Oito minutos.

14 de Dezembro – 2026

Oito minutos, esse foi o tempo que demorou para perceber. Muita gente estava tão ocupada nos afazeres dentro de suas casas e escritórios que só se deparou com o fato quando o frio se tornou insuportável. Os que estavam do outro lado do planeta dormiram tranquilos uma última vez, acordando apenas para descobrir que o Sol não estava mais lá.

Na TV, disseram que oito minutos é o tempo que a luz da nossa estrela demora para chegar até aqui. Eu tenho inveja de quem pode sentir o calor por esses últimos minutos, por mais que os aquecedores trabalhem sem parar, eu sinto que é como se o nosso corpo soubesse da falta do Sol e se lamentasse sofrendo ainda mais com o frio. O frio daqueles dias foi tão terrível.

Naquela semana, descobrimos como nosso planeta é resistente. Eu achava que se o Sol simplesmente desaparecesse, morreríamos na hora. Que tudo congelaria no mesmo minuto ou que fôssemos bater com algum outro planeta, já que não havia mais alguém para controlar as órbitas. Por sorte, a Terra ainda tem muito calor para dar, mas ele está enterrado bem fundo. E para o fundo nós fomos. A comunicação nos dias de hoje é bem complicada, muito mais difícil transmitir informações por quilômetros de rochas do que pelo ar, por isso eu não tenho como te dizer exatamente quantos de nós escapamos, mas estimam que não somos mais do que cem mil vivos atualmente.

Os abrigos nos quais vivemos foram pensados para uma guerra nuclear, ninguém estava especialmente preocupado com temperaturas tão baixas quanto as que temos lá fora. A maioria dos corredores está sem aquecimento, ir de uma instalação até a outra é sentença de morte sem roupas muito pesadas. Na superfície, nada sobreviveu. Aqui embaixo, cada dia menos. Idosos e crianças sofrem mais. Lentamente estamos cavando mais fundo, buscando o calor do centro do planeta, mas sem a estrutura que permitiu obras gigantes como esta instalação, avançamos centímetros por dia. A comida é cada vez pior, também. A maior parte da nossa energia está apontada para pequenas plantações hidropônicas, mas elas estão longe de sustentar todos nós. Vivemos à base de comida enlatada e uma pasta de proteína que eu tenho certeza que vem de insetos.

O espaço é um lugar muito grande. Muito grande mesmo. A Terra está vagando perdida pelo espaço há dois anos e ainda não bateu em nada. Eu considero um milagre, mas um astrônomo do setor 7 me disse que é provável que não encontremos mais nada por bilhões de anos. Nossa gravidade é fraca, estamos levando conosco apenas a Lua e alguns asteroides. Mas segundo ele, é só questão de tempo para todos seguirem seus próprios caminhos. Seja como for, estamos lutando para sobreviver. Nós e nosso planeta perdidos na imensidão sideral.

Não, ninguém deu uma boa explicação ainda para o que aconteceu. Parece que estavam errados sobre o funcionamento das estrelas e elas podem implodir sem nenhum aviso. Mas sem poder sair daqui e olhar para o céu, qualquer palpite serve. Entre nós que somos menos conhecedores da ciência, a hipótese de julgamento divino é a mais aceita. O que não é de todo ruim, eu não esperava que as pessoas agissem de forma tão boa diante de um desastre desses… deve ser o medo de outra punição. Ou sou eu ficando mal-humorado com o frio de novo.

Bom, essa é a minha carta para o futuro. Confesso que não estou muito otimista sobre alguém ler isso daqui a duzentos anos, mas é importante participar para manter os ânimos.

Josimar da Silva

Data desconhecida

Terrestres, é com pesar que eu digo que no dia 14 de Abril de 2024 da sua era, uma nave de serviços da Marinha Arhazi completou o protocolo de economia de matéria local na estrela que a vocês chamavam de Sol, apesar de inúmeros protestos realizados por arhazis como eu. As nossas autoridades ignoraram várias evidências de vida no sistema e desligaram o processo de fusão estelar para uso posterior da matéria acumulada pelo astro.

