Região da discórdia.

Claro que vai gerar ofensa, porque hoje em dia é inescapável, mas Sally e Somir decidem mesmo assim fazer um exercício de pensamento sobre o futuro brasileiro. Partindo de premissas não muito distantes, chegam a conclusões bem diferentes. Os impopulares decidem onde ficam.

Tema de hoje: qual região brasileira, caso sumisse do mapa, melhoraria o Brasil como um todo?

SOMIR

Nordeste. Tira o Nordeste do Brasil e o Brasil vai ter que ser diferente, pra melhor. Isso é um exercício de pensamento, então nestas condições, não estamos falando de se separar do resto do país, é simplesmente não existir mais. Imagine um buraco no lugar o oceano avançando. Você pisca e não tem mais nem o lugar nem as pessoas ali.

E aqui eu vou trabalhar com duas possibilidades: na primeira, o Nordeste com suas fronteiras atuais desaparece. O que nos resta? Bom, em primeiro lugar, a grande maioria da economia do país intacta. No final das contas, o polo industrial do país está no Sudeste e produção agrícola e pecuária no Centro-Oeste e Sul. Seja lá para qual planeta ou universo paralelo os nordestinos tenham sido enviados, o PIB brasileiro continua basicamente no mesmo lugar. Perdemos muito de indústria cultural e turística, mas com certeza as novas praias mineiras conseguem recuperar essa capacidade em poucas gerações.

E sim, você que sabe que o Nordeste tem o 3º maior PIB das regiões brasileiras pode argumentar que seria uma queda considerável, mas não se esqueça que é a 2ª região mais populosa. Muito da economia local existe para sustentar a existência deles mesmos, sem influenciar diretamente o resto do país. A região Sul responde pelo 2º maior PIB com muito menos gente e a Centro-Oeste está chegando cada vez mais perto com uma fração da população. Pessoa por pessoa, o Nordeste não é lucrativo para o Brasil.

Especialmente porque a geografia local não combina com desenvolvimento humano. Boa parte da região está num clima semiárido, terrível para plantio e industrialização. O grosso da população e da economia está esmagado numa pequena faixa costeira sem muito o que ajude a sustentar. De um ponto de vista estratégico, fazia sentido ocupar o litoral nordestino, mas colocar tanta gente lá, especialmente escravos africanos importados indiscriminadamente por séculos, foi um erro bizarro (não só do ponto de vista humanitário como econômico-social também).

E salvo algum avanço considerável na tecnologia agrícola, vai ser bem complicado desfazer tudo isso. Os latifúndios locais são grandes demais, mal aproveitados e usados por corruptos para consolidar poder. Não se enganem, o Nordeste continua sendo controlado por coronéis, eles só “legalizaram” a operação criminosa através das eleições. O resto do país é menos corrupto? Claro que não. Mas no Sudeste e no Sul o poder é menos concentrado, os bandidos precisam lutar mais entre si, o que pelo menos gera mudanças e avanços sociais entre as frestas da corrupção.

E todos esses problemas geográficos e humanos do Nordeste fazem com que a região seja uma das menos desenvolvidas do país. Os índices de desenvolvimento humano médios só são comparáveis na terra de ninguém que é a maioria da região Norte. Eu poderia usar um argumento parecido e dizer que sem o Norte o país estaria melhor, mas o Norte é irrelevante no quadro econômico e social geral. Do ponto de vista agrícola, uma floresta tropical é um deserto verde, péssimo para o plantio. Perder o Norte não mudaria muito o Brasil. Mas o Nordeste teria um impacto imediato…

Como existe uma diferença entre o tamanho da população e o PIB na região, fica claro que o resto do país precisa mandar dinheiro para lá. Os programas sociais que mantiveram o PT no poder por quase duas décadas que não me deixam mentir. O Nordeste não tem geografia e desenvolvimento humano suficiente para sair do buraco. Enfiar tanta gente lá foi um erro que só poderia ser desfeito por mágica mesmo. E como mágica é possível no texto de hoje, o problema está desfeito.

O país teria menos bocas para alimentar, menos programas sociais para tocar e ficaria um pouco menos no vermelho. E o bônus seria toda a classe política nordestina desaparecendo do país. Embora não ache que o resto seja composto de gente decente, pelo menos reduziria o número de políticos focados em manter o país subdesenvolvido para acumular poder e riqueza. Isso desequilibraria a balança política nacional decisivamente para a direita, o que não é necessariamente bom, mas pelo menos aumentaria o senso de união desse povo. Eleições nacionais já se tornaram um braço de ferro entre Nordeste e resto do país, e o último refúgio de poder do Lula finalmente acabaria. Talvez uma esquerda livre do lulismo pudesse montar uma ofensiva mais eficiente e ajudar a equilibrar a mentalidade do brasileiro médio restante. A “esquerda nordestina” – tocada por coronéis disfarçados de socialistas – deixaria de ter poder, dando espaço para outras ideias e vertentes ideológicas.

