Acredite se puder.

Meio difícil não abordar esse assunto, mas ao mesmo tempo, muito difícil abordar esse assunto: a acusação de estupro recebida por Neymar. Dependendo do avanço do caso, pode até virar Desfavor da Semana, mas neste momento estamos numa área cinza esperando mais desenvolvimentos no caso. Só que isso não impede uma análise mais geral sobre a dúvida que parece pairar sobre a sociedade atual: como lidar com uma acusação de estupro?

A indústria da lacração já se decidiu. Nessa visão de mundo, a partir do momento que uma mulher (ou outra classe protegida como gays e transexuais) afirma que foi estuprada, não há mais volta. Como quase tudo o que cerca a mentalidade desse grupo, há uma forma de dizer isso para passar a impressão de nobreza, no caso seria “acredite na mulher”. Como se o principal problema nesse caso fosse a tendência da sociedade de ignorar acusações de mulheres e a forma de lidar com isso fosse levar a sério toda e qualquer denúncia. Parece justo, não? É como se dissessem que só querem que investiguemos os casos sem pré-julgamentos.

Mas na prática, a teoria é outra: o ato de acreditar na mulher não significa exatamente querer uma investigação, e sim presumir a culpa do acusado. Alguns vão ao extremo de dizer que todo homem é estuprador, que isso é parte integrante da relação entre os sexos e que tecnicamente a mulher sempre vai estar certa ao acusar um homem desse crime, afinal, é inerente ao processo. O estupro deixa de ser um crime específico e passa a ser a norma de uma relação sexual baseada na diferença de poder entre opressor e oprimida. Nesse contexto, é quase como se estivessem imputando uma espécie de pecado original ao homem, algo que é culpado só por existir. Nesse mundinho, é mera liberalidade da mulher NÃO acusar o homem: enquanto a mulher não tiver exatamente o mesmo poder que o homem na sociedade, não há como existir o consentimento.

Você pode estar achando que eu estou maluco de presumir que é assim que a turma do lacre pensa, afinal, ninguém se expressa dessa forma. Há um fundo de verdade na sua desconfiança: estou referenciando teorias feministas radicais das quais a imensa maioria do exército do politicamente correto nunca ficou sabendo. Pudera, estão em livros e dissertações complexas, fora do alcance ou do interesse do usuário médio de redes sociais. Mas, ainda sim formam a base da versão simplificada que é utilizada nos dias atuais. Mais ou menos como dizer que é óbvio que boa parte dos integrantes do MST nunca leu o Karl Marx, mas segue preceitos definidos por ele.

E mantendo esse paralelo, da mesma forma que simpatizo com algumas ideias do manifesto comunista sem desejar sua aplicação sequer parcial, simpatizo com algumas ideias desse feminismo moderno, mas considero o caminho para o qual quer levar a sociedade horrendo: um mundo de guerras civis entre gêneros onde só pode haver um vencedor. Para as feministas radicais, o atual vencedor dessa disputa pelo poder é o homem e a única alternativa é inverter os papéis de opressor e oprimido. Não à toa mantenho que qualquer movimento com uma subdivisão no nome é danoso para a sociedade: machismo e feminismo são dois lados de uma mesma moeda não pela sua aplicação atual, mas pelo destino ao qual pretendem levar a sociedade.

Acreditar na mulher deveria ser uma medida de justiça, mas no contexto da cultura feminista moderna, é basicamente tratar todo homem como estuprador. Não é sobre justiça, é sobre gerar poder absoluto para as mulheres e transformar homens em cidadãos de segunda classe quando o tema é sexo. É só uma forma bonita de dizer “culpe o homem”. Então, para continuar acreditando nas mulheres de verdade, o ideal é ignorar essa visão lacradora das coisas, porque ela presume que uma mulher possa mentir sobre estupro quando quiser para punir o homem. Baseado em vingança, não em justiça.

Dito isso: não se pode negar que ir no sentido oposto e não acreditar na mulher por definição também é um desastre. E diante do aumento da força desse feminismo dogmático baseado na culpa inerente do homem, muitos homens correram na direção oposta. Já fiz texto sobre os incels, sobre o movimento MGTOW, não é novidade aqui no desfavor: tem muito homem “saindo do mercado” porque não consegue ou não quer mais lidar com mulheres. Como a via da opressão às mulheres passou a ser combatida com muito mais afinco, gente incapaz de negociar ficou apenas com a via da fuga ainda disponível. E é aqui que surge o movimento oposto: a mulher sempre tem culpa. Nada melhor para tirar sua capacidade de empatia com outro ser humano do que se afastar dele.

