Amazon Prime Video

Não dá nem para chamar de primo pobre da Netflix, o serviço de streaming da Amazon é menos conhecido – principalmente aqui no Brasil – mas dispõe de recursos praticamente ilimitados de uma das gigantes da internet. O Prime Video funciona basicamente da mesma forma que seu concorrente mais famoso, inclusive na estratégia de criar conteúdo próprio. Mas será que vale a mensalidade?

Bom, como não estão me pagando por este texto, vou ser bem honesto: pra mim vale fácil, mas entendo quem achar o conteúdo sem graça, porque ainda é voltado para um público mais… com a minha cara. Como vocês vão ver nas análises a seguir, o catálogo deles está se tornando um paraíso para nerds. E eu sei que não vai durar, porque nunca dura nos dias atuais, mas ainda parecem imunes à lacração. Vamos falar de algumas das séries então?

The Grand Tour

Se você gosta de carros e humor inglês, dificilmente fica melhor do que isso. The Grand Tour é o renascimento do espetacular Top Gear da BBC inglesa, um programa sobre carros que durou 23 temporadas e virou clássico cult na área. Comandado pelo trio Jeremy Clarkson, Richard Hammond e James May, o programa fazia análises de carros ridiculamente caros, fazia reportagens e desafios/rallys ao redor do mundo, e principalmente, tirava sarro de todo mundo sem dó nem pena.

Mas os tempos mudaram. Jeremy, o líder do time, fez uma piada que irritou os lacradores (ele não perdoa ninguém) e acabou demitido da BBC. Seus companheiros de show se demitiram em solidariedade imediatamente. Foi aí que a Amazon conseguiu dar sua primeira bola dentro: contratou o trio, deu orçamento basicamente infinito para eles e os usou para fazer a divulgação do seu serviço de streaming que ainda estava engatinhando.

TGT é idêntico ao antigo Top Gear, mas com alguns milhões a mais de orçamento. Sei que é difícil comparar porque a maioria das pessoas não veem programas sobre carros, mas é disparado o melhor que existe. Muito bom de ver também se você não sabe nada ou não se importa muito com carros: quando eles focam mais no tema, normalmente fazem com humor e ideias malucas, mas o grande lance deles são os desafios: insanidades como atravessar a floresta amazônica em carros esportivos dos anos 80, fazer um rally no deserto com carros populares… onde tudo dá errado, eles quase se matam e passam 90% do tempo tentando trollar uns aos outros.

Tem que ver para entender. A química do trio está refinada por quase 3 décadas, cada um tem uma personalidade distinta e todos adoram aprontar uns com os outros. É humor inglês mais sarcástico, mas eles nunca estão acima de desenhar um pinto na lataria do carro do outro e deixar rodar no meio da Arábia Saudita, por exemplo. É quase uma série de humor com carros. É uma fórmula de muito sucesso, mas é uma fórmula: se gostar de um vai gostar de todos, se achar ruim, vai ser mais do mesmo.

Você pode começar procurando alguns episódios do Top Gear (o antigo) no YouTube. É fácil de achar.

American Gods e Good Omens

Tem dois tipos de pessoas nesse mundo, as que sabem quem é Neil Gaiman e as que não sabem o que estão perdendo. O autor ficou famoso pelas suas obras nos quadrinhos como Sandman e os Livros de Mágica (que dizem as más línguas foi o que inspirou a série Harry Potter), e hoje em dia é uma máquina de produzir conteúdo, escrevendo livros e roteiros para séries. O estilo dele pode ser considerado mais místico, falando sobre entidades mágicas, religião e ocultismo em geral. Mas tudo com senso de humor e até uma boa dose de doçura, quebrando expectativas. Eu achei que Sandman seria uma ode ao adolescente gótico, mas tive uma excelente surpresa com o conteúdo das histórias: ele trata temas sérios sem se levar a sério. Óbvio que os temas geram algumas passagens mais sombrias, mas nunca é exagerado.

