu saco” etc), o que te move não é o seu querer, são os condicionamentos. Repense estas decisões e procure entender o que você verdadeiramente quer e, aos poucos, coloque em prática planos para viabilizar isso.

Com o tempo, se você fizer este exercício constantemente, isso passará a ser uma nova forma de funcionamento e pode acabar se tornando algo automático. Você passa a operar sempre desse lugar: do seu verdadeiro querer e não daquilo que a sociedade, os amigos, os vizinhos ou seus pais acham que você “tem que” querer/fazer/sentir. E aí, meus queridos, a vida de vocês vai dar um salto qualitativo absurdo.

Comece neste dia das mães, sendo você mãe ou filho. Permita-se sentir que um bando de criança cantando é um saco, que fazer duas horas de fila em um restaurante é uma perda de tempo, que prefere colocar o sono em dia do que socializar com a família. Faça o que tiver vontade de fazer, não o que é esperado que você faça.

Para dizer que eu acabo de arruinar o dia das mães da sua família, para dizer que sente falta de quando meus textos se resumiam a meter o pau em criança por quatro páginas ou ainda para dizer que tudo isso dá muito trabalho e prefere ficar no piloto-automático: sally@desfavor.com

SOMIR

A matéria dá umas escorregadas para o campo da lacração, mas é de se esperar nos dias atuais. Cada tempo tem suas preocupações e discursos, e essa é a mentalidade do tempo. E para quem nos acompanha há tempos ou já se aventurou pelo nosso vasto arquivo de postagens, que estejamos alinhados com vários dos conceitos por trás da onda do politicamente correto atual não é surpresa. O que criticamos aqui é a caricatura ridícula de ideias como liberdade pessoal e defesa de minorias que foi criada pelos ativistas atuais. Então, o texto de hoje pode ser uma boa forma de explicar quem somos para quem entrou aqui por achar que o desfavor é conservador.

Há mais de uma década estamos criticando tradições vazias, moral religiosa (aquela que depende da crença num ser mágico para existir) e convenções sociais sem sentido. E ao contrário do que fazem as vozes mais ativas nos dias atuais, não estamos nessa para implorar por atenção em redes sociais e para “se vingar do papai” como os lacradores e lacradoras de plantão. Quando criticamos modos ultrapassados de pensar, estamos propondo uma outra visão das coisas, de não fazer as coisas no automático e de não banalizar sentimentos. Não é sobre fazer parte de um grupinho para apontar o dedo para o outro, é sobre sermos melhores como pessoas.

E com certeza, não é sobre tratar os outros como se fossem de cristal para não ferir seus sentimentos. Honestidade gera relações mais sólidas e recompensadoras. O ser humano parece treinado para repetir tradições e rituais sem pensar muito no significado deles, como se socialização fosse uma espécie de coreografia que aprendêssemos desde a infância. Não é sobre seguir a música como você a sente, é sobre fazer os passos certos nas horas certas. Sim, estamos falando sobre uma mulher que falou a verdade sobre a chatice de um evento com crianças cantando, mas é muito maior do que isso se você realmente dedicar sua mente ao tema.

A vida humana é cheia de tradições e rituais que aparentemente a maioria das pessoas não entende, só repete. Faz o que o bando faz na expectativa que isso seja a coisa certa, sem gastar seu tempo pensando na função daquilo. Como eu já disse algumas vezes em textos que falam sobre o conceito de moral religiosa, o maior problema disso é que qualquer batida diferente da música deixa as pessoas perdidas nessa coreografia. O ser humano decora formas de lidar com o outro, mas não aprende o motivo. Quando você não consegue internalizar um comportamento e realmente entender sua função, não consegue adaptá-lo a situações diferentes.

Eu já escutei várias vezes de pessoas religiosas algo do tipo: “se você é ateu, o que te impede de sair matando, estuprando e roubando por aí?”. A pessoa nem entende que está basicamente assumindo que faria tudo isso não fosse pelo medo da punição divina. A compreensão do senso moral é tão rasa quanto a de um cachorro que não entra em casa porque sabe que vai apanhar. No fundo eu sei que a maioria das pessoas não faria tudo isso se deixasse de acreditar no seu deus, até porque nossa sociedade ainda existe, mas o tempo dedicado a entender seus comportamentos é tão pequeno que a chance dessa pessoa tomar boas decisões na hora do aperto fica muito pequena. Na cadeia quase todo mundo é evangélico, não?

E isso chega até o tema de hoje: em tese, o amor de mãe é provavelmente o grau mais alto do sentimento possível na humanidade. Na prática, não é todo mundo que alcança esse nível. As formas de lidar com esse sentimento tendem a ser muito rasas, mães e filhos aprendendo a repetir tradições e rituais como substituição ao relacionamento. No final das contas, uma criança berrando uma música que nem entende para a mãe numa plateia é algo vazio e forçado. Podem ter combinações de mãe e filhos que derivam muito prazer e significado disso, mas não é todo mundo que funciona do mesmo jeito. Seres humanos são muito diferentes entre si. Não existe um ritual específico que contemple todos eles.