Sem contar que dali pra frente, acabou a desculpa. Não dá mais para o tiozão do WhatsApp dizer que é o Nordeste que está nos afundando. Vai ter que mostrar serviço ou assumir que a região era só um bode expiatório para a incompetência generalizada tupiniquim. O respiro econômico de não ter mais que carregar o fruto da burrice colonial que foi concentrar tanta gente no Nordeste teria que dar em algo ou nos abrir os olhos de uma vez por todas.

Sei que tem muito de gosto pessoal nisso, mas não choraria meia lágrima pela cultura perdida de Frevo, Axé e similares. E mesmo que vocês goste, São Paulo tem nordestino suficiente para tocar essa cultura até o fim dos tempos. A região é uma cagada de desenvolvimento tão grande que nordestinos se espalharam por todo o país para fugir daquilo.

Ah, tem um segundo cenário: como a maioria das pessoas de bom senso deste país, eu considero que o Nordeste começa no Maranhão e termina no Rio de Janeiro. É a mesma mentalidade (com mais armas), a mesma cagada geográfica e o mesmo problema de custo/benefício mesmo considerando que a economia é bem maior. O Rio não vale a vergonha que gera para o país. Se você concorda que o Rio é Nordeste, nem preciso dizer que é impossível não concordar comigo, certo?

Para dizer que eu sou pior que o “Ritler”, para dizer que podia explodir quase tudo e deixar só Fernando de Noronha, ou mesmo para dizer que só pela praia em Minas já está valendo: somir@desfavor.com

SALLY

Qual a região brasileira que, se suprimida, geraria a melhora mais significativa ao país?

Sudeste. No Sudeste está o Rio de Janeiro. Pronto, esta frase bastaria para encerrar meu argumento. Mas, como me é exigido escrever pelo menos duas páginas nesta coluna, vamos aos argumentos complementares.

O Sudeste carrega todo mundo nas costas. Tira a região Sudeste e todo o resto vai ter que correr atrás com força. Talvez seja a única forma de fazer essas pessoas saírem da zona de conforto: extrema necessidade.

Se a região Sudeste sumisse, acho que a primeira providência da região Sul seria finalmente se separar do resto do país (certíssimos). Seria isso ou assumir o papel de provedor, algo muito difícil por sua localização e dimensões. E, na real, não creio que o Sul tope carregar o resto do país nas costas.

Norte, Nordeste e Centro-Oeste só não tem status de país rudimentar, estilo Suriname ou Guiana, pela fama do Sudeste, que predomina internacionalmente. Norte é conhecido como mato exótico, Nordeste como praia rudimentar para turismo sexual e Centro-Oeste nem se sabe que existe. Imagina brasileiro ter que lidar com essa perspectiva, em vez de ser visto como um país próspero e promissor?

Viraria uma republiqueta das bananas, perdendo o pouco prestígio que ainda tem. Teria que se desenvolver, se industrializar, qualificar mão de obra e, acima de tudo, as pessoas teriam que aprender de uma vez por todas a trabalhar direito: com foco, pontualidade, produtividade. Seria uma belíssima lição, quase que uma mamãe cortando a mesada de um filho de 40 anos que ainda não consegue se sustentar.

As outras regiões têm recursos naturais, poderiam ser ricas e produtivas. Mas, por comodismo ou incompetência, tudo que gera lucro e status para o Brasil acaba passando pelo Sudeste, nem que seja para administração, para se tornar algo significativo. Sudeste é o irmão rico que banca os outros irmãos que vivem na praia e na balada. Se o irmão rico morre, os outros são obrigados a correr atrás.

E não é apenas por uma questão de status, é sobrevivência mesmo. Querem viver com fartura de tecnologia? Querem internet rápida para o iphone? Querem continuar postando foto brega em rede social? Adivinha só, terão que se responsabilizar por isso. São Paulo não vai mais fazer. Será necessária uma mudança radical de pensamento e postura, pois se continuarem levando a vida com essa mentalidade provinciana, descansada e amarrando cachorro com linguiça, vão viver nas trevas, pois nem luz elétrica conseguirão ter.

