Tardígrado.

Um animal que está no planeta há cerca de 530 milhões de anos. Sobrevivem a temperaturas extremas, variações de pressão, privação de ar, de água, de alimentos, radiação, e todo tipo de intempérie. É a criatura mais resistente de que se tem conhecimento. Conheça o Chuck Norris dos animais: Desfavor Explica – Tardígrados.

O nome “Tardígrado” significa “aquele que se move de forma lenta”. Faz sentido, se você procurar um vídeo deste animal de fato parece que ele está se mexendo em slow motion. Este bichinho também é chamado de “Urso d´água”, por sua aparência (são gordinhos e suas patinhas têm garras) e pela forma lenta como se movem.

Eles são muito pequenos, os maiores medem no máximo 1 mm, por isso, apesar de possível, é muito difícil vê-los a olho nu. Em tese, são animais aquáticos, mas na prática estão por toda parte: desde geleiras, vulcões até, quem sabe, na sua casa. Como vocês podem ver pela foto, o Tardígrado parece um pet do bonequinho da Michelin. Eles têm um corpo cilíndrico, com quatro pares de patas curtas, grossas e com garrinhas. Para completar, possuem uma mini tromba retrátil.

No quadro evolucionário, estão mais para o lado dos os anelídeos (minhocas) do que dos artrópodes (todos os outros animais). Estima-se que ele seja um ancestral das baratas e dos camarões. Hoje, existem mais de 800 espécies de Tardígrados no planeta, capazes de se adaptar à vida em qualquer ambiente. Por qual motivo falar desse bicho estranho? Eles são mestres em sobrevivência. Mais ninguém no nosso planeta faz o que o Tardígrado faz.

Eles são mestres na sobrevivência até na forma como procriam: o Tardígrado concebe e põe seus ovos em uma só operação (papo técnico: partenogênese). Reproduzem quando querem, não dependem de outro Tardígrado, pois os ovos não precisam ser fertilizados. Eles colocam os ovos e, apenas três horas depois, já saem os baby Tradígrados. Isso é um bom começo para explicar o porquê eles estão por todos os lados.

Os Tardígrados bebês já nascem completamente formados, isto é, não produzem novas células ao crescer, as células existentes apenas expandem (papo técnico: hipertrofia) e eles apenas trocam de pele, para comportar seu novo tamanho.

Sua expectativa de vida varia entre 3 meses a dois anos, mas podem ficar por décadas em um processo de “hibernação”, ou, para ser mais precisa, de “vida suspensa”, no qual suspendem seu metabolismo (papo técnico: criptobiose) e ficam em standby esperando condições ambientes mais favoráveis. Há relatos de Tardígrados que ficaram 30 anos “hibernando” e depois acordaram como se nada.

Quando o Tardígrado sente que o ambiente está hostil, ele se enrola, formando uma bolinha, e começa um processo de desidratação voluntária, onde elimina a maior parte de água do seu corpo. Isso o deixa duro como um vidro (assim fica mais resistente caso seja levado pelo vento ou transportado no corpo de algum animal) e paralisa seu metabolismo, entrando em um estado de latência.

Mal comparando, é como se ele pudesse “pausar sua vida” quando as condições externas estiverem ruins o suficiente para matá-lo e depois retomá-la, quando o ambiente estivesse mais agradável. Sim, além de ser o Chuck Norris dos animais, ele também é o Jesus Cristo: anda pelas águas, “morre” e volta.

Podem sobreviver a temperaturas superiores a 150°C, ou seja, jogar um Tardígrado em água fervente é só um banho quente para ele. Eles conseguem essa proeza graças à capacidade de trocar a água que existe no interior das suas células por um açúcar (papo técnico: trialose), que não esquenta de forma tão rápida quanto a água. Assim, eles garantem que seu corpo continue frio no interior, mesmo que estejam em um ambiente muito quente, impedindo que a temperatura externa de causar danos (papo técnico: destruir as membranas celulares).