Pois bem, a Amazon agarrou Neil e o sufocou com dinheiro para fazer o que bem entendesse (estamos notando um padrão?). A primeira série que liberaram foi American Gods, baseada num livro dele sobre deuses antigos que ainda vivem entre nós no mundo. É uma série de muitas reviravoltas, eu corro risco de dar spoiler só de começar a dar nomes para as personagens… American Gods começa com um homem acabando de sair da cadeia e descobrindo que sua esposa morreu num acidente de carro junto com seu melhor amigo na noite anterior. Único spoiler que vou dar aqui: a posição da cabeça dela na hora do acidente sugere o que estava acontecendo na hora…

O clima é pesado, cruel às vezes. O humor é mais contido, mas ainda está lá. Gaiman é especialista em trabalhar com mitologia desmistificando o conteúdo, e todo a parte sobrenatural da série vai se desenrolando naturalmente com a história, naquela pegada de “sempre esteve aqui, você que não via”. A história é complexa, como é de costume com esse autor, mas você tem tempo de ir se aclimatando. A qualidade técnica é absurda, parece um filme de alto padrão de Hollywood o tempo todo. É meio Game of Thrones no sentido de não ter medo de mostrar nudez e violência, e eu argumento que vai até num nível mais hardcore na maior parte das vezes. Tem duas temporadas e tem tudo para continuar.

Já Good Omens é uma minissérie também baseada num livro de Gaiman, mas o clima é completamente diferente. Nessa ainda falamos de temas esotéricos, mas numa pegada muito mais descontraída. É complicado explicar: tem um quê de Guia do Mochileiro das Galáxias misturado com Stranger Things, mas fala sobre anjos e demônios diante do fim do mundo que se aproxima. Eu vi numa pancada só no final de semana, e achei fenomenal. A série pode ser considerada um misto de humor e aventura, com uma personagem mais divertida que a outra e a pitada ideal de nonsense que te faz esperar qualquer maluquice a qualquer momento, mas sem perder o roteiro. Os dois atores principais são excelentes.

Preacher e The Boys

Não bastava o Neil Gaiman, foram buscar os outros melhores roteiristas dos quadrinhos atuais. Preacher é a obra de Garth Ennis, sobre um ex-pastor que ganha o poder de fazer todos o obedecerem depois de ser possuído por uma entidade fugitiva do Céu. A série é originalmente da AMC, o que explica um alto nível de qualidade, mas não a insanidade que é a produção de American Gods, por exemplo. Nada que o cidadão médio vá notar. A série é uma divertida crítica à religião e a cultura nos dias atuais, blasfemando contra tudo e contra todos. Eu não terminei de ver todos os episódios ainda (queria ter mais uns 3 dias na semana só para poder ver as séries que quero), mas já estou gostando. Sally é fã e provavelmente pode complementar para quem quiser uma indicação mais caprichada. Eu li os quadrinhos por mais tempo que acompanhei a série, e já sei que a história é muito boa, mas não tenho certeza o quanto eles se desviaram da fonte original.

Já The Boys vai ser a análise mais sem noção aqui, porque nem estreou! Vai ser lançada no final de julho, e também é criação de Garth. Eu li os quadrinhos e é fenomenal: a história de um mundo onde os super-heróis existem, mas são… realistas. Basicamente um bando de psicopatas invencíveis que estão mais preocupados com publicidade e hedonismo do que com combater o crime. Para isso, é criada uma força especial de humanos e superpoderosos rebeldes para servir como polícia contra eles. Tudo às escondidas, para evitar que o povão descubra quão filhos-da-puta são seus ídolos e evitar pânico generalizado. Pelo trailer, parece que vão fazer algo no nível de qualidade do American Gods. E falando nisso, se seguirem os quadrinhos, vai ser pesadíssima também nos quesitos sexo e violência. Quem gostou de Preacher deve gostar também.

