Azar o seu.

Continuamos a comemoração do dia de Murphy nesta semana com uma análise aprofundada sobre tudo de ruim que acontece com a gente. E se eu te dissesse que tudo acontece por um motivo, que existe uma razão fundamental para os infortúnios da vida e que existe alguém que pode te ajudar a viver uma vida menos problemática?

Só os mais novatos cairiam nessa, mas valia a pena tentar. Claro que não tem nada de místico aqui. Deus provavelmente não existe, mas é até compreensível que as pessoas tenham criado conceitos para lá de esotéricos para lidar com a opressora realidade caótica do universo. Do jeito que as coisas parecem ser se consideramos apenas o conhecimento científico atual, a realidade toda está em constante mudança na velocidade da luz. Das maiores às menores escalas, inúmeras forças interagem gerando uma infinidade de resultados possíveis para qualquer ação.

E quanto mais fomos aprendendo sobre a realidade, tornamos nosso conhecimento dessa incerteza cada vez mais preciso: o ser humano antigo não entendia grandes fenômenos climáticos, e continuamos considerando meteorologia uma ciência bem inexata. Depois disso, notamos que quanto mais complexas tornavam-se nossas mentes, mais imprevisíveis elas se tornavam. Quase toda nossa cultura é baseada na ideia de entender nossa própria mente, até hoje. E quando fomos buscar algum alento na estabilidade da matéria em suas escalas mais minúsculas, lá estava a física quântica para nos enlouquecer com seus princípios de incerteza. Não conseguimos prever direito quando vai chover, o que uma pessoa vai fazer, ou mesmo onde está um maldito de um elétron!

Evidente que estudo e experiência reduzem esse grau de incerteza sobre o mundo que está ao nosso redor, mas ele não pode ser eliminado. Em tese, só um computador do tamanho do universo teria uma chance de fazer uma previsão exata sobre o futuro. E mesmo assim, basta um quark rebelde para quebrar toda a lógica. E por mais que a ciência moderna tenha cunhado os termos técnicos sobre toda essa incerteza, sabemos disso há milênios. O mundo é caótico e não existe muito espaço disponível para zonas de conforto. De uma forma mais primitiva, todos os outros seres vivos sabem disso também: adaptação ao ambiente e alguma forma de reação aos estímulos externos são características básicas da vida. Só está vivo aquilo que de alguma forma tenta lidar com o caos da natureza.

Só que seres humanos vão além: a capacidade apurada de pensamento abstrato permite que façamos mais do que nos adaptar. O misticismo necessário para a criação de religiões é uma resposta direta da mente humana para essa sensação de impotência diante da imensa complexidade do universo. Se não podemos ter o controle, criamos quem tenha. A ideia de alguma ordem imutável na existência ajuda a nos acalmar e mais do que isso, nos permite pensar no futuro. Precisamos de alguma estabilidade para acreditarmos que vale a pena fazer planos.

Ok, isso provavelmente explica as religiões. Mas… explica mais uma coisa: os conceitos de sorte e azar. A criação de padrões onde eles não existem. Já falei várias vezes disso aqui, mas só para reforçar: o ser humano usa o reconhecimento de padrões como base da sua inteligência. Nós e qualquer outro animal capaz de armazenar informações na memória, seja no cérebro ou na própria configuração do corpo, através de instintos e mudanças evolutivas. Um cachorro reconhece o padrão de realizar um truque e receber um biscoito e guarda isso na memória. Bactérias vão evoluindo pelo padrão das ameaças ao seu redor, e mesmo que não guardem a informação em nenhum lugar de memória, lembram-se do padrão justamente por serem o grupo sobrevivente e continuarem se reproduzindo. A informação do cachorro fica no cérebro dele, a informação da bactéria é a própria existência dela.

Mas, voltando ao ponto: criamos padrões. Tentamos prever o futuro tal qual o cachorro esperando o biscoito depois de rolar. E ao fazer essas previsões criamos novos padrões para testar contra a realidade. Se você consegue o que quer, coloca na conta da sorte. Se não consegue, foi azar. E com tanta terra fértil na nossa mente, sobra espaço para acreditar que existe alguma forma de padrão externo gerenciando nossa medida de sucessos e fracassos. Não há. Esse padrão é interno, propriedade do cérebro humano. Para a realidade em geral, você conseguir ou não aquela promoção não tem peso maior do que o spin de um quark. Só é importante para quem escolhe tornar aquilo importante.

Tudo isso para dizer que superstição é bobagem?

Sim.

Mas podemos ir além. Com a informação bem estabelecida, podemos começar a notar como nossos cérebros tendem a nos colocar nessa armadilha mesmo que saibamos que sorte e azar são bobagens. Reconhecer o problema não significa estar livre dele, muitas vezes é a pior parte, pois lida com duas frustrações, a de saber que deveria fazer diferente e a de fazer as coisas da forma errada. Por isso que eu quero realmente explicar de onde vem essa ideia de azar e a supervalorização do fracasso. E está tudo relacionado com probabilidades. Sim, nada como uma promessa de conceitos matemáticos para salvar um texto denso desses…

Probabilidade é o estudo das chances de ocorrência de um resultado. Não está no escopo do tema de hoje se aprofundar na teoria matemática, mas dá para falar disso só com exemplos simples. Imagine um dado de seis faces. O número de variáveis de um dado rolando é grande demais para ser previsto com consistência, até por isso vivemos usando-os para gerar aleatoriedade.