Também sobrevivem em temperaturas baixas, mas muito baixas mesmo: sobrevivem a -272°C, quase o “zero absoluto”, a temperatura na qual qualquer matéria para de se mexer. Em nenhum lugar do planeta Terra as temperaturas chegam nesses extremos de calor ou frio, portanto, é possível dizer que o Tardígrado sobrevive de boa em vulcões ou geleiras, literalmente não tem tempo ruim para este animal.

Ele sobrevive ao frio graças a um mecanismo curioso: seu corpo vai secretando água até deixar o bichinho desidratado (o percentual corporal de água cai de 85% para 3%), para que eles não explodam quando a água que existe no seu corpo congelar (água expande quando congelada, basta olhar para a forminha de gelo no seu congelador). Também secretam uma proteína que acelera o congelamento e a depositam no ambiente. Ela faz a água solidificar à sua volta, afastando das células os cristais de gelo que ameaçam romper suas membranas.

Pressão também não abala os Tardígrados. Eles suportam sem problema até 6000 atmosferas (atmosfera = unidade de medida de pressão). Talvez você não tenha uma noção do que isso significa, então, só para comparar, um ser humano aguenta de boa, sem maiores consequências, até 4 atmosferas. Os Tardígrados se enrolam, virando uma bolinha, reduzindo a área total do seu corpo. Quando mais se encolhem, mais difícil fica comprimi-los.

Talvez você ainda não tenha ideia do tanto de pressão que estes bichinhos suportam: 6000 atmosferas é quase seis vezes mais pressão do que existe nas Fossas das Marianas, a parte mais profunda do oceano. Então, no que depender de pressão, o Tardígrado pode viver em basicamente qualquer parte do planeta. Ou fora dele.

São igualmente bons em situações de baixa pressão, sobrevivem inclusive no vácuo do espaço. Repito: no vácuo. Eles não levaram muito crédito por isso, mas foram os primeiros animais a sobreviver no espaço. Mais: em 2007, um satélite da Agência Espacial Europeia lançou milhares de Tardígrados do espaço (o projeto ficou conhecido como Tardis – Tardígrados no espaço) e comprovou-se que os animais foram capazes não só de sobreviver mas também de reproduzir ao retornar à Terra, ou seja, voltaram vivos e com suas funções preservadas.

Os bichinhos também são muito resistentes a radiação. Sabe aquela conversa de que se houver um acidente nuclear só as baratas sobrevivem? Pois é, na verdade quem sobrevive são os Tardígrados, que tem uma resistência à radiação cerca de mil vezes maior do que os animais normais. Só morrem se forem expostos a mais de 5000 grays (unidade de medida de radiação) de raios gama ou 6200 de íons pesados.

Para que você tenha uma ideia da resistência que eles têm, o ser humano pode morrer se for exposto a apenas 5 grays, ou seja eles suportam mil vezes mais radiação do que nós. Os Tardígrados conseguem isso através de um mecanismo que, simplificando grosseiramente, “desativa seu DNA”, reativando-o apenas quando o perigo já passou.

De tempos em tempos o planeta Terra faz uma faxina e promove grandes eventos que geram extinção em massa de seus habitantes. O mais conhecido foi o meteoro que teria acabado com os dinossauros (papo técnico: extinção cretáceo terciária), mas, pelo que se sabe, já tivemos ao menos cinco grandes eventos desse tipo, que “resetam” a vida no planeta. Tardígrado é o único animal que sobreviveu aos cinco. Provavelmente, ao contrário dos humanos, sobreviverão ao próximo também.

Apesar de serem animais aquáticos, podem sobreviver sem uma gota de água por décadas. Cientistas já viram Tardígrados que ficaram 120 anos sem água sobreviver e “voltar à vida” quando expostos novamente ao líquido. Até onde se sabe, a única forma de matar um Tardígrado seria acabar com toda a água por muitos, muitos anos ou jogar uma quantidade de radiação violentíssima neles.