Outras

Não dá para falar do catálogo inteiro da Amazon, senão não termino nunca o texto. Então, algumas menções honrosas:

The Man in the High Castle: a primeira série grande da Amazon, já está na quarta temporada. Em resumo, é uma história passada nos EUA depois dos nazistas terem ganhado a Segunda Guerra Mundial. Alemães e japoneses tomaram conta do território americano e dividem o país em dois: o lado do Atlântico é alemão, o Pacífico é japonês. A história, por incrível que pareça, começa meio devagar, mas vale a pena pela caracterização espetacular das cidades tomadas pelo Eixo. É um tema que a Netflix, por exemplo, jamais teria coragem de fazer. Muito bem feita, mas demora para “pegar” mesmo.

The Expanse: eu sou suspeito, séries de ficção científica são minha pinga. A série conta a história da humanidade daqui a alguns séculos, quando colonizamos Marte e o cinturão de asteroides. Marte consegue se tornar independente da Terra e os planetas vivem numa espécie de Guerra Fria desde então. O povo que vive no cinturão é controlado pelos dois planetas, mas também quer se tornar independente. Ficção científica de alta qualidade, com a maior quantidade de realismo possível (sem estragar a história) e um roteiro mais ou menos simples, mas muito bem executado. A série havia sido cancelada na emissora original, mas a Amazon comprou e está lançando mais uma temporada. Deve subir de nível em produção, eu estou otimista. Se você gosta desse tipo de série, eu te garanto que é a melhor coisa que lançaram desde Battlestar Galactica.

Séries famosas que sumiram da Netflix ou você nunca viu por lá estão aqui: The Office, Supernatural, Justified, Mr. Robot, 30 Rock, Two and a Half Men, Psych e várias outras. Tem muitos filmes também, e a Amazon já fez alguns e ainda pretende produzir vários outros. Eles tem bilhões para torrar nisso, e por enquanto ainda não precisam ficar fazendo pose de lacradores que nem a Netflix. Aproveite enquanto pode.

E ainda tem mais um monte de originais que eu nem consegui começar a ver. Hoje em dia, o primeiro mês é grátis (se você tiver um cartão de crédito), e depois fica por menos de 20 reais por mês. Pega o mês grátis, vê o que quiser e cancela se for o caso. Vale a pena de graça, pelo menos.

Para dizer que eu sou um vendido, para dizer que não precisa de mais séries na sua vida, ou mesmo para dizer que só pelo The Office vale: somir@desfavor.com

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Comentários (7)

  • Estou seriamente tentado a trocar a Netflix pela Amazon. Cada vez menos filmes e séries de qualidade, sendo substituídos por conteúdo lacrador, e inúmeras atrações inacabadas. Se é pra apelar pra site pirata pra ver ou rever filmes de qualidade, sinceramente, não sei por que estou pagando uma assinatura de streaming.

    Creio também que a Netflix vai ter que se reinventar pra evitar uma sangria de assinantes quando for lançado o Disney+

  • “E eu sei que não vai durar, porque nunca dura nos dias atuais, mas ainda parecem imunes à lacração.”
    Parece que todo entretenimento ocidental hoje em dia tem objetivos de engenharia social (google “janela de overton”), é cansativo ver sempre as mesmas narrativas enjoativas que só representam uma minoria de mulheres e jovens das classes méďias ocidentais, por isso ultimamente tenho visto mais coisas asiáticas, como filmes e webtoons. Se eu tivesse tempo faria um desfavor convidado com resenhas (ao menos dos que estão disponíveis em inglês, rs), é um mundo imenso e não se limita apenas à tríade Japão-Coreia-China, com o plus de que eles não estão tendo a criatividade castrada pelo politicamente correto.
    Pra ter uma noção da quase autossuficiência do entretenimento da Ásia, na China, na última semana, um filme do Studio Ghibli deu um banho na bilheteria de Toy Story 4.

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