E novamente, não é tão simples quanto parece: quem trata a acusadora como mentirosa por definição está novamente enxergando esse mundo de opressores e oprimidos. Como se tivesse internalizado que o outro sempre vai abusar de qualquer poder adquirido. Quando olhamos para estatísticas de estupros contra mulheres, vemos que a grande maioria é realizada por pessoas conhecidas, especialmente parentes ou cônjuges. A ideia clássica do estuprador atacando uma mulher desconhecida na rua não corresponde à grande maioria dos casos. E é nessa relação prévia entre as partes que vai surgindo a desconfiança: mulheres são seres humanos, seres humanos vivem tendo problemas uns com os outros, seres humanos vivem fazendo sexo uns com os outros.

Para quem parte do princípio que as mulheres estão mentindo na maioria dos casos, isso é um bom indicador que mulheres estão usando o fato da cultura atual levar mais a sério as acusações como uma arma. Você pode ler frases do tipo “ele me estuprou é o novo ele não me ligou no dia seguinte” em vários sites de defesa dos direitos masculinos. É extremamente perigoso fazer generalizações desse tipo. Não porque não existam mulheres assim, infelizmente existem, mas porque começa a tirar a humanidade de metade da população mundial. Da mesma forma como existem feministas radicais, pode apostar que existem machistas radicais. Gente que diz que estupro não existe porque mulher é propriedade. Porque mulher não sabe o que quer, porque é o único jeito de mantê-las na linha…

E embora eu realmente acredite que grupos como o MGTOW não partilhem dessa mentalidade em sua imensa maioria, é novamente a questão do “poço envenenado” de onde estão bebendo. Lacradores tiram suas visões de mundo de versões açucaradas de um misto de marxismo cultural com feminismo radical da mesma forma que esse povo tira sua visão de mundo de uma versão filtrada de um conservadorismo que flerta demais com ideologias de repressão de liberdades individuais. O que ambos os lados dessa moeda têm em comum é uma visão simplista da dinâmica social humana: é tudo um jogo baseado em grupos e não em indivíduos. Todos dizem que tem uma solução perfeita para o resto das pessoas, doa o que doer.

Acreditar ou não na mulher dentro desse embate cultural já não tem mais a ver com o caso estudado. Vira posicionamento político, uma forma de empurrar sua ideologia para frente. E com o perdão da expressão e do trocadilho: foda-se o estupro. Estou batendo nos dois lados mesmo sabendo que vão me achar “isentão”, que achem, porque eu acredito que expliquei de forma detalhada o meu ponto de vista aqui: que eu não quero ir para nenhum dos dois lados oferecidos. Os dois desumanizam. Os dois esquecem das pessoas e o que acontece com elas no meio desse jogo político. Eu sou uma pessoa, eu quero o melhor para mim e para as pessoas que me importam, e não o melhor para uma ideologia.

Eu não quero um amigo meu perdendo tudo por uma acusação falsa e não quero uma amiga minha tendo um estuprador impune na vida. Eu quero justiça, eu quero a via mais difícil de analisar caso a caso e deixar ideologias de lado para permitir que essa justiça aconteça. Tem que acreditar na mulher e acreditar no homem. No hetero e no gay, no branco e no negro… no acusador e no acusado. Porque todos eles fazem parte do mesmo grupo: o grupo humano. Por que vocês acham que desenvolvemos instituições como o Judiciário? Porque descobrimos a duras penas que julgar pessoas antes de saber dos fatos impede a evolução de uma sociedade. Piora tanto a qualidade de vida que o incentivo para fazer melhor fica extremamente limitado. Mentalidade tribal como a que estão doidos para reinstituir foi importante para começar a humanidade, mas claramente ficou obsoleta com o passar dos milênios.

Não podemos voltar para ela. Acredite em nós.

Para dizer que quem deveria entender isso jamais vai ler, para dizer que leu e não entendeu, ou mesmo para me chamar de isentão: somir@desfavor.com

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Comentários (36)

  • A lógica das feministas e machistas parece meio que “Se determinado grupo comete tais arbitrariedades então deve-se haver medidas quanto a esse grupo e infelizmente os inocentes pagarão por isso”. Tipo o que a Sally falou sobre imigração uma vez “Se os muçulmanos praticam crimes nos países que imigraram, então tem que haver medidas restritivas a eles, infelizmente com os islâmicos pagando por isso.