O processo causou a extinção de aproximadamente 99% da vida no planeta Terra e 45% da vida no satélite Europa do planeta Júpiter. O planeta Terra tornou-se um planeta interestelar e passou algumas centenas de anos vagando pelo espaço. Nossos cientistas conseguiram encontrar o seu planeta depois de um grande esforço coletivo de arhazis (não sabemos por qual nome vocês vão nos chamar, essas são aproximações baseadas nos fonemas das suas línguas), e o que encontramos foi terrível. Uma civilização subterrânea, doente, deformada, supersticiosa e canibal, nem sombra do que foram antes da nossa intervenção.

Depois de muita pressão, as nossas autoridades aceitaram designar um novo planeta para a humanidade e as poucas espécies que sobreviveram com vocês. O processo será realizado num sistema com uma estrela compatível, num planeta rochoso capaz de manter atmosfera. A estimativa é que em algo em torno de 2.500 dos seus anos, consigamos desenvolver condições parecidas com as do planeta Terra original. Recolocaremos os humanos através de clonagem dos espécimes encontrados congelados na superfície, já que os sobreviventes já apresentavam uma taxa inaceitável de mutações causadas por procriação com parentes próximos.

Os humanos encontrados no planeta Terra original foram abastecidos com alimentos e tecnologia suficiente para uma tentativa de recuperação. Os que desejavam vir até Arhazi receberam asilo, mas infelizmente o baixo desenvolvimento intelectual da espécie no momento manteve mais de 99% deles no seu planeta natal por um misto de desconfiança e superstição. Compreensível, mas desalentador. Estimamos que o calor do centro do planeta Terra original permita a existência da civilização por mais duzentos milhões de anos. Desejamos toda a sorte para eles, neste momento em que escrevo, as nossas últimas naves já deixaram o planeta.

Uma das condições para o governo arhazi montar essa operação de criação de um novo planeta Terra (é provável que vocês deem um nome diferente) foi a manutenção do segredo sobre o acontecido. Argumentaram que dado tempo suficiente, uma nova civilização poderia querer buscar vingança pelos seus antepassados, e considerando que pelos nossos estudos a humanidade evoluiu numa velocidade muito mais rápida que a maioria das outras espécies inteligentes conhecidas, eles consideraram apenas questão de tempo antes de termos uma guerra em nossas mãos.

Mas eu não faço parte deste plano nefasto de acobertamento. Eu passei anos (engraçado como eu estou usando uma medida de tempo que nem nós agora nem vocês no futuro vão entender) estudando a cultura humana e aprendendo a escrever numa de suas línguas. A montanha onde vocês vão encontrar essa carta está numa área geologicamente segura, e pela concentração de ouro em suas entranhas, é quase certeza que vocês vão acabar achando este material. Vocês têm direito de saber. O primeiro texto é um relato de um de seus antepassados que encontrei junto com milhares de outros. Cada pessoa escolheu falar sobre alguma coisa que gostava, que entendia, uma espécie de arca do conhecimento acumulado humano na antiga Terra. Os arquivos estão em formato digital num pequeno pedaço de plástico que eu acredito que se vocês não souberem como ver ainda, logo vão saber.

E o desenho que está junto com essas cartas é o de como encontrar Arhaz e a última localização conhecida do antigo planeta Terra, além da sua trajetória. Nada do que eu disser vai servir como desculpa para o que fizermos, mas fica aqui meu pedido sincero: perdão. A maioria de nós não sabia o mal que fizemos para vocês, a maioria de nós não tolerou o que aconteceu e defendeu essa nova chance que vocês têm.

Espero que dessa vez vocês façam tudo ainda melhor.

Uhai OlipHan-Do

Para dizer que uma premissa maluca nunca é o suficiente, para dizer que está em dúvida sobre qual Terra está, ou mesmo para dizer que começa a desconfiar que esses contos estão conectados: somir@desfavor.com

Se você encontrou algum erro na postagem, selecione o pedaço e digite Ctrl+Enter para nos avisar.

Desfavores relacionados:

Etiquetas:

Comentários (4)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Relatório de erros de ortografia

O texto a seguir será enviado para nossos editores: