Responsabilidade afetiva.

Boa parte da vida é baseada nas relações que formamos com outras pessoas. Nisso Sally e Somir concordam, mas quando é colocada uma responsabilidade nos afetos, os gostos não batem mais. Os impopulares assumem suas opiniões.

Tema de hoje: existe responsabilidade afetiva?

SOMIR

Não. E que fique claro aqui que estamos falando de adultos em relacionamentos. Se estivéssemos falando de pais e filhos daria para considerar isso de forma diferente, mas não estamos. E antes que isso fique confuso demais, vamos tentar definir melhor o que seria essa tal de responsabilidade afetiva: a ideia de que você é responsável pelo impacto que causa em outra pessoa que sente um afeto por você. E como consequência disso, pode ser considerado egoísta ou negligente caso essa outra pessoa tenha uma visão falsa ou negativa sobre você.

Em tese parece uma coisa nobre, não? Pensar no outro, se importar com as mensagens que passa e tentar ser uma influência positiva no mundo. O problema é que parte de uma presunção errônea: a de que você tem controle sobre o que está na cabeça do outro. Mal temos controle sobre o que está na nossa. Vivemos percebendo coisas da forma errada e uma parte considerável das nossas ações são resultado de forças inconscientes. O grau de controle real que temos sobre nossas relações com outras pessoas é irrisório.

Que jogue a primeira pedra quem nunca entendeu errado as intenções de outra pessoa ou que teve as suas incompreendidas. Você queria mais proximidade, mas a pessoa entendeu que era para se afastar; alguém te confessa te estava te dando mole e você nunca notou (história da minha vida…), descontou sua raiva em alguém que não tinha nada a ver, estava carente e se aproximou de quem não queria… é muito comum que exista ruído na comunicação de afetos humanos. Não só somos criaturas complicadas até para nós mesmos como é incomum sermos criados para prestar atenção no outro. Podemos melhorar? Sempre. Mas antes de correr para o mundo ideal, precisamos conhecer bem o real.

E é no mundo real que temos que analisar bem o que significa ser responsável por algo: uma criança é responsável por lembrar de colocar o cinto de segurança se o adulto esquece de conferir? Não, ela não tem a capacidade de ser responsabilizada por algo do tipo. Falta desenvolvimento e experiência para que ela receba esse ônus. Num outro exemplo: se você coloca um estagiário para gerenciar uma empresa, é culpa dele ou sua se a empresa falir? Presume-se que uma pessoa precisa ser capacitada numa área para poder ser responsabilizada por suas decisões. E sabemos muito bem disso.

Você pode assumir a responsabilidade pela quantidade de chuva que vai cair numa plantação? Pode afirmar com certeza que números vão sair na Mega Sena? Responsabilidade presume capacidade e previsibilidade. Você tem que ser capaz de agir naquela situação E gerar um resultado previsível. Nenhum jogador é demitido do time porque vence poucos caras-ou-coroas antes do jogo… não existe responsabilidade pelo o que não se controla.

E por mais que adoremos nos enganar que é possível ter controle sobre o mundo e suas pessoas, a verdade é que no máximo temos alguma influência. Sim, você influencia os afetos de outras pessoas com suas ações e palavras, mas daí a dizer que seu poder é grande o suficiente para transformar isso numa responsabilidade? Cada pessoa reage de um jeito, você pode querer dar esperanças para uma pessoa e essa pessoa não dar bola, você pode querer ser honesto sobre não querer nada e o outro estar em negação na hora. São muitas variáveis fora de você.

Vai se responsabilizar por uma pessoa que escolhe ignorar os sinais que recebe? Por uma que te idealiza e se frustra com a realidade? Que te trata mal achando que está tratando bem? Tudo isso existe. Não só você pode estar deixando de notar o sentimento do outro, como o outro pode estar criando uma realidade alternativa dentro da cabeça sobre a qual você não tem controle. A quantidade de coisas que uma pessoa média consegue controlar na vida é tão pequena e demanda tanto trabalho que não vale a pena gastar sua energia com o resto.

Se somos todos adultos, se se presume que adultos são capazes de compreender o mundo ao seu redor e tomar as melhores decisões para suas vidas, então não faz sentido dar essa brecha para a culpa na sua. Sim, causamos ondas de choque nas vidas de todos que estão ao nosso redor, mas eles também causam na nossa. Todo mundo tem o seu para cuidar. Percebam que eu não estou advogando o completo desinteresse no outro, muitas vezes faz bem se preocupar com o bem estar do outro e se esforçar por isso, mas existe uma distinção muito séria aqui entre o que é direito e o que é privilégio.