    • Existe uma diferença gritante: entrar no país dos outros e se recusar a se adaptar à cultura local. Problemas entre homens e mulheres são inerentes à sociedade e ocorrem de ambos os lados. Muçulmano indo barbarizar a população de outro país foi unilateral.

  • Para mim, a parte mais hilária disso tudo é ver a cobertura jornalística da Globo sobre o tema.
    Me acabo de rir ao ver aquele pessoal lendo conversas comprometedoras de WhatsApp (também conhecido como “uma rede social”), enquanto tentam fingir que ainda estão em um programa sério. Imagino que isso é o mais próximo de um equivalente da Globo daqueles programas de baixaria estilo “Casos de Família” ou daqueles programas de fuxico. E simplesmente não tem preço…
    .

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    Geraldo Renato da Silva

    Podem chamar de teoria da conspiração, mas o fato é que que tudo isto está muito estranho. Tudo bem que a mulher queria aparecer, virar subcelebridade, mas sabia que isso seria uma grande burrice e que iria fugir ao controle dela. Garoto Ney está jogando nada e foi comprado a peso de ouro… Não sei, acredito que isto é coisa de gente altamente preparada e que deseja ele bem longe da Cidade Luz.
    E podem escrever que, em 2020, ele estará jogando num clube do Brasil, preferencialmente no Flamengo ou no Corinthians, especialistas em contratar jogadores decadentes.

  • VÍDEO DE ENCONTRO EM PARIS ENTRE NEYMAR E “MODELO” QUE O ACUSA DE ESTUPRO TEM CENAS DE BRIGA EM QUARTO DE HOTEL:
    https://extra.globo.com/esporte/trecho-de-video-mostra-segundo-encontro-em-paris-quando-modelo-acusa-neymar-de-agressao-no-dia-anterior-23720731.html

    ANTES IRRELEVANTE, VIDEO-CLIPE DE PAGODE COM MULHER QUE ACUSA NEYMAR DE ESTUPRO TEM AUMENTO ASSOMBROSO DE VISUALIZAÇÕES NO YOUTUBE:
    https://extra.globo.com/esporte/clipe-com-mulher-que-acusa-neymar-explode-no-youtube-apos-denuncia-23721464.html

    • Eu assisti o primeiro vídeo e tudo que consegui pensar foi:
      “Essa porra parece tão incrivelmente forjada…”

      Não gosto e nunca gostei do Neymar, mas tá difícil de acreditar nessa mulher. E aqui é um dos poucos lugares onde dá pra dizer isso tranquilamente, sem ter que se preocupar com histeria do povo.

  • Fosse eu mulher, encheria de tapas essa “cidadã”, que contribui para desmoralizar (ainda mais) as denúncias de estupro. Como homem, cada vez mais desprezo Neymar e aquilo que ele está fazendo com sua vida.

  • Somir, independente do caso em si e toda essa discussão, fiquei me perguntando aqui se não há certa estratégia de marketing por trás disso tudo em relação à imagem do Neymar. O que tu acha? Ou é uma forma errada de pensar assim?
    Por que é aquela coisa, faz tempo que ele não estava nas mídias, sendo comentado por todos e envolvido em tantos bafafás. Me pareceu, por um breve momento, aquele tal do “falem de mim, mas falem!”, afinal, é importante ele estar aí na mídia.

  • Nem gosto do Neymar, mas não consigo acreditar nessa mulher que o acusou de estupro. Talvez seja por esse assunto infelizmente estar banalizado e por ter mulher oportunista aos montes por aí. Vai saber…

    Enfim, também estou de acordo com o que foi escrito. Pena que é aquele tipo de texto que a maioria não vai ler e se ler vão dizer que foi um “isentão” que escreveu, porque hoje em dia é mais fácil “abraçar” qualquer um dos lados sem ter qualquer senso crítico (aquele meme “gado demais” cai como uma luva pra essa gente).

    • Acho que está na hora de deixar esse espectro político menos bidimensional. Quando me perguntarem se eu sou de esquerda ou direita, eu vou dizer que sou de frente porque cansei de andar em círculos.