Exterminar o Sudeste do mapa traria um choque de realidade muito bom para o país: Sul cairia em si que está melhor se for anexado ao Uruguai e o resto teria que correr atrás de providenciar tudo que sempre consumiu fazendo de conta que contribuía para produzir. Todo o mindset teria que mudar (e rapidamente) se não passariam por sérias privações.

É que não basta ter recursos ou possuir infraestrutura, é a mentalidade que tem que mudar. Seriedade, estudo aprofundado, competência e produtividade. O resto do país seria forçado a amadurecer, pois sua realidade dependeria exclusivamente deles. Boa sorte tentando ir para a região Sul para fugir do subdesenvolvimento da sua região: não cabe mais ninguém e certamente não serão bem recebidos. Seria correr atrás ou viver no atraso.

E se o resultado final fosse ficar no atraso, bem, teríamos um país coerente com sua postura. Que fiquem no atraso e sintam as consequências de não ter foco, disciplina e senso de sacrifício. Quem sabe algumas privações de conforto sirvam como motivador a longo prazo, permitindo que finalmente se abandone um estilo de vida vitimista, uma política assistencialista e coroneslista. Se não, que vivam para sempre em coerência com suas posturas: na precariedade.

Qualquer coisa é melhor do que poucos se esforçando e muitos usufruindo. Prefiro todos se esforçando e usufruindo ou ninguém se esforçando e todos na merda. Por mais que supostamente piore a qualidade de vida do país, ao menos haverá justiça.

Acho que estamos todos de saco realmente cheio desse papo de “coitadinhos dos fulanos de tal região, eles não têm condições, precisamos fazer por eles”. Tem condições sim, cacete. Só precisam de algo que os obrigue a se mexer e que desapareçam essas pessoas-Sudeste, que validam esse pensamento vira-lata de incapacidade.

O Sudeste tem sua parcela de responsabilidade pela manutenção desse estado primitivo das outras regiões: reforça de todas as formas possíveis o estereotipo de incompetência e despreparo, criando uma falsa normalidade, que impede os irmãozinhos de evoluir. Colocaram o resto como incapazes e deram aval para que eles se acomodem.

Já está estabelecido que o Sudeste é provedor e os outros são os irmãos parasitas, vemos isso em novelas, em livros, na forma como as notícias são apresentadas. Está em tudo: na forma como se trata essas pessoas, no que se espera dessas pessoas e no que se cobra dessas pessoas. É difícil romper com isso, exterminar o Sudeste seria uma oportunidade de ouro.

Hora de cortar a mesada dos irmãos incompetentes, para que eles sejam obrigados a se mexer e descobrir que podem sim ser competentes.

Para dizer que está confuso sobre quem eu ofendi mais com este texto, para dizer que a solução é implodir o Brasil todo ou ainda para dizer que talvez este seja um dos poucos lugares onde se pode defender abertamente o desaparecimento do Nordeste: sally@desfavor.com

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Comentários (21)

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    thainá da amazônia

    Infelizmente a dimensão territorial maior do que o decentemente controlável e o favorecimento histórico do Sudeste fizeram com que esse fosse o retrato atual do Brasil: Norte praticamente irrelevante cujo o único destaque é a floresta Amazônica que por ser tão distante do início do povoamente não houve tempo de desmatar completamente e quando se deram conta o sentimento de proteção já havia se apoderado de todo mundo, Nordeste nem preciso falar nada, Centro-Oeste abrigando a capital numa tentativa inútil de não concentrar tanto a política no Sudeste, que já era detentora de todo o favorecimento econômico e que atualmente sofre de extremo inchaço populacional por ser a região que se encontra em melhor desenvolvimento (de novo: favorecimento histórico) e o Sul, brancos, ricos e com sentimento de pertencimento europeu cujo sangue jamais deve ser misturado.

    • A geografia definiu o Brasil. Onde tinha terra “fácil” pra plantar e ouro, acumulou gente. Eu só não se dá muito para falar de “sangue puro” no Brasil. Não sei de outro país no mundo tão misturado quanto o nosso.

  • Tirando um pouco de lado a utopia dos textos no tocante as possíveis soluções, a incompetência é geral, a começar pelo sudeste, teoricamente o centro dinâmico, financeiro, de ideias inovadoras e de decisões do país, pela sua incapacidade em tornar as outras regiões mais dinâmicas e desenvolvidas, o norte e o nordeste especificamente, também por incompetência, a continuarem presos aos velhos vícios que caracterizam o subdesenvolvimento, embora essas características estejam presentes em todo o país, no nordeste é mais gritante.