Ninguém tem direito de receber afeto. Nenhuma declaração de direitos coloca isso explicitamente, por mais que afeto seja um desejo universal, depende exclusivamente da vontade de alguém fazer isso. Afeto é um recurso limitado pelo número de pares possíveis entre a população humana, afinal, sempre tem que vir de uma outra pessoa. Não se preenche as necessidades afetivas de uma pessoa sem ocupar a disponibilidade de outra. Ninguém tem o direito de ser querido, atraente ou amado. E isso é uma limitação inerente à condição humana.

Como você pode ser responsável por algo assim? Tente ser uma boa pessoa e conviver bem com os que te cercam, mas não se prenda por uma culpa irracional baseada em responsabilidade afetiva. As pessoas têm que saber lidar com o que sentem e entender aonde estão se enfiando numa relação. É difícil para os mais inexperientes, mas essa frase pode ser usada em todos os lugares. É sempre mais difícil fazer algo que você não sabe ou nunca viu outra pessoa fazendo, mas esse sofrimento tem função. Se você é frio, passional, complacente, manipulativo ou inconsistente, a outra pessoa tem que aprender a lidar com isso, porque com certeza você não é a única pessoa assim no mundo. Ela tem escolha e você tem escolha, eventualmente as pessoas chegam à essa conclusão. Infelizmente corações são partidos no meio do caminho, mas enquanto o ser humano for humano, faz parte do processo.

Cada um faz o que pode. Não se prender por uma responsabilidade que não é sua não é egoísmo, é realidade. Somos todos imperfeitos e confusos, e estamos num estado de mudança perpétuo. Não é ambiente para responsabilidade, e sim para empatia. Perceba o outro e permita que o outro aprenda a perceber também. Queria poder ajudar todo mundo, mas cada um está na sua jornada pessoal. Não é problema seu.

Para me chamar de egoísta, para dizer que vai torcer para o texto da Sally explicar isso melhor, ou mesmo para dizer que vai concordar comigo pelos motivos errados: somir@desfavor.com

SALLY

Responsabilidade afetiva existe?

Sim, acho imbecil fazer essa distinção e chamar por esse nome, está tudo dentro de um grande pacote chamado “ética”, mas é claro que existe. Significa tratar os outros com respeito, simples assim. É o mínimo que podemos fazer para uma convivência civilizada e para ter o direito de exigir respeito de volta.

Quando se fala em “responsabilidade afetiva” soa errado, fica parecendo que você tem que fazer de tudo para que o outro não sofra, que tem que guiar a sua vida e suas escolhas preocupado com o outro. Não por aí meu argumento, para mim, o buraco é beeeem mais embaixo.

Não é como se alguém possa ser “responsável” pelo sofrimento alheio, isso não existe. Cada qual é responsável pelo seu emocional. Se você chora e paga pau para uma pessoa merda, está em você e só em você a responsabilidade e a possibilidade de solucionar o problema. Não é querer que se trate todo mundo como um bibelô e nunca se faça nada para chatear o outro.

Estou falando sobre agir uma ética no dia a dia, uma coisa que nem precisaria ser pedida ou defendida. Ninguém é obrigado a seguir o modelo X ou Y de se relacionar, muito menos a agradar a Fulano ou a Sicrano, o único compromisso que se pede é a verdade. Seja verdadeiro sobre as suas intenções, não brinque com os outros, não engane, não manipule, não falte com a verdade para conseguir benefícios para si mesmo.

Sinceramente, acho que você deve isso inclusive a você mesmo: estar na verdade, viver na verdade, falar a verdade. Obviamente, existem muitas formas lidar com isso, não precisa sair tocando o sincericídio e dizendo “Sally me mandou ficar na verdade, então, quero dizer que não quero sair com você porque você é muito feia”. Ser verdadeiro não é sobre palavras, é sobre atos.

Cultivar uma esperança na pessoa só para ter um Plano B ou ter alguém sempre por perto afagando seu ego é falta de ética. Você pode dizer que fica nessa situação quem quer, e eu concordo totalmente, a pessoa que se sujeita a isso está realmente com muitos problemas de autoestima, mas tirar proveito desses problemas é escroto sim. Você não é responsável pela pessoa ser fodida de cabeça, mas tem responsabilidade se explorar essa fodeção.