  • Parabéns pelo texto, Somir. “Quem deveria entender isso jamais vai ler”, realmente.
    Cansativo viver nesse clima bélico atual, sempre com dois “times” e com a necessidade de sempre ter um posicionamento de tudo, até mesmo do que realmente ocorreu dentro de um quarto, entre duas pessoas, em outro país.

  • Se o tempo mostrar que estou errada, retiro humildemente o que disse, mas levando em conta o que temos até agora a minha conclusão e: a mulher é uma pistoleira que tentou filmar a foda pra chantagear ele e quando não conseguiu nada cumpriu a ameaça, ou tava crente que o Neymerda ia assumir, ela ia lançar a carreira de suuuuuubcelebridade oficialmente mas quando viu que ele só ia comer na surdina e descartar ficou com raiva e se vingou. Porque pros advogados ela disse que foi agredida mas o sexo consensual, chegou na delegacia e falou que foi estupro. Os advogados dela até largaram o caso porque ela mentiu (e também porque o Neymerda pai pode ter dado dinheiro, mas isso não anula o resto). E com tudo isso exposto a lacrolândia ainda quer que ele pague por crime de estupro, que se foda a qualquer preço só porque não votou no político deles. E agora usam essa lógica com todo mundo, principalmente se tiver alguma característica opressora, como riqueza, piroca ou é “bolsominion”.

    • Eu resolvi escrever o texto justamente por ter pensado a mesma coisa que você. Foi um sinal amarelo. É sempre um risco cair numa armadilha nesses tempos de politização compulsiva. Faz sentido, mas é presumir muita coisa.

      Mas, realmente, tudo isso teria muito menos proporção se ele tivesse se posicionado politicamente contra o Bolsonaro faz tempo.

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    Welberson Bastantão

    Estou totalmente de acordo com você. Hoje em dia, ter bom sendo virou coisa de “isentão”. Ningém tem culpa ou razão a priori, são situações particulares nas quais quem está mentindo tem um arsenal de clichês e exemplos prontos. Na minha memória, o caso que abriu essa porteira de prejulgamentos foi o do Mike Tyson. Os Democratas defendiam a mulher a priori, os Conservadores não tinham simpatia por um negro de sucesso.
    Ela subiu para o quarto de hotel dele, o sexo foi protegido (por sugestão dela, que pediu que ele usasse preservativo). Não é sobre ter o direito de mudar de ideia no meio do caminho, é por ter informações prévias e bom senso. Ninguém pode estuprar você ou um adolescente de doze anos, certo? Mas a moça flertou e subiu pro quarto de hotel de um cara sabidamente agressivo, mas famoso e rico. Os pais de garotos deixavam dormir no quarto do Michael Jackson, a sós com ele. Eu tenho direito de andar com jóias e uma BMW em um favela, mas não sou idiota de fazer isso. Esse feminismo contemporâneo, que acha que o mundo é um parque de diversões para garotas de classe média, vai levar ferro do pessoal das Teocracias islâmicas, como já acontece na Suécia.

    • As pessoas parecem não querer liberdade de escolha, e sim liberdade da escolha. Engraçado como esquerda e direita estão cada vez mais autoritárias, trocando liberdade por segurança. Seja segurança de não ser responsabilizado pelas suas ações, seja segurança de não lidar com o que acha difícil de aceitar. Eu quero ter agência sobre a minha vida, e isso que é chamado de ser isentão hoje em dia…

  • Quando elas falam que todo homem é estuprador, inclui homens negros? Homens LGBT? Homens muçulmanos? Tomara que esses grupos comecem a se devorar por causa disso em breve.
    Tá, Neymar é famoso e tem a mídia sempre fungando no seu cangote, mas todo esse circo com esse caso do suposto estupro parece que também é pra abafar o caso da mulher que mutilou e matou o filho pequeno, com a ajuda da companheira, pra se vingar do ex marido.

    • Como falamos há umas duas semanas atrás durante a polêmica das manifestações pró-Bolsonaro, gente que se une por concordância e não por coordenação inevitavelmente acaba se devorando. Um inimigo comum ajuda a começar um movimento, mas não o sustenta. O discurso de toxicidade masculina afina quando o homem em questão faz parte de classe protegida, o que é insustentável no longo prazo… o homem branco cristão gerou uma atração imediata entre grupos adversários, mas é na hora de morar junto que se descobre a viabilidade da relação. Mundo palhaço, aí vamos nós.

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