  • Concordo com o Somir. Mas o argumento da Sally de que se o Sudeste sumisse o resto do Brasil teria que aprender a andar com as próprias pernas quase me fez mudar de opinião. Mas eu temo que aquela história de que só se aprende a nadar quando a água já está batendo na bunda infelizmente não se aplique ao Nordeste…

  • Nordeste. Tire o sudeste e os baianos continuarão migrando para as cidades mais ricas e desenvolvidas das outras regiões.

  • Mesmo sem todos os vários argumentos do Somir, bastava dizer que a maioria do Nordeste vai na contramão do país em toda eleição, podia ir parar em Setealem sem volta. O Nordeste no mínimo tinha que se separar do Brasil e instaurar o governo petista que eles tanto amam!

  • Se vocês são “ritler” quero ver o que eu vou ser, mas por mim podia ser assim: divide o país e bota crentes dum lado e quem não é crentaiada do outro. O segundo lugar inevitavelmente será melhor que o primeiro em qualquer aspecto, pouco importando se os não-crentes ficariam com sul, norte, com o que quer que seja. Sim, minha ideia é ainda mais fantasiosa, mas que seria perfeito, seria…. Ainda posso sonhar.

  • Brasília. Descentralizem o governo, cada região que mande em sua vida a partir de uma nova constituição. Crie-se um mercado comum e um acordo de cidadania. Assim como a União Europeia, cada região seria parte de uma comunidade geral, com princípios norteadores para as relações inter-regionais. Aí ninguém afunda ninguém. No máximo, um percentual do PIB de cada região para promover desenvolvimento nas regiões mais pobres, por um período limitado (vinte anos). De República Federativa do Brasil, seríamos União Macro-regional Brasileira (Brasil do Norte, Brasil do Sudeste, etc.). Se um deles quiser ser socialista e quebrar, dane-se. Os moradores descontentes migram e a região falida é anexada.

  • Os nordestinos são historicamente azarados mesmo (nordestino falando), apesar de um dia ter sido uma região muito rica. Não bastasse os já mencionados problemas geográficos e sociais, os colonizadores holandeses foram expulsos e não tiveram tempo de deixar uma melhora no QI e na aparência do nordestino médio, depois veio aquela família real parasita pra desviar os recursos pra se sustentarem no sudeste e os movimentos separatistas em revolta a isso foram todos reprimidos…
    Mas discordo dessa corrente separatista, seja no sul ou no sudeste. Mesmo se separatismo tivesse dado certo por aqui, o único efeito seria aumentar a quantidade de países da América do sul, mas seriam todos shitholes à sua maneira, só ver o exemplo da América hispânica. O Norte seria o shithole dos índios (Bolívia), o nordeste o shithole socialista (Venezuela), o centro-oeste o shithole do tráfico de drogas (Paraguai) e o sul seria o shithole metido a europeu (Argentina) e ainda teria uma enorme colônia de muçulmanos pra lidar, e já foi comprovado que entre eles tem gente ligada ao Hamas.

    Por isso, vou ser do contra e falar que não faria diferença o sumiço de nenhum dos dois. Na política, o nordeste vota no Lula, mas o sudeste vota no Frota, Tiririca, Brizola e Doria. Se o nordeste sumisse, o bode expiatório seria o Norte, que ainda tem alguns estados vermelhos. Se o sudeste sumisse, é mais provável esse povo egocêntrico e malandro se dividir ainda mais por causa dos problemas econômicos e divergências político-ideológicas e serem anexados pelos vizinhos. Não boto fé no brasileiro em batalhar pelo desenvolvimento.

  • O sudeste pelo simples fato de que essa desgraça é a porta de entrada de toda a cultura da lacração hipster que se espalha pelo Brasil feito enxame de gafanhotos. O único atrativo do sudeste é o dinheiro, fora isso, nem cultura direito tem (funk? imigrantes asiáticos?), é tudo copiado e importado dos Estados Unidos. As particularidades das outras regiões são atrativos turísticos em potencial. Além disso, o sumiço do sudeste iria incentivar a distribuição populacional, e o desenvolvimento das novas cidades ocupadas, em vez de todo mundo migrar e se espremer na mesma metrópole.
    E o argumento da Sally sobre as outras regiões tomarem vergonha na cara e andarem com as próprias pernas também me convenceu. O choque gera o desenvolvimento.

  • Nessa eu vou ficar com o Somir e, se me permitem, vou adicionar até um argumento: O MALDITO SOTAQUE DO NORDESTINO

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