O mínimo que se espera de uma pessoa decente é que você se comporte com os outros da forma que gostaria que se portassem com você ou com seus entes queridos. Fazer com os outros algo que você tacaria pedras em redes sociais se visse um terceiro fazendo é escroto e canalha. E, não se engane, quem faz isso não é esperto ou está passando a perna em ninguém, uma pessoa assim está, em última instância, traindo a si mesma, fazendo mal a si mesma, mentindo para si mesma.

Responsabilidade afetiva nada mais é do que a ética nos relacionamentos, e ética a gente tem que ter em tudo na vida, não pensando na sociedade ou por medo e sim por nós mesmos. Ser uma pessoa íntegra, ser uma pessoa alinhada com o que sente, pensa e faz, é o pilar de sustentação da sanidade mental e emocional.

Não é um favor para os outros, até porque ninguém te deve nada e você não deve nada a ninguém, é o único caminho para uma mente sã: não estar em conflito com você mesmo, não fazer coisas que causem culpa (ainda que inconsciente), não trazer lixo para dentro da sua vida. Percebam que não estou tratando a ética nos relacionamentos e em todas as áreas da vida como uma obrigação moral e sim como uma forma de não agredir a você mesmo.

Também não acho que seja uma obrigação. Cada qual vive como quer. A pergunte é se EXISTE. Sim, existe. Cabe a você seguir ou não, mas isso não afeta sua existência. Seria bom para você se portar de uma forma decente, da forma que você gostaria que se portem com você.

Sim, você se deve uma postura coerente, uma posição verdadeira, íntegra. Não estar na verdade gera um ataque contra você mesmo. Cada vez que mentimos ou fazemos algo que, no fundo, sabemos não ser legal, atacamos a nós mesmos, pois liberamos hormônios de estresse no nosso corpo, que, em larga escala, podem representar um veneno para nossa saúde física e mental.

Há quem explique isso pela religião (karma, pecado, etc), há quem explique pela física quântica (todos somos uma grande unidade separada apenas por percepções de dimensões diferentes), há quem explique isso por simples bom-senso (quanto mais pessoas você sacaneia, mais portas você fecha e maiores as chances de um dia isso se voltar contra você). Qualquer que seja a explicação, por razões de coerência não é legal sacanear ninguém afetivamente.

Ninguém aqui é idiota, todo mundo é perfeitamente capaz de perceber quando está em uma posição de vantagem, interagindo com uma pessoa fragilizada. Tirar proveito desta situação é simplesmente babaca. Seja na esfera emocional ou em qualquer outra. Não é esperto nem malandro, é babaca mesmo.

Assim como o patrão que escrotiza e explora o funcionário ciente de que este precisa muito do emprego para não ficar na merda, o mesmo vale para quem escrotiza um namorado ou ficante ciente de que a pessoa precisa muito do relacionamento. É simplesmente covardia, não se faz.

O compromisso é com a verdade, em qualquer área da sua vida, sendo a afetiva apenas mais uma. Não precisa ser bonito, não precisa ser nobre, não precisa ser adequada, basta ser a verdade. Talvez isso não evite o sofrimento do outro, tem gente que é viciada em sofrimento e não importa o que você faça sempre vai sofrer, não está mais em você. Fazer a sua parte nem sempre evita o sofrimento dos outros, mas certamente evita o seu.

Para soltar baboseiras como “bonzinho só se fode”, para dizer que concorda com ambos ou ainda para dizer que tem responsabilidade aflitiva: sally@desfavor.com

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Comentários (2)

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    Geraldo Renato da Silva

    Concordo plenamente. Não se pode ser responsável por tudo o que se causa em outrem, mas vivemos num mundo de pessoas fragilizadas que não estão preparadas para as frustrações e decepções da vida. Ilustro isso com o que aconteceu com um colega de trabalho. Ele foi casado durante seis anos e vivia brigando com sua esposa. Quando ameaçava ir embora, ela implorava para que ficasse. Ele ficava com pena e aceitava. Foi indo assim até ele descobrir que ela tinha um amante. Aí se separaram mesmo. Ela vive numa boa e ele perdeu seis anos da vida dele.

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