Esta resistência extraordinária dos Tardígrados chama a atenção da comunidade científica. Percebam que os limites mínimos e máximos que eles suportam estão muito acima do que o planeta Terra apresenta e do que os animais terrestres podem suportar. Seja em temperatura, pressão ou radiação, eles estão muito mais preparados do que o necessário para viver na Terra.

Esta discrepância faz com que muitos cientistas acreditem que os Tardígrados não são nativos da Terra, que vieram de um planeta mais inóspito, talvez através de um asteroide que tenha colidido com a Terra muito tempo atrás. Seria decepcionante descobrir que nosso primeiro contato com vida alienígena foi com umas “amebinhas” aquáticas? Seria. Mas é uma possibilidade. Eles teriam condições de sobreviver em outros planetas (poderiam, por exemplo, sobreviver em Marte), portanto, seria plausível cogitar que tenham vindo de lá.

A explicação para esta enorme resistência dos Tardígrados está em um mecanismo de proteção do seu DNA combinado e na capacidade de parar todo seu organismo e funções internas com a capacidade de reviver novamente quando as condições estiverem favoráveis (papo técnico: criodessecação).

Graças a essas habilidades, o Tardigrado vem sendo muito estudado, pois pode ser a resposta para salvar o nosso DNA de danos ou possibilitar a criogenia (congelar um ser humanos e descongelá-lo anos depois).

Durante muito tempo se acreditava que a radiação danificava o DNA dos Tardígrados e que, de alguma forma, eles teriam a capacidade de restaurá-lo. Mas, uma equipe de cientistas japoneses investigou a fundo o genoma da Ramazzottius varieornatus, uma das espécies mais resistentes de Tardígrados, e descobriu que é ainda melhor do que isso: a radiação nem chega a afetar o DNA dos bichinhos.

O segredo está em uma proteína batizada de “Supressora de Danos”, ou “DSUP” (abreviação para “supressora de danos” em inglês) para os íntimos, que cria um escudo em torno do DNA, evitando que o código genético sofra com a radiação. É uma espécie de blindagem, muito funcional.

A proteína, quando ativada, “embrulha” o Tardígrado, como uma espécie de casulo, sem interromper as funções básicas do DNA, como a reprodução das células. Ou seja, protege sem inutilizar. É a primeira vez que a ciência encontra, no mundo animal, um escudo genético tão poderoso quanto esse. Nenhum outro animal é capaz de produzir esta proteína ou qualquer coisa parecida.

A boa notícia é que talvez ela possa beneficiar humanos. Estes mesmos cientistas testaram essa proteína protetora em células de rins humanos e perceberam que houve uma redução entre 40% e 50% nos danos causados pela radiação nas células que estavam com esse “escudo proteico” ativado. Vamos comemorar, é possível adaptar “poderes Tardígrados” para humanos. Os estudos estão apenas começando, mas os resultados parecem promissores!

É um primeiro passo importante para blindar o ser humano contra radiação, algo que traria ganhos individuais (proteger quem trabalha com radiação ou quem é exposto a ela como tratamento) como coletivo (permitiria blindar pessoas para viagens espaciais a locais inóspitos, por exemplo).

Outro estudo vem tentando simular o estado de latência dos Tardígrados para permitir que vacinas vivas sejam distribuídas em todo o mundo e armazenadas sem refrigeração. Também se acredita que se dominarmos o funcionamento de genes como o DSUP, será possível viabilizar o armazenamento e transporte mais seguro e fácil de células humanas, protegendo, por exemplo, delicados enxertos de pele humana de qualquer dano.

A partir do momento em que descobrimos que dá para emular em humanos as capacidades deste bichinho, as possibilidades são infinitas. Temos muito a aprender sobre o Tardígrado e com o Tardígrado. Guardem este nome, importantes avanços da humanidade podem vir dele.

Para dizer que o ser humano é um bicho merda e os Tardígrados são fodas, para dizer que é uma injustiça que esse bicho não seja famoso ou ainda para dizer que apesar dos predicados ele é bem nojento: sally@desfavor.com

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