Quem pensa um pouco percebe que gestos sem sentimento são uma bobagem. Tradições e costumes generalistas – que não levam em conta a relação entre as pessoas presentes – são apenas enfeites. Me arrisco a dizer que tem muito mais amor de verdade numa torcida de futebol cantando o hino do seu time no estádio do que numa performance de crianças forçadas a cantar algo que não entendem para mães que estão lá por obrigação. Amor de mãe é amor individualista, ninguém ama mães que não conhece. E, vamos ser honestos? Tem muita mãe por aí que nem tem capacidade de realizar o sentimento. Porque não quer (e Deus nos livre do aborto legalizado resolver esse problema) ou porque acabou tão brutalizada pela vida que sequer entende como fazê-lo.

Nem preciso me estender sobre o Dia das Mães ser uma data comercial, não? A sociedade humana se aproveita muito dessa dependência de rituais sem sentido para fazer a economia girar. Não é sobre amor, é sobre desovar estoques de eletrodomésticos, chocolates e flores. Na verdade, basta pensar um pouco para ver como ter dia para demonstrar amor é uma piada de mau gosto com o sentimento. Afinal, amor é justamente algo que se constrói no longo prazo. Quem acha que amor pode ser cultivado num dia provavelmente está se remoendo agora por falta dele. Achou piegas? É a verdade. E a verdade não é boa, ruim, digna ou brega, é o que é.

Então, seja quais forem as escolhas políticas da mulher da notícia que ilustrou o texto, nesse ponto ela foi atrás da verdade. A verdade pessoal dela (e sejamos honestos, a verdade que vai ser imposta à criança criada por ela), mais bem pensada que a maioria das outras mães presas à rituais vazios. Ninguém precisa gostar de uma criança fazendo algo mal feito para gostar de uma criança. E ninguém precisa ser exposto a uma tradição irracional para celebrar algo como o amor. Atrás dos chiliques insanos dos lacradores contra a verdade e a honestidade, o pêndulo continua virando para homens e mulheres do mundo todo.

Quando estar à esquerda do pensamento social vigente significava pensar sobre o nosso comportamento e buscar a verdade, podíamos ser chamados de esquerda. Hoje em dia, a verdade ficou à direita da mentalidade dos ativistas mais barulhentos. É nela que queremos ficar. Impossível acertar sempre, mas pelo menos tendo esse objetivo, a chance de se enganar diminui bastante. A verdade está em você e nas suas relações próximas, o resto é consequência.

Para dizer que eu realmente fiquei puto de ser chamado de direita, para dizer que Dia das Mães compensa pelo almoço, ou mesmo para dizer que quem gosta de criança é pai, mãe e pedófilo: somir@desfavor.com

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Comentários (10)

  • É complicado “desconstruir” um estigma social, ou antes mesmo, se livrar dele da noite para o dia quando este parece já estar tão arraigado na sociedade. O problema, por outro lado, é justamente que, quem o faz é xingado, menosprezado ou algo do tipo. Mudanças no comportamento social são lentas e as vezes difíceis de serem assimiladas, mas também produzem bons frutos.

  • Sally, eu nunca conheci uma mãe ou pai que foram na comemoração do respectivo dia na escola por “obrigação social”.

    A gente costuma fazer isso pelos filhos, porque eles se sentem importantes e felizes por nos homenagear.

  • Temos um filho de 10 anos, como a minha esposa não poderia ir na comemoração da escola, ele simplesmente ESCOLHEU não participar. Quando a mãe chegou, fomos em um restaurante ele cantou e dançou para ela e entregou o presente. Do jeito dele, ela adorou. Simples assim.

    Mas acho que cada um tem sua livre escolha, cabe a nós respeitar

  • Essa coisa de “não existem mais pressões sociais” depende do meio onde a pessoa está inserida. Talvez seja mais prevalente em grandes cidades, onde a população é grande e a vida é corrida pra todo mundo, não dá espaço pra ficar dando pitaco na vida alheia, ao contrário de uma cidade pequena onde praticamente todo mundo se conhece. Me lembra da empresa que trabalhei justamente numa metrópole. Entrei lá era cheio de regras de vestimenta, cabelo, etc. Saí de lá 10 anos depois já tinha vários colegas de trabalho com piercing na orelha e no nariz, tatuagem em lugares visiveis, black power… as coisas mudam mesmo.
    Eu arrisco dizer, com base no meio social onde estou, que hoje em dia é mais afrontoso ser cristão, magro, casado, ter filhos e não usar piercing, nem cabelo colorido nem fazer tatuagens, do que o contrário. Isso está virando minoria.

    • Pressão social existe em QUALQUER meio. O que mudou é que hoje há a possibilidade de romper com essa pressão sem arruinar vidas.

  • Já dizia a música “Não se reprima, não se reprima”, hahahaha!
    Como hoje em dia a regra é ser “rebelde” e “desconstruir”, ninguém mais se choca, é mais rebelde não ser rebelde do que ser. Contanto que sejam escolhas pessoais, tá ok.
    Outra coisa legal que vi na notícia é que ultimamente mais e mais escolas andam abandonando o dia dos pais e o dias das mães e unificaram tudo no dia da família, sem nenhuma restrição pra que tipo de família.

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