A chance de você escolher um número e ele sair depois de rolar é de uma em seis. Quase todo mundo com um mínimo de estudo é capaz de conceber essa possibilidade, mas pouca gente fala sobre as implicações disso: a partir do momento que você escolhe um número, você gera uma chance em seis de acertar… e cinco em seis de errar. O simples ato de tentar prever o resultado te coloca num caminho de aproximadamente 83,5% de fracasso.

Não existem sorte ou azar envolvidos. Existe sim uma probabilidade muito maior de errar. Você cria um padrão na sua mente e tenta confrontá-lo com a realidade de forma consideravelmente ruim para você. O que você espera que aconteça? Se por um acaso você escolhesse um número para não sair, a chance de 85,5% estaria ao seu favor. É tudo questão de perspectiva. Nós criamos sorte e azar por puro esporte, é uma construção da mente. Um apelido místico para a constatação da ocorrência de um fato.

E se você lendo este texto conseguiu escapar das garras do medo do caos, mesmo que por um momento, vai conseguir enxergar para onde estou indo. Você nunca deu azar na sua vida. Nem sorte. Tudo apenas obedeceu às probabilidades do momento, e de acordo com a sua escolha na hora de analisar o resultado, gostou ou não do que aconteceu. O problema é que temos uma atração incrível por chances pequenas: escolhemos um grupo muito pequeno de resultados desejáveis para qualquer coisa que fazemos e estamos sempre brigando com as probabilidades ladeira acima.

Se as regras do jogo de dados presumem escolher só um resultado, o jogo da vida é bem mais liberal: você pode escolher vários deles para serem os vencedores. Nossa ilusão de controle sobre a realidade que nos impele a tornar as probabilidades tão negativas. Claro que ninguém precisa ser demente ao ponto de considerar algo como uma doença ou uma rejeição algo positivo para fingir que está ganhando, mas entre os resultados claramente positivos e os negativos de qualquer uma das nossas ações nesse mundo, existe uma enorme zona cinza de possibilidades intermediárias que esquecemos de categorizar.

Se você queria uma promoção, fez cursos e deu duro para ficar melhor no seu trabalho, não existe apenas o resultado de conseguir ou fracassar, existem muitos estados intermediários onde você usa o conhecimento acumulado para conseguir a vaga em outra empresa, abrir a sua ou mesmo descobrir algo que gosta mais de fazer e tem potencial para desenvolver. A tendência é que fechemos a mente para esses outros resultados com potencial positivo e deixemos de notar oportunidades. Quando você faz algo diferente, vira um agente do caos: interfere na realidade de tal forma que abre uma linha totalmente nova de resultados possíveis. Fazemos isso o tempo todo, mas parece que pouca gente para e pensa nas implicações: estamos tão viciados na ideia de só ter um resultado positivo e um negativo possíveis que quase toda a complexidade do universo se perde ao nosso redor.

É muito disso que falamos aqui sobre o problema da dualidade na sociedade moderna. Isso realmente parece estar num processo de aceleração, talvez até porque estejamos cada vez mais mimados pela tecnologia, que nos protege demais das intempéries do mundo e impede que as pessoas aprendam a arte da adaptação, tão necessária para nossos antepassados. Parece papo de velho, mas eu finalmente começo a entender por que pessoas mais velhas sempre me diziam que “no meu tempo, a gente não tinha essas coisas” para me ensinar a ter mais paciência ou ser mais tolerante com os problemas: era uma vida menos afeita a escolher só um resultado desejado e mais focada em fazer o melhor com o que estava disponível. Não porque ninguém nascia melhor, mas porque as dificuldades da vida as guiavam nessa direção.

Que bom que a qualidade de vida média é melhor e estamos mimados assim, mas como de costume, como não era algo pensado de verdade, a capacidade de adaptação e percepção de vários resultados positivos a partir de uma situação acaba não sendo passada para a frente. Aprendemos que os mais antigos se viravam mais fácil com menos, mas ninguém soube nos explicar a base dessa ideia. Era só uma necessidade do tempo.

Posso estar falando a maior obviedade de todas aqui, apesar do texto denso, mas eu tenho a sensação que esse é um daqueles temas que parece ser evidente para todo mundo, mas ninguém pensa o porquê. O mundo é caótico, muita coisa pode acontecer, temos a tendência de tentar botar ordem nisso tudo inventando elementos místicos como religiões ou o próprio conceito de sorte e azar, mas no final das contas, as probabilidades não estão nem aí para isso. Ou você começa a viver para tirar o máximo delas, ou vai ficar achando que tudo está dando errado sem saber o motivo.

E provavelmente, tudo não passa de você ter escolhido só um dos números daquele dado que vai rolar…

Para dizer que foi a minha obra prima de falar nada num longo texto, para dizer que eu poderia ter vendido o templo de Zodraz aqui, ou mesmo para dizer que tudo acontece por infinitos motivos: somir@desfavor.com

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Comentários (7)

  • É…. você pode estar envelhecendo ….tendo flashbacks de conselhos antigos, mas tá escrevendo cada vez melhor, parabéns!
    PS: entendi, nunca mais jogo dados, dão azar…rs

  • É uma explicação interessante dizer que não se trata de sorte ou azar, mas sim de probabilidades em um momento certo ou errado. Só que, ao que parece, para a maioria das pessoas, a ideia de uma religião, superstição ou coisa que o valha parece ser mais confortável, então… Preferem acreditar em algo do tipo do que na probabilidade.

    • E pior, ao ignorar a probabilidade, perdem a chance de melhorar as suas. Quem não conhece o jogo tende a perder o